Amor Invisível Sob o Céu Noturno Japonesa

Tradução: DelValle

Revisão: Almeranto


História

Capítulo 4: Monja

   Tsukishima era o lar da Rua Monja, uma rua repleta de restaurantes que serviam panquecas monja salgadas, onde o cheiro do molho pairava no ar. Era perto, então eu sempre planejei visitá-la em algum momento, mas a oportunidade nunca tinha surgido. Eventualmente, eu tinha me esquecido completamente de que Tsukishima era famosa por isso.

   No dia seguinte ao meu beijo com Fuyutsuki, visitei um dos restaurantes de monja de Tsukishima.

   Era a primeira vez que eu beijava alguém, então eu não tinha certeza de como processar os eventos do dia anterior. Depois de refletir ansiosamente sobre as coisas, concluí que não tinha escolha a não ser pedir conselhos a Narumi. Depois de ouvir em silêncio, ele fez uma sugestão.

“Que tal irmos comer monja?!”

   O restaurante de monja para onde fomos era pequeno, com apenas seis lugares. Estava lotado quando chegamos, mas felizmente conseguimos ocupar os lugares de alguns clientes que estavam saindo.

   Todas as outras pessoas lá eram adultos, o que me deixou inquieto. Fiquei feliz por ter me matriculado na faculdade, mas eu era o tipo de estudante caseiro que passava a maior parte do tempo vagando pelo dormitório. Comer fora com um amigo era como uma mini aventura para mim.

“Espera aí, o pessoal de Kansai não come monja, né? Vocês comem okonomiyaki, certo?”

   Eu estava sentado em um banquinho sem encosto, olhando para o cardápio. Não havia okonomiyaki ali — apenas uma variedade de panquecas monja.

   Narumi, sentado à minha frente, picava finamente repolho frito com sua espátula de metal. Ele parecia um profissional. Quando um cara durão como ele manuseava uma espátula na frente de uma chapa, inevitavelmente parecia um vendedor ambulante de comida de rua.

“Minha mãe é de Gunma, então sou mestiço — metade de Kanto, metade de Kansai. Costumávamos comer monja o tempo todo em casa.”

“Como assim, ‘mestiço’?” Perguntei: “Espera aí, Gunma fica na região de Kanto?”

“Você acabou de irritar metade do Japão dizendo isso.” Narumi me encarou.

[Del: O único lugar que sei de Kanto é a cidade de Pallet.]

“Tanto faz. Vamos fazer o monja logo!” Eu disse, numa tentativa desesperada de acalmá-lo.

   Narumi começou a despejar a mistura de monja com molho inglês sobre uma base de repolho em formato de rosca.

   O som crepitante do óleo e da água ecoava na chapa, e o aroma do molho inglês subia.

   Parecia delicioso.

   Nesse instante, a porta de correr do restaurante se abriu com um rangido.

   Uma mulher sozinha entrou. Era Hayase.

   Fiquei pensando se ela também estava com alguma amiga.

   Então, Narumi levantou a mão e a chamou.

“Por aqui!”

“Desculpem, fiz vocês esperarem?” ela perguntou.

   Hayase sentou-se junto à parede ao lado de Narumi e pediu um chá oolong ao garçom como se já o tivesse feito um milhão de vezes.

“O que está acontecendo?”

     Exijo uma explicação, Sr. Narumi.

   Lancei-lhe um olhar.

“Só um momento! Esta é a parte importante,” disse ele, quebrando a base de repolho e espalhando o monja por toda a chapa. Começou a chiar, liberando nuvens de vapor.

“Depois de mais três minutos, você tem que cutucar com a espátula pequena.” Hayase observou Narumi.

“Você sabe o que está fazendo. Pensei que as pessoas de Kansai não comessem monja.”

“Eu perguntei a mesma coisa agora há pouco,” eu disse.

   Narumi ignorou meu comentário. A julgar pela expressão em seu rosto, ele estava satisfeito por ter sido perguntado.

