Volume I
Capítulo IX: A Provação de Vharakk | Parte II
— Agora que estavam todos aqui, partiriam para a floresta do alvorecer. — disse Dayla, que marchou junto com os soldados.
No caminho, enquanto seguiam a trilha na floresta, Dayla explicou a lenda:
— Vharakk já foi chamada de Montanha dos Ecos de Terarth. Antigamente, ela foi o lar de um elfo chamado El’Vaedron, um dos primeiros a compreender a essência da Terarth.
Os alunos ouviram em silêncio, atentos.
— Dentro da montanha existem cavernas estreitas e escuras como a ausência de ligne. Lá dentro, todos os sentidos se confundem. A visão desaparece. O som se distorce. Até o venwin parece mais pesado… denso. A única coisa que resta é sua ligação com o mundo ao redor, ou a falta dela.
— Ele treinava pessoas lá? — perguntou Lioren.
— Sim. — confirmou Dayla. — El’Vaedron acreditava que, para dobrar a Terarth, era preciso sentir o próprio corpo como uma extensão do solo. Sentir o pulso da montanha, o peso, os ecos, a vibração adormecida. Muitos dobradores encontraram seu elemento ali… depois de enfrentarem seus próprios medos.
Yoonji engoliu seco. Dóryon manteve o olhar no horizonte, ansioso, mas fascinado.
— Hoje vocês vão conhecer esse lugar. E ele vai testar cada um de vocês.
A Montanha Vharakk surgiu ao longe: colossal, irregular, com fendas que pareciam bocas famintas esperando por aqueles que ousassem entrar.
O venwin frio passou por eles e trouxe um rugido distante, como se a montanha respirasse pelas entranhas da Terarth.
Dayla desmontou.
— Preparem-se. A partir dali, cada passo seria uma provação.
Ela olhou para Dóryon um segundo a mais do que o necessário.
— E lembrem-se: lá dentro… vocês estarão sozinhos.
Colocou os alunos à frente, os guardas a postos e os caçadores ao redor, que observavam, e continuou:
— Só irão adentrar apenas aqueles que ainda não conhecem suas dobras, mas caso queiram provar seus sentidos, a montanha os espera.
Aos pés da montanha, seis alunos se reuniram: Dóryon e mais cinco jovens que jamais haviam manifestado vínculo elemental.
O ar em torno da imensa Montanha de Vharakk pareceu pesado, quase consciente, como se cada fragmento de terarth vibrasse com uma intenção antiga.
Dayla ergueu a mão, e sua voz firme ecoou entre os terarth.
— Escutem com atenção: ao atravessarem a entrada, perderão qualquer referência. Não haverá ligne, não haverá som, nem direção. Vharakk tentará quebrar seus sentidos. Alguns de vocês encontrarão o Terarth. Outros… não.
Ela inspirou fundo, como quem assumia um risco calculado.
— Depois de um tempo, voltarei para buscar aqueles que não despertarem nada. Não deixarei ninguém preso lá dentro.
Dóryon sentiu o coração acelerar. Precisava encontrar sua dobra, não só por ser filho do comandante, mas porque o medo silencioso de ser vazio começava a crescer dentro dele.
— Sigam — ordenou Dayla.
A escuridão os engoliu como um abismo vivo.
Não havia direção.
Não havia chão.
Não havia ar suficiente para que o venwin circulasse de forma natural.
Apenas o silêncio.
Um silêncio tão denso que doía.
Dóryon estendeu as mãos — nada. Nenhuma parede, nenhum fluxo de venwin, nenhum resquício de ligne. Nada além de vazio, como se Vharakk arrancasse seus sentidos e devolvesse tudo distorcido.
— Tem alguém aí? — sussurrou um dos alunos, a voz trêmula.
Ninguém respondeu.
O tempo deixou de existir. Segundos, minutos, horas, tudo se fundiu num mesmo torpor esmagador. Dóryon sentiu a identidade se desfazer como fios soltos. O próprio coração parecia bater fora do corpo, ecoando como golpes contra o nada.
Era como se a montanha os observasse… e esperasse que sucumbissem.
