Volume I
Capítulo IX: A Provação de Vharakk | Parte I
(Naquela mesma manhã)
Darvor acabava de chegar ao palácio. Desceu do cavalo, conduziu-o até o estábulo e soltou o ar em um breve suspiro, a noite fora longa e ele mal tivera descanso.
Antes mesmo de retirar as luvas, um soldado se aproximou com certa urgência.
— Senhor, bom dia! — disse ele, quase sem fôlego. — Tobias mandou entregar esta mensagem. Ele o aguarda no escritório. Disse que é urgente.
Darvor passou a mão pelo rosto, cansado.
— Certo. Cuide bem do meu cavalo. — respondeu, entregando as rédeas ao soldado antes de seguir.
O corredor pareceu mais silencioso do que o usual e, ao chegar diante da porta do escritório de Tobias, Darvor já sentia que algo estava errado.
Ao entrar, encontrou o conselheiro com expressão dura, tensa, como se carregasse um peso antigo nos ombros.
Tobias ergueu o olhar lentamente.
— Feche a porta. E tranque.
Darvor obedeceu sem dizer palavra. Quando se virou, falou com cautela:
— O que deseja, senhor Tobias? Não quero ser rude, mas devo assumir meu posto.
Tobias cruzou a sala e fechou as cortinas com um puxão firme antes de responder:
— Não se preocupe com seu posto. O imperador está ciente de que você não comparecerá pela manhã.
Virou-se de volta, encarando Darvor.
— Preciso que assuma uma missão.
Darvor franziu o cenho.
— E que missão seria essa?
O silêncio que veio em seguida pesou. Tobias caminhou até a mesa, apoiou as mãos sobre a madeira e inclinou-se levemente para a frente, como quem ponderava cada palavra.
— Quero que rastreie uma pessoa — disse por fim, em tom baixo. — E que a traga… viva ou morta.
Darvor respirou fundo.
— Para me requisitar pessoalmente, imagino que seja alguém que eu conheça. Estou certo?
— Totalmente certo. — respondeu Tobias, sentando-se com lentidão, como se a cadeira carregasse a gravidade do assunto.
O conselheiro entrelaçou os dedos, observando atentamente o rosto do guerreiro.
— Buscamos um traidor. Um homem que tem agido nas sombras e arquitetado planos contra a coroa e o Império.
Fez uma breve pausa.
— Seu nome é Vaerdran.
O nome caiu sobre Darvor como um terarth. Ele ficou imóvel, expressão fechada, o olhar perdido por alguns segundos, absorvendo, recordando, sofrendo em silêncio.
Por fim, ergueu o rosto e, com a voz baixa e pesada, disse:
— Compreendo. Se ele é um traidor… então cumprirei meu dever. Irei trazê-lo. Vivo… ou morto.
Tobias assentiu devagar.
— Sabia que poderíamos contar com você — disse. — Sabe onde começar a procura?
Darvor hesitou antes de responder.
— Não exatamente… mas tenho uma boa ideia de onde ele possa estar.
— Excelente. — Tobias se apoiou na mesa, cruzando os braços. — Vai precisar de reforços? Na fuga, Vaerdran matou e esquartejou quinze soldados altamente treinados. Foi ferido, é verdade… mas continua extremamente perigoso.
Darvor colocou as luvas de volta e ajustou-as nos pulsos com firmeza.
— Não vou precisar de reforços. Sou mais que suficiente para lidar com ele.
Tobias observou-o por um instante, talvez procurando alguma hesitação, mas não encontrou nenhuma.
— Então vá. E que a sorte caminhe ao seu lado. Mantenha-nos informados.
Darvor já estava de costas, a mão sobre a maçaneta.
— Assim farei. — disse antes de deixar a sala, fechando a porta atrás de si e partindo rumo à missão que talvez fosse uma das mais difíceis de sua vida.
Darvor partiu sem hesitar, mas com o coração dividido, e deixou para trás o rastro de venwin e as dúvidas que o acompanhavam desde a conversa com Tobias.
O destino o aguardava no extremo norte, um vilarejo esquecido pelo império, aninhado próximo às margens da divisa com Whyrfhrid.
A jornada foi longa. Ele cruzou a Floresta do Alvorecer, percorreu estradas irregulares que serpenteavam entre penhascos e vales, passou por trilhas onde vivera a própria infância; cada passo trouxe memórias que preferia manter enterradas.
Ao final do percurso, surgiu enfim o vilarejo de Hroldenvik.
Aquele lugar não apenas recebia o frio: ele respirava o frio. A neve vinda do Reino Gélido repousava sobre telhados tortos; o venwin soprava como um lamento constante, ora suave, ora cortante como lâminas invisíveis.
Os habitantes eram sobreviventes teimosos, fugindo não apenas do clima desesperador, mas das criaturas que rondavam a fronteira de Whyrfhrid.
Muitos vestiam apenas casacos puídos de pele de javali ou canis sabre, insuficientes para a fúria do inverno. Viviam à beira da miséria, sustentados pela própria obstinação.
Darvor desmontou do cavalo.
