Amor Invisível Sob o Céu Noturno Japonesa

Tradução: DelValle

Revisão: Almeranto


História

Capítulo 3: Amor

   Por apenas dez mil ienes por mês, meu quarto de dormitório ultra barato não tinha ar-condicionado. O limite de energia para cada andar era tão baixo que até a menor carga podia fazer o disjuntor desarmar, então comprar um aparelho também estava fora de cogitação.

   Os andares eram repletos de quartos, cada um com cerca de dezesseis metros quadrados. Se as pessoas estivessem usando panelas de arroz em mais de dois desses quartos ao mesmo tempo, o disjuntor desarmaria. Como resultado, “Que horas você vai cozinhar arroz?” tornou-se um tópico frequente de conversa entre os moradores do dormitório.

   Naturalmente, não tínhamos nossos próprios chuveiros ou banheiros em nossos quartos. Havia um banheiro compartilhado e uma grande banheira e chuveiros comunitários. A banheira só podia ser usada em horários específicos à noite, mas os chuveiros estavam sempre disponíveis. Cada quarto era mobiliado com camas de solteiro, escrivaninhas e uma geladeira.

   Eu era indiferente a design de interiores, então Narumi ficou encarregado de decorar nosso lugar. Ele até escolheu a cor dos meus lençóis.

   Nosso quarto tinha uma decoração em tons suaves, com um tapete marrom escuro, lençóis cinza-escuros e cortinas cinza. Apesar da aparência decadente do exterior do prédio, o interior do nosso quarto havia se transformado em um espaço muito estiloso, com vasos de plantas e luzes embutidas.

   Eram sete da manhã.

   Levantei da cama assim que Narumi ligou a panela de arroz e fui para o banheiro, com a toalha na mão. Tínhamos deixado a janela escancarada, mas tinha sido uma noite úmida e sem nenhuma brisa. Alguém deve ter desligado o disjuntor, porque até o ventilador parou.

“O que está acontecendo?” perguntou Narumi.

   Sua pergunta perspicaz me assustou.

“...Nada,” eu disse.

“Desculpe. Afinal, você é um homem, Sorano.”

“Você está tirando sarro de mim?”

“Você só toma banho antes de encontrar uma garota, mas parece todo molhado atrás das orelhas. Estou morrendo de inveja,” disse Narumi.

“Você está tirando sarro de mim.”

“Não estou, prometo,” respondeu Narumi, fazendo um gesto de desdém com a mão. “Então, o que você gosta nela?”

“Não gosto dela desse jeito.”

“Nossa. Você é tão fofo que está me matando.”

“Você está tirando sarro de mim sim!”

   Narumi negou mais uma vez, gargalhando alto.

“A Fuyutsuki só quer que eu faça companhia a ela,” eu disse, antes de perguntar: “Quer vir comigo?” na remota possibilidade de ele vir.

   Narumi franziu a testa e me lançou um olhar. “Cara, você é muito medroso.”

“Cala a boca.”

“Medroso, medroso, medroso!”

“Cale-le, cale-se, cale-se!”

“Bem, eu não posso ir de qualquer forma. Tenho que trabalhar.”

“Não é à noite?”

“Eu pensei que você estivesse interessado em namorar ela, Sorano. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive.”

“Hã? A gente só conversa, né? Eu nunca nem pensei nisso.”

“Tem certeza?”

“Quer dizer, eu ainda não sei como lidar com ela — sabe, com a visão dela e tudo mais. Eu não tenho a confiança necessária para lidar com isso tão bem quanto você.”

“Como assim, ‘lidar com ela’?”

   Havia um raro toque de irritação no tom de Narumi.

“Ah, desculpe. Não quis dizer isso. É que você fala com ela tão normalmente.”

“Então por que você não age normalmente também?”

“Eu nem sei o que isso significa.” Eu deveria ficar evitando mencionar a visão dela quando conversávamos? Ou escolher ruas mais fáceis para ela caminhar? Ou segurar a mão nela? Ou eu deveria questionar cada detalhe e compartilhar todas as minhas dúvidas com ela?

   Já que a oportunidade surgiu, decidi expressar todas as minhas preocupações para Narumi. Sua resposta foi simples: “Por que você simplesmente não pergunta a ela?”

“Isso não deixaria as coisas estranhas?”

“É pior ter alguém mantendo distância de você,” respondeu Narumi, coçando a cabeça. “Aprendi isso na prática.”

 

 

   Comprei alguns nuggets de frango na loja de conveniência bem em frente ao dormitório. Eu estava com vontade deles desde que Narumi me chamou de covarde.

   Segui em direção a Tsukishima, comendo enquanto caminhava. O céu estava azul e nuvens flutuavam suavemente. Ao atravessar a Ponte Aioi, olhei para a vasta extensão de água e vi um peixe saltar no ar onde o rio encontrava o oceano. A superfície da água ondulava suavemente, emitindo um brilho prateado.

   As correntes rápidas do Estreito de Kanmon, lá em Shimonoseki, davam a eles uma sensação refrescante — como se as águas levassem tudo, o bom e o ruim.

   Em contraste, o mar calmo ao redor de Tóquio parecia reter tudo.

   Ah, será por isso que tantas pessoas são atraídas por Tóquio? Pensei, tomado por uma sensação infundada de admiração.

   Deveríamos nos encontrar às nove, mas eu pretendia chegar cinco minutos antes.

   Quando me ofereci para buscar Fuyutsuki em frente ao apartamento dela, ela reclamou: “Isso não parece muito um encontro.”

“Vamos apenas fazer compras juntos,” eu disse a ela, mas ela riu de mim.

“É isso que um encontro significa.”

   No fim, Fuyutsuki insistiu em nos encontrarmos aos pés da Ponte Aioi.

   Eu contemplei o mar cintilante enquanto atravessava a ponte, mas não demorou muito para que pontos brilhantes se formassem em meus olhos devido ao forte brilho da água.

   Quando olhei para frente novamente, tentando aliviar meus olhos cansados, notei que Fuyutsuki já estava do outro lado.

   Havia árvores aos pés da ponte criando uma sombra suave, e o sol banhava Fuyutsuki através das folhas. Ela vestia uma blusa branca e uma saia transparente, e carregava uma bolsa de couro a tiracolo. Fuyutsuki ficava ali em silêncio, parecendo quase etérea aos meus olhos deslumbrados. Não pude deixar de notar o quão deslumbrantemente bela ela era.

“Ei, Fuyutsuki. Sou eu, Sorano. Fiz você esperar?”

   Muitos encontros começam com essa frase clichê, mas geralmente é a garota que diz isso para o cara.

“Já estou esperando há duas horas,” ela respondeu.

“Bem, então a culpa é sua, né?”

“De jeito nenhum. A culpa é sua.”

   Ela riu, depois disse que estava brincando e sugeriu que fôssemos logo.

“Okay, a Estação Tsukishima é por ali,” eu disse.

“Para onde é por ali?” — Ela perguntou.

“Desculpe. Quer dizer, vamos virar à direita.”

[Almeranto: Tô falando, lembra muito Avatar essa interação dos dois kkkkkkkk..]

   Em circunstâncias normais, apontar em uma determinada direção teria sido suficiente para transmitir a mensagem — mas isso não funcionou com Fuyutsuki.

   Ela também não percebeu que eu a encarava de lado enquanto caminhávamos.

   “Pensei que você estivesse interessado em namorar ela, Sorano.” As palavras de Narumi voltaram à minha mente de repente.

