Apenas um Sonho Brasileira

Autor(a): Hanamikaze


Volume 1

Capítulo 2: Se Inicia o Ano Dourado

A chuva caía fortemente sobre aquela cidade imensa, com prédios tão altos que desapareciam pela neblina causada das fortes chuvas que vinham. Os prédios e casas tinham uma estrutura sem graça, sem janelas, todos compartilhavam a mesma coloração escura e cinzenta, como se fossem feitos de lata. Não havia luzes pela cidade, seja de postes iluminando as ruas ou letreiros na fachada dos estabelecimentos. Tudo parecia estar tingido de preto e branco, como se aquele cenário se passasse dentro de uma pintura.

No chão, andando pelas estradas frias e reluzentes — a calçada também era feita de metal —, um mar de guarda-chuvas pretos marchava no mesmo ritmo monótono seguindo a mesma direção. Vendo por baixo dos guarda-chuvas, entre a multidão, ninguém demonstrava nenhuma personalidade própria. Todos vestidos quase da mesma maneira, com as mesmas cores sem vida enquanto suas faces eram opacas, como se sequer possuíssem uma feição.

Sem objetivo, destino ou qualquer senso de direção, Ethan vagava no meio daquelas pessoas seguindo o caminho contrário do que estava tomando. Diferente das outras pessoas, seu guarda-chuva era branco, assim como todas as outras peças de suas roupas.

Sua visão era turva, não conseguia distinguir o que estava à sua frente. Numa tentativa falha de ter uma visão mais clara daquele ambiente frio, ele espremeu os olhos. E quebrando suas expectativas, apertar os olhos apenas piorou sua visão.

— Ah! Me perdoe — lamentou após esbarrar em um dos homens que andava por ali, acabou pisando no sapato dele.

O homem apenas manteve a face virada na direção de Ethan, mas sua visão estava tão ruim que não podia dizer se ele estava o encarando ou não.

— Desculpe, não estou enxergando muito bem…

De repente aquele homem pareceu ser bem maior do que aparentava ser, facilmente passava dos dois metros de altura. Quando olhou ao redor, todas as outras pessoas também tinham aumentado de tamanho. Era como se estivesse passando por uma densa floresta com árvores cinzas.

Aflito, Ethan tentou correr no meio de tantos “gigantes”, mas a cada passo Ethan acabava cada vez mais amassado entre eles. Os guarda-chuvas que carregavam se tornaram tão grandes que juntos eles tamparam o céu e a passagem de luz, e lentamente aquele corredor entre pessoas estranhas foi ficando mais e mais escuro…

Sua visão foi ficando ainda mais turva e a sensação de estar sendo esmagado entre eles apenas aumentava. Incapaz de continuar se esgueirando e abrindo uma passagem, Ethan só aceitou seu destino e fechou os olhos, suplicando para que aquilo tudo acabasse…

E acabou.

— Ethan! — uma voz doce gritava pelo seu nome, ela se encontrava tão distante, mas de repente parecia estar tão próxima. — Ethan, finalmente achei você!

Sentiu um toque delicado segurando sua mão, e quando abriu os olhos, aquela bela moça estava presente mais uma vez. Inteiramente vestida de branco, e agora no lugar do seu grande chapéu, ela carregava um guarda-chuva branco exatamente igual ao de Ethan.

— O quê…?

— Por que você não apareceu antes?! Por que me deixou aqui sozinha por tanto tempo?!

— Do que você… — a visão de Ethan foi lentamente voltando ao normal, foi quando percebeu que a garota estava chorando. Ele não soube o que dizer.

— Eu te esperei  e esperei, vagando sozinha nesse lugar imenso! Essa cidade é tão vazia e o clima aqui é tão frio… não tinha ninguém aqui, eu estava com medo!

Ele olhou ao redor e todas as pessoas com guarda-chuvas gigantes tinham simplesmente desaparecido. A cidade estava deserta, a chuva agora caía de uma maneira mais fraca. Os prédios imensos causavam uma angústia, um medo trazido pela vastidão daquele lugar.

— Eu fiquei sozinha aqui, esperando você aparecer de novo… achei que não te encontraria. Argh, eu não sei porquê continuo discutindo com alguém que só existe na minha cabeça…

A garota continuou chorando sem parar. Provavelmente já estava procurando por Ethan a bastante tempo, ou pelo menos tinha a sensação de que estava vagando naquele lugar por muito tempo.