Do alforje, retirou um pesado casaco feito de búfalo krivar, resistente ao frio extremo, e o vestiu, cobrindo o rosto com o capuz. Então seguiu pelas vielas e ruas estreitas de Hroldenvik.
A cada parada, ofereceu algumas moedas de bronss em troca de respostas rápidas e olhares desconfiados.
O nome Vaerdran despertou medo em alguns, silêncio em outros, mas as pistas se alinharam.
Elas o levaram até uma casa abandonada, erguida perigosamente na beira de um penhasco que encarava o vasto e sombrio Mar de Nhyldra.
O venwin marítimo chicoteava as tábuas podres, carregando o cheiro salgado e o eco distante das ondas quebrando nos terarth.
Ao se aproximar, Darvor percebeu o que procurava: manchas de sangue seco, endurecido pelo gelo; marcas de passos arrastados que levavam ao interior da cabana.
Ele parou diante da porta, respirou fundo e, em tom grave e controlado, anunciou:
— Vaerdran… sou eu. Vou entrar.
O interior era um túmulo de silêncio. Tudo ali parecia morto havia muito tempo: paredes congeladas, chaminé apagada e coberta de gelo, móveis quebrados.
Então uma sombra se moveu.
Vaerdran surgiu diante dele, alto como sempre, mas agora envelhecido pelo sangue derramado.
Os cabelos e a barba negros se misturavam aos fios grisalhos; cicatrizes cruzavam o rosto como mapas de antigas guerras.
Suas roupas eram feitas de peles de diversas criaturas, improvisadas às pressas.
Apoiando-se em uma grande espada manchada e sem brilho, ele respirou com dificuldade e se sentou em um banco gasto, pressionando a mão contra a ferida profunda no abdômen.
Com uma voz rouca e exausta, deixou escapar um sorriso amargo:
— Finalmente mandaram você… estava me perguntando quanto tempo demorariam para convocá-lo para me caçar.
Darvor permaneceu imóvel, o peso do momento sufocando o próprio venwin ao redor. Caçar um amigo… aquela era a missão mais amarga que Arkien já lhe impusera.
— De todos que lutaram ao meu lado… — a voz dele falhou por um instante, tomada por um misto de raiva e luto — …jamais imaginei que você se tornaria um traidor.
Vaerdran soltou um riso rouco, curto, como o estalar de gelo partindo ao meio.
— Nem eu, Darvor… nem eu. Mas vivemos em Arkien, não é? — os olhos escurecidos brilharam num tom de resignação amarga. — Nada permanece para sempre… Me pergunto quando você também estará na minha posição.
— Jamais trairia o Imperador. Minha honra não é negociável. — rosnou Darvor, fechando os punhos.
Vaerdran tossiu, sangue escorreu pelo canto dos lábios e manchou a barba negra.
— Eu também dizia isso… mas cá estamos.
Ele se ergueu, cambaleante, apoiando-se na espada como se fosse o último pilar que ainda o sustentava.
Darvor reconheceu o movimento, ele pretendia lutar. E, por instinto, deslizou uma das pernas para trás, assumindo postura de combate.
— Renda-se. — a voz de Darvor saiu baixa, grave, quase um pedido — Não me force a matá-lo, Vaerdran.
— Cheguei longe demais para morrer numa cela. — respondeu o outro, com um sorriso triste e cansado, levantando a lâmina pela última vez.
Darvor apertou o maxilar.
— Se insistir nisso… eles irão atrás da sua família. Vão usá-los como exemplo. Não os condene.
Silêncio.
Vaerdran baixou a cabeça. A neve que entrava pela fresta da janela pousou sobre os ombros dele como véus de despedida.
— Mirale vai entender. — disse enfim, com voz quase inaudível. — E meus filhos… já estão longe. Longe o suficiente da lâmina do Imperador… e da sua também.
Ele ergueu a espada num último gesto. Havia determinação nos olhos — e aceitação.
— Vivi como um guerreiro… — sussurrou — Nada mais justo que morrer como um.
Darvor fechou os olhos por um breve instante.
Quando os abriu, o venwin já estava vivo ao redor dele.
Num único movimento, ele inspirou profundamente, encheu os pulmões até doerem. O ar respondeu como se reconhecesse o chamado.
As partículas ao redor vibraram e giraram, reagindo ao domínio absoluto dele.
Ao exalar, Darvor não soprou apenas ar: ele liberou uma torrente comprimida, moldada por anos de disciplina, transformada numa lâmina invisível, silenciosa e cruel.
O venwin cortou o ar com um assovio quase imperceptível.
E então — silêncio.
A cabeça de Vaerdran se separou do corpo antes mesmo que a espada dele terminasse o arco do ataque.
Ambos caíram no chão congelado: primeiro a lâmina, depois o corpo, e por fim a cabeça, que rolou até parar aos pés do homem que o executara.
Darvor manteve a postura firme, respirando lentamente; a névoa quente do fôlego se dissipou no frio da cabana.
Ele fechou os olhos.
— Que Odythras o receba… velho amigo.
E a neve continuou caindo, indiferente.
(Mais tarde)
Quando o entardecer começou a tingir o céu, Darvor retornou ao palácio.
