Volume 1
Capítulo 1.2: Nossos Sonhos (2)
Mesmo tendo odiado a parte que Katherine havia brincando de aviãozinho enquanto lhe dava comida diretamente na boca, a refeição ainda assim estava deliciosa. Ethan tinha sorte de ter alguém para cuidar dele como Katherine. Ela lhe deu algumas instruções sobre o que ele podia ou não fazer durante a recuperação do seu braço, pois não podia ficar ali o tempo inteiro apenas para vigiá-lo. Além de ter sua própria vida, sua própria casa e seus próprios problemas para lidar, Katherine também revelou que tinha uma filha da mesma idade que Ethan.
— Hum… e eu conhecia ela antes do acidente? — perguntou, enquanto lia um livro com uma mão só. Ele estava apoiado no outro braço imóvel.
— Vocês nunca se encontraram, mas eu sempre falei muito sobre ela para você no passado, e fazia o mesmo com ela também — explicou, enquanto arrumava suas coisas em uma bolsa, pronta para ir embora. — Bem, já chegou a minha hora. Emma deve estar com fome, fiquei muito tempo focada em você depois do que aconteceu… ela deve até estar com ciúmes!
— Emma, é o nome dela? — questionou, talvez tenha sido essa a garota que viu quando estava naquele sonho. Tinha certeza de que se lembrava dela e de quem ela era antes de se aproximar…
— Sim, Emma é a minha filha. Tenho certeza de que vocês se dariam muito bem caso se encontrassem! Ela gosta muito de livros também, mas tem muita dificuldade de fazer novas amizades… mas por sorte, está sempre acompanhada pela amiguinha dela do clube literário. São uma ótima dupla.
— Clube literário…
Depois que Katherine deixou a casa, tudo ficou extremamente silencioso. Página por página ele ia lendo o seu livro enquanto gradualmente ia sentindo uma espetada no peito. Era a falta que Katherine fazia, e agora Ethan ficaria completamente sozinho até que ela voltasse no dia seguinte. Talvez precisasse dela bem mais do que imaginava.
Movido pelo tédio, levantou-se do sofá e começou a explorar a própria casa. Ela era bem grande então havia vários cômodos em que não tinha visto ainda, ou não se lembrava de ter visto. Mesmo com a gratificante sensação de desbloquear memórias que estavam ocultas pela casa, ele ainda sentia um grande vazio perfurando seus sentimentos. Katherine fazia uma grande falta, não era de se negar. Era como se Ethan só tivesse aquela pessoa na vida, a única que o acolheu.
Enquanto perambulava pela casa, acabou se deparando com um salão musical. Vários instrumentos espalhados pelo salão, e uma incrível visão da cidade pela vidraça que rodeava o cômodo. Do lado de fora, uma sacada com alguns banquinhos ao ar livre. De cara o que mais interessou Ethan foi o violino e o piano, então decidiu parar e testar um deles. Sentando-se no banquinho em frente ao piano, dedilhou as notas devagar. Conforme ia tocando as notas aleatoriamente, uma sinfonia harmônica ressoava do instrumento. Era memória muscular, não sabia exatamente o que estava tocando mas já tinha aquela melodia gravada em seus dedos.
O ânimo para tocar acabou rápido, já que só podia tocar coisas simples usando uma mão. O violino também lhe interessou, mas seria impossível testá-lo sem o outro braço. Ethan não teve outra escolha senão desistir da música por um tempo, e isso acabou lhe desapontando mais do que já estava. A vontade de continuar explorando se foi, e sua próxima parada foi o seu pequeno e solitário quarto. Ali tinha apenas uma cama bem arrumada, um espaço para pintura e um cavalete bem ao lado de uma grande estante com livros e histórias em quadrinhos. Um pouco atrás, uma mesa com pequenas plantas, um abajur e um notebook com alguns cadernos empilhados ao lado dele junto de uma tigela de cerâmica vazia. Do lado da porta do closet havia uma pequena estante com materiais escolares e um porta-retratos em cima. A foto de uma criança de expressão apática e um olhar caído, segurando as mãos de um grande homem dos cabelos longos e negros, com vestes elegantes e posando imponentemente para a foto. Estavam em uma sessão de fotos de algum evento provavelmente importante.
Aquela foto causava em Ethan um sentimento ruim, preferiu não mexer e nem ficar encarando por muito tempo. Deitou-se na cama da mesma maneira em que estava deitado na outra do hospital, um braço incapacitado descansando sobre a barriga enquanto encarava um teto frio e sem graça.