— Aria, eu… — ele tentou encontrar palavras para acalmá-la, mas tudo aquilo foi tão repentino que ele ainda não tinha terminado de processar o que aconteceu. Estava perdido, sua mente vazia. — Eu… não… eu não sei…

— Não sabe? Você nunca soube de nada! Não tinha certeza do seu próprio nome, me falou da Emma do nada sem saber quem ela era, não sabe como ganhou aquele cachecol… essa coisa no seu braço, por que você tem isso?

Ainda tentando compreender o que estava acontecendo, Ethan olhou para o próprio braço. Ele estava enfaixado como sempre.

— Foi… acidente. Fui atropelado.

— Atropelado? Mas você só existe aqui, como alguma coisa te atropelou nesse lugar?

— O quê? — Ethan ficou mais confuso ainda. Em vez de tentar entender, ele suspirou e a abraçou, abaixando o guarda-chuva dela e permitindo que a chuva, que agora estava serena, caísse sobre eles. — Olha, só… esquece isso. Eu também não entendi nada desde que eu te encontrei pela primeira vez no outro sonho. Até então foi tudo tão estranho…

Os dois puderam se acalmar no abraço, ficando com a mente um pouco mais limpa. Ela sorriu e apenas se aconchegou nos braços dele. Naquele instante, o frio havia sido substituído por um calor agradável, parecido com o calor que o sol trazia quando estavam no campo florido.

Foi quando Ethan percebeu uma coisa. Tudo o que ela falou era semelhante aos sentimentos que ele tinha quando entrou no sonho. Ela estava tão perdida quanto ele, pensando que tudo era algo que a cabeça dela criou.

— Espera… — ele voltou ao raciocínio profundo enquanto Aria dizia alguma coisa em que ele não prestou atenção.

— Promete uma coisa para mim? Quando voltar nesse lugar, promete que não vai demorar muito para aparecer? Que nem você demorou dessa vez… esses sonhos são muito vazios, sei lá… não gosto de ficar sozinha aqui.

Conforme ela falava, apenas confirmava o que o garoto estava suspeitando.

— Ethan? Está me ouvindo? Ei…

Ela cutucou gentilmente o ombro dele, e os olhos de Ethan se arregalaram por um instante.

“Ethan!”

E de repente, ele acordou. A voz de Katherine chamava pelo seu nome com uma entonação bem forte.

— Não acredito que você estava dormindo na banheira!

Ele se encontrava afundado na água cheia de espuma da banheira, o corpo já desidratado e enrugado por ficar tanto tempo no banho.

— Anda, sai logo daí! — vociferava ela, como uma fera, enquanto batia na porta.

Desanimado, Ethan afundou a boca e o nariz dentro da água para soltar o ar e fazer algumas bolhinhas de sabão subirem da banheira.

Após ser retirado de lá à força e já ter vestido suas roupas de volta, Katherine estava enrolando novas faixas limpas no braço de Ethan. A expressão dela não era nada agradável, ficou claramente irritada pelo garoto ter dormido lá. Era raro ver Katherine tão emburrada assim.

— Você normalmente é mais agradável. O que aconteceu? — Katherine apenas resmungou em resposta. — Esse jeito rude não combina nada com você…

— Problemas familiares, Ethan. Coisa que você não entende.

Esse fato jogado na cara dele foi como uma alfinetada no peito, ainda mais vindo de Katherine. Ele virou o rosto, chateado.

— Certo…

Enquanto ela terminava de enfaixar o braço dele, os dois ficaram quietos pelo clima tenso que houve. A partir daí, assim como foi o seu sonho, o resto do dia foi frio e melancólico, meio sem cor. Ethan assistia a TV na sala enquanto resmungava de tédio. Nenhum daqueles programas lhe era interessante, e sem a atenção de Katherine tudo ficava bem mais solitário.

— Desculpe pelo que eu te disse mais cedo, eu só tive… uns problemas com o meu marido. Você não tem culpa por isso.

Ethan estava tão concentrado nos seus pensamentos que sequer percebeu que ela estava sentada ao seu lado há um tempo.

— Mas, sabe — continuou Katherine, puxando Ethan para se deitar no colo dela. — Você também está bem quietinho hoje. O que eu te disse te afetou tanto? Eu não sabia…

— Não, eu só tive um sonho ruim. Deve ser porque eu estava na banheira.

— Hum? e a tal da menina estava lá de novo?

