Arcanum Brasileira

Autor(a): Gabriel Barrenha


Volume 1

Capítulo 4: A Mary é tão...

Ponto de vista de Elizabeth Snow

 

Eu estava na varanda dos Hofirman's, com a rua vazia e silenciosa, tornando aquela uma tarde tranquila, mas carregada de angústia. O Neri dormia a 28 horas seguidas.

Peguei uma das várias pedras que enfeitavam o vaso que havia ao lado e mirei numa árvore; joguei e… droga, passou de raspão! Bufei. Joguei mais uma vez, acertando-a.

— Isso! — Ergui os braços, comemorando.

Ouvia as vozes do meu pai e do senhor e senhora Hofirman. Eles conversavam freneticamente sobre o mundo sobrenatural, comentaram pouquíssimas coisas comigo ao acordar.

Aparentemente eu tinha poderes, sendo capaz de criar e controlar gelo e neve.

Os sobrenaturais são divididos por famílias, cada uma com a sua especialidade. No caso da  minha, assim como as demais, a mesma é representada pelo nosso sobrenome; pouquíssimas, como os Hofirman’s, não tem um poder específico. Um pode criar e controlar fogo, outro pode fazer isso com água, e outros, como a Mary, tem poderes psíquicos.

Disseram-me que quando o Neri acordasse, explicariam-nos algumas coisas sobre esse mundo do qual fazemos parte.

Me encolhi no banco que estava sentada, abraçando os joelhos. O Neri não havia acordado ainda e, aparentemente, tudo que vivemos e aprendemos até hoje não valerá de nada.

Suspirei. 

Pela primeira vez em muito tempo, eu estava sem ele ao meu lado… e não sabia o que fazer.

— Está preocupada? — Mary saiu de dentro da casa e parou na porta, ao meu lado.

— Sim… Um pouco pelo Neri, um pouco por mim… Pensar que não temos a menor idéia do que nos espera me faz estremecer.

Ela sentou-se ao meu lado e cruzou as pernas. Tranquila e indiferente, como sempre.

— Poderia dizer que sei como se sente ou que já passei por isso, mas não seria verdade.

— Como assim?

— Eu sempre estive inserida nesse meio. Para mim, tudo isso é normal. — Ela riu. — É até estranho vê-la preocupada com algo assim.

— Por que… esconderam essas coisas de nós? Sabe, não é como se não pudéssemos lidar com isso.

Mary ficou em silêncio; parecia procurar as palavras certas.

— O mundo dos sobrenaturais é cruel, Elizabeth… Mais do que o dos comuns. E eles não queriam envolver vocês  em circunstâncias que os prenderiam, pelo resto de seus dias, a uma vida de dor e perdas; como eles estão presos… Digamos que eles foram crianças que precisaram amadurecer rápido demais, e tentaram fazer de tudo para que não passassem pelo mesmo.

— E por que não fizeram o mesmo com você e o Meufrin? Digo, pelo menos eu tenho a impressão de que o meu irmão sabia de tudo isso…

— Eles até tentaram, mas o grande continente estava um caos completo. Não tinha como esconder de nós, já que viajávamos o tempo todo em missões diplomáticas e estratégicas, ou algo do tipo.

Ela deu de ombros. Parecia lamentar o que dizia.

— Então as vezes em que o Sr. Hofirman saía para viajar e ficava uns dias fora…

— Sim, ele estava em uma dessas missões — completou Mary.

— Ah… Entendi.

— Enfim — ela retomou —, eles queriam agilizar ao máximo o fim da guerra; ou amenizar as coisas, para que os dois não fossem tão afetados por ela. Não queriam que fossem puxados para um conflito do qual não são responsáveis.

— Mas esconder que temos poderes não é perigoso? E se entrarmos em colapso por não sabermos controlar?

— É exatamente por isso que decidiram, finalmente, revelar. Os dois estão na idade certa para ir a uma escola especializada no treinamento de habilidades sobrenaturais. Aparentemente irão mandá-los para WallBright.

WallBright?! — Gargalhei. — Que nome mais estranho.

— É estranho mesmo! — Mary me acompanhou na risada — Porém é quase um consenso na comunidade sobrenatural que ela é a melhor escola de todas; embora eu tenha as minhas dúvidas. Wallbright não ensina combate com armas brancas melhor do que Cavalaria, ou magia melhor que a Acadêmia das Bruxas, por exemplo. Mas enfim — espreguiçou-se —, isso não quer dizer que não estarão em boas mãos.

— Você estudou lá?

— Eu? Não, não. — Balançou a cabeça. — Não precisei ir a uma escola como aquela. Tudo que aprendi, ou foi com os meus pais, ou sozinha; o meu poder não é tão difícil de controlar, afinal sou uma Hofirman. Somos prodígios desde que nascemos! — Mary mostrou um sorriso confiante.

Ela me olhou por uns instantes em silêncio.

— O que foi?

Estava ficando sem graça com seu olhar.

— Você gosta dessa vida aqui fora?

— Bom… A minha vida é comum, sabe? Não tenho do que reclamar, embora o Neri seja o meu único amigo. — Sorrio, lembrando dos nossos dias juntos; um calor aconchegante trouxe-me paz naquele instante. — Eu gosto dos nossos momentos pacatos aqui.

— Então seja forte, Elizabeth — Mary afirmou, de forma quase grosseira.

— Forte?

Ela pegou uma pedra daquele mesmo vaso que eu havia pego anteriormente.

— Forte — repetiu, enquanto a pedra girava numa velocidade assustadora sobre a palma da sua mão, desfazendo-se numa nuvenzinha de poeira flutuante. — Até que ninguém possa lhe dizer o que fazer. Quando isso acontecer, poderá viver essa vida que tanto gosta.

A pequena nuvem de poeira voltou novamente a ser uma pedra, que disparou como um raio em direção a mesma árvore de antes; deixando um buraco perfeitamente redondo, atravessando-a de um lado ao outro.

Arregalei os olhos, surpresa com aquilo.

— Então quer dizer que você é forte?

— Muito mais do que imagina. — Se gabou orgulhosa. — Mas me esforcei muito para me tornar o que sou hoje! Sou como você, sabia? Por isso me tornei forte.

— Como eu? — questionei.

— Sim! Eu gosto do mundo sobrenatural, afinal, faço parte dele; mas quero viver longe da loucura que ele é… — Ela não me olhava ao dizer essas palavras. Parecia contemplar o céu, enquanto os seus olhos se perdiam na imensidão azul. — Por mais que eu seja uma Hofirman, isso não é para mim, é tudo tão complicado, rígido e perigoso. Já os comuns… eles são tão simples e frágeis, Eu me pergunto como conseguem desfrutar de uma vida tão instável, que a qualquer instante lhes pode ser tirada? É essa vontade de sentir o que eles sentem, ter o que eles tem… que me faz fugir do nosso mundo… Enquanto corro para abraçar o deles.

A olhava impressionada. Como ela conseguia ser tão poderosa e tão simples ao mesmo tempo?! Sempre a admirei muito, vendo-a como uma irmã mais velha; mas naquele momento, aquelas palavras, fizeram-me entender o porquê dela ser tão incrível…

— Opa! — Ela olhou para cima. — Ele acordou.

— O Neri?!

— Sim.

Levantei num pulo e corri para dentro da casa. Subi as escadas o mais rápido que pude, tropeçando umas duas vezes. Atravessei o corredor como um raio e cheguei ao quarto.

Ele estava sentado, à beira da cama. Parecia atordoado e confuso. Me olhou de cima a baixo, sorrindo.

— Neri…

— Oi, Elizabeth.

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