Volume I

Capítulo VIII: O Guerreiro Inabalável

O sétimo dia amanheceu pesado, quase silencioso. O céu ainda estava cinzento quando Dóryon despertou antes do primeiro canto dos pássaros. O corpo ainda doía, marcas vivas dos treinos brutais de Isaac, mas o coração batia firme, inquieto, urgente.

Ele se vestiu devagar e respirou fundo. Sentiu o ar frio da manhã entrar pelos pulmões e tentou controlar o tremor nas mãos.

Ao abrir a porta, Darvor já o aguardava.

De pé, imponente como um monólito, com o cavalo grande e escuro ao lado, ele não disse nada por um instante. Apenas observou o filho… e havia um brilho discreto de orgulho contido em seus olhos.

— Suba — diz Darvor, com a voz firme, no entanto, mais branda do que o usual.

Dóryon montou atrás dele.

O cavalo arrancou.

A cada passo, o vento frio cortou seu rosto, mas também acalmou sua mente. Sentir o pai ali, à frente, guiando-o… fez o coração se estabilizar. Darvor falou pouco, mas as poucas palavras carregaram peso.

— Hoje não lute para vencer. Lute para provar a si mesmo quem você está se tornando.

Dóryon assentiu em silêncio, engolindo a ansiedade.

Um tempo depois, ao chegarem aos portões do instituto, Dóryon desmontou.

Darvor lhe entregou o peitoral de sua armadura, a mesma usada no último teste, com o símbolo da Casa Magnuss.

— Mostre o que aprendeu.

Agradecendo ao pai, Dóryon seguiu em direção ao instituto. Ao se aproximar da entrada, viu Yoonji à espera — rígida, mas visivelmente nervosa. Ela vestia um traje de seda reforçado com uma armadura leve de mirion, cujo brilho azulado refletia o ligne da manhã.

— O… oi. Você está bem? — pergunta Yoonji, tentando parecer firme.

— Estou sim. E você?

Ela desviou o olhar e apertou os dedos contra a própria mão.

— Desde aquele dia… tenho tido pesadelos. E a dor na cicatriz onde o mach—

Yoonji interrompe a própria frase, como se tivesse esbarrado em um muro invisível.

— Aquela luta… deixou marcas que ainda não consegui curar — confessa, a voz vacilando. — Quando nos falamos naquele último dia, eu não quis dizer que não acreditava em você, é só que…

Dóryon a interrompe com gentileza:

— Eu sei. Não precisa se explicar. Na verdade… eu não aceitei esse duelo só pelo que a Auror fez com você. Mas pelo que ela fez comigo também. Te ver daquele jeito… me feriu mais do que imaginei.

Os olhos de Yoonji se encheram de lágrimas.

— Me perdoe — diz ela, quase num sussurro.

Dóryon sorriu de canto e lhe deu uma cotovelada leve no ombro.

— Ei… cadê aquela garota durona? Não tem nada pra perdoar. Somos amigos, não somos?

Ela limpou as lágrimas depressa e forçou um sorriso, que logo se transformou em um verdadeiro.

— Acho que… estava chorando por sua causa. Foi só encenação. — provoca.

De repente, Lioren surgiu correndo, vestindo a mesma armadura cerimonial. Ele parecia mais pálido que o normal.

— Aí está você! Todos já chegaram. Estão te esperando. Não pode se atrasar.

Dóryon pousou a mão no ombro do amigo.

— Já estou indo. Mas antes… Lioren, essa é a Yoonji, uma grande amiga e uma guerreira de verdade. — Ele diz com um olhar sincero, e com orgulho.

Yoonji abriu um sorriso radiante. Lioren travou.

— É… é um prazer conhecê-la. — diz ele, a voz meio falha.

Ela o envolveu com o braço, como se o conhecesse havia anos.

— O prazer é meu! Vi você dobrando o fimber no último treino — foi incrível. Tenho certeza que seremos ótimos amigos.

— Si… sim, eu… também acho.

— Vamos, precisamos pegar nossos lugares — diz Yoonji, puxando-o pelo ombro com naturalidade.

Mas antes de partir, ela virou para Dóryon com o olhar inflamado.

— Acabe com aquela vadia. Por nós dois.

Dóryon sorriu, simples, mas cheio de significado.

— Pode deixar.

Ele respirou fundo e entrou no vestiário. Vestiu a armadura. Amarrou as tiras com as mãos trêmulas, mas firmes.

Pegou o escudo.
A espada.
E caminhou para o campo de treinamento.

Dayla estava ali. Auror também; já batia o machado contra o próprio ombro, impaciente, os olhos azuis sombrios fixos em Dóryon como um predador que avaliava a presa.

O murmúrio dos alunos ficou mais intenso. Dayla deu alguns passos para trás e abriu espaço.

Auror girou o machado de uma forma que revelava anos de caça e sobrevivência; não técnica refinada, mas instinto assassino. Os pés se moviam como os de um animal selvagem.

O venwin começou a soprar ao redor dela. A garota controlava o ar como extensão do próprio temperamento feroz. Galanor observou, séria… até perceber algo.

