Volume I

Capítulo VII: Sangue, Suor e Honra | Parte I

O rugido ensurdecedor da multidão do Coliseu ainda vibrou nos ouvidos de Dóryon enquanto as lamparinas se apagavam e o corpo do Scordrak era arrastado para fora da arena. 

Os dois gladiadores sobreviventes ergueram as lâminas para o público e foram engolidos pela aclamação.

Lioren, com o rosto animado e as mãos trêmulas, virou-se para Dóryon:

— Eu disse que ia ser incrível, não disse?

— Foi… muito mais do que eu imaginava — respondeu Dóryon, ainda impressionado. — Obrigado por me chamar.

Lioren ficou nervoso e alegre com a afirmação e gaguejou.

— Que isso… era o mínimo. Você é… você sabe…

Dóryon riu.

— Não precisa ficar nervoso.

Jenma, elegante e serena, colocou a mão no ombro do filho.

— Lioren ficou a semana inteira ensaiando como convidar você, Dóryon. Não perca a coragem dele de vista — brincou.

— Mãe!

Sienna sorriu com educação, e Darvor permaneceu sério como uma muralha, embora os olhos observassem tudo com atenção militar.

Na saída do Coliseu, sob o céu já escuro, todos se despediram.

— Obrigado pelo cez vazene — disse Sienna a Jenma. — Vou abrir em uma ocasião especial.

Ela inclinou a cabeça em respeito.

— Temos uma frase que dizemos ao se despedir de amigos e familiares: Prosperità e benedizioni per la tua casa. Significa prosperidade e bençãos para sua casa.

— Agradecemos o carinho, também desejamos o mesmo para vocês. Adoramos conhecê-los. — Diz Sienna, também se inclinando.

Lioren e Dóryon bateram as mãos um no outro em um aperto improvisado.

— Até semana que vem? — perguntou Lioren.

— Até — respondeu Dóryon.

E então seguiram, cada família para sua própria carruagem, até desaparecerem na rua iluminada.

Quando a luz suave do venwin matinal atravessou as janelas, Dóryon despertou com uma energia que não sentia havia muito tempo. 

A queimadura em suas costas ainda doía, fruto das aventuras dos últimos dias, mas algo mais forte pulsou dentro dele:

A empolgação de conhecer um Guardião de Arkien.

Vestiu-se às pressas, quase tropeçou nas botas, e correu até o salão principal.

— Dolores? — chamou.

A governanta apareceu, ajeitando o avental, sempre impecável.

— Bom dia, jovem mestre. Já está de pé tão cedo?

— Hoje é o dia, Dolores! O dia que eu vou conhecer o Guardião!

Ela sorriu, maternal como sempre.

— A senhora Sienna comentou que você estaria assim. Sua mãe saiu cedo, foi encontrar outras damas da nobreza para um chá.

Dóryon torceu o nariz.

— Chá… de novo? Elas só ficam sentadas falando de política. Eu não entendo nada daquilo.

— Nem precisa — respondeu Dolores com uma risada curta. — Mas para sua mãe, essas reuniões são importantes. Elas podem trazer aliados… ou problemas terríveis. É uma faca de dois gumes.

— Isso é complicado demais pra mim — murmurou Dóryon.

— Não se preocupe — disse Dolores. — Você tem suas próprias obrigações, como treinar, estudar, e ag—

Antes que concluísse, um barulho ecoou pelos corredores: risos femininos, passos rápidos, vozes excitadas.

— Mas… o que está acontecendo? — perguntou Dóryon.

Dolores franziu o cenho.

— Vou ver isso agora.

Ela caminhou até a porta lateral que levava aos corredores internos da casa. Quando abriu, encontrou a cena:

Três empregadas da mansão, coradas e sorrindo, cercavam um homem alto.

Um homem impressionante.

Cabelos loiros, ondulados e médios. Olhos castanhos vivos. Uma cicatriz marcando a bochecha. Barba curta, porém cheia. 

Corpo atlético, porte firme de guerreiro. Armadura leve cintilante e uma capa branca caindo graciosamente sobre os ombros.

E ele… flertava com todas elas.

— Então vocês realmente preparam tudo isso todos os dias? — dizia ele, com um sorriso torto. — Deve ser um trabalho ainda mais difícil do que lutar contra monstros. Honestamente, impressionante.

As empregadas riram; algumas esconderam o rosto, outras morderam o lábio.

Dolores pigarreou alto.

— Com licença… posso saber quem é o senhor?

O homem se virou devagar, confiante, como se o mundo inteiro fosse um palco para ele.

E então abriu um sorriso cheio de charme:

— Eu?

Tocou o peito com dois dedos.

— Isaac. Guardião de Arkien.

Dóryon congelou na porta.

Seus olhos se arregalaram.

— Você… você é o Isaac?!

Isaac piscou para ele.

— Em carne, osso e cicatrizes, garoto.

E sorriu.

Isaac não só encantava todos, mas trouxe consigo uma presença que infestou todo o salão. Todos ao redor pareceram impressionados, exceto Dolores.