   Quando pensei em namorar alguém que não enxerga, meu instinto me dizia que seria um desafio.

   Foi por isso que eu nunca tinha visto Fuyutsuki como um possível interesse amoroso.

   Eu sabia o quão rude isso era.

   Mesmo assim, eu duvidava que ela se importasse se eu gostava dela ou não.

   Só de pensar nisso, meu coração doía.

“Você sabe para onde estamos indo?” ela perguntou.

“Ah, sim.”

“Estou tão animada por isso.”

   Então, de repente, ela começou a pular.

   Isso mesmo. Ela estava pulando.

“Huh?” Eu exclamei, fazendo-a se virar na direção da minha voz.

“O que foi?”

“Você consegue pular?”

“Você consegue pular de olhos fechados, não consegue?”

   Ver Fuyutsuki tão feliz me pegou de surpresa, e eu não consegui conter o riso.

“Por que você está rindo?” — Ela disse, franzindo a testa.

“Desculpe.”

   Nós dois embarcamos no trem.

“Vamos ter nosso próprio show de fogos de artifício!” — Foi um pedido incomum, especialmente considerando que ela me fez sentir culpado por não aceitar.

   Estávamos na linha Toei Oedo, indo para as lojas especializadas em fogos de artifício em Asakusabashi. Planejávamos pegar a linha Toei Oedo até Daimon e depois a linha Toei Asakusa até Asakusabashi. Embora não fosse o caminho mais curto, escolhi o que tinha a baldeação mais fácil para simplificar as coisas para Fuyutsuki.

   Durante a viagem, descobri que carregar uma bengala branca não garantia que alguém ofereceria seu lugar.

   Justo quando eu estava pensando em como o mundo podia ser cruel, uma senhora idosa se levantou e ofereceu seu lugar para Fuyutsuki.

“Obrigada, mas não se preocupe; estou acostumada a ficar em pé,” ela respondeu com um sorriso.

   Guiei Fuyutsuki até um lugar vazio bem ao lado das portas e me virei para encará-la.

“Obrigada pela ajuda,” disse ela.

“Não, não foi nada demais.”

   Fuyutsuki virou o rosto para mim, mas permaneceu em silêncio.

“O que foi?” perguntei.

“Eu estava pensando em como você é um cavalheiro,” Kakeru.

“Como assim?”

“Você se deu ao trabalho de me guiar até um lugar que não ficasse lotado de gente.”

“Eu não me dei ao trabalho!”

   Ela tinha razão, mas mesmo assim senti que precisava negar.

   Assim que levantei a voz, Fuyutsuki começou a rir, me fazendo perder a chance de refutá-la.

   Me senti meio tímido, parado ali cara a cara com Fuyutsuki. Talvez fosse apenas porque ela era bonita, ou talvez porque eu a admirava por todas as qualidades que me faltavam, mas seja qual fosse o motivo, meu coração disparava sempre que eu a olhava.

   O trem chacoalhava. Sempre que as luzes espaçadas uniformemente do metrô piscavam pela janela, iluminavam brevemente o rosto de Fuyutsuki. Falei mais alto do que o normal para não ser abafado pelo barulho do trem.

“Sabe, eu tenho me perguntado isso há um tempo, mas por que você quer soltar fogos de artifício?”

“Eu sempre os adorei,” respondeu Fuyutsuki com um sorriso.

“Mas você não pode mais vê-los. É isso que me intriga.”

“Fogos de artifício não são apenas para serem vistos, sabia?”

“Bem, não, mas mesmo assim…”

“Tem também o som do estrondo, o cheiro dos explosivos e os ‘oohs’ e ‘aahs’ que todo mundo solta. Da próxima vez que você vir um show de fogos de artifício, tente curtir de olhos fechados. Você vai perceber que é uma experiência que envolve o corpo todo.”

[Del: Anotado.]

“Essa apreciação por fogos de artifício parece muito avançada para mim, então acho que vou passar. Estou feliz só de ficar agachado no chão olhando para as estrelinhas.”

[Almeranto: Estrelinhas no caso são aquelas velas que soltam bastante faísca, ou no inglês: Sparkles.]

“Ah, estrelinhas também são ótimas. Será que a gente compra algumas se tiver?”

“Você realmente gosta de fogos de artifício, não é?” Eu disse, impressionada.

   Fuyutsuki estreitou os olhos.

“Minha família e eu costumávamos ir ver fogos de artifício o tempo todo,” disse ela em um tom de voz suave.

“Shows de fogos de artifício?”

“Sim, na época em que eu ainda conseguia enxergar. Eu ia com meus pais.”

“Então é por isso que você quer soltar fogos de artifício,” eu disse, pensando que tinha resolvido o enigma — mas Fuyutsuki me interrompeu.

“Desculpe, não é isso que eu quis dizer. Eu só senti esse forte desejo de soltar fogos de artifício depois que perdi a visão.”

“O que você quer dizer?”

“Bem, como eu posso dizer? Tipo, isso me faz pensar: ‘Eu realmente quero dar o meu melhor!’”

“Não estou entendendo,” eu disse, confuso.

   O trem parou na Estação Shiodome e as pessoas começaram a entrar. Conforme o vagão foi ficando lotado, fui empurrado para a frente e de repente me vi muito mais perto de Fuyutsuki.

“Está ficando cheio?” — Ela perguntou.

“Por que você acha isso?” — Eu disse, me perguntando como ela podia saber se não conseguia enxergar.

“Sua voz parece mais perto.”

   O rosto de Fuyutsuki estava agora bem na minha frente, e ela piscou surpresa.

“Não, não exatamente.”

“Obrigada por me proteger,” disse ela com um sorriso, tão perto que eu quase podia sentir sua respiração.

   Prendi a minha própria respiração o máximo que pude até chegarmos ao nosso ponto de ônibus, tentando não respirar perto dela.

   Normalmente, levaríamos cerca de trinta minutos a pé para ir da estação até Asakusabashi, mas como Fuyutsuki não conseguia andar muito rápido, acabamos levando cerca de uma hora.

“Você está cansada?” — Perguntei a ela.

“Estou bem.”

“…Estou exausto.”

“O que foi isso?”

“Vamos lá.”

   Fuyutsuki caminhava pelo piso tátil amarelo, batendo no chão com sua bengala branca. Eu me perguntei se conseguiria andar de olhos fechados — mas bastou um segundo para concluir que não.

“Vamos virar à esquerda aqui.”

   Eu havia consultado o nosso destino com antecedência e continuei guiando Fuyutsuki, segurando meu celular em uma das mãos.

   Um homem veio caminhando direto em nossa direção, com os olhos grudados no celular. Tive um mau pressentimento sobre o que poderia acontecer e agarrei o braço de Fuyutsuki, mas, no mesmo instante, o homem esbarrou nela com um baque.

   Ele apenas olhou rapidamente para Fuyutsuki antes de se afastar.

“Hã?”

   Eu estava furioso.

     Como ele pôde simplesmente olhar para ela e ir embora? Ele esbarrou nela, pelo amor de Deus! Não dá para perceber que ela é cega?!

   Quando eu estava prestes a gritar isso para ele, Fuyutsuki segurou minha manga com força.

“Deixa pra lá,” disse ela, balançando a cabeça negativamente.

“Mas—”

“Tudo bem. Isso acontece o tempo todo.” — Eu ainda estava com raiva.