Um dos alunos começou a chorar baixinho. Outro murmurou palavras desconexas. A mente fraquejou. O corpo fraquejou.
Então…
Uma vibração.
Não exatamente um som, mas uma pulsação profunda, como um chamado antigo.
Karsen, o garoto silencioso que raramente dizia qualquer palavra, caiu de joelhos. As mãos dele tocaram o chão. E a caverna respondeu, quase como se estivesse viva.
A superfície sob os dedos dele brilhou com um leve respiro, como se o terarth se animasse num movimento lento e vivo.
A energia correu pelos braços do garoto, firme como uma onda sólida, e enraizou-se nele.
Guiado pela dobra, como se a própria montanha lhe indicasse a saída, Karsen seguiu sem hesitar e atravessou o caminho para fora.
O restante… não.
Dóryon esteve à beira do abismo mental.
O vazio arranhou a consciência como garras invisíveis, sussurrou palavras cruéis:
“Que ele jamais despertaria um elemento.
Que jamais teria um propósito.
Que era indigno de Arkien.
Inútil para o nome Magnuss.”
O peito doeu, a respiração falhou, e o silêncio pareceu apertar o crânio por dentro.
Quando sentiu que iria quebrar, algo tocou o ombro dele.
Um toque firme. Real. Humano.
— Dóryon. Acabou.
A voz de Dayla atravessou a escuridão como um fio de salvamento.
Ela o encontrou cambaleante, quase sem equilíbrio. Reuniu os quatro alunos à beira do desmaio: um tremia como se o frio o consumisse por dentro, e Dóryon estava incapaz de formar uma única palavra.
Quando saíram da caverna, a luz suave do entardecer pareceu quase divina, e os banhou como uma promessa de que o mundo real ainda existia.
— Vocês fizeram o suficiente por hoje. — disse Dayla, conduziu o grupo para longe da entrada sombria. — Às vezes, o elemento não responde de imediato. Às vezes, ele observa. Espera, mas Vharakk sempre revela quem está preparado… e quem ainda precisa aprender a ouvir.
Do lado de fora, Karsen permaneceu sentado sobre um terarth, a respiração pesada, os olhos ainda brilhavam com o eco do Terarth recém-despertado.
Dóryon olhou para ele. Sentiu fascínio. Sentiu inveja. Sentiu a ferida da dúvida se abrir; mas, acima de tudo, algo surgiu dentro dele, como uma brasa teimosa.
Um desejo ardente, uma promessa silenciosa: ele também despertaria, custasse o que custasse.
Dayla, acompanhada pelos membros da Ironmantle, conduziu os alunos de volta até os portões de Gylden. Lá, após breves instruções finais, dispersou-os para que retornassem às rotinas.
Dóryon se despediu de Yoonji e Lioren com um aceno cansado, mas sincero, antes de seguir sozinho pelas ruas banhadas pelo início da noite.
A frustração pesava mais que o venwin frio que serpenteava entre as casas. Cada passo arrastava um pensamento diferente, todos igualmente amargos.
Ele caminhou devagar, cabisbaixo, até que as primeiras sombras do anoitecer dominaram o céu.
Ao avistar a própria casa, endireitou a postura e apressou o passo. Por mais que a mente estivesse em turbulência, havia expectativas a cumprir.
Empurrou a porta, respirou fundo e foi se arrumar rapidamente, determinado a ocupar seu lugar à mesa antes que alguém percebesse o quanto estava abalado.
A mesa do jantar estava silenciosa quando Dóryon se sentou.
O aroma forte de ervas quentes preenchia o ambiente, mas nada pareceu capaz de aliviar o peso que ele carregava nos ombros. Sienna foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Como foi seu dia, meu filho?
Dóryon baixou o olhar para o prato. A frustração ardia como veneno. Ele hesitou, buscou as palavras, mas no fim deixou escapar a verdade num fio de voz.
— A luta foi interrompida… e descobri que terarth não é minha dobra.
Sienna franziu o cenho, suavizou o tom.
— Dóryon… isso não define quem você é. Nem todos descobrem de primeira. Você só precisa de tempo —
Mas, antes que pudesse continuar, Darvor ergueu a voz, cortou o ar como um golpe.