“Minha mãe é de Gunma, então sou mestiço — metade de Kansai, metade de Kanto.”

“Como assim ‘mestiço’? Ah-ha-ha.”

   Hayase riu tanto que acabou olhando para o teto.

“Espera, Gunma fica em Kanto?”

“Eu perguntei a mesma coisa…”

   Será que esse era o assunto preferido de Narumi sempre que ele estava na frente de uma chapa? — O pensamento me fez sorrir enquanto eu estava sentado ali.

   Olhei para Narumi, esperando que ele desse uma bronca em Hayase como tinha feito comigo.

   Mas ele não deu.

“Os pais da minha mãe moram bem no meio do nada.”

“Ei!”

     Será que Hayase não estava arrumando confusão com a outra metade do Japão também?

   Nesse instante, a garçonete voltou com a bebida de Hayase.

“Saúde!”

   Hayase e Narumi brindaram com o meu copo.

“Está quase pronto,” disse Narumi.

   Cutucamos a panqueca, que estava crocante de um lado, com nossas pequenas espátulas. Coloquei um pedacinho da monja quente na boca, queimando a língua. O aroma do molho subiu pelas minhas narinas e o sabor salgado do repolho se espalhou pela minha boca.

“Está muito bom,” eu disse.

“É. Está delicioso,” acrescentou Hayase, parecendo surpresa.

“Não é?” respondeu Narumi. Ele parecia satisfeito consigo mesmo.

“Isso me lembra, Sorano. De onde você é mesmo?” perguntou Hayase.

“Do extremo oeste de Honshu.”

“As pessoas não comem monja em Shimonoseki, né?” Narumi interrompeu.

“Vocês não grelham soba em telhas?”

“Huh? Do que você está falando?” perguntou Hayase.

“Chama-se kawara soba.”

“Eu ri muito quando ele me mostrou uma foto. Eles grelham soba de chá verde em telhas,” explicou Narumi.

   Ele pesquisou no celular e mostrou a foto para Hayase.

“Você não estava brincando. Mas por que grelhar o macarrão em uma telha?”

“Elas conduzem a quantidade certa de calor. Toda família perto de onde meus pais moram tem uma telha.”

“Então é tipo o equivalente local de uma panela de ferro fundido?”

   Existia um prato local que grelhava macarrão soba em uma telha, mas a parte sobre toda casa ter uma telha era obviamente uma piada. O fato de Hayase ter levado a sério me fez rir.

“Como isso se parece com uma panela de ferro fundido?”

“Oh! Você estava mentindo para mim!”

“Eu estava brincando, claro. Enfim, vamos comer um pouco de monja.”

   Como esperado, Hayase percebeu que eu estava mentindo, e Narumi riu comigo enquanto começava a comer.

   Depois de saborearmos nosso monja normal, devoramos o monja de macarrão crocante e outro chamado Monja Super-Saboroso, com mentaiko, mochi e queijo.

   Originalmente, tínhamos ido ao restaurante para conversar sobre a situação de Fuyutsuki, mas com Hayase por perto, eu não sabia como tocar no assunto.

   Tendo perdido a chance de abordar o tema, devorei um monja atrás do outro, repetindo o mesmo comentário — “Isso é ótimo!” — várias vezes.

“Sorano, você está bem?” ouvi Narumi perguntar. Ele parecia preocupado.

“Nunca estive melhor.”

“Você está comendo demais,” comentou Hayase com um ar de exasperação.

   Acabei comendo muito mais do que costumo comer. Talvez o monja estivesse simplesmente delicioso. Os outros dois já estavam satisfeitos, mas sugeri pedir outro mesmo assim.

   Eu me empolguei e comi tanto que começou a doer.

“Muito bem. Já está na hora de você nos contar sobre a Fuyutsuki,” disse Narumi. Ele deve ter percebido minha relutância em tocar no assunto, mas naquele momento eu não estava em condições de conversar.

“Só... me deixe descansar um pouco,” eu disse.