“Mas ele—”

“Ele provavelmente estava com o celular, não é? Tenho certeza de que recebeu uma mensagem de alguém de quem gosta.” Fuyutsuki estava sorrindo. “Você parece irritado. Por favor, não fique bravo,” disse ela, me dando outro sorriso.

     Como Fuyutsuki era tão forte?

   Senti como se ela tivesse me repreendido, e dei uma resposta vaga.

“Eu entendo,” eu disse a ela — embora não tivesse muita certeza do que estava entendendo.

   Eu podia sentir minha raiva se dissipando.

   Ao mesmo tempo, o fato de eu quase ter gritado “Ela é cega!” para um pedestre me deixou com o peito apertado. Eu quase deixei minha raiva me levar a dizer algo realmente insensível.

   Percebendo que Fuyutsuki parecia um pouco cansada, sugeri que fizéssemos uma pausa.

“Quer dar uma passada em um café?” — Perguntei.

   Fomos a um lugar próximo — um de uma rede de cafeterias originária da província de Aichi. Um garçom sorridente nos cumprimentou e nos levou até nossas mesas. Assim que nos acomodamos, outra garçonete sorridente veio anotar nosso pedido.

   Nossos olhares se cruzaram e eu congelei.

“Hayase?”

   Era Yuuko Hayase, usando um avental e um lenço na cabeça.

“Hã? O que você está fazendo aqui?” — Perguntou ela, com a surpresa estampada no rosto — “Ah, Koharu!”

“Ah, Yuuko. Bom dia,” respondeu Fuyutsuki com um sorriso. Sua voz estava um pouco mais aguda que o normal.

“Então, Sorano, você está saindo com a Koharu, é?” — Perguntou Hayase, lançando-me um olhar presunçoso. 

“Vou querer um café gelado e o conjunto C do cardápio,” eu disse a ela. 

“Não há motivo para apressar seu pedido,” ela respondeu.

“Pensei que você estivesse trabalhando,” eu disse, arrancando uma risadinha de Fuyutsuki.

“Tudo bem, então.” — Hayase começou a anotar o que eu queria — “Então, o que traz vocês dois aqui hoje?”

“A Fuyutsuki quer fazer um show de fogos de artifício,” expliquei.

“Fogos de artifício?” — Respondeu Hayase, compreensivelmente cética.

“Você quer nos ajudar a soltar os fogos de artifício, Yuuko?”

“Claro, adoraria! Quando vai ser?”

“Hum, quando deverá ser?” — Perguntou Fuyutsuki, transferindo a pergunta para mim por algum motivo inexplicável.

“Eh? Você está me perguntando?”

   Fuyutsuki cobriu a boca com as mãozinhas, sorrindo gentilmente. A expressão em seu rosto fez meu coração disparar.

“Viemos comprar os maiores fogos de artifício que encontrarmos hoje,” declarou ela, entusiasmada.

“E o orçamento dela é de um milhão de ienes,” brinquei.

“Não subestime a fortuna da família Fuyutsuki,” ela respondeu com ironia.

   Eu e Hayase fizemos “Hã?” e “Sério?” ao mesmo tempo, fazendo Fuyutsuki rir.

   Os olhos de Hayase se arregalaram de surpresa ao ver nossa conversa habitual.

“Desde quando vocês ficaram tão próximos?”

“Parece que somos próximos?” — Perguntou Fuyutsuki — “Aposto que o Sorano sempre parece mal-humorado, não é?”

“Não sei não. Ele está com um sorriso enorme no rosto agora.” — Uma mentira descarada de Hayase.

“É mesmo?! Deixa eu tocar no seu rosto!”

“De jeito nenhum! Vamos, se concentra em fazer o pedido,” eu disse. Eu não conseguia entender por que Fuyutsuki queria tocar no meu rosto, mas, mais importante, não podíamos reter Hayase ali para sempre.

“Desculpe. Não consigo ver o cardápio.”

   Enquanto eu olhava o cardápio para Fuyutsuki, Hayase sugeriu o chá gelado com leite. Eu sabia que Aichi era famosa por suas porções generosas, mas mesmo assim, era enorme — cerca de duas vezes o tamanho de um chá gelado normal.

“Você conseguiria beber um desse tamanho?” — Perguntei, apontando para a foto no cardápio. Fuyutsuki apenas pareceu confusa.

   Eu me desculpei, mas ela parecia tão confusa quanto eu sobre o motivo do meu pedido de desculpas.

“Ah, desculpe.”

   ...Foi um daqueles momentos.

   Eu tinha lidado mal com a situação e deixado tudo constrangedor. Eu realmente não gostava quando isso acontecia.

“O chá com leite quente vem em tamanho normal,” disse Hayase.

“Então vou querer esse,” disse Fuyutsuki com um sorriso.

   Pouco depois, Hayase voltou com o nosso pedido. Ela até nos ofereceu um ovo cozido de cortesia, provavelmente como um gesto de hospitalidade. A mesa agora estava cheia de café, chá com leite, fatias grossas de torrada com manteiga e pasta doce de feijão vermelho (anko), e um ovo cozido.

“Agradeço,” eu disse. Hayase nos disse para ficarmos o tempo que quiséssemos e saiu acenando.

   Fuyutsuki estendeu a mão lentamente em direção à mesa.

“O chá com leite está bem na sua frente,” eu disse, passando manteiga na minha torrada.

“Estou bem,” ela respondeu.

   Ela tocou cuidadosamente o pires, depois deslizou os dedos pela alça da xícara e a ergueu delicadamente com as duas mãos. Assim que tomou um gole, Fuyutsuki mostrou a língua.

“Está muito quente.”

“Cuidado.”

“Mas está delicioso,” assegurou-me, rindo.

   O sorriso que ela me dava... parecia meio injusto.

   Nós dois nunca tínhamos tido aquele momento em que nossos olhares se cruzavam, mas, por algum motivo, de vez em quando, eu tinha a sensação de que estávamos olhando nos olhos um do outro. Sempre que isso acontecia, eu ficava nervoso e sentia um aperto no peito.

   Concentrei-me em espalhar a pasta de feijão vermelho na minha torrada com manteiga — e, antes que eu percebesse, tinha criado uma montanha de feijão.

“Tem certeza de que não quer comer nada?,” perguntei.

“Estou bem. Não se preocupe comigo.”

“Nem uma mordida?”

“Vai me dar na boca?”

“Nem pensar.”

“Maldoso.”

“O que você quer almoçar hoje?”

“A verdade é que eu não gosto muito que as pessoas fiquem me olhando enquanto como.”

“Ah, eu já ouvi muitas garotas se sentirem assim.”

“Não, não é isso que eu…”

   Mas Fuyutsuki parou de falar antes de terminar a frase. Ela deu uma risadinha e um sorriso se abriu em seu rosto.

“Fico feliz que você esteja me tratando como uma garota.”

   Eu me sentia tímido sempre que Fuyutsuki sorria para mim, então dei uma mordida grande na minha torrada para me distrair. Ela manteve aquele sorriso no rosto o tempo todo enquanto eu comia.

   Lá estava ele de novo.

   Aquele sorriso dela era tão injusto.

“Ei,” eu disse, finalmente reunindo coragem para falar. Parecia um bom momento para fazer uma pergunta que estava na minha cabeça há um tempo. “Se você não quiser falar sobre isso, tudo bem, mas…”

   Depois de sairmos da cafeteria, nós dois visitamos algumas lojas especializadas em fogos de artifício.

