Volume I
Capítulo X: A Dança das Placas Antigas
O ligne ainda nem havia tocado os telhados da casa quando Dóryon despertou.
Os olhos pesavam, a mente permanecia turva e o peito continuava apertado pelo peso da noite anterior.
Mesmo assim, levantou-se. Arrumou-se em silêncio e desceu as escadas da mansão, evitando qualquer ruído desnecessário.
Ao encontrar Dolores no corredor principal, parou diante dela.
— Dolores… meu pai ainda está em casa? — perguntou, com a voz baixa, quase temendo a resposta.
A criada ergueu os olhos, gentil.
— Sim, jovem mestre. Ele ainda está tomando o café da manhã.
Dóryon desviou o olhar, incomodado.
— Quando ele sair… por favor, me avise. Não quero encontrá-lo.
Dolores inclinou a cabeça, compreensiva.
— Avisarei.
Ela hesitou por um instante.
— Mas… sua mãe também deseja falar com você. A senhora Siena pediu para vê-lo.
A mandíbula de Dóryon se tensionou.
— Eu também não quero falar com ela. — respirou fundo. — Pode só me avisar quando eu puder ir embora?
— Claro, jovem mestre. — respondeu Dolores, com a gentileza que sempre mantinha, mesmo nos dias mais turbulentos. — Espere no seu quarto. Assim que for seguro, eu mesma irei chamá-lo.
Dóryon agradeceu com um aceno e voltou para os aposentos, onde o silêncio pareceu mais pesado do que qualquer palavra dita na noite anterior.
Cerca de meia hora depois, três toques leves ecoaram na porta.
— Jovem mestre? — chamou Dolores.
Ele abriu, ansioso.
— Eles saíram?
— Sim. O senhor Darvor saiu fazia algum tempo, e sua mãe partira alguns minutos antes. Você já pode sair.
Ela estendeu a ele um embrulho ainda quente.
— O cozinheiro preparou isso para você. Pedi que fizesse um sanduíche reforçado. Não vou deixar o jovem mestre passar fome na aula de hoje.
Dóryon segurou o embrulho, surpreso com a gentileza.
— Obrigado, Dolores. De verdade.
— Boa sorte hoje. — disse ela, com um sorriso leve. — E… cuide de si.
Dóryon saiu pela porta lateral da mansão e tomou o caminho mais rápido para o instituto, como se fugir da própria casa aliviasse o peso que carregava.
Ao chegar ao instituto, Dayla e alguns alunos estavam reunidos na entrada e, ao avistar Dóryon, Dayla pediu que ele se juntasse à turma.
Após alguns minutos, com o grupo completo, partiram guiados novamente por soldados e caçadores.
Passaram pela Montanha de Vharakk e seguiram mata adentro, até chegarem ao Campo das Placas.
O sol da manhã filtrava-se através das copas retorcidas e projetava sombras longas sobre o lugar: um vasto terreno formado por enormes superfícies de terarth, irregulares como mosaicos quebrados pela passagem do tempo.
Cada placa possuía uma sensibilidade própria e respondia à postura, ao ritmo da respiração e ao equilíbrio de quem pisava sobre ela, mas somente quando corpo e espírito estavam em verdadeira harmonia com o elemento.
Dayla caminhou à frente dos alunos; o manto oscilava com suavidade. A expressão serena contrastava com a imponência das placas ao redor.
— Hoje — disse ela, ao parar no centro do campo — vocês não vão lutar, não vão projetar força, não vão tentar dominar nada. O terarth não se curva pela violência. Ele responde ao que está alinhado… não ao que é forçado.
Ela ergueu o braço lentamente, inspirou, e o terarth sob ela afundou à altura de um dedo; ao expirar, a placa elevou-se de volta, sincronizada com a respiração.
Um murmúrio percorreu o círculo.
— Hoje, vocês vão dançar com o solo.
Os alunos que tinham vínculo com o elemento e outros que ainda não haviam descoberto a dobra espalharam-se pelas placas, cada um sobre uma superfície diferente.
Ethan assumiu posição primeiro. Fechou os olhos, respirou fundo e apoiou o pé com suavidade. A placa sob ele tremeu como as vibrações de um pequeno terremoto.
Ele reduziu a postura, deixando que o terarth indicasse a direção. As placas moveram-se como ondas discretas sob seus pés.
Karsen observou, inspirou fundo e repetiu o gesto.
O vínculo dele não era tão fluido quanto o de Ethan, mas, quando firmou a postura e alinhou os ombros como Dayla ensinara, a placa sob ele tremeu levemente e inclinou-se alguns centímetros, acompanhando o peso.
Os olhos dele se arregalaram.
— Eu… consegui? — perguntou, tentando não perder a calma.
— Não “conseguiu” — disse ela, sorrindo. — Você ouviu. Continue.
Karsen ajustou os calcanhares, e o terarth respondeu com uma ondulação suave que o fez avançar dois passos sem esforço.
Não chegou a deslizar, mas o solo claramente o guiou. A surpresa transformou-se em concentração, e a concentração tornou-se harmonia.