   Chamei a atenção do garçom e pedi mais chá oolong.

“Vim porque ouvi dizer que você tinha algo interessante para compartilhar, mas parece que isso virou uma festa de monja,” disse Hayase, rindo e segurando seu copo de chá.

   Peguei meu copo cheio e bebi tudo de uma vez — mas havia algo estranho no gosto.

“Isso é... álcool?” Eu nunca tinha bebido álcool antes, mas o chá oolong tinha um cheiro parecido com o de desinfetante para as mãos e um gosto estranhamente amargo.

“Desculpe! Eu te dei o chá oolong de outra pessoa?” perguntou a garçonete, vindo até mim apressadamente. Ela logo voltou com o meu chá.

“Você está bem, Sorano?” ouvi Hayase perguntar, parecendo preocupada.

“Estou bem.”

“Seus olhos estão começando a ficar vidrados,” disse Narumi com um sorriso.

   Deve ser porque eu bebi metade do copo de uma vez.

   Meus pensamentos estavam claros, mas minha visão estava turva, e eu quase me sentia como se estivesse sonhando. Era como se eu estivesse tendo algum tipo de experiência fora do corpo, olhando para mim mesma através de uma câmera tremida. — É assim que se sente quando se está bêbado?

“Ah-ha-ha.”

   Me peguei rindo, mesmo que nada fosse engraçado.

“Ih, rapaz,” disse Narumi. “Não sei se você está em condições de falar sobre a Fuyutsuki agora.”

“Não se preocupe, está tudo bem. Eu posso falar.”

“Bem, talvez um pouco de embriaguez fosse o que você precisava,” disse Narumi, olhando diretamente para mim. “Então, conte-nos o que aconteceu com a Fuyutsuki.”

“Eu já contei.”

“Tudo o que você disse foi ‘Eu beijei a Fuyutsuki. O que eu devo fazer agora?’ Como posso dar algum conselho com base nisso?”

“Não, eu não a beijei. Ela me beijou.”

“De qualquer forma, conte logo!” disse Hayase.

   Ela parecia realmente querer saber.

   Depois que os fogos de artifício do festival estudantil foram cancelados por causa da chuva, Fuyutsuki e eu decidimos nos abrigar embaixo da escada externa, bem ao lado do terraço.

   Eu conseguia pensar em duas opções: ou continuávamos nos abrigando do aguaceiro, ou eu acompanhava Fuyutsuki de volta para casa na chuva.

   Logicamente, eu sabia que levar Fuyutsuki para casa era a coisa certa a fazer.

   A verdade, porém, era que eu queria passar um pouco mais de tempo com ela.

   A temperatura tinha caído no terraço e estava ficando frio. Nenhum de nós tinha guarda-chuva.

   Foi então que aconteceu.

Atchim!” Fuyutsuki espirrou adoravelmente.

   Conversamos um pouco sobre voltar para o dormitório e eu convidei Fuyutsuki para o meu quarto.

   Eu a cobri com a camisa que eu estava usando e caminhamos de mãos dadas. Quando chegamos ao dormitório, estávamos ambos encharcados pela chuva, então nos enrolamos em toalhas de banho para nos secar.

“Você se molhou bastante lá atrás. Está tudo bem? Conseguiu se secar?” perguntei.

“Estou bem. Obrigada pela toalha,” respondeu Fuyutsuki. “Hum, isso é meio constrangedor de perguntar... mas a chuva deixou alguma das minhas roupas transparente?”

   Fuyutsuki jogou o cabelo comprido para a frente, expondo a nuca. Eu sabia que ela queria que eu olhasse para as roupas dela em vez do pescoço — eu realmente queria — mas não consegui evitar dar uma olhadinha.

   A chuva tinha deixado sua blusa branca fina transparente, revelando a regata que ela usava por baixo.

   A combinação do pescoço nu com a regata aparecendo por baixo da roupa era bem atraente, e eu senti algumas sensações estranhas começarem a surgir dentro de mim.