— Tempo? Ele já teve tempo demais.
O olhar de Dóryon se ergueu apenas o suficiente para encontrar o do pai, frio, tenso, carregado de algo que ia além de simples irritação.
Era o peso invisível de tudo o que Darvor vivera naquele dia, que transbordava.
— Você é um Magnuss — disse ele, a voz grave e amarga. — E ainda assim volta para casa sem nada para mostrar? Nem sequer a coragem de encarar sua própria fraqueza?
— Darvor, pare — Sienna interveio imediatamente, a voz firme, mas tremendo na borda da preocupação.
Ele não ouviu.
— Se não consegue sequer despertar sua própria dobra, então não merece se sentar nesta mesa enquanto eu estiver aqui.
O golpe das palavras ecoou mais forte que qualquer grito.
Dóryon ficou imóvel por um instante, como se o chão tivesse se rompido sob seus pés, antes de empurrar a cadeira para trás e se levantar.
Sienna tentou argumentar, mas Darvor permaneceu irredutível, os olhos fixos no prato como se cada respiração lhe irritasse a alma.
Sem dizer nada, Dóryon se virou e deixou a sala, levou consigo o silêncio pesado de um lar que naquele momento já não parecia seu.
Dóryon saiu da mesa em silêncio, o peso das palavras de Darvor ainda queimava na mente.
Cada passo até o quarto pareceu mais arrastado que o anterior, como se carregasse nas costas a mesma escuridão sufocante que dominara as entranhas da Montanha de Vharakk.
Ao adentrar os aposentos, fechou a porta devagar, quase temendo que o som ecoasse pelo corredor.
O quarto ficou iluminado apenas pelo ligne prateado da lua, que atravessava a janela e desenhava sombras suaves pelo chão.
Dóryon puxou uma poltrona pesada e arrastou-a até o canto onde podia ver o céu. Sentou-se, exausto, e deixou o corpo afundar no tecido enquanto observava as estrelas cintilando sobre Gylden.
Lá fora, elas pareciam tão calmas, tão distantes de tudo o que pesava no peito.
O pensamento dele vagou: para a luta interrompida, para a caverna, para o olhar de Karsen ao despertar sua dobra, para a decepção silenciosa nos olhos de Darvor, e para a culpa que ele próprio carregava por não conseguir.
Ele ergueu as mãos diante do rosto.
Calejadas. Marcadas. Cobertas de pequenos cortes e arranhões, como se cada um deles fosse um lembrete das batalhas travadas naquele dia, não apenas contra colegas, mas contra si mesmo.
Ele fechou os dedos lentamente e sentiu a dor repuxar a pele machucada.
Mas, junto dela… veio algo mais.
Uma fagulha.
Uma esperança teimosa que recusou morrer.
Talvez ainda não tivesse encontrado sua dobra. Talvez estivesse perdido entre expectativas, cobranças e sombras que não sabia enfrentar.
Mas, ao observar as próprias mãos, essas que lutaram, persistiram e não recuaram, algo dentro dele se firmou.
Ele encontraria o caminho.
Como guerreiro.
E como um Magnuss.
Enquanto isso, Darvor deixou a mesa de jantar com passos pesados, como se cada um carregasse o eco da decisão que tomara naquele dia.
Seguiu pelo corredor silencioso até os aposentos, mas não foi descansar.
Em vez disso, entrou no escritório, o único lugar onde sentia que podia carregar as culpas sem que o lar inteiro desmoronasse junto.
Acendeu apenas uma lamparina.
A chama tremeluzente projetou sombras longas nas paredes, distorceu os contornos de mapas, armas penduradas e documentos empilhados.
Darvor apoiou as mãos sobre a mesa, respirou fundo, tentou conter o turbilhão que insistia em se formar no peito.
A porta se abriu devagar.
Isaac entrou sem anunciar, o rosto carregado de preocupação e de algo mais: receio.
— Como você está? — perguntou ele em voz baixa, quase como se temesse despertar o que quer que estivesse adormecido dentro de Darvor.
