Volume I

Capítulo VII: Sangue, Suor e Honra | Parte II

Isaac ajudou Dóryon a vestir a armadura, peça por peça.

Peito.
Ombreiras.
Braçadeiras.
Coxotes.
Grevas.

Cada parte era pesada o suficiente para mudar a postura do garoto. Quando terminou, Dóryon quase afundou na grama.

Ele tentou levantar os braços e mal conseguiu.

— Céus… isso pesa muito!

— Ótimo, — Isaac diz. — Significa que está funcionando.

O guardião colocou o escudo no braço esquerdo de Dóryon. O garoto quase tombou para o lado.

— Talvez… pesado demais funcionasse menos… — Dóryon reclama, trêmulo.

Isaac empurrou o escudo de volta à posição.

— Firme!

Ele o segurou pelos ombros.

— Você acha que sua adversaria vai pegar leve, só porque você é filho do primeiro comandante das tropas imperiais? Ela controla o venwin, garoto. Com um golpe, ela te joga três metros para trás. Se você não aguentar, não tem luta. E se não tem luta… não tem vitória.

Isaac deu dois passos atrás.

— Já que você não tem dobra, vamos treinar aquilo que todo mundo esquece.

Ele ergueu o dedo.

— O peso.

Isaac apontou para o fim do campo.

— Primeiro exercício: caminhar até ali e voltar.

— Só… isso?

— Isso.

Ele sorriu.

— Boa sorte.

Dóryon deu o primeiro passo.

O pé afundou.
O corpo pendeu para frente.
O escudo quase o derrubou.

— Aaaagh…

— Isso aí, — Isaac comenta com orgulho. — A postura de um herói nascendo.

Dóryon caminhou mais três passos… e caiu de joelhos.

— Isaac… acho que… minhas pernas vão quebrar…

— Excelente. Sinal de que estão acordando.

 

(Meia hora depois)

 

Dóryon estava deitado na grama, arfando como se tivesse corrido uma maratona. Isaac mastigava uma maçã ao lado, tranquilo.

— Isso foi a primeira volta, — ele diz. — Faltam mais quatro.

— Quatro!?

Dóryon virou de lado.

— Eu… eu não consigo…

Isaac se abaixou, segurou o rosto do garoto entre as mãos e o obrigou a encará-lo.

— Dóryon.

— Você está lutando contra uma garota que dobra venwin provavelmente desde os sete verões. Ela é mais rápida, mais forte, mais treinada e mais experiente.

Dóryon engoliu seco.

Isaac sorriu, mas foi um sorriso diferente desta vez. Não o galanteador. Não o preguiçoso. Um sorriso sério. Honesto.

— Porém, você tem uma coisa que ela não tem.

— O quê?

Isaac colocou a mão no peito do garoto.

— Vontade. — E vontade, Duryan… vence tudo.

— Meu nome é Dóryon!

Levantando e ficando de frente com ele, Isaac diz.

— Tanto faz, agora vamos, mostre do que você é feito!

Dóryon levantou.
Caiu.
Levantou.
Caiu de novo.

O sol já estava alto quando o garoto finalmente completou a segunda volta.

As mãos tremiam.
As pernas doíam.
O suor encharcava a armadura.

Isaac cruzou os braços.

— Muito bem.

Ele apontou para o fim do campo.

— Agora vem a parte divertida.

— Mais? — Dóryon quase chora.

Isaac sorriu como quem prepara uma tortura.

— Sim.

— Agora eu vou te empurrar enquanto você tenta ficar de pé com esse escudo.

Dóryon arregalou os olhos.

— O QUÊ!?

Isaac abriu a capa branca, alinhou os pés no chão e assumiu postura de luta.

— A muralha precisa aprender a não cair, Dóryon.

Ele deu um tapinha no escudo.

— Vamos ver se você quebra… ou se você resiste.

O guardião deu o primeiro passo.

O campo pareceu tremer.

Dóryon respirou fundo.

E o treinamento, o verdadeiro treinamento, começou.

Isaac girou os ombros como quem se aquecia para um combate sério — embora estivesse prestes a empurrar uma criança de doze outonos com uma porta de metal no braço.

— Preparado?

— Não, — Dóryon responde.

— Ótimo. — Isaac sorri. — Se estivesse, eu me preocuparia.

O guardião inspirou fundo. E então…

Um passo.
Outro.
O terceiro já foi rápido demais.

Isaac avançou como um touro branco, a capa balançando, o venwin levantando poeira atrás dele.