   Fingi manter a calma, sem saber o que dizer.

   Eu não podia simplesmente dizer “Sua blusa está transparente”. Uma afirmação tão direta seria um choque.

“Está tudo bem. Não está transparente,” assegurei a ela. “Dito isso, você parece estar com frio. Enrole esta toalha nos ombros.” Coloquei a toalha em volta dela.

     ...Que situação constrangedora.

   Fuyutsuki estava sentada na minha cama.

   Como era de se esperar, eu nunca tinha ficado sozinho com uma mulher no meu pequeno quarto antes. Eu tinha sido quem a convidou para entrar, mas comecei a me sentir estranhamente nervoso e me peguei prestando atenção no som do relógio na parede. A cada tique-taque do ponteiro dos segundos, eu podia ouvir as batidas do meu próprio coração.

   Após alguns minutos de silêncio, Fuyutsuki disse: “Então este é o seu quarto, Kakeru?”

“S-sim. Eu divido com o Narumi. Onde você está sentada é a minha cama.”

“Esta é a sua cama?”

   Fuyutsuki se deitou e enterrou o rosto no meu travesseiro. Eu podia ver suas pernas longas e pálidas aparecendo por baixo da saia.

“Hum, é melhor você tomar cuidado... Quase consigo ver sua calcinha.”

   Fuyutsuki se sentou de repente, pressionando as mãos contra a barra da saia.

“...” Silêncio. Eu me senti tão sem jeito. Meu coração estava batendo muito forte.

“Você viu?”

“Eu te avisei antes de dar uma olhada.”

“Você é um pervertido.”

“Eu já disse, não vi nada!”

“Acredito em você,” disse Fuyutsuki, rindo novamente.

   Ela realmente não parava de rir.

“Que pena,” ela acrescentou.

“Sério, eu não vi nada!”

“Ah, eu estava falando dos fogos de artifício.”

   Eu tinha tirado uma conclusão precipitada e minhas bochechas começaram a corar. Estava tão envergonhado que queria morrer.

“Eles vão fazer de novo no ano que vem. É uma tradição do festival estudantil, pelo visto.”

“Quero entrar para esse clube. Soltar fogos de artifício no festival estudantil… É a personificação da juventude. Aposto que me rejeitariam.”

“Por que não entramos nós dois?”

“Eh? Sério?!”

“Não me incomoda.”

“É uma promessa.”

   Com isso resolvido, Fuyutsuki se virou para a janela.

“O que foi?” perguntei.

“A chuva não está tão forte quanto antes.”

   Ela tinha razão; a chuva que eu conseguia ver pela janela não estava tão intensa.

   Achei que agora seria a melhor hora para levar Fuyutsuki de volta para o apartamento dela, então saímos. Além disso, eu estava no meu limite.

   Se tivéssemos ficado juntos por mais tempo, eu poderia ter perdido o controle.

   Eu não conseguia parar de engolir a saliva enquanto observava os pés descalços de Fuyutsuki se moverem pelo tapete. Felizmente, minha razão prevaleceu, mas por pouco, e o pensamento do que poderia ter acontecido fez meu coração disparar.

   Dividindo meu guarda-chuva, Fuyutsuki e eu caminhávamos juntos sob os postes de luz. Era difícil para ela usar sua bengala branca, então ela se apoiou no meu braço, e parecíamos estar participando de uma corrida de três pernas.

   A garoa fina penetrava na cobertura do guarda-chuva, molhando minha bochecha.

   Fuyutsuki sorriu ao meu lado. Eu podia sentir o cheiro do seu xampu misturado com o cheiro da chuva.

   Recitei um mantra budista para tentar me distrair, mas, pelo que eu conseguia me lembrar, tinha apenas sete sílabas. Então tentei me lembrar dos dígitos de pi, mas só sabia até a oitava casa decimal, então isso me manteve ocupado por uns três segundos.

“P-pensando bem, o que vamos fazer com todos os fogos de artifício que compramos?” perguntei a Fuyutsuki.

