Volume 1
Capítulo 3: Guerras passadas
A escuridão era absoluta.
Não sentia o meu corpo, nenhuma palavra escapava da minha boca. O único som era o das batidas do meu coração, aceleradas como tambores de guerra prenunciando uma tragédia.
Onde eu estava?! O que a Mary tinha feito comigo?! E... o que havia acontecido com a Elizabeth?!
No meio do caos mental, a ideia de que aquilo pudesse ser permanente quase me levou ao desespero; mas logo me vi enganado.
Um estrondo soou ao longe, começando como um trovão abafado até se tornar quase ensurdecedor. Parecia que eu estava no epicentro de uma tempestade!
Um tilintar de metal misturava-se aos trovões; o cheiro acre de sangue invadia as minhas narinas. Gritos, rugidos e berros se elevavam em um coro de agonia, destreza e dor.
Seria um sonho? Uma alucinação? Por acaso bati a cabeça quando caí?
Um ponto branco surgiu no centro da escuridão. Pequeno e tremeluzente; cresceu rapidamente e logo engoliu tudo.
De repente, eu estava no meio de um campo de batalha. Um verdadeiro massacre medieval. Soldados em armaduras ostentando estandartes rasgados, espadas e machados maiores que seus corpos; parecia um evento de RPG — mas havia sangue e tripas demais.
Uma enorme bola de fogo cruzou os céus, pousando como um cometa sobre um grupo de magos. As labaredas os engoliram enquanto gritavam. Nem a chuva apagava o fogo que carbonizou os cadáveres.
Meu estômago revirou.
Virei para fugir, mas um soldado de tamanho colossal pulou sobre mim. Por reflexo, levantei os braços, mas nada aconteceu; fui atravessado como um espectro.
O brutamontes caiu sobre outro homem e o esmigalhou com socos. Tentei impedi-lo, mas as minhas mãos atravessaram seu corpo.
Tentei desesperadamente parar aquele monstro, mas não o podia tocar, as minhas mãos o atravessavam. Foi quando percebi o ambiente à minha volta.
Uma tempestade caía, raios e mais raios atingiam os soldados. Investidas contras inimigos, feras bestiais correndo e dilacerando corpos, sangue jorrando para todos os lados; pintando o solo com sua cor escarlate, um fogo que consumia ferozmente tudo ao seu alcance! Mas… nada chegava a mim! Nem mesmo o sangue de um homem que agonizava sem os braços.
— Isso é um sonho... — sussurrei, trêmulo. — Tem que ser.
Um grito agudo soou de trás. Virei e vi uma criança sendo dilacerada por uma criatura demoníaca, de presas e garras incandescentes.
Caí de joelhos. Vomitei. Cada centímetro do meu corpo tremia incontrolavelmente; parecia que o chão aos meus pés iria ceder a qualquer instante. Lágrimas molhavam o meu rosto. Por que eu estava vendo aquilo?!
— Você não parece nada bem. — Era a voz do meu pai! Ergui o olhar e o vi parado ao meu lado, sereno. Abaixou-se e me envolveu em seus braços, o seu calor me trouxe de volta a si. — Nada disso é real, Neri.
— Pai? — Retribuí o abraço. — O que é tudo isso?!
— Está tudo bem, vai passar — afirmou com suavidade, afagando o meu cabelo.
E passou.
O som cessou e o caos congelou. Me afastei de seus braços e contemplei o mundo paralisado à nossa volta.
Não foi necessário dizer uma única palavra, ele logo compreendeu a confusão destacada em meu rosto.
— Isso tudo é uma visão criada pela sua irmã, usando os poderes dela — explicou com um ar de orgulho. — Ela melhorou bastante… É quase impossível de distinguir da realidade.
— O que? Poderes?! — questionei. — Então o que vocês estavam falando…
— Sim, era tudo verdade. Mas a sua mãe estava certa, pode ser confuso de se entender logo de cara. Então… — Ele fez um movimento que dissipou tudo numa fumaça escura e densa, deixando-nos de pé em um vazio sem fim. — Vamos começar pelo início, ok?
Mostrou um sorriso para mim, que retribui sem jeito.
— Como sabe, nós somos da família Hofirman, o nosso sobrenome foi a única coisa que não escondemos de você. — Fez uma pausa. — Lembra do que a sua irmã disse?
— Sim… Elizabeth e eu temos poderes.
Confesso que ainda era difícil crer nessa coisa toda de poderes; ao invés de sermos simples adolescentes prestes a entrar na fase mais complicada da juventude: o ensino médio.
— O mundo que você conhece não é o que cerca a família Hofirman à milênios. — Ele virou-se para o nada estendido infinitamente em nossa frente. Fez um gesto com a mão e a fumaça negra de antes retornou, formando imagens; como uma pintura viva que se move de acordo com as suas palavras.