Dóryon tentou posicionar o escudo, mas o peso o desequilibrou.

— FIRMA—

Isaac colidiu contra o escudo.

O som ecoou pelo campo como um trovão de metal.

Dóryon voou para trás. Literalmente.

O garoto girou no ar, com a armadura pesando nas articulações, e caiu de costas na grama.

— AAAAAAGH—

O ar fugiu de seus pulmões.

Isaac estalou a língua.

— Droga… pensei que você ia aguentar pelo menos um segundo.

Dóryon tentou puxar ar, mas só conseguiu soltar um gemido fraco.

O guardião se aproximou, agachou ao lado do garoto e apontou para ele.

— Você vai levantar sozinho.

— Eu… eu não consigo mover as pernas…

— Então mova os braços.

Isaac cruzou os braços.

— E depois as pernas vão ter que seguir, é assim que funciona.

Dóryon fechou os olhos. Suas mãos tremeram. A armadura pareceu ter o peso de um mundo inteiro.

Ele empurrou o chão.

Nada.

Empurrou de novo.

A grama escorregou.

Isaac observou, sem ajudar.

— Vamos, Dóryon. Você acha que a auror vai esperar você levantar? Ela vai te derrubar de novo antes de você se recompor.

Dóryon rangeu os dentes. As lágrimas ameaçaram cair, mas não caíram.

Ele empurrou com toda a força.

Os braços tremeram.
Os músculos queimaram.

E, finalmente…

Dóryon se ergueu sobre um joelho.

Isaac abriu um sorriso orgulhoso.

— Aí está.

Depois de mais um esforço doloroso, o garoto enfim se levantou, arquejando.

— Muito bem, — Isaac anuncia, dando dois passos para trás. — Segunda tentativa.

— SEGUNDA!? — Dóryon grita.

E Isaac avançou.

A segunda empurrada derrubou Dóryon mais rápido que a primeira.

A terceira o jogou de lado.

A quarta o fez rolar morro abaixo e parar com a cara no mato.

A quinta o deixou tonto, vendo três Isaacs ao mesmo tempo.

Mas na sexta…

Isaac empurrou com força — talvez até demais — e Dóryon quase caiu.

O escudo vibrou.
O peso balançou.
O garoto deslizou para trás, riscando trilhas na grama.

Mas ele…

não…

caiu.

Ele firmou as pernas, empurrou o escudo à frente e soltou um grito rouco:

— AAAAAAH!

Isaac parou.

O guardião o observou, surpreso; depois sorriu devagar, como um professor vendo um aluno acertar um golpe pela primeira vez.

— Finalmente.

Ele deu um tapinha no ombro de Dóryon.

— A muralha ficou de pé.

Dóryon caiu de joelhos logo depois, exausto, mas sorrindo mesmo assim.

 

(Enquanto isso, em uma caverna, distante dali…)

 

Caçadores envoltos em mantos rústicos e peles grossas aguardavam, imóveis como troncos, diante da entrada da caverna escura. 

Seus arcos e machados estavam prontos para qualquer surpresa que emergisse de lá — mas não esperavam o que veio a seguir.

Auror surgiu primeiro.

Uma figura firme, coberta pela pele de um Canis Sabre dos pântanos de Pandora, jogada sobre os ombros como um troféu. 

Seu rosto, braços e parte do peito ainda estavam tingidos pelo sangue espesso e escuro da criatura que derrotara — sangue de monstro, sangue proibido.

Arrastando a carcaça com as duas mãos, ela a lançou aos pés dos caçadores, e o chão vibrou.

— Aí está. — disse ela, ofegante, mas triunfante. — Ele fugiu para o fundo da caverna. Achou que a escuridão fosse sua amiga… mas eu fui mais rápida.

A besta era grotesca: um canídeo deformado, coberto por pelos longos que se emaranhavam como teias viscosas. Mesmo sem luz, seus seis olhos refletiam um tom escarlate que parecia pulsar.

— O que um Daarim está fazendo nesta floresta? — murmurou um dos caçadores, intrigado.

Auror limpou o rosto com o antebraço.

— Talvez tenha perseguido algo até aqui… ou apenas decidiu se esconder. Não encontrei sinais de outros dentro da caverna.

Outro caçador surgiu por entre os arbustos, pesado e silencioso como uma fera. 

Era mais velho — cerca de quarenta e cinco outonos — cabelos escuros já mesclados de fios prateados, barba densa com uma trança na ponta, e um rosto marcado por uma cicatriz profunda na lateral direita, como se algo tivesse arrancado parte da carne.