Não demorou muito para que novamente sua mente retornasse para aquele lugar…
A visão foi se clareando e conforme tudo ia ficando mais nítido Ethan pôde ter certeza de que estava no mesmo lugar. Rodeado de flores, em um campo fresco com um belo brilho vindo do horizonte, o sol esbranquiçado. Sentiu que seu corpo estava menos pesado, e quando olhou para as mãos, viu que as faixas no braço tinham sumido. Ele estava novinho em folha.
Foi caminhando, caminhando e caminhando. Nada mudava, o cenário permanecia igual. Tudo se movia de forma tão lenta que era estranho de ver e perceber que ele era a única coisa que se movia na velocidade normal naquele lugar. Andar por ali já estava ficando enjoativo… até que ouviu uma sinfonia. Ela vinha de um bosque por perto, que apareceu de repente ao lado do campo florido. Ethan sem pensar duas vezes adentrou o bosque, se esgueirando cuidadosamente pelos arbustos até que pôde vê-la mais uma vez. Fundo em meio às árvores do bosque havia um piano em um pequeno espaço aberto pelas árvores. Era o único lugar do bosque em que um feixe de luz do sol batia diretamente. O piano, por mais aleatório que fosse, não se tocava sozinho. A mesma garota que esteve no sonho da outra vez tocava-o de olhos fechados… dessa vez, além do vestido branco ela também usava um grande chapéu branco com uma pena branca no topo dele.
Ela estava sentada em um banco de praça, no meio do nada, que estava de frente para o piano. Ethan apenas a observou por bastante tempo, assim como fez da última vez, e do mesmo jeito que antes, ela eventualmente acabou o notando ali. Mas dessa vez não se assustou, apenas sorriu para ele e continuou tocando. Ethan viu isso como um convite e acabou se aproximando dela e do piano, sentando-se timidamente no banco ao lado dela.
Sequer conseguiu olhar nos olhos dela enquanto estava ali, mas ela continuava com a mesma face sorridente para ele a todo momento, como se fosse um irmãozinho mais novo.
Ethan pôde entender a melodia que ela estava tocando, e se preparou para começar a tocar em conjunto. Assim que pôs as mãos no piano…
— Você não estava usando isso na primeira vez que te vi…
Ele se assustou, finalmente pôde ouvir a voz dela. Virou o rosto para encará-la e notou o seu cachecol favorito enrolado no pescoço dela, enquanto ela o cutucava e julgava a qualidade dele.
— Parece que está meio sujo… há quanto tempo você não lava isso? — perguntou, dando uma risada da cara dele.
— Bem, eu não… me lembro. Mas acho que você também não estava usando esse chapéu da última vez que te vi.
A garota sorriu, ajustando o grande chapéu na cabeça e voltando as mãos ao piano para tocar. Manteve o cachecol de Ethan no pescoço, mas dessa vez, ele pareceu não se importar com alguém mexendo nele.
Vendo que ela retornou a melodia, Ethan acompanhou também. Era reconfortante poder usar as duas mãos para tocar dessa vez.
— A propósito… o seu nome é Emma? — perguntou, olhando-a curiosamente de cima a baixo.
A garota arregalou os olhos, um pouco incomodada com a pergunta. Parou de tocar enquanto olhava para as pernas abaixo.
— Não, me chamo Aria. Achei que você sabia, ouvi você sussurrar o meu nome da última vez… — Ethan tombou a cabeça, um pouco confuso com a resposta. Podia jurar que ela era a filha de Katherine, era a única pessoa que podia ter alguma memória para imaginá-la em um sonho. — Como você conhece a Emma?
A pergunta acabou deixando os dois confusos. Ela não era a Emma, mas a conhecia? Talvez, no fim, aquela jovem fosse apenas uma garota aleatória que a mente de Ethan teria criado.
— Eu… não conheço ela, na verdade.
— Hum… — Aria deu mais um leve sorrisinho, carregado com um pouco de decepção também. — Deve ser só minha cabeça brincando comigo. Sonhar com coisas assim de repente. Inclusive, você ainda não me disse o seu nome.
— Ethan, eu acho.
— Você acha? Que coisa, achei que você teria um nome definido.
— Como assim “definido”?
E de repente, como se um raio tivesse caído próximo a eles, um flash de luz clareou tudo por um instante e Ethan acordou imediatamente em sua cama, meio assustado. Olhou para a janela e ainda estava de noite, quase amanhecendo. Foi de fato muito estranho… depois de acordar tão do nada, não importa o quanto tentasse, não conseguia adormecer de novo.
Horas depois, perto do almoço, o barulho da porta da frente sendo liberada ecoou bem alto. Era Katherine, retornando alegremente para ver como seu queridinho estava. O procurou pela casa, chamando alto pelo seu nome, mas ele não respondeu. Na cozinha os pratos estavam todos no mesmo lugar, Ethan não tinha tomado café da manhã, o que deixou Katherine indignada.