“Vamos soltá-los no verão com todo mundo.”

“Você pode sair à noite?”

“Sim. Quer dizer, o encontro em que nos conhecemos foi à noite, não foi?”

“Boa ideia. Okay, então vamos convidar o Narumi e a Hayase.” 

“Parece ótimo,” disse ela com um sorriso satisfeito.

   Fuyutsuki abriu a boca novamente.

“Ei, Kakeru...”

   Desta vez, porém, ela pareceu um pouco hesitante.

“Você não tem namorada nem nada, né?”

“Namorada?”

“Sim.”

“Hã? Não, não tenho.”

“Ah, que bom,” respondeu Fuyutsuki, parecendo aliviada.

     …O que ela quer dizer com isso?

“O que você quer dizer?”

“Ah! Uh! Hã?! Ah, você sabe. Você é tão gentil comigo, que eu me sentiria mal se você tivesse uma namorada. Quer dizer, você está me deixando agarrar no seu braço agora.”

“É só isso?” perguntei antes que pudesse me conter.

“O que você quer dizer?” respondeu Fuyutsuki, parecendo confusa.

“Ah, hum, hmm?! Quer dizer, sabe… Isso só… me fez pensar se você gosta de mim.”

“Hã? Espera, o quê?!”

   Nós dois continuamos soltando todo tipo de som estranho.

   Não estávamos chegando a lugar nenhum.

“Acho que não sou muito bom nesse tipo de piada,” eu disse, fingindo que estava brincando.

   Fuyutsuki ficou vermelha e beliscou meu braço de leve, como se estivesse um pouco irritada.

“Maldoso.”

“Isso doeu.”

“É o que você merece,” disse ela.

  Então Fuyutsuki pareceu ter uma ideia.

“Tudo bem,” disse ela baixinho, com um tom determinado.

“O que foi?”

“Você sabia que mesmo sendo cega, existe uma maneira de ver o rosto de uma pessoa?”

“Existe?”

   Ela me deu um sorriso satisfeito.

“A gente toca o rosto das pessoas com as mãos para ver como elas são.”

“Então, basicamente, você quer fazer isso comigo?”

   Estávamos frente a frente do apartamento de Fuyutsuki.

“Posso?” ela perguntou.

   Fuyutsuki tocou meu peito delicadamente. Ela deslizou os dedos para cima, até chegar ao meu rosto, onde suas pequenas mãos frias acariciaram minhas bochechas.

“Você pode se abaixar um pouco?”

“Assim?” eu disse, me agachando.

   Então algo quente tocou meus lábios. Fuyutsuki estava bem na minha frente, com os olhos fechados, e seus lábios macios estavam contra os meus.

   Estávamos nos beijando.

   Quando me dei conta do que estava acontecendo, meu coração começou a bater tão forte que parecia que ia explodir.

   Um segundo se passou, depois dois, depois três.

   Fuyutsuki soltou um pequeno “Hum,” e então afastou os lábios.

“Kakeru…”

“Como você lida com esse tipo de brincadeira?” As palavras de Fuyutsuki fizeram meu coração palpitar tão intensamente que doía.

   Fiquei paralisado, incapaz de dizer uma palavra.

“Boa noite,” disse Fuyutsuki, agarrando-se ao corrimão da rampa.

   Ba-dump, ba-dump, ba-dump. Meu coração batia tão forte.

“Boa noite,” murmurei para Fuyutsuki. Mas tudo o que eu conseguia fazer era observá-la se afastar.

   Eu ainda sentia a sensação de antes em meus lábios, e um aroma doce emanava deles, presumivelmente deixado por seu batom.

 

 

“Então foi isso que aconteceu,” concluí, tendo resumido os eventos daquela fatídica noite.

“Droga, vivendo a sua melhor vida,” resmungou Narumi, com as pupilas dilatadas.