— É, estava sim.

Katherine não conteve uma risadinha, achando essa nova fase de Ethan bem intrigante.

— Não me diga que o sonho foi ruim porque você pegou ela com outro. Humph, agora as coisas não estão fáceis nem nos sonhos mais…

— Eu seria um idiota se ficasse triste por um sonho assim. Mas não foi nada parecido com isso, eu não vou saber te explicar…

— Então, qual o problema? Foi apenas um sonho, não foi? Já passou.

— Eu sei, é que… — Ethan ficou um pouco apreensivo de terminar a frase, era realmente embaraçoso admitir essa ideia. — Existe alguma possibilidade… daquela menina ela existir?

Katherine passou os próximos dez minutos rindo e tirando sarro da cara de Ethan. Mesmo não sendo nada confortável ter alguém zombando de sua cara dessa forma, ele acabou se sentindo melhor por ter ela presente ali de novo, se importando com ele. Katherine já não parecia tão abalada pelos problemas pessoais também.

Quando a empregada finalmente baixou a bola com as piadinhas, os dois começaram a prestar atenção no anúncio que passava na TV. Era algo sobre colegial que os dois não estavam prestando atenção quando passou o início do anúncio.

“Estamos cientes dos antigos problemas que St. Claire High enfrentou com seus funcionários no passado, no entanto, após tantos anos com o colégio restringido, a nova equipe de administração fez questão de colocar tudo em ordem até o início do evento. Renovações tanto na tecnologia quanto na arquitetura e higiene do colégio foram providenciadas para receberem novos alunos. Aos pais que estiverem ouvindo, preocupados com a segurança dos seus filhos, queremos deixar bem claro que os antigos problemas enfrentados pelo colégio derivavam de seus funcionários, que hoje estão todos presos e não deixarão suas celas tão cedo. Garanto que não enfrentarão mais problema algum com o colégio após a reabertura.

St. Claire High só estará recebendo alunos para o evento do “Ano Dourado”, então só serão permitidas as matrículas de estudantes do terceiro ano. A classificação e aprovação dos alunos será baseada em um sistema de pontuação, e os trinta melhores colocados da tabela receberão como recompensa uma bolsa gratuita para a universidade Grand Kenya, na Califórnia, assim que fecharem o ensino médio. Agradecemos a todos os espectadores e…”

No meio do anúncio, Ethan mudou para um canal de culinária.

— Ei! — exclamou Katherine, tentando tomar o controle. — Eu queria terminar de ver! Pode ser que seja interessante para o seu futuro.

— Por que você se importa? É só uma escola oferecendo uma bolsa para os alunos dela se esforçarem mais.

Katherine explicou como funcionaria aquele evento, ela já sabia dele antes. Ano Dourado seria um evento em St. Claire High, recrutando novos estudantes do terceiro ano para passarem o seu último ano no colégio que foi reaberto. Lá os estudos teriam um aprendizado bem diferente das outras escolas, e rígido também. Tendo grande destaque nas provas — que os aplicadores diziam ser tão dinâmicas quanto um concurso de jogos — e no sistema único de pontuação deles. Havia boatos de que a tecnologia de lá era um pouco fora dos limites. Os 30 melhores alunos do Ano Dourado ganhariam uma bolsa gratuita para a universidade Grand Kenya… 

— Não é qualquer bolsa! Grand Kenya é uma ótima universidade. E seria ótimo se você estudasse lá ano que vem.

— Tô com zero interesse.

— Ah, vamos lá! Não vai querer ser bancado pelo pai o resto da vida, vai?

— Ele já é rico, não preciso de mais dinheiro.

Katherine deu um peteleco na orelha de Ethan, depois beliscou sua bochecha.

— Meu filhinho não vai ser um vagabundo quando crescer. Vamos lá, Ethan! Você gostava tanto de desafios. Esse é um belo desafio, não acha? Tirar a maior pontuação naquele colégio…

— Qualquer idiota consegue fazer isso.

Os dois passaram algum tempo discutindo se realmente aquela bolsa valia o esforço. Já sem esperanças de que Ethan teria algum interesse na oportunidade apenas por causa da bolsa, Katherine decidiu elevar um pouco a proposta. O trouxe até o antigo quarto de seu pai, que estava trancado com uma chave que Ethan não tinha. O quarto ficava em uma porta embaixo das escadas que levavam ao segundo andar. 