Dóryon, ao lado, observava. Tentou imitar a postura, abaixou os ombros e soltou o ar lentamente.
Nada.
Dayla caminhou até ele e colocou duas pontas dos dedos nas costas dele, levemente.
— Você está tentando parecer calmo… mas não está calmo — disse ela num sussurro paciente. — Não force. Sinta. Sinta a si mesmo primeiro, depois o que toca sob seus pés.
Dóryon inspirou, tentou novamente… e novamente nada.
Apenas o silêncio inabalável do terarth.
Enquanto isso, Ethan deslizou.
Com o sutil manuseio da dobra, a placa sob ele inclinou-se de forma quase imperceptível. Ele sorriu, abriu os braços e fez um movimento amplo, como se guiasse a energia com o peso do corpo.
O terarth respondeu, moldou-se levemente sob os pés dele e criou uma declividade suave.
Ele deslizou pela superfície como se patinasse, fluindo com graça, e traçou um círculo perfeito em torno dos colegas.
— Muito bem, Ethan — elogiou Dayla, sem elevar a voz. — Você não força o vínculo com terarth. Você se torna um com ele.
Os alunos observaram, inspirados.
Todos, exceto Dóryon, que tentou replicar o movimento com determinação crescente… mas, sem resposta, o solo sob ele permaneceu imóvel, indiferente.
Dayla ajoelhou-se ao lado dele.
— Dóryon, escute — disse ela com voz firme, porém acolhedora. — A dobra do terarth é um chamado. Alguns respondem cedo, outros tarde… e alguns nunca. E tudo bem. Sua força pode se revelar de outras formas. Hoje, seu papel é observar. Aprender pelo olhar. Pelo silêncio.
Ele baixou a cabeça, respirou fundo e finalmente relaxou.
E, estranhamente, ao parar de tentar, o que veio não foi dobra, não foi resposta do terarth.
Veio paz.
Dayla sorriu discretamente.
— Isso também é progresso.
Ao fundo, Ethan terminou a trajetória e parou com suavidade. A placa sob ele acomodou-se, retornando ao lugar. Ele olhou para Dóryon com incentivo sincero, não com pena.
A aula seguiu, com todos repetindo movimentos lentos e harmoniosos, como uma dança ritual sobre o solo antigo.
Placas vibraram levemente aqui e ali, oscilações sutis como o coração do próprio terarth respondendo.
Mas sob os pés de Dóryon, o silêncio permaneceu absoluto, e isso, para ele, começou a tornar-se aceitável.
Dayla afastou-se e retomou o centro.
Os alunos continuaram os movimentos.
Ethan deslizou em círculos amplos, deixando o campo vivo.
Karsen, com passos firmes, guiou o terarth como se segurasse a mão de algo gigante e antigo.
Dóryon permaneceu parado, atento, absorvendo tudo, mesmo que o mundo sob seus pés continuasse mudo.
Dayla concluiu com a voz serena:
— Esta é a dança das placas antigas. Elas não escolhem quem domina. Elas revelam quem está pronto para ouvir, mesmo que o destino não seja dobrar, e sim caminhar.
O campo inteiro pareceu respirar com ela.
(Enquanto isso)
Sienna encontrou-se no salão da casa dos Alwyn, nobres comerciantes e influentes em Melwin.
O lugar era bem iluminado por grandes janelas arqueadas que deixavam entrar o ligne suave da manhã.
Perfumes florais, risos contidos e o tilintar de porcelana preenchiam o ambiente, onde damas nobres de Arllot e Lotfell conversavam com elegância.
Sienna caminhou com postura impecável e vestia um vestido azul profundo que destacava os olhos claros.
Ainda aprendia a se mover naquele mundo, mas já conseguia mascarar a insegurança com delicadeza.
Quando a porta lateral se abriu, um silêncio inesperado tomou conta do salão.
Todas as damas pararam, como se o ar tivesse sido arrancado do ambiente.
Uma figura alta entrou acompanhada por dois guardas imperiais; as armaduras reluziram ao ligne.
A mulher era esguia, de pele clara, traços marcantes e belos.
Os cabelos longos, ruivos, porém num tom vermelho-vinho profundo, escuro e elegante, caíam impecavelmente pelas costas. Os olhos verdes percorreram o salão com natural autoridade.
Era Roselyne, esposa do Imperador Altheryon.
O murmúrio voltou, mas em sussurros frágeis. Ninguém esperava a presença dela ali, um convite de última hora feito pela própria anfitriã, que agora tremia ao lado da Imperatriz.
Com um leve sorriso, Roselyne acalmou os ânimos da anfitriã e de todos ao redor:
— Não precisam se incomodar — disse ela — estou aqui apenas para degustar o chá, dizem que é o melhor da cidade.
O murmúrio cessou. A presença dela, por si só, reorganizou toda a atmosfera.
Sienna manteve a postura. Apesar do nervosismo, aprendera a esconder a insegurança atrás de uma serenidade treinada.
Roselyne caminhou até o centro, aceitou a xícara que uma criada lhe ofereceu e se juntou ao grupo.