Os olhos, porém, eram iguais aos dela.

— Talvez esteja certa — disse ele, Urikay. — Mas por precaução, mandem patrulhar a arena e arredores. Se houver mais desses monstros, ou qualquer rastro que leve a eles, eliminem. O imperador foi claro: nenhum monstro ou dashi deve circular por esta floresta.

— Sim, senhor Urikay — responderam dois caçadores, que rapidamente se retiraram para cumprir a ordem.

Urikay então voltou-se para a filha.

— E você, Auror… deveria ter mais cuidado. Se uma única gota do sangue desse dashi tivesse caído na sua boca, você já estaria morta.

Auror respirou fundo, irritada, mas tentou conter o olhar.

— Eu sei me cuidar, pai. Não precisa se preocupar.

Urikay estendeu-lhe um pano úmido.

— Você sempre foi temperamental. Prudência nunca fez parte do seu vocabulário.

— Ele estava ferido. Eu tinha tudo sob controle.

— Um monstro ferido — disse ele, e caminhou alguns passos adiante — é três vezes mais perigoso que um saudável.

Quando já estava de costas para ela, completou:

— Lembre-se disso também quando enfrentar o filho de Darvor. Mesmo sem dobra… ele pode ser três vezes mais perigoso do que qualquer dobrador.

Auror apertou o pano com força até quase rasgá-lo; depois o lançou contra os terarths próximas à caverna. Em silêncio, seguiu o pai pela trilha e desapareceu entre as sombras da floresta.

De volta a Dóryon e Isaac. O guardião se esticou, como se o aquecimento dele tivesse apenas começado.

— Muito bem, Dóryon.

Ele apontou para o céu.

— Agora que você aprendeu a cair e levantar…

Ele ergueu o dedo indicador.

— Vamos para a parte difícil.

Dóryon arregalou os olhos, pálido.

— A parte difícil!?

Isaac sorriu como um demônio generoso.

— A corrida com armadura e escudo, claro.

Ele apontou para a floresta.

— Até as árvores e de volta. Cinqüenta vezes.

— CINQÜENTA!?!?

— Sim.

Isaac cruzou os braços.

— Ou você quer perder para a auror?

O sangue de Dóryon ferveu.

O garoto se pôs de pé — trêmulo, cansado, quase desabando — mas firme.

— Eu… não… vou perder…

Isaac sorriu como quem via um campeão nascer.

— Então corra, garoto.

— Corra até virar muralha.

As cinquenta corridas pareceram intermináveis.

A armadura pesava como se fosse feita de chumbo.
O escudo era um bloco de terarth preso ao braço.

Dóryon tropeçou na nona volta.
Caiu na décima quarta.
Rastejou na vigésima.
Vomitou na trigésima terceira.
E, nas últimas cinco… correu apenas por teimosia.

Quando finalmente alcançou Isaac, o corpo inteiro tremeu — como se cada músculo pedisse para desligar.

Isaac assentiu, satisfeito.

— Chega por hoje. Se continuar, você vai desmaiar no meu colo, e eu não quero carregar peso morto.

Ele soltou um suspiro exagerado.

— A não ser que seja uma moça bonita. Aí eu não reclamo.

Dóryon não conseguiu nem rir; a respiração saiu como um arranhão.

Isaac então se agachou, segurou o garoto pelo braço e o ajudou a caminhar até a mansão.

— Dolores! — ele chama. — O garoto vai desmanchar se eu continuar batendo nele. Cuide dele até amanhã.

A governanta surgiu na porta, preocupada ao vê-lo quase desmaiando.

— Meu Deus! O que o senhor fez com ele!?

— O básico. — Isaac responde.

Ele deu de ombros, como se tivesse entregado um saco de farinha e não uma criança semiconsciente.

Dolores puxou Dóryon para dentro, escandalizada.

Isaac, por sua vez, virou o rosto para trás e acenou:

— Garoto! Parabéns por não morrer.

Ele piscou com charme para uma das empregadas, tocou o ombro dela e disse:

— Vem… vou te mostrar uma coisa muito interessante.

E desapareceu com ela pelos caminhos da propriedade, deixando apenas a capa branca balançando ao venwin.

Mais tarde, a mesa estava posta, o jantar servido, e Darvor observou a cadeira vazia ao lado. Ele franziu o cenho.

— Onde está Dóryon? Ele não desceu para comer?

 

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