   Elas tinham uma grande variedade de fogos de artifício portáteis, além de fogos de artifício grandes, de cinquenta centímetros de comprimento, projetados para serem usados ​​em casa. A seleção era impressionante — exatamente como se espera de lojas especializadas.

   Depois de olhar várias lojas e descrever a variedade de fogos de artifício para Fuyutsuki, comprei os que ela disse que queria. Acabamos com bastante coisa, e eu fiquei carregando as sacolas plásticas pesadas.

“Tem certeza de que quer levar isso para casa?” perguntou Fuyutsuki.

“Não tem problema. Talvez possamos soltá-los no campus, então faz sentido deixá-los no meu dormitório. É mais perto.”

“Obrigada.”

   Enquanto conversávamos em frente a uma das lojas de fogos de artifício em Asakusabashi, percebemos que estávamos bloqueando a entrada para outros clientes, então fomos ficar embaixo de uma árvore próxima.

“Então, quando devemos soltá-los?”

   Fuyutsuki parecia prestes a pular de alegria.

“Provavelmente precisamos de permissão para soltar fogos de artifício no campus,” eu disse.

“Devemos perguntar para a Yuuko?”

   Mesmo estando bem ao meu lado, Fuyutsuki estava falando muito alto. Eu queria dizer para ela se acalmar, mas quando a vi olhando para o céu, com os olhos brilhando, mordi a língua.

“Então, compramos os fogos de artifício. O que devemos fazer agora?”

“Hm? Quer continuar com o nosso encontro?”

“Eu já disse, isso não é um encontro…”

“Estou só brincando. Esses fogos de artifício devem ser bem pesados, e tenho certeza de que é muita coisa para carregar, então por que não vamos para casa?”

   Uma das minhas mãos estava ocupada carregando todos os fogos de artifício que tínhamos comprado. Ela deve ter sacado por isso.

“É. Se ficarmos andando por aí com tantos fogos de artifício, podemos ser parados pela polícia por porte de material perigoso.”

“Eles me considerariam cúmplice?”

“Nesse caso, você seria a principal culpada.”

“Ah, você sempre tem uma piada pronta,” disse Fuyutsuki, rindo. Sua voz era aguda e clara.

   Eu estava começando a gostar de fazê-la rir.

“Vamos pegar o vaporetto para casa?” — Ela perguntou.

“Vaporetto?” — Na minha cidade natal, havia uma balsa que levava até o Porto de Moji, na margem oposta. Fiquei surpreso ao saber que Tóquio também tinha um meio de transporte aquático.

   De acordo com Fuyutsuki, havia um ônibus aquático que saía de Asakusa e descia o Rio Sumida até Odaiba, na Baía de Tóquio. Ela me disse que já o havia usado antes e que ele nos levaria de volta a Tsukishima, então ela queria voltar para casa de barco.

     Você pode andar em um ônibus aquático?

   Quase verbalizei a pergunta, mas me contive.

   Fuyutsuki podia ser cega, mas ainda assim conseguia andar de barco, ouvir o som do motor cortando a água, sentir o vento e aproveitar a experiência de várias outras maneiras.

“Espere um segundo, vou pesquisar,” eu disse, pegando meu celular. Para minha surpresa, havia um ponto de vaporetto por perto. “Ah, tem um ponto em Ryogoku, logo depois da Ponte Kuramae. Parece que vai até a universidade.”

“Obrigada,” disse Fuyutsuki, com um sorriso se espalhando pelo rosto.

“Pelo quê?” — Perguntei.

“Foi muito gentil da sua parte pesquisar isso para mim.” — Ela ainda sorria.

   Não consegui mais olhar para o rosto dela.

“Ah, é a coisa mais normal a se fazer.”

“Só alguém com uma Licença de Bondade Nível 2 chamaria isso de ‘normal’.”

“Uma licença de quê?”

   Fuyutsuki deu uma risadinha, e eu comecei a guiá-la até o ponto do vaporetto.

   Brincamos enquanto caminhávamos, mas não demorou muito para chegarmos ao nosso destino. Compramos nossas passagens no terminal e embarcamos no vaporetto no cais atrás dele.

   Entramos pela parte de trás do barco. Havia uma rampa que levava a uma cabine com assentos e uma escada que subia para um deck aberto, de onde se podia ter uma vista completa do Rio Sumida.

“Para onde você quer ir?” — Perguntei.

“Para o deck aberto!” — Fuyutsuki respondeu sem hesitar.

   Como a escada do barco era muito estreita, fui obrigado a ir na frente, segurando a mão de Fuyutsuki.

“Sua mão está tão quente,” disse ela.

“Não se preocupe com isso — só tome cuidado para não bater o pé. Vai doer.” Fuyutsuki riu, sem se importar nem um pouco.

   O convés aberto não tinha assentos e era cercado por um corrimão quadrado. Parecia que o resto dos passageiros tinha entrado, então, por sorte, tínhamos o lugar só para nós.

“Certo, tem um corrimão na altura da cintura bem na nossa frente. Segure nele.”

   Eu conseguia ouvir o som baixo do motor funcionando, enquanto o barco parecia balançar suavemente para frente e para trás na água. Guiei Fuyutsuki até a frente do barco, onde ela se agarrou ao corrimão.

“Obrigada. Estou tão animada!”

“Parece que você está se divertindo.”

“Estou. Nunca pensei que teria a chance de fazer algo assim.”

“Bem, se você não se importa que eu esteja por perto, eu—” Parei antes de terminar a frase.

   Se você não se importa que eu esteja por perto, eu te farei companhia sempre que quiser.

   Tendo percebido o que eu ia dizer, inclinei a cabeça para o lado. Eu estava feliz em encontrar Fuyutsuki fora da faculdade? Eu estava bem em me envolver mais com ela?

   Eu não sabia. Não tinha ideia de como me sentia.

   Olhando para frente, eu podia ver a superfície do Rio Sumida se estendendo diante de mim.

   A água exalava um aroma úmido que lembrava a chuva de verão. Além disso, senti o cheiro do óleo que abastecia o barco. Embora não fosse o cheiro mais agradável, o céu azul se refletia na superfície do Rio Sumida, e eu achei, simplesmente, lindo.

“É bonito?” — Perguntou Fuyutsuki.

   Só percebi que tinha ficado em silêncio quando ouvi a voz dela. O silêncio dela me lembrou que ela não conseguia ver o céu refletido na superfície da água, o que era uma pena.

“Você não consegue ver essa vista, consegue?”

“Não, mas ainda estou me divertindo. Acho que vi essa vista exatamente deste lugar quando ainda conseguia enxergar. Só estava tentando me lembrar de como era.”

“Como era naquela época?”

“Hum, acho que estava nublado.”

“Hoje está um dia ensolarado e o céu está azul. Esse azul está refletindo na superfície da água e fica muito bonito.” Fuyutsuki se virou para mim.

“Agradeço por você me dizer essas coisas, mesmo sem eu perguntar. É muita gentileza sua.”

“Bom, acabei de tirar minha Licença de Bondade Nível 2.” — Fuyutsuki caiu na gargalhada.

   Nesse instante, um anúncio de que partiríamos em breve soou de dentro do barco.

“Segure firme,” eu disse.

“Eu consigo,” respondeu Fuyutsuki, tirando uma das mãos do corrimão para cerrar o punho com força.

“Eu disse para segurar,” retruquei, fazendo-a rir mais uma vez.