Após alguns comentários sobre o clima e pequenos elogios protocolares, uma das damas, lady Hesperia, arriscou:
— É sempre uma honra recebê-la, Majestade. Não esperávamos sua visita ao nosso humilde chá.
— Às vezes — respondeu Roselyne com um sorriso leve — é bom observar Arllot sem avisos prévios. Surpresas revelam mais do que recepções planejadas.
As damas riram nervosamente.
Então os olhos da imperatriz pousaram em Sienna.
— E você deve ser Sienna Magnuss.
O nome ecoou com mais peso que o esperado; algumas damas desviaram o olhar, outras esconderam expressões de desdém, lembrando da origem humilde da mulher em questão.
Sienna inclinou a cabeça respeitosamente.
— Sou eu, Majestade.
— Tenho ouvido histórias interessantes sobre sua adaptação à vida nobre — disse Roselyne, girando a xícara com elegância. — Diga-me… como tem sido a transição?
O salão inteiro prendeu o fôlego, esperando o deslize.
Sienna respirou fundo e respondeu com serenidade:
— Tem sido um desafio, como imagino que seria para qualquer pessoa que muda de realidade de forma tão repentina. Mas cada dia tenho aprendido mais, e me adaptado melhor. Arllot é bela… ainda que imponente.
Algumas damas trocaram olhares surpresos; esperavam hesitação ou fragilidade.
Roselyne arqueou uma sobrancelha, satisfeita.
— Uma resposta consciente. — Ela tomou um gole do chá. — Mas deixe-me lhe fazer outra pergunta, Sienna… algo mais íntimo.
O salão ficou completamente silencioso.
— Se tivesse de escolher entre abandonar um familiar para permanecer na alta nobreza com conforto, segurança, influência, ou voltar para sua antiga vida, humilde… mas acompanhada de sua família. Qual escolha faria?
O golpe foi suave, mas direto como uma lâmina perfeitamente afiada.
Algumas damas arregalaram os olhos — aquilo era raro, até mesmo impróprio. Testar alguém assim, em público?
Sienna manteve a calma.
— Eu seguiria minha família, Majestade. Seja para onde fosse. Entre a riqueza e quem eu amo, sempre escolherei os meus.
Houve um murmúrio abafado, como se a sala soltasse o ar de uma só vez.
Roselyne inclinou-se levemente para a frente; os olhos atentos percorreram cada detalhe de Sienna, como se a avaliasse com o mesmo rigor aplicado a uma peça rara.
— Interessante. — sorveu mais um gole de chá e, com um sorriso contido e pretensioso, completou: — Vejo que veio realmente preparada.
Ao redor, algumas damas trocaram olhares tensos e deixaram escapar sorrisos constrangidos, acompanhando a investida incisiva da imperatriz.
Sienna manteve a postura ereta, o semblante sereno e a voz sob controle; contudo, por dentro, o coração pulsava acelerado.
Cada instinto gritava para que se afastasse dali, para que fugisse daquele escrutínio silencioso e cruel.
Roselyne então voltou-se para a anfitriã, como se o interesse anterior tivesse sido apenas um desvio momentâneo.
— Perdoe-me — disse ela, com falsa leveza — deixei-me levar pela curiosidade e acabei negligenciando quem verdadeiramente merece nossa atenção hoje. Um brinde à lady Alwyn.
As xícaras ergueram-se em uníssono, e o salão logo retomou o burburinho habitual, carregado de conversas calculadas e comentários velados.
Algum tempo depois, Roselyne despediu-se de algumas damas e ladies, entregando a cada uma um envelope lacrado, inclusive à anfitriã do evento.
Antes de partir, contudo, deteve-se diante de Sienna, que ainda tentava se recompor da sucessão de provocações anteriores.
— Estou de saída — anunciou, estendendo-lhe um convite. — Porém, gostaria de convidá-la para o aniversário do príncipe herdeiro.
Sienna aceitou o envelope e inclinou a cabeça em respeito.
— Será uma grande honra podermos participar de um dia tão significativo. Os Magnuss certamente estarão presentes.
— Ótimo — respondeu Roselyne, indicando com um gesto sutil que Sienna a acompanhasse até a carruagem.
Durante o breve percurso, a imperatriz retomou a fala, agora com um tom delicado, quase afável:
— Peço desculpas pela minha postura anterior. Reconheço que fui ríspida. Ainda assim, creio que demonstrou não apenas a mim, mas a todas naquele salão, que a nobreza lhe pertence por direito.
Com cautela e voz serena, Sienna respondeu:
— Não há o que perdoar, vossa majestade. Não se preocupe.
Já acomodada na carruagem, Roselyne lançou-lhe um último olhar antes de partir.
— Fico satisfeita em saber que não se ofendeu. Contudo, terá de se acostumar com esse tipo de questionamento. Gostando ou não, agora você faz parte do jogo.
Sinalizando para o cocheiro, concluiu:
— E, nesse jogo, aqueles que não suportam a pressão da sociedade simplesmente não sobrevivem.
A carruagem afastou-se, deixando para trás o salão. Sienna permaneceu imóvel, mergulhada em pensamentos conflitantes, sentindo o peso de uma manhã tão elegante quanto turbulenta.
Fim do Capítulo X
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