— Ethan! — exclamou, abrindo a porta da lavanderia. Lá estava ele, com dificuldade para lavar o seu cachecol no tanque usando uma mão. — O que está fazendo aí?
— Tô lavando ele, me disseram que estava sujo.
— E quem te disse isso? — Ela tomou a frente de Ethan, pegando o cachecol e limpando ele na água para o jovem.
— Minha… imaginação, eu acho.
— Sério? Que bobagem, ele não estava tão ruim assim.
Qualquer um podia ver que o cachecol estava mudando de cor enquanto lavado, era óbvio que a sujeira acumulada ali praticamente já fazia parte dele.
— Ei, você não precisa fazer isso, eu já estava terminando… — Ethan tentou tomar a frente para limpar de novo, mas Katherine continuava no caminho. — Vamos, sou eu quem deveria cuidar dele!
— Sem esforço para você, Ethan.
— Não é como se eu precisasse da sua ajuda o tempo inteiro! Talvez com algumas coisas, mas eu consigo me virar sozinho — rosnou, com arrogância, praticamente empurrando Katherine da frente para voltar a limpá-lo sozinho. Por mais que agora já estivesse praticamente finalizado.
Ofendida, a empregada apenas aceitou. Mas continuou supervisionando de longe para ter certeza de que Ethan não se esforçaria demais. Ela realmente tinha muito carinho com ele, e apenas se dispôs a isso por preocupação. E percebendo isso, Ethan foi se arrependendo no fundo por tê-la tratado dessa forma.
Na cozinha, Ethan decidiu fazer companhia na mesa enquanto esperava Katherine preparar o almoço pacientemente. Ela ainda estava um pouco abalada, não comentou mais nada desde então. Sentindo um nó na garganta, a culpa se espalhava rápido pelo seu corpo. Mas ainda assim não teve empatia o suficiente para pedir desculpas.
— Ultimamente tenho tido uns sonhos estranhos, já é a segunda vez que eu estava no mesmo lugar. — Pela primeira vez decidiu iniciar o assunto, apenas sentindo saudade da positividade de Katherine.
— Hhm, é mesmo? — ela resmungou em um tom de interesse. — Onde você estava no sonho?
— Era um campo cheio de flores e era tudo muito estranho, e devagar também. Tinha uma garota lá…
— Uma garota?
— É. De branco, todas as vezes. Ela me pareceu familiar… mas eu não consigo me lembrar de nada que remeta a ela.
Katherine deu uma alta e longa risada descontraída, o que deixou Ethan meio sem jeito.
— Você sonhando com meninas agora? Acho que já estava na hora. Já tem dezessete anos, logo vai virar um rapazinho.
— Não fala desse jeito, não foi nada demais.
— Nada demais, hum? Como foi esse sonho, algo romântico?
— Não foi nada disso. Foi só… esquisito. Não sei dizer.
Logo, Katherine já estava servindo o almoço. Era uma salada bem saudável junto de um belo pedaço de peito de frango com um molho especial e algumas batatas.
— E só para avisar, dessa vez eu consigo comer sozinho.
Depois de comer e passar um tempo junto de Katherine, o dia foi se passando bem devagar. Não tinha nada de muito interessante que pudesse fazer com seu braço enfaixado. Em seu quarto, sentado em frente ao notebook, Ethan olhou para os seus cadernos entediado. Abriu um deles e viu a página em branco, pronta para ser preenchida com alguma coisa criativa. Sua mente ainda estava bem focada naquela garota que viu… era um sentimento diferente. Sentiu uma estranha vontade de vê-la novamente, então decidiu testar suas habilidades desenhando. Por ser destro, desenhar com a mão esquerda era no mínimo humilhante. Seria impossível representar um rosto com as linhas todas tortas daquele jeito… foi quando teve uma ideia arriscada.
Lentamente foi desenrolando as faixas do seu braço direito, se certificando se Katherine não estaria o espiando de algum canto. Colocando as faixas de lado na mesa, tentou mover seu braço com cuidado. Estava bem dolorido, mas não o suficiente para impedir alguém com o nível máximo de tédio. Segurou o lápis na mão e foi traçando o rosto de Aria gentilmente e com cuidado para não acabar se machucando…
Demorou três longas horas para que terminasse, e assim ele fez uma réplica quase perfeita de um rosto belo e delicado, com um grande chapéu e cabelos negros caindo pelos ombros. Ela estava sorridente, desenhada apenas em preto e branco. Ethan sorriu, admirando que conseguiu desenhar algo tão bonito usando um braço dolorido…
Se quiser, lembre-se de comentar nos capítulos! É sempre gratificante poder ler sua opnião, e é o que nos motiva a continuar! <3
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