   O vaporetto desceu o Rio Sumida mais rápido do que eu esperava. Uma forte brisa soprava em nossa direção, acompanhada pelo barulho alto do motor. O barco balançava suavemente de um lado para o outro, em ritmo com as ondas que criava, e de vez em quando, pequenos respingos de água atingiam minhas bochechas, o que era refrescante.

“Essa brisa é tão boa,” eu disse.

“É mesmo. Agradeço por me ajudar a subir,” respondeu Fuyutsuki.

   Continuamos descendo o largo Rio Sumida. Havia prédios em ambos os lados do rio, com parques e trechos de vegetação aparecendo ocasionalmente ao longo das margens. O sol estava alto no céu e passamos por baixo de pontes e viadutos.

   Eu descrevia a paisagem para Fuyutsuki enquanto ela passava, detalhando tudo o que eu via e sentia para que ela também pudesse vivenciá-la.

“Uau!”

“O que foi?”

“A ponte à nossa frente tem o nome Ponte Eitai escrito na lateral, então imagino que seja esse o nome, mas ela é mais baixa que as outras. É melhor nos abaixarmos para não batermos a cabeça!”

   Fuyutsuki se agachou, ainda segurando o corrimão, e eu fiz o mesmo.

   A ponte logo passou sobre nossas cabeças.

“Desculpe, não era tão baixa quanto eu pensava. Nunca teríamos batido a cabeça ali.”

   Ainda agachado, me virei para Fuyutsuki. Nossos rostos estavam ainda mais próximos do que eu imaginava.

“Por que você nos fez agachar, então?” ela perguntou com um sorriso.

   Vê-la se divertindo tanto me fez querer ajudá-la a se sentir assim novamente. Então me dei conta:

     Ah, sei o que está acontecendo aqui.

   Pessoas que sorriem o tempo todo e riem alto são verdadeiros ímãs para as pessoas.

   Era incrível o quanto Fuyutsuki sorria — mesmo sem poder ver.

   Em certo momento, ela começou a me parecer radiante, deslumbrante.

   Seu rosto sorridente estava tão perto do meu. O barulho alto do barco cortando a água fez meu pulso acelerar, e o rio cintilava à luz do sol atrás de Fuyutsuki.

   Dominado pela vergonha, desviei o olhar e me levantei.

“Acho que estamos na Baía de Tóquio,” eu disse.

   Uma vasta extensão de água se estendia à nossa frente, e comecei a sentir um leve cheiro do oceano.

“Devemos estar quase lá,” comentou Fuyutsuki.

“Não consigo ver a universidade deste ângulo.”

   O vaporetto virou à esquerda. Devíamos estar nos aproximando de Etchujima.

   Naquele momento, o barco atingiu uma onda, balançando levemente. Fuyutsuki quase perdeu o equilíbrio, então coloquei a mão em seus ombros para apoiá-la.

   Ela era tão macia. Era como se eu estivesse abraçando seda.

“Hya!”

“Oh, d-desculpe,” eu disse. “Não queria te assustar.”

“Tudo bem,” respondeu Fuyutsuki. “Isso é bem divertido.”

   Vê-la sorrir assim em meus braços fez meu coração disparar.

 

 

— Ponto de vista da Fuyutsuki —

“Voltei.”

   Eu estava de volta ao meu apartamento em Tsukishima, no quadragésimo sexto andar.

“Ahhh, foi divertido,” eu disse a mim mesma.

   Teteei o corrimão e contei as portas a partir da entrada. A segunda porta era a do meu quarto.

   Depois de sairmos do café, Kakeru e eu acabamos visitando várias lojas de fogos de artifício em Asakusabashi. Depois de nos cansarmos de andar, ele até me acompanhou no vaporetto. Ele também me fez rir bastante.

   Procurei o interruptor na parede e acendi a luz.

   Era só um hábito meu; eu não conseguia ver se as luzes estavam acesas ou não, mas a ideia de estar com as luzes acesas me fazia sentir como se eu realmente tivesse chegado em casa.

“Bem-vinda! Você ainda não jantou, né?” — Minha mãe gritou.

“Oi, mãe! O que tem para o jantar?”

“Eu estava pensando em fazer tempurá.”

“Eba!”

   Eu estava faminta depois de andar o dia inteiro.

   Fiquei com fome, assim como todo mundo.

   Só que comer na frente de outras pessoas era muito difícil para mim.

   Eu comia em casa sem a ajuda de ninguém, claro. Assim que minha mãe me dizia onde estava a comida, eu conseguia encontrá-la pelo tato, pegá-la e comer sozinha.

   Eu já estava acostumada, mas a ideia de levar comida à boca ainda me incomodava.

   Se eu tivesse que comer na frente de Kakeru, me incomodaria ainda mais.

“Seu encontro foi bom?”

“Como você sabia que era um encontro?”

“Você se maquiou com mais cuidado do que o normal e experimentou várias roupas diferentes.”

   Eu mesma me maquiava, confiando na minha memória e na textura do meu rosto. Para as roupas, eu sentia o tecido com os dedos e perguntava para minha mãe qual era a cor das peças para poder escolher o que eu queria vestir. Embora eu tivesse pedido a ela para me dar uma última olhada antes de sair, eu ainda era capaz de me vestir sozinha.

   Hoje, porém, eu estava mais determinada do que o normal. Eu queria estar bonita para o Kakeru, então acordei mais cedo — ou pelo menos acordei mais cedo.

   Tomei um banho e me vesti com calma.

   Em nenhum momento me senti cansada.

   Na verdade, só de pensar em querer estar bonita já era divertido.

     ‘Se estou me divertindo tanto me arrumando, como será quando eu realmente o vir?’

   Eu não conseguia evitar esse sentimento.

“Você está sorrindo,” disse a mamãe, rindo.

   Pensar no meu encontro com Kakeru me fez sorrir.

“Não estou,” respondi, tentando disfarçar. Eu me sentia muito envergonhada.

   Havia tantos fogos de artifício que Kakeru nunca tinha visto antes. Ele me contou como todos eles eram e leu as descrições e os avisos em voz alta. Quando terminamos, sua voz estava rouca de tanto falar.

   Era esse tipo de coisa que fazia Kakeru ser tão gentil.

   Nosso encontro foi curto, durou menos de meio dia.

   Mesmo assim, o fato de ele ter reservado um tempo para mim e de termos podido passar esse tempo juntos fez meu coração transbordar de alegria.

   De vez em quando, Kakeru falava comigo num tom de voz particularmente gentil, como se estivesse sendo extremamente cuidadoso para não me magoar. “Se você não quiser falar sobre isso, tudo bem...” Eu sentia sua gentileza sempre que ele dizia isso.

   ‘Deve ser muito difícil ser cega.’

   ‘Você realmente se sente bem saindo?’

   Existem pessoas no mundo que dizem coisas assim.

   É triste, mas é verdade.

   Serve como um lembrete de quão raro é ser cego.

   A maioria das pessoas simplesmente não está acostumada com isso.

   Eu só quero dizer a elas: “Eu sou uma pessoa normal.”

   Claro, quando me disseram pela primeira vez que eu ia perder a visão, foi um choque.

   Mas com o tempo, me acostumei e aceitei o fato. Eu ainda conseguia comer e tomar banho.

   Eu ainda conseguia usar meu celular e ouvir audiolivros. Eu ainda conseguia me maquiar, me vestir bem e usar saias.

   Eu não conseguia usar sapatos de salto fino porque dificultavam andar no piso tátil, mas ainda conseguia usar botas e sandálias.