Ela suspirou, exasperada, e tentou impor ordem.

— Pronto, já chega. As duas — trabalho. Agora.

As empregadas saíram rindo baixinho e lançaram olhares apaixonados para Isaac, que fez questão de piscar para uma delas antes de virar para Dóryon.

— Bom dia, pequeno herdeiro — disse ele com um sorriso aberto. — Então você é o filho de Darvor… Realmente, se parecem bastante. Mas vejo que puxou os lindos olhos da sua mãe.

Nervoso e com anseio, Dóryon agradeceu o elogio.

— Obrigado, também estava ansioso para conhecer o senhor.

— “Senhor”? — Isaac entrou em gargalhada. — Por Arllot, garoto, não me mata de velhice. Isaac. Ou “mestre Isaac”, se quiser me bajular.

Dolores revirou os olhos.

— Chame-o de mestre Isaac. Isso vai massageia o ego dele.

Isaac ergueu o queixo.

— Meu ego é perfeitamente saudável. Talvez o mais saudável de toda Arkien.

Depois olhou ao redor da casa e assobiou.

— Preciso admitir, nunca concordei com vocês morando naquela casinha em Terkin. Aqui, sim, é o lugar de vocês. Finalmente Darvor foi reconhecido… já não era sem tempo.

Então mudou o semblante e ficou um pouco mais sério.

— Agora… vamos ao que interessa. Quero entender com o que estou trabalhando.

Ele voltou a atenção para Dóryon e, com um gesto para o garoto, perguntou:

— Que tipo de dobra você usa, Venwin? Terarth? Fimber? Vater?

Uma pausa pesada.

Dóryon sentiu o estômago revirar. Baixou o olhar para o chão.

— Eu… eu ainda não tenho nenhuma dobra.

Silêncio.

Isaac não riu. Não zombou. Não demonstrou decepção. Pelo contrário: sorriu com o canto da boca, interessado.

— Hm. É mesmo?

Ele coçou o queixo.

— Isso complica… mas também deixa mais divertido.

Dolores ergueu as sobrancelhas.

— Divertido para quem? Para você?

— Para o destino, Dolores. O destino adora essas ironias. — Isaac responde, fazendo pose como se recitasse poesia. — O garoto sem dobra… enfrentando um dobrador? E pelo que Darvor me disse na carta, sua adversaria é herdeira dos Ironmantles… duvido que ela seja fraca, estou certo?

Dóryon engoliu seco.

— Sim, ela é a dobradora e guerreira mais habilidosa da classe.

— Viu? — Isaac provocou Dolores. — Eu sabia.

— Não precisa esfregar na cara dele — rebateu ela, irritada.

Isaac deu um passo à frente e pousou a mão firme e calorosa no ombro de Dóryon.

— Escuta aqui, Duryan… dobradores poderosos são comuns.

Ele sorriu, mas agora havia algo mais sério por trás daquele sorriso.

— Guerreiros que superam dobradores? Esses são raros. Memoráveis. Lendas.

— Meu nome é Dóryon, — diz, corrigindo o guardião.

— Tanto faz — murmurou Isaac. — O importante é o seguinte:

Com voz firme, continuou:

— E eu vou fazer de você uma lenda no instituto imperial. Nem que eu tenha que arrancar suas tripas, amarrar numa árvore e te obrigar a treinar só para recuperá-las.

Dolores quase engasgou.

— Isaac!

— O quê? Motivação é tudo.

Dóryon riu nervoso… mas sentiu algo acender dentro dele.

Isaac virou de costas e acenou com a mão, chamando-o.

— Vamos, garoto. Quero ver o que você sabe. Aquele campo atrás da casa serve perfeitamente.

Ele lançou um olhar final por sobre o ombro.

— E aviso logo: eu sou preguiçoso, mas no treinamento… você vai implorar para que eu seja.

Dóryon assumiu sua posição, de frente para Isaac, que disse:

— Cá estamos, com esta bela vista e uma brisa suave… bom, vamos me mostre sua força.

Isaac avançou sem hesitar. 

Dóryon pegou impulso, partiu em alta velocidade e, com jogo de pés, lançou um soco potente sobre Isaac, que se desviou assombrosamente sem nenhum problema.

Ao perceber que precisava chegar perto do adversário, Dóryon tentou encurtar a distância e acertar um gancho, um cruzado de direita, de esquerda, e até alguns chutes longos e uma rasteira.

No entanto, em todas as tentativas, o guardião se esquivou ou bloqueou sem esforço algum, como se dançasse.

— Mais rápido, — Isaac ordena, movendo apenas o tronco.

— Mais força, — ele continua, bloqueando o golpe.

Dóryon tentou acertá-lo no abdômen — Isaac girou. Tentou um chute por entre os pés — Isaac simplesmente levantou a perna. Em segundos, Dóryon já estava ofegante.

Isaac, ao contrário, nem sequer suou.

— Pare. — Ele ergue a mão.

Dóryon parou de imediato, respirando pesadamente.