Era bem escuro lá dentro, a lâmpada emitia uma luz fraca e as paredes eram feitas de madeira, como se fosse um cômodo secreto ou um sótão embaixo da escada. Cada passo dos dois causava um rangido irritante na madeira do chão, a poeira era tanta que fazia o nariz de Ethan arder a cada fungada que ele tava.

Katherine puxou uma maleta branca meio empoeirada debaixo da cama e foi lentamente destravando ela. Ethan esperava que fossem sair meia dúzia de baratas ali de dentro, pelo estado daquele quarto. Mas o interior da maleta na verdade parecia até que bem preservado. Ali tinha alguns documentos, fotos, papéis velhos e mais umas coisas aparentemente sem valor nenhum.

— E o que tem aqui de tão especial?

Katherine continuou procurando alguma coisa na maleta, mas não encontrava a coisa que queria mostrar.

— Seu pai conseguiu uma vaga na Grand Kenya anos atrás, como você acha que ele acabou com tanto dinheiro? — disse, enquanto continuava revirando a maleta.

— Duvido que ele tenha ganhado uma bolsa, ele já tinha dinheiro para pagar a universidade antes.

Ethan se ajoelhou ao lado dela, dando uma olhada nas coisas que ela estava mexendo ali. Tudo que estava guardado na maleta era meio que igual, documentos iguais, fotos aparentemente tiradas no mesmo lugar. Todos aqueles papéis pareciam ser apenas fachada para esconder alguma coisa.

— O que está procurando? — perguntou, dando uma olhada mais de perto. Notou um pequeno vão entre a parte interior da maleta e a capa dela. Meteu a mão ali e puxou a parte interior para cima, levantando-a e revelando um segundo compartimento embaixo da maleta. — Tem uma coisa aqui…

— Oh, você achou! — Katherine se alegrou, mas logo seu sorriso sumiu quando viu que estavam faltando os itens que eram para estar ali.

Ethan notou alguns espaços vazios, eram moldes para armazenar ferramentas estranhas e algumas coisas com formato quadrado. De todos os moldes presentes ali apenas um estava preenchido, que era um pequeno quadradinho com um pendrive dentro, estava bem no meio dos moldes.

— Ele deve ter levado embora… — lamentou Katherine, com um suspiro.

— O que é esse pendrive?

Estendeu a mão para pegá-lo, quando bruscamente a empregada fechou a maleta e a trancou de volta, uma pressa misturada com nervosismo.

— Bom, vamos sair logo daqui — disse ela, tentando tirar Ethan de lá o quanto antes. — Na verdade eu já ia te matricular na St. Claire High antes de vermos o anúncio, então você vai ter que estudar lá de todo jeito… foi decisão do seu pai. Mas acho que não tem com o que você se preocupar! — afirmou, ainda um pouco nervosa.

Aceitando que, realmente, não mudaria nada se ele estudasse naquele colégio este ano ou não, Ethan acabou aceitando para não ter que ver Katherine chateada mais uma vez. Finalmente tendo um motivo para sair de casa um pouco, ele resolveu ir até o campus do colégio e presenciar o lugar onde passaria o resto do ano, tendo em mente que era quase que um colégio interno. Só poderia voltar para casa nos finais de semana.

Chegando lá, a pequena praça em frente ao colégio o lembrava bastante do sonho que teve. O chão era feito de mármore e era bem reluzente, com imensos prédios sem vida ao redor. Uma sequência de chafarizes pela praça jorravam água em uma fonte bem extensa no centro, deixando o clima frio e bem úmido. Uma serena chuva caía sobre Ethan, que infelizmente não trouxe um guarda-chuva.

Ele se sentou em um dos bancos que ficavam pela praça, e por um longo tempo ficou admirando a fonte. Até que não sentiu mais a chuva molhando o seu corpo…

— Achei que não veria mais ninguém aqui, você também é um dos que vão concorrer ao ano dourado?

Ethan olhou por cima do banco para vê-la, ela tinha colocado o seu guarda-chuva por cima dele para não acabar pegando um resfriado. Era uma jovem garota, loira, com olhos azuis e uma excessiva quantidade de maquiagem no rosto. Estava usando um vestidinho bege e uma boina vermelha, carregando uma bolsa branca e tinha um sorriso meio arrogante. Uma típica patricinha.

Se quiser, lembre-se de comentar nos capítulos! É sempre gratificante poder ler sua opnião, e é o que nos motiva a continuar! <3

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