   Para surpresa de muitos, levo uma vida bastante normal.

   Há muitas coisas que não consigo fazer sem ajuda, mas ainda consigo me virar.

   Aprendi a pedir ajuda quando não consigo fazer algo.

   Isso até me ajudou a fazer amigos. Mas é por isso que não quero que as pessoas se preocupem muito.

   Posso ser cega, mas ainda há muitas coisas que quero fazer.

   Mesmo assim, as pessoas simplesmente presumem que minha vida é uma luta — e se distanciam de mim por causa disso.

   Isso era o que mais me incomodava.

   Mas Kakeru era diferente.

“Como as coisas parecem para você quando você é cega? Tudo é escuro?” Ele estava tentando me entender.

“Uhhh.”

“Se você não quiser falar sobre isso, tudo bem,” acrescentou ele, com tanta hesitação que me fez rir.

“As pessoas tendem a pensar que tudo é completamente escuro, mas no meu caso, é o contrário.”

“Como assim?”

“É como uma névoa esbranquiçada e opaca, eu acho.”

“Uau.”

   Lá estava de novo. “Uau.” Isso devia ser um hábito dele. Era bem fofo.

   Essa frase surgiu quando Kakeru estava pensando cuidadosamente no que dizer. Eu gostava disso nele.

“Você também não precisa responder a esta pergunta, mas...”

“Não, pode falar. Pergunte logo.”

“Quando você perdeu a visão?”

   Fui diagnosticada com câncer na sexta série.

   Disseram-me que eu tinha um pequeno tumor no cérebro, do tamanho da unha do meu dedo mindinho.

   A primeira cirurgia terminou num instante. Quase pensei: “Nossa, já acabou?”

   Mas, no meu terceiro ano do ensino fundamental, descobriram que o câncer havia se espalhado.

   Dessa vez, estava nas retinas dos meus dois olhos.

   Me deram uma escolha: ou remover os dois olhos ou mantê-los e fazer cirurgia e quimioterapia.

   Escolhi manter meus olhos. Fiz a cirurgia e comecei a quimioterapia.

   Tive que ficar no hospital por um tempo, então não pude ir à minha formatura.

“A quimioterapia foi muito difícil. Meu cabelo caiu, eu me sentia zonza e minha memória estava toda confusa.”

   Por algum motivo, eu queria que Kakeru soubesse a história toda.

   Então, contei tudo a ele.

“Depois disso, perdi a visão. Aprendi braille, voltei a estudar e consegui meu diploma de equivalência ao ensino médio quatro anos depois. A verdade é que sou um ano mais velha que você, Kakeru. Você deveria me respeitar mais.” — Terminei minha história com uma piada.

   Eu era quem não conseguia mais suportar o assunto pesado.

   Tinha sido preciso muita coragem para revelar a verdade. Me perguntei se deveria ter omitido a parte sobre ser um ano mais velha que ele, e logo comecei a me arrepender de ter mencionado isso. Kakeru reagiu com um “Uau!” seco antes de continuar em um tom de voz gentil.

“Quando é seu aniversário, Fuyutsuki?”

“Vinte e oito de março.”

“O meu é dois de abril. Nossos aniversários são bem próximos.” Devido às regras de corte de matrícula da escola, ele era apenas alguns dias mais novo do que eu, apesar de estar um ano abaixo.

“Você é apenas cinco dias mais velha, então acho que te respeito bastante,” acrescentou.

   Eu não queria que ele me consolasse com comentários de pena como “Isso deve ter sido muito difícil” ou “Você se saiu muito bem.” Eu não queria que ele tivesse pena de mim.

   Tudo o que eu queria era que ele ouvisse minha história.

   Ele parecia alguém que realmente entenderia.

   Era isso. Simples isso.

   Sua gentileza era irresistível.

“Kakeru?”

“Sim?”

“Você é muito gentil, não é?” — Eu disse.

   A voz de Kakeru falhou enquanto ele tentava me refutar.

   Ele ficava fofo quando estava sem jeito.

   Eu gosto disso nele.

   Ele cuida de mim à sua maneira, discretamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

   Gosto das suas mãos quentes.

   Gosto da sua voz aguda.

   Gosto de como ele me faz rir.

   Gosto da sua gentileza.

   Às vezes, uma pequena parte de mim deseja poder ver o seu rosto.

   Eu tinha certeza de que ainda me apaixonaria por ele se soubesse como ele era.

   Eu gosto do Kakeru.

   Mas então um pensamento me ocorreu de repente.

   Eu estava com medo de confessar meus sentimentos.

   Será que o incomodaria o fato de eu ter uma deficiência? Eu não conseguia evitar me perguntar.

   Kakeru não é esse tipo de pessoa.

   Por mais que eu acredite nisso, eu ainda estava insuportavelmente ansiosa e assustada.

   Mas e se eu pudesse ver? E se eu não tivesse uma deficiência?

   Mesmo assim, eu tinha certeza de que ficaria com medo.

     Ah, é verdade.

     Confessar os seus sentimentos é sempre assustador.

   Não consegui conter o sorriso de alegria. Fazer esse tipo de descoberta me enchia de alegria.

   Eu estava feliz. Mesmo com a minha condição, eu ainda podia saber o que era o amor.

   Eu me perguntava o que Kakeru sentia por mim. Será que ele me diria que gostava de mim?

   Será que eu era quem deveria se declarar? E se ele me rejeitasse?

   Nós talvez tivéssemos nos adicionado no LINE, mas ele nunca tinha me contatado primeiro.

“Hee-hee.” — Eu não consegui conter o riso.

   Tudo era tão divertido — tão divertido que chegava a doer. Meu peito parecia que ia explodir.

   Eu me sentia tão feliz e tão magoada ao mesmo tempo.

“...Kakeru.”

   Acolhendo a confusão de emoções que eu estava sentindo, comecei a chorar.

 

 

   Para falar a verdade, havia uma coisa que me fazia querer sair do meu dormitório barato de dez mil ienes o mais rápido possível.

   Eu já tinha superado alguns pequenos problemas, como ter que dividir o quarto, o disjuntor desarmando com tanta frequência e o fato de o banheiro e o vaso sanitário serem separados.

   Então, qual era o problema?

   Treinamento de Cutter.

   Uma tradição imposta a todos os moradores do dormitório, o treinamento de Cutter já existia há mais de cem anos, desde que o Comodoro Perry desembarcou no Japão. No entanto, nesse tempo, a tradição definitivamente foi aprimorada.

   Os moradores do dormitório se reuniam no Cais Harumi antes das cinco da manhã e entravam em pequenos barcos chamados Cutters. Então, éramos obrigados a remar incessantemente ao redor da costa da Baía de Tóquio até o sol nascer, gritando “heave-ho” em uníssono. Algumas pessoas ficavam com bolhas nas mãos, enquanto outras tinham a pele das nádegas descascando. Era uma atividade incrivelmente antiquada.

   Tudo isso era para nos prepararmos para a Experiência de Remo em Cutter que nosso dormitório organizou no festival universitário no início de junho.

   Os barcos a remo estilo Cutter tinham seis bancos com capacidade para dois remadores cada. No entanto, durante o festival, apenas três desses bancos acomodavam remadores, com os outros ocupados pelos participantes do festival. O percurso abrangia o trecho triangular de água delimitado por Etchujima, Tsukishima e Toyosu, e depois de passar por baixo da Ponte Harumi, fazíamos um retorno. Era uma das principais atrações do festival.