Isaac caminhou ao redor dele e o analisou como um ferreiro examinava um metal ainda não aquecido.

— Vejo que teve um treinamento competente. Sua forma de lutar me lembra um velho cabeça dura chamado Kyan.

— Ele me treinou. Me ensinou tudo que sei… — sua voz falhou. — Mestre Kyan morreu.

Isaac ficou em silêncio por um momento, respeitando a dor do garoto. Depois falou:

— Ele fez um bom trabalho. Você tem boa base e boas capacidades físicas. Mas sem dobra… terá que enfrentar dobradores de perto. Ou depender de uma arma, como um arco. E ele sabia disso. Por isso lhe ensinou a encarar o inimigo de frente.

— É… o mestre Kyan fez o que pôde. — murmurou Dóryon, com o olhar pesado, fixo no chão.

Isaac franziu o cenho e lhe deu um leve tapa no ombro — não agressivo, mas firme o bastante para puxá-lo de volta.

— Cabeça erguida, garoto. Não há tempo para se afogar em lamentos. — Sua voz endureceu, mas não perdeu a autoridade natural. — Agora me diga, com detalhes, sobre a sua adversária.

Dóryon respirou fundo; sentiu o estômago embrulhar enquanto organizava os pensamentos.

— Como eu disse… Auror é uma dobradora de venwin extremamente habilidosa. Quando vi ela lutar contra Yoonji… — ele engoliu seco, lembrando do impacto daquela luta — cada golpe dela parecia aumentar de força com o uso da dobra. Ficou mais rápida, mais ágil… e muito mais perigosa.

Sua voz tremeu entre frustração e medo.

Isaac coçou o queixo, pensativo, mas os olhos mantiveram um brilho provocador.

— Isso complica bastante, admitiu. — Se ela é tudo isso que você descreveu… então, da forma como está agora, você não tem a menor chance contra ela. Nem força, nem velocidade… nem dobra para equilibrar a luta.

Ele deu um meio sorriso, quase cruel, quase motivador.

— Mas é por isso que eu estou aqui.

Isaac olhou para o céu como se procurasse uma resposta divina.

Então um estalo.

Ele bateu as mãos uma na outra, animado de repente.

— Já sei.

O sorriso dele ficou afiado.

— Você não precisa ser mais rápido que ela… nem mais forte… nem mais pesado.

Ele apontou para o centro do campo.

— Você precisa AGUENTAR.

— A-aguentar?

— Sim.

Isaac girou o dedo no ar.

— Vamos construir você do zero. Se Auror usa o venwin para aumentar o impacto… você vai treinar para receber impacto.

Ele olhou para as empregadas ao longe e gritou:

— Vocês duas! Tragam pra cá uma armadura completa. A mais pesada que encontrarem.

— E um escudo. Não…

Ele pensou por um segundo.

— Tragam um escudo de ferro maciço. Sem ornamentos. Sem buracos. Sem frescura.

As empregadas se entreolharam, assustadas.

— DE FERRO MACIÇO! — Isaac repete.

Dóryon arregalou os olhos.

— Eu… eu vou ter que usar isso?

— Vai.

Isaac cruzou os braços.

— Se você não tem o corpo para resistir aos golpes dela, então vamos construir um. Músculo por músculo. Coluna por coluna. Tendão por tendão.

Ele caminhou até Dóryon, ajoelhou-se para ficar na altura dele e apontou um dedo firme no peito do garoto:

— Você vai se tornar uma muralha.

Dóryon engoliu seco, mas os olhos brilharam com determinação.

— Uma muralha…?

— Sim.

Isaac sorriu, aquele sorriso insolente e confiante de sempre.

— E quando Auror bater em você… ela vai sentir a dor na mão antes de você cair.

Dóryon apertou os punhos.

— Eu estou pronto.

— Espero que esteja mesmo, — Isaac comenta, rindo. — Porque você vai odiar cada segundo.

As duas empregadas voltaram para o campo carregando algo que parecia pesar mais do que elas mesmas. 

Uma armadura cinzenta, completamente feita de ferro maciço, arrastada pela grama. 

O escudo, gigantesco, parecia uma porta de metal, marcado por pequenas irregularidades e pelo brilho frio do metal bruto.

Isaac estalou os dedos, satisfeito.

— Aí está. Perfeita para um garoto de doze anos.

Ele deu uma piscadela.

— Ou para destruir um.

Dóryon deu dois passos para trás.

— Isso… isso não é grande demais?

— Grande? — Isaac ri. — Garoto, isso aqui é o que chamamos de oportunidade de crescimento.

Dolores, que assistia de longe, colocou a mão na testa.

— Senhor Isaac… ele tem apenas doze invernos…

— Exatamente. — Isaac responde. — O melhor momento para moldar alguém é quando ainda é maleável.

Dóryon, embora assustado, inspirou fundo.

— Eu posso tentar.

Isaac abriu os braços.

— Isso que eu gosto! Coragem inconsequente! A melhor ferramenta de um mestre preguiçoso.

 

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