   Enquanto isso, Hayase gritou: “Não era assim que eu imaginava que terminaria!” com um falso sotaque de Kansai, e deitou-se de bruços na mesa. “Por que você não foi o primeiro a correr atrás dela?!”

“É isso mesmo que importa aqui?”

“Bem, tanto faz. Só me dê um segundo para me acalmar,” disse Hayase, antes de me olhar com um olhar severo. “Mas não era o rapaz que deveria confessar seus sentimentos?”

“Claro, mas vivemos em um mundo sem gênero hoje em dia,” acrescentou Narumi.

“O Sorano tem o jeito dele de fazer as coisas.”

“Mas ele a levou para o quarto dele e mesmo assim não fez nada.”

“Eu não poderia.”

“Por que não?”

“Quer dizer, a Fuyutsuki não enxerga.”

“O quê?!” exclamou Hayase, furiosa. Devo ter tocado em um ponto sensível. “Você não pôde fazer nada com ela porque ela é deficiente?”

“Hã? Não foi isso que eu quis dizer!”

   Eu estaria mentindo se dissesse que nunca tinha pensado nisso antes, mas ainda sentia que Hayase estava entendendo tudo errado.

“Vocês precisam se acalmar!” disse Narumi, tentando amenizar a situação. Sua voz, porém, era mais alta que a minha e a de Hayase, e reverberou pelo restaurante, atraindo olhares dos clientes próximos. Quando Narumi percebeu, pediu desculpas a todos.

“Explique-se, Sorano,” disse ele, retomando nossa conversa anterior.

“Bem, a Fuyutsuki...”

“Sim?” disse Hayase.

   Ela estava encostada na parede com os braços cruzados e uma expressão carrancuda no rosto. De vez em quando, ela interrompia em voz baixa.

“Ela é cega...”

“Hum-hum.”

“Então pensei que ela ficaria com medo.”

“Hã? O que você quer dizer?”

“Quero dizer, ela ficaria com medo se eu a tocasse de repente. E se eu começasse a correr atrás dela ou algo assim, isso a assustaria muito.”

   Os olhos de Hayase se arregalaram ao ouvir isso. Ela começou a rir e bater palmas.

“Ah-ha-ha-ha.”

“Ei, você não precisa rir tanto,” disse Narumi.

“Mas ele é tão inocente,” respondeu Hayase entre risos.

   Até Narumi, que estava sentado em silêncio com os braços cruzados até então, começou a rir baixinho. Seu corpo inteiro tremia de tanto rir.

“Vocês estão zombando de mim?” eu disse.

“De jeito nenhum.”

“Claro que não.”

   As vozes deles se sobrepuseram, e os dois trocaram olhares com risinhos cúmplices.

“Com certeza!”

   Ambos caíram na gargalhada, agarrando a barriga. Sinceramente, eu queria que eles fossem para o inferno.

“Só me deixe te perguntar uma coisa,” disse Hayase. “O que você gosta na Koharu?”

“Como se eu fosse te contar.”

“Ah? Deve ser o rosto dela ou o corpo, então. Que nojo. A Koharu não merece um cara assim.”

“Não é isso.”

   Virei o resto do meu chá oolong.

“Ela sempre tem um sorriso no rosto.”

“Ah~?” disse Hayase, apoiando os cotovelos na mesa. Ela me olhou com um sorriso gentil.

“Se eu perdesse a visão...”

“É mesmo?”

“Duvido que eu pudesse ter tanta certeza.”

“Entendo.”

“Quer dizer...”

“Hum?”

“Eu nem consegui manter o otimismo quando meus pais se divorciaram.”

“Ah, é?”

“Eu não conseguia parar de sentir pena de mim mesmo, me perguntando por que eu tinha que sofrer se não era minha culpa.”

“Ah… É mesmo.”

“A Fuyutsuki é muito mais livre do que alguém como eu, que passa o tempo todo tentando decifrar as expressões das pessoas. É incrível, de verdade. Sinto que ela tem tudo o que me falta. Ela me ensinou que a felicidade depende da sua mentalidade.”