   Com apenas metade do número habitual de remadores a bordo, tínhamos um fardo enorme para carregar, e todos os passageiros extras pesando no barco nos faziam sentir como se estivéssemos remando em um oceano de chumbo. Durante o festival — que durou um fim de semana — fomos obrigados a remar quatro vezes por dia, das onze da manhã às quatro da tarde, com apenas uma hora de intervalo ao todo entre as viagens. Tínhamos uma pausa para o almoço no meio, mas o sofrimento ainda era extremamente exaustivo. Inevitavelmente, ficamos com dores musculares intensas nos braços, costas e cintura. Os estudantes saíram dessa série de experiências infernais parecendo um pouco mais musculosos, mas para alguém como eu, que não tinha o menor interesse em ganhar massa muscular, isso me fez considerar seriamente não apenas sair do dormitório, mas voltar para a casa da minha família e me isolar.

   Mas o festival universitário chegou, e eu ainda estava lá.

   Eu tinha chegado à última atração. Incrivelmente, eu tinha chegado tão longe.

   Finalmente eu vou me libertar deste inferno… Esse pensamento me trouxe um certo alívio quando embarcamos no bote pela última vez.

   Ao meu lado estava Narumi, que ficava cada vez mais musculoso a cada viagem. Duas mulheres sorridentes com coletes salva-vidas estavam sentadas no banco à nossa frente.

“Você consegue, Kakeru,” disse Fuyutsuki.

“Espera! Não vamos virar à direita?” perguntou Hayase.

     Por que elas estavam ali?

“Rema com mais força, Sorano!” gritou Narumi.

“Você está remando com muita força, Narumi!” retruquei.

“Hya!” exclamou Fuyutsuki.

“Fuyutsuki, você está bem? Não está com medo, está?”

   Eu não conseguia evitar me preocupar com ela e se ela ficaria bem sem enxergar. Mas parecia que não tinha motivos para me preocupar.

“Estou me divertindo muito!” — Ela me tranquilizou. — “Vai, Kakeru, vai! Vai, Kakeru, vai!”

   Não pude deixar de me surpreender com o quanto ela estava animada.

“Por que você está gostando tanto disso?” — Perguntei.

“A brisa e o cheiro do mar são tão refrescantes! Como não gostar?!”

   A água espirrava do mar lá embaixo, e eu sentia a sensação fria na minha bochecha e o forte cheiro do oceano.

   Pequenas gotas de água brilhavam quando a luz as atingia.

   E lá estava Fuyutsuki, sorrindo. Eu não sabia por quê, mas me senti atraído pelo sorriso dela.

“É verdade!” — Narumi exclamou. — “O mar realmente desperta o espírito aventureiro de um homem! Se isso não te animar, nada vai!”

   Gritando “içar o remo!” Narumi tirou o remo da água, mergulhou-o de volta e empurrou o cabo para frente com força. Imitei seus movimentos, gritando e usando toda a minha força para puxar o remo em minha direção. Quando nossos remos tocaram a superfície, moveram-se vigorosamente pela água, e o impulso impulsionou nosso barco para frente com um solavanco.

   Fuyutsuki riu, balançando para frente e para trás junto com o barco.

“Isso é incrível!”

   Narumi, que agora estava cem por cento empolgado, soltou um alto “heave-ho!”. Sério? Pensei, farto — mas mesmo assim me juntei ao seu canto.

“Assim que isso acabar, vou largar a faculdade e plantar vegetais em casa…” eu disse, agindo como algum tipo de personagem de filme pouco antes de morrer.

   No entanto, a garota ingênua à minha frente levou minhas palavras ao pé da letra. “Você vai largar a faculdade?!”

“Ele não vai de verdade, Koharu. Não caia nas piadas bobas dele,” disse Hayase.

   Ela estava segurando firmemente a mão de Fuyutsuki há algum tempo e parecia pálida.

“Ei, Hayase—”

“Içar!”

“—bem?”

“O que foi?” — Ela respondeu irritada. Eu estava tentando perguntar se ela estava bem, mas minha voz deve ter sido abafada pelos gritos de Narumi.

“Hayase! Você está—?”

“Içar!”

   Narumi gritou por cima de mim mais uma vez.

“O que você disse?!”

“Içar!”

   Ele estava gritando muito alto.

“Eu estava perguntando se você estava bem!”

“Içar!”

“—não estou bem!”

   Dessa vez, ele gritou por cima de Hayase.

   Os gritos de Narumi estavam começando a me irritar. Eles interrompiam minha conversa constantemente.

   Havia um veterano sentado na popa do barco, no leme, e eu o chamei, sugerindo que diminuíssemos a velocidade.

“Alguém está enjoando,” expliquei, “então vamos mais devagar.” “Parem de remar, pessoal,” ordenou ele, e todos nós levantamos os remos.

“Obrigada,” disse Hayase.

“Você é tão gentil,” acrescentou Fuyutsuki.

“Desculpe, foi mal. Me empolguei um pouco,” disse Narumi, pedindo desculpas.

   O barco começou a se mover em um ritmo mais lento. Da baía, os arranha-céus de Tsukishima pareciam ainda mais altos. A luz do sol refletia na superfície da água, fazendo-a brilhar como um espelho oscilante. Havia uma brisa suave no ar, e Fuyutsuki segurava os cabelos enquanto o vento a envolvia.

   Eu a observei, hipnotizado. Quando percebi o que estava fazendo, fiquei muito constrangido. O fato de ter feito isso involuntariamente fez minhas bochechas queimarem ainda mais.

“Você sabia que todo ano tem um show de fogos de artifício no final do festival estudantil?” Fuyutsuki perguntou com um sorriso gentil, os olhos semicerrados.

“Eu faço parte da comissão do festival, então eu agradeceria muito se você pudesse levar a Koharu,” disse Hayase.

“Meu turno da noite começa às sete,” disse Narumi.

   …Ele vai para o trabalho de meio período depois desse inferno? O sistema de detecção de fadiga do cérebro dele devia estar completamente quebrado.

“Tudo bem, eu vou com você, Fuyutsuki. Podemos nos encontrar mais tarde. Me espere no terraço do centro estudantil.”

“Claro!” — Ela respondeu.

   Talvez fosse só impressão minha, mas ela parecia bastante feliz.

“Pensando bem, ainda não soltamos os fogos de artifício que compramos.”

“É. Se eu soubesse que ia ter fogos de artifício no festival, não teria precisado comprar tantos.”

“Como assim?” — Perguntei.

   Hayase sorriu para mim, parecendo um pouco exasperada. — “Bem, pelo menos você conseguiu um encontro com a Koharu,” — Provocou ela.

   Em seguida, Narumi interrompeu com uma informação desnecessária. “Ele até tomou banho antes de sair.”

“Sério? É melhor você ficar de olho, Koharu...” disse Hayase, lançando-me um olhar desconfiado.

“Ficar de olho em quê?” — Perguntou Fuyutsuki, parecendo confusa.

“Sério, parem com isso,” respondi bruscamente, tentando amenizar a situação.

   Nesse momento, o barco balançou repentinamente.

“Hyah!” — Gritou Hayase.

   Uma onda de risadas encheu o barco ao ouvir seu grito agudo.

“Ei, não riam,” disse Hayase, parecendo envergonhada — mas isso só tornou tudo ainda mais engraçado, fazendo com que todos nós ríssemos ainda mais.