“No início, nós, os sobrenaturais, vivíamos em harmonia com os comuns. Embora fossemos adorados como deuses, isso não nos subia a cabeça. Na verdade, servíamos aos necessitados e protegíamos os fracos. Não havia divisão. Até o dia em que o céu abriu e as estrelas começaram a cair. O momento… em que os nifons chegaram…”
O show de sombras que via era deslumbrante. Fez o pavor que senti pouco antes parecer apenas uma lembrança longínqua.
Mesmo absorto com aquela beleza visual, não deixei de questionar:
— Nifons?
— Não sabemos o que são, de que planeta, realidade ou dimensão vieram, mas apresentaram-se a nós como seres incorpóreos; dotados de imensurável poder!
“O fato de não terem corpos físicos os limitava, não podiam fazer muito pelos habitavam este mundo. Então diversos sobrenaturais e comuns ofereceram-se; esperançosos de que os nifons elevariam a civilização a um nível nunca alcançado!”
Meu pai parou por um instante, como se memórias de um passado distante e nublado passassem por sua mente.
Respirou fundo, antes de continuar:
“Seus corpos eram possuídos em rituais e um ser completamente diferente e transbordando de poder nascia. Capaz de inundar um vale inteiro, fazer o mais seco dos desertos florescer na maior das matas! Trocar continentes de lugar com um único movimento de suas mãos! Tudo era possível, Neri! Até…”
As sombras pararam de se mover e um calafrio percorreu a minha espinha. Era como se cada célula do meu corpo soubesse o final da história, tremendo ao relembrar de um passado obscuro.
“Não havia mais oferendas. Nem sobrenaturais, nem comuns… Ninguém, nem a mais miserável das vidas queria ceder as suas memórias, alegrias e dores. Não queriam deixar de ser quem eram para se tornar outra coisa; mesmo que isso os transformasse em seres divinos.”
— E o que aconteceu? - perguntei receoso.
— Eles forçaram a entrada.
“Para um nifom, um mortal não é mais importante que o bem maior. Se tivessem que possuir 10, 20 ou 100 corpos para ajudar outros milhares, assim seria! O que não esperavam é que as almas fossem resistir. Quando um corpo era possuído sem permissão e vontade da alma, ela era destruída pelo conflito interno; enquanto a consciência do nifom se perdia em insanidade. O corpo deformava-se de maneira grotesca até virar uma máquina de matar sem controle; porém o poder total não era liberado. Estes receberam o nome de troller’s. Eles foram subjugados rapidamente pelos sobrenaturais mais fortes, com a ajuda dos nifons que não se corromperam.”
— Desde então, estamos em guerra contra esses tais troller’s, e aquilo que eu vi agora pouco é um exemplo de uma dessas guerras que aconteceu milhares de anos atrás? — interrompi.
— Exatamente.
— Mas se os nifons eram tão poderosos e estavam ajudando na guerra, por que não vencemos ainda? Ou já vencemos?
— Não, não vencemos. Ela ainda acontece nos bastidores do mundo sobrenatural, longe até mesmo do imaginário dos comuns.
As sombras tornaram a se mexer.
“Quando os nifons perceberam que eram a causa de tudo, deram um jeito de sair daqui, voltar para o lugar de onde vieram, claro que não nos abandonaram à mercê dos troller’s. Aprisionaram-os numa fenda entre o espaço-tempo, onde a vida não floresce, mas também não morre; um lugar impossível de se escapar… Mas houve um que fugiu antes de ser capturado. Ele parou, então, de lutar contra a insanidade e rendeu-se a ela; permitindo o seu corpo se adaptar, tornando-se um nifom completo. Ficou escondido por séculos antes de se revelar novamente, sendo o responsável por trazer a ruína de impérios inteiros e rasgar civilizações com as próprias mãos.”
— Não sabemos ao certo o que ele quer, mas pelo visto estamos atrasando os seus planos. Nunca estivemos tão perto de vencer! — O meu pai parecia alvoroçado. — Como também nunca estivemos tão perto de perder… Tudo dependerá dos próximos passos que tomaremos nos anos que virão, daqueles que participarão da guerra ao nosso lado.
Ele se virou para mim e me encarou:
— Embora eu deteste assumir, já que não queríamos envolvê-los em nada disso, você e a Elizabeth são peças fundamentais nesse jogo. — Estendeu a mão em minha direção. — Quero saber se posso contar com você ao nosso lado.
Estendi a minha mão para apertar a dele, mas uma voz soou em meu interior, reverberando cada célula do meu ser:
“Não caía nessa, garoto.”
Era uma voz masculina, fraca e aflita. Me vi cair num poço de escuridão, perdendo o meu pai de vista. A última coisa da qual me lembro, foi de ouvir a mesma voz novamente:
“Essa guerra não é de sua...”
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