   Talvez fosse o álcool que me fazia falar sem pensar, mas eu não me importei.

“Eu te entendo,” disse Hayase.

“Eu gosto muito dela.”

   Ela assobiou, me provocando, mas eu ignorei. “Ela me fez perceber que o que importa é o que está dentro.” Hayase me olhou com uma expressão gentil.

“Eu sei o que você quer dizer,” disse ela. “A Koharu sempre foi assim, desde que a conheço. Ela se veste bem todos os dias, te arrasta para fora porque quer soltar fogos de artifício e frequenta todas as aulas. Ela nunca usa a visão como desculpa para nada. Até eu durmo demais às vezes, e não tenho como justificar! Ela é realmente incrível.”

   Hayase tinha um olhar distante, e imaginei que ela estivesse visualizando o rosto da amiga. Tive a sensação de que, mesmo em sua imaginação, Fuyutsuki estaria sorrindo.

“É difícil explicar, então não sei bem como dizer isso,” continuou Hayase. “Ela é sempre honesta consigo mesma e direta. Ela é o meu completo oposto, então entendo perfeitamente por que você a admira. A Koharu é simplesmente demais, não é?”

   Percebi que Hayase estava tentando transmitir o quão incrível Fuyutsuki era. Foi a vontade de Fuyutsuki de buscar o que quisesse e sua recusa em dar desculpas que me atraíram.

   Isso provavelmente também impressionou Hayase.

   Nesse momento, Narumi bateu no joelho e falou:

“Muito bem. Você precisa dizer a ela o que sente, então.”

“Não sei não...”

“Por que não? É o momento perfeito!” insistiu Hayase.

“...De que forma?” perguntei.

“Imagino que seria uma meta muito difícil para você,” disse Narumi com um suspiro.

“Não é isso.”

“Tem certeza de que gosta dela?” perguntou Hayase, tentando me provocar.

“Claro!”

“Entendo por que você está com dificuldade de criar coragem. Quer dizer, ela é cega e tudo mais,” disse Narumi com outro suspiro dramático.

“Eu já disse, esse não é o problema!”

“Mas você realmente gosta dela?” perguntou Hayase novamente.

“O quê? Tudo bem, eu conto para ela.”

“Quando?” respondeu Hayase.

“Não sei.”

“Certo, então faça agora. Mesmo que seja só um treino. A gente filma.”

“…Treino?”

“Ah, agora entendi. Você só fala e não faz nada. Coitada da Koharu.”

   Um som como se vasos sanguíneos estivessem estourando reverberou dentro da minha cabeça.

   Inclinei o copo para mim para tomar um gole, mas estava vazio. Coloquei gelo na boca, mastiguei e engoli. Então me levantei e gritei alto o suficiente para que todo o restaurante ouvisse.

“Atenção, pessoal!”

   Todos se viraram para me olhar.

   Vi vários pares de olhos curiosos.

   Hesitei por um momento, mas não havia mais volta.

“Tenho um anúncio importante a fazer!”

   Senti-me como aquele cafajeste que convidou a Hayase para sair na festa de boas-vindas. O restaurante ficou em silêncio e todos mantiveram os olhos fixos em mim... exceto em uma mesa, onde alguém despejava uma nova porção de massa na chapa à sua frente. Eu podia ouvir o chiado e o cheiro do molho vinha na minha direção. Eu sabia que não estava com uma aparência legal, mas não havia como parar agora.

“Eu, Kakeryu Sorano—”

“Ah, você errou o seu próprio nome,” interrompeu Hayase.

“É sério mesmo,” acrescentou Narumi.

   Eu esperava fazer uma confissão única na vida, mas, graças ao álcool, acabei tropeçando nas palavras. Os olhares que Narumi e Hayase me lançavam diziam claramente: “Você estragou tudo,” e uma onda de constrangimento me invadiu, me fazendo sentir como se fosse chorar.

     Droga. Eu vou fazer isso