Darvor permaneceu imóvel por alguns segundos longos. Somente o estalar suave da lamparina preencheu o silêncio.
— Estou bem — respondeu por fim, sem emoção. — E imagino o motivo pelo qual veio até aqui.
Isaac respirou fundo e cruzou os braços.
— Soube da missão… e do que você teve que fazer.
O olhar de Darvor endureceu.
Isaac continuou:
— Matar um amigo. Não há como isso não deixar algo. Não há como passar por isso ileso. — Ele se aproximou um pouco. — Não causou nada? Nenhuma revolta? Nenhuma dúvida?
Darvor apertou a mesa com força suficiente para fazê-la ranger.
— O que fiz foi necessário — disse, a voz firme, controlada, mas com uma sombra difícil de esconder. — Ele era um traidor. Não havia escolha.
Isaac o observou atentamente.
— E você? — perguntou, tenso. — Acha que algum dia… poderia tomar a mesma decisão que ele? Trair o império? Trair a coroa?
A sala mergulhou em um silêncio pesado. Um silêncio que parecia medir a alma de Darvor.
O comandante manteve os olhos fixos na chama da lamparina, como se buscasse ali a resposta menos dolorosa. Finalmente, falou:
— Jamais trairia minha honra como guerreiro.
Ele ergueu o olhar, firme, inabalável, mesmo que por dentro estivesse fragmentado.
— E sempre serviria à coroa.
Isaac respirou aliviado, mas apenas por fora. Porque, no fundo, percebeu algo que Darvor jamais admitiria: não era a coroa que temia trair. Era a si mesmo.
Ao se despedir de Darvor, Isaac disse:
— Bom, vim ver como estava, agora estou partindo, iremos além das fronteiras entre Gylden e Vazenê… diga há Dóryon que mandei um oi, e que depois voltarei para ver seu crescimento.
Isaac, então, deixou o cômodo e passou pelos portões da residência dos Magnuss, deixou Darvor pensativo e cheio de remorso.
(Ainda naquela noite)
A mansão de Tobias erguia-se no alto de um vale arborizado, uma construção ampla e imponente, com colunas robustas e longas varandas de madeira entalhada.
As paredes em tons de vermelho-vinho, combinadas com detalhes em dourado escurecido, davam à residência uma presença quase imperial.
Lanternas de ferro pendiam das entradas, projetavam reflexos rubros que faziam a casa parecer pulsar, viva, sob a ligne branda da lua. Era bela, mas havia algo nela que sempre soava… perigoso.
Os portões se abriram para uma visita encapuzada, que cruzou o caminho de terarth polidos até a porta principal.
Dois criados a conduziram para dentro, onde os corredores perfumados com incenso herbal contrastavam com a escuridão crescente do lado de fora.
Ao chegar na sala principal, encontrou Tobias sentado em sua poltrona favorita, cercado por prateleiras repletas de livros antigos e mapas do império.
O local era iluminado apenas por algumas velas altas, que pintavam o rosto dele com sombras longas, como se revelassem apenas o que ele permitia que fosse visto.
A visitante fez uma reverência curta. Ao remover o capuz, a visita se revelou: Dolores surgiu.
— Tobias — disse ela, entregando um envelope lacrado. — Tenho notícias sobre Darvor, como pediu.
Ele ergueu os olhos devagar, com o interesse de um predador que finalmente sentia o cheiro certo.
— E então? — perguntou, cruzando as mãos.
— Ele se mostrou fiel. Mesmo após eliminar o próprio amigo, não demonstrou hesitação. Não houve revolta, nem questionamento. — Dolores respirou fundo. — Darvor continuava servindo a coroa sem titubear.
O sorriso que surgiu no rosto de Tobias não tinha nada de acolhedor. Era torto, calculado, carregado de segundas intenções.
— Excelente… — murmurou, inclinou-se para a frente. — Então ele passou no primeiro teste.
As velas ao redor tremularam, como se a mansão inteira tivesse estremecido com aquelas palavras.
— O primeiro de muitos — completou Tobias, com um brilho inquietante nos olhos, já traçava mentalmente os próximos passos do jogo que apenas ele conhecia.
Fim do Capítulo IX
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