   Banhados pela luz do pôr do sol, viramos o barco de volta em direção à universidade. À medida que nos aproximávamos, começamos a ouvir uma banda cover tocando. Era impossível entender a letra, mas conseguíamos ouvir a guitarra e a bateria, junto com os aplausos dos espectadores animados.

 

 

     É normal sentir dor muscular no mesmo dia em que você se esforçou demais?

   Meus braços tremiam e minha lombar parecia que ia se romper. Eu não tinha forças nem para abrir uma garrafa e minhas pernas mal me sustentavam. Meu corpo inteiro estava exausto.

   Eu sentia como se o chão estivesse tremendo, provavelmente porque eu tinha passado muito tempo no barco. Eu estava até com dificuldade para andar enquanto me dirigia ao nosso lugar de sempre no terraço, arrastando minhas pernas pesadas.

   Por algum motivo, a ideia de nós dois nos encontrarmos me deixou nervoso.

“Eu faço parte da comissão do festival.”

“Meu turno da noite começa às sete.”

   Minha cabeça começou a girar quando ouvi as desculpas de Hayase e Narumi. Eu estava incrivelmente feliz. Será que esse sentimento era o que eu imaginava? É, deve ser.

     Quando começou? Foi quando vi o quão animada Fuyutsuki estava mais cedo?

     Ou começou muito antes disso?

   A ideia de eu e Fuyutsuki passarmos um tempo juntos a sós me deixava muito animado.

   Não havia muita gente do lado de fora do centro estudantil, onde ficava o terraço. O festival estava acontecendo no grande gramado perto da entrada principal, onde, naquele momento, estava sendo realizado o concurso de yukata — o último evento.

   Eu conseguia ouvir a voz de Hayase, amplificada por um microfone; ela devia ser a apresentadora ou algo assim. Hayase participava da comissão do festival estudantil, além de suas outras responsabilidades. Ela era tão diferente de mim que comecei a admirá-la.

   Fuyutsuki estava no nosso lugar de sempre, tomando seu chá com leite habitual. Ela estava sentada ali, esperando por mim, enquanto o mundo ao nosso redor começava a adquirir um tom alaranjado.

   No momento em que vi Fuyutsuki, meu coração deu um salto. Com a mão no peito, chamei-a.

“Desculpe, te fiz esperar?”

“Não, tudo bem. Não esperei muito.”

“Seu chá com leite esfriou?”

“Está em um copo de papel, então esfria bem rápido mesmo.” — O vento estava relativamente frio, considerando que era início de verão.

   Um grito de alegria irrompeu à distância, vindo do concurso de yukata, e a voz animada de Hayase ecoou pelo crepúsculo.

“Kakeru?”

“Hmm?”

“Pensei que você tivesse desaparecido.”

“Ah, é mesmo. Fiquei quieto, não é?”

“Você é tão malvado.”

   Nós duas trocamos nossas brincadeiras de sempre e sorrimos um para a outro. Havia um clima agradável.

   Então Fuyutsuki murmurou algo.

“Eu queria ter usado um yukata.”

“Aposto que sua família super-rica tem uns bem caros.”

“Minha mãe costumava usar um yukata com estampa de lírio-aranha no obi. Eu sempre quis usar um igual.”

“Você deveria ter participado do concurso de yukata.”

“Você acha?”

“Tenho certeza de que você teria ganhado.”

“Se eu tivesse, você teria votado em mim?”

“Bem…” — Eu  disse em tom de brincadeira.

“Me dê uma resposta sincera.”

   A voz de Fuyutsuki de repente assumiu um tom severo, me deixando um pouco nervoso.

“É claro que eu teria votado em você, Fuyutsuki.”

“Mesmo eu sendo cega? Você ainda me escolheria como sua favorita?”—  Sua voz estava trêmula.

   Parecia frágil — como se pudesse se dissipar a qualquer momento.

   Eu nunca tinha visto Fuyutsuki tão ansiosa.

“Ter uma deficiência realmente importa em um concurso de yukata?”

   Eu me perguntei se essa resposta direta a incomodaria, e assim que a disse, senti uma onda de ansiedade.

   É claro que importava. No fundo, todos sabiam disso. Era impossível não notar tais diferenças.

   Mas—

“Mas eu teria votado em você de qualquer maneira.”

   O rosto de Fuyutsuki ficou vermelho. Seria por causa do pôr do sol?

“Isso soa quase como uma confissão,” disse Fuyutsuki, provocando-me.

   Era tão injusto da parte dela zombar de mim daquele jeito.

“Não, não é isso que eu quis dizer. Só estou dizendo que você ficaria bem.”

“Eu ficaria bem?”

   Ela me encarou, com uma expressão confusa em seu lindo rosto. Senti-me consciente.

“Não, sério, não é o que parece. Eu só presumi que uma garota rica como você estaria acostumada a usar yukata.”

“O que isso quer dizer?” — Respondeu Fuyutsuki, rindo.

   O brilho do pôr do sol a fazia parecer esplendorosa.

   Antes que eu percebesse, as palavras escaparam da minha boca.

“Então isso deve ser amor.”

“Huh?”

   A expressão de Fuyutsuki parecia congelada no tempo.

   Em pânico, tentei contornar a situação.

“QuerO dizer, você deve realmente amar fogos de artifício. Você está sempre falando deles.” — Fuyutsuki deu uma risadinha e voltou os olhos para o céu.

“Acho que seria maravilhoso se pudéssemos fazer nosso próprio show de fogos de artifício. Seria um dia tão especial — uma lembrança para a vida toda.”

   Parecia que ela estava imaginando fogos de artifício explodindo no céu que ela não conseguia ver.

“Sabe aqueles fogos de artifício que compramos por impulso outro dia?” — Fuyutsuki continuou — “Deviam ser bem pesados.”

“Eles estão quietinhos no canto do meu quarto agora, me olhando com ressentimento.”

“Eu queria que tivessem nos avisado que haveria fogos de artifício no festival estudantil.”

“Quando eles teriam feito isso?”

“Hum… Talvez na cerimônia de boas-vindas?”

“‘Parabéns a todos os nossos novos alunos! Sei que é um pouco cedo demais, mas vamos soltar fogos de artifício no festival estudantil!’ Algo assim?” — Perguntei, rindo.

“Fale sério,” retrucou Fuyutsuki, mas ela também estava rindo.

   Olhei para o céu. Nuvens escuras se acumularam e um vento frio soprava.

“E agora, o momento que todos vocês estavam esperando! A gloriosa vencedora do concurso de yukata é…!”

   A voz de Hayase ecoou ao longe, seguida por uma grande ovação.

   Fuyutsuki e eu a ouvimos juntas.

   Havia uma atmosfera confortável entre nós enquanto conversávamos sobre assuntos banais, refletindo sobre como a voz de Hayase estaria rouca no dia seguinte e comentando sobre o entusiasmo da multidão.

   Desfrutamos de um momento de calma, ouvindo as vozes à distância.

   Então, de repente, algo mudou.

   Gotas de chuva começaram a cair, uma a uma. O cheiro de chuva instantaneamente preencheu o ar e, em pouco tempo, o som da chuva se intensificou.

   O show de fogos de artifício foi cancelado, então decidimos dividir um guarda-chuva e voltar para o apartamento de Fuyutsuki.

   Aconteceu enquanto nos despedíamos em frente ao prédio dela.

   Naquele dia, escondidos debaixo do guarda-chuva, Fuyutsuki e eu trocamos nosso primeiro beijo.

 

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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