Os passos foram pesados; o frio grudado nos ossos pareceu menor que o cansaço que carregava no peito.
O rosto estava pálido, os ombros tensos, e o sangue seco na roupa denunciava a luta recente, uma luta que ele jamais desejara travar.
Nas mãos, segurava uma bolsa escura, pesada… e silenciosa.
Ele atravessou os corredores sem dirigir palavra a ninguém e finalmente alcançou o escritório de Tobias.
Ao abrir a porta, viu o conselheiro concentrado sobre pergaminhos e mapas.
Tobias ergueu o olhar, observou Darvor e a bolsa, e um sorriso discreto surgiu no canto da boca.
— Vejo que cumpriu sua missão mais uma vez… com louvor.
Sem responder ao elogio, Darvor avançou. Abriu a bolsa e retirou o conteúdo com brutal franqueza, depositando a cabeça de Vaerdran sobre os papéis de Tobias. O impacto surdo ecoou pela sala.
— Aqui está. — A voz dele saiu rouca, carregada de indignação e mágoa.
Ele virou-se de costas antes mesmo de Tobias dizer qualquer coisa.
— Se me der licença… agora que cumpri a missão que me foi confiada, irei tomar um banho e assumir meu posto.
Sem esperar resposta, Darvor deixou a sala. A porta se fechou com um estrondo seco, e o silêncio retornou.
Tobias observou a cabeça à sua frente. Não demonstrou pena nem repulsa; apenas um sorriso leve, quase imperceptível, tomou forma.
Os olhos brilharam com um misto de satisfação e algo mais profundo… algo sombrio, envolto em intenções que guardava só para si.
(Mais cedo, após a batalha com Auror)
A poeira ainda pairava no ar quando Dayla interrompeu o impacto que decidira o rumo da luta.
O campo de treinamento silenciou como se até o venwin tivesse contido a respiração.
Dóryon e Auror, exaustos, respiravam com dificuldade, os músculos tremendo, os corpos marcados por arranhões e pela areia colada ao suor.
Yoonji foi a primeira a correr até ele, com Lioren logo atrás.
— Dóryon! — chamou, quase sem fôlego, os olhos tomados de preocupação.
Auror passou por eles ainda segurando o machado, o olhar firme, selvagem, mas controlado — até que Dayla a chamou pelo nome, ordenando que seguisse para a enfermaria.
Então, a comandante voltou-se para o trio:
— Vocês dois, Yoonji e Lioren — apontou com postura imponente — levem Dóryon para tratar esses cortes. Depois, encontrem-me nos portões do Instituto. Partiremos imediatamente para o próximo treino.
Os três se entreolharam.
— Treino? — Lioren perguntou, tenso.
Dayla sorriu — não de forma gentil, mas com um brilho inquietante e desafiador:
— Sim. A Montanha Vharakk os aguarda.
Eles seguiram a orientação de Galanor e foram para a enfermaria. Ao adentrar, a enfermaria exalou o cheiro de ervas esmagadas e óleos curativos.
Dóryon se sentou enquanto uma curandeira aplicava um bálsamo refrescante sobre os hematomas mais profundos, que latejavam como ecos de batalha ainda pulsando sob a pele.
Ao lado, Auror permaneceu sentada, braços cruzados, encarando a parede adiante como se já travasse outra luta em sua mente, uma luta contra si mesma.
Quando a curandeira se afastou, o silêncio se tornou tão denso quanto terarth compactada.
Auror virou-se lentamente para ele.
O olhar dela encontrou o de Dóryon, firme, direto, sem hesitação.
— Aquilo ainda não acabou. — disse ela, esboçando um sorriso feroz. — Nós dois sabemos. Essa luta não teve vencedor.
Dóryon ergueu o queixo.
— Estarei pronto quando você quiser.
— Ótimo. — Ela apoiou o machado no ombro como se fosse leve. — Eu também.
Passaram um pelo outro com a tensão de uma corda prestes a se romper.
Yoonji e Lioren apenas a observaram, e Auror parou por um instante, encarou Yoonji e depois seguiu seu caminho, soltando o ar, frustrada.
Após algum tempo, Yoonji batia o pé no chão, inquieta, e Lioren tentava parecer tranquilo, mas a tensão estava clara no rosto dele.
Quando Dóryon saiu, ela logo se adiantou:
— E então? Deu tudo certo?
— Sim. — Dóryon respondeu. — Isso não foi nada, já passei por coisa pior.
— Eu imaginei que ia sair mais ferido, aquela garota e realmente uma besta, os golpes dela ecoavam por todo o campo. — disse Lioren com franqueza.
— Eu também pensei que ele ia sair fatiado da batalha hoje. — respondeu Yoonji com ironia.
Dóryon então deu um cascudo nos dois, dizendo:
— Parem de bancar os idiotas, vamos, a instrutora esta nos esperando com o restante da turma.
O trio atravessou os portões do Instituto, onde Dayla já os aguardava, junto com o restante dos alunos, com dois guardas e também dois caçadores profissionais, que sempre trabalharam para a casa Ironmantle.
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