Os passos de Dóryon. A postura. O modo como levantou o escudo. Não era o mesmo garoto frágil que lutara contra Ícaruz no passado.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, rápido… mas cheio de entendimento. Dayla reconheceu os traços de alguém moldado por um monstro mais forte que Auror.

— Vejo que os dois já tomaram suas posições, estão prontos? — Questiona Daya.

Com um olhar firme, Dóryon responde: — Sim.

Auror, com um sorriso malicioso, também diz: — Sim, estou.

Dando início a disputa, Dayla diz em alto tom: — COMECEM!

Auror não esperou. Ela inspirou o ar profundamente pelas narinas e, ao soltar o venwin pela boca, impulsionou o corpo para frente com uma explosão violenta da dobra; o chão atrás dela levantou poeira.

O avanço foi tão rápido que alguns alunos deram um passo para trás.

— Nossa… ele vai cair! — murmuram.

— Esse golpe… impossível ser detido — diz outro.

Até Ícaruz, que normalmente despreza Dóryon, ergue as sobrancelhas, surpreso com a brutalidade da investida de Auror, e imaginando o findar da batalha.

O machado desceu como um raio.
Um golpe que qualquer garoto comum teria sido partindo ao meio.

Mas…

CLAAAAANG!!

O aço encontrou o escudo.

Não o derrubou.
Não o fez ceder.

Dóryon travou a postura, exatamente como Isaac ensinou, e o impacto ecoou por todo o campo.

Auror arregalou os olhos.

O choque percorreu seus braços.

— Não é possível… — murmura Ícaruz.

Dayla sorriu abertamente agora.

Auror deu um salto para trás, como um animal ferido na própria confiança, e encarou o garoto com uma mistura de surpresa… e raiva.

Dóryon levantou o escudo novamente, firme. Respirou fundo.

E pensou:

“Isaac… funcionou.”

Auror recuou alguns passos e girou o machado para retomar o equilíbrio. Os olhos azuis, profundos e selvagens como o oceano em tempestade, agora cintilaram com algo novo, um alerta.

Ela entendeu finalmente as palavras do pai e pensou nelas.

“Realmente, pai, ele é mais perigoso do que qualquer outro dobrador, mesmo sem ter uma dobra.”

A caçadora ergueu o queixo, respirou fundo e, pela primeira vez naquele combate, passou a observar Dóryon como um predador observa outro predador.

— Então é assim… — ela murmura, estreitando os olhos.

Dóryon avançou.

Desta vez, não com hesitação. Não como o garoto do quinto dia de treino.

Mas como o jovem que enfrentou Isaac, o Guardião, e sobreviveu.

Ele levantou o escudo e o inclinou de maneira calculada, bloqueando parcialmente a visão de Auror. O público prendeu a respiração. Pareceu uma aproximação simples, previsível até demais.

Mas não para ela. Auror sorriu de canto, aquele sorriso tipicamente impulsivo.

— Entendi o que você quer fazer…

Quando o golpe com a espada veio, ela inclinou o corpo para o lado, leve como quem desvia de um ramo no meio da floresta. O público já começou a relaxar — “Auror leu o ataque, acabou para ele”.

Mas então…

No meio da esquiva dela, algo rompeu o ar.

Um impacto. Seco. Violento.

Dóryon usou a base do próprio avanço para impulsionar o corpo; torceu o tronco e projetou o escudo com uma força que nenhum aluno, ninguém, esperava ver ali.

A borda metálica do escudo atingiu o rosto de Auror. Um estrondo ecoou pela arena.

O chão vibrou.
As folhas tremeram.
Os alunos congelaram.

Até Ícaruz arregalou os olhos. Dayla levou a mão ao queixo, surpresa.

Yoonji comemora gritando: — É isso ai! Boa Dóryon!

A repreendendo, Galanor diz: — Contenha-se, e preste atenção.

— Desculpe instrutora, responde, com vergonha.

Já Lioren tocou sutilmente no ombro de Yoonji e diz: — Ele conseguiu!

— Sim, ele está muito mais forte que antes! — Diz Yoonji, olhando com orgulho para o amigo.

Auror… não entendeu o que aconteceu por um segundo. O mundo girou, o machado escapou parcialmente da mão, e ela pisou para trás, cambaleando.

— C-como…? — ela murmura, tocando o rosto marcado.

E ali, diante de todos, o garoto que não tinha dobra, que até uma semana atrás mal aguentava o peso da armadura, mostrou pela primeira vez do que realmente era capaz.

Auror não hesitou. O golpe que Dóryon acertou com o escudo a deixou furiosa, mais do que ferida. Os olhos faíscaram, os caninos cerrados como os de uma jovem predadora encurralada.

Num instante, ela avançou novamente, mas desta vez não como uma criança impulsiva, e sim como uma caçadora treinada para matar.

Os passos dela eram leves, rápidos, quase irreais; o machado cortava o ar em movimentos imprevisíveis, cada ataque mais feroz que o anterior.

Dóryon ergueu o escudo.

CLANG. CLANG. CLANG.

Cada impacto fez seus braços vibrarem, mas ele aguentou. Acompanhou o ritmo, respondeu na mesma velocidade — algo impensável para quem o viu lutar pela primeira vez uma semana atrás.

A multidão começou a murmurar, impressionada. Dois jovens, mas duelando com a ferocidade de veteranos.

Auror percebeu isso também… e então sorriu.

— Hmph… então é assim que você quer brincar… — sibila ela, deslizando para o lado.

Num movimento calculado, Auror puxou uma inspiração profunda pelas narinas e encheu o peito. Quando exalou, soltou o venwin como uma explosão súbita que irrompeu sob seus pés.

O chão vibrou.
A poeira se levantou em uma nuvem de areia e pó.

Ela envolveu Dóryon.

Ele tossiu, ergueu o escudo, tentou se orientar, mas perdeu a visão por um momento.

— Agora! — rosna Auror.

Ela avançou como uma flecha.

O machado desceu num arco perfeito, pesado, preciso.

THRAAAM!

O golpe acertou o escudo com força brutal. O impacto atravessou Dóryon como um choque; os pés deslizaram no chão, e o corpo foi lançado para trás. Ele girou no ar antes de cair com força no solo, rolando algumas vezes até finalmente parar.

Um silêncio repentino dominou o campo.

A poeira baixou.

A multidão prendeu a respiração. Yoonji se assustou; Lioren também, e ambos ficaram atentos, à espera do desfecho daquele golpe.

Auror abaixou o machado, ofegante, mas triunfante. O olhar dela, apesar da ferocidade, revelou respeito pela primeira vez.

Dóryon, caído, sentiu o braço latejar, mas estava vivo. E soube que aquele golpe só o faria levantar mais forte.

Auror tomou postura novamente, com a ferocidade de quem não aceita ser superada. Ela inspirou rápido pelo nariz, o peito inflando, e soltou o venwin pela boca, canalizando-o ao redor dos próprios pés. O elemento girou como lâminas invisíveis e a impulsionou com velocidade insana.

Ela disparou.

O machado cortou o ar, um silvo mortal.

Dóryon tentou firmar os pés, mas o golpe o atingiu com uma violência que vibrou por todo o corpo. Ele foi jogado para trás, deslizou pela areia. Os braços latejaram, tremeram, e uma ardência profunda percorreu seus músculos.

Mas ele não cedeu.

Com um grunhido, Dóryon se ergueu e fechou a guarda, percebendo que qualquer abertura agora significaria derrota. Ele encarou Auror de frente, olhos firmes, e avançou.

A troca seguinte foi brutal.

Auror girou o machado com precisão feroz, e Dóryon levantou o escudo no exato momento, bloqueando o ataque. O impacto ecoou como um trovão. Antes que ele pudesse contra-atacar, ela já se moveu, rápida demais, esquivando da lâmina que ele tentou desferir.

A luta passou a ser uma dança selvagem.

Cada golpe repelido.
Cada esquiva milimetricamente calculada.
Cada respiração arrancada do fundo da alma.

Ambos começaram a vacilar.

O suor escorreu, misturado ao sangue.
Os hematomas se multiplicaram, marcando seus corpos jovens.
As pernas arderam; cada passo foi sustentado pela pura vontade de não cair.

A multidão, antes barulhenta, ficou em silêncio, hipnotizada pela velocidade, coragem e brutalidade da luta. Sussurros ecoaram:

— Como eles ainda estão de pé…?
— Isso não parece um combate entre iniciantes…
— O que Dóryon passou para lutar desse jeito?

Yoonji rezou pelo amigo, aflita, e Lioren, nervoso, não conseguiu desviar o olhar da luta.

Auror cerrou os dentes, determinada a finalizar. Dóryon fez o mesmo.

Eles avançaram ao mesmo tempo.

O machado ergueu-se em um arco letal.
A espada de Dóryon lampejou com intenção certeira.
O chão vibrou com o impacto do venwin sob os pés da garota.
A mão de Dóryon apertou o escudo, pronta para o choque final.

Mas o golpe nunca aconteceu.

Um estrondo seco cortou a arena.

Dayla surgiu entre os dois com a precisão de uma lâmina divina e interceptou ambos os ataques com as mãos nuas.

— BASTA! — sua voz ecoa, firme e inquestionável.

Auror e Dóryon ficaram imóveis, ofegantes, suados, quase desabando.

Dayla olhou de um para o outro, não com reprovação, mas com espanto e orgulho.

— Se continuassem assim, um de vocês não poderia participar mais das aulas, é não quero que outro incidente como esse volte a acontecer.

Ambos abaixaram as armas, exaustos, tremendo, mas com os olhos brilhando com o fimber da batalha.

A multidão explodiu em murmúrios e exclamações incrédulas, e Yoonji soltou um suspiro longo, de tanto que segurou a respiração. Já Lioren, novamente, viu em Dóryon uma inspiração, alguém a se espelhar, um guerreiro inabalável.

 

Fim do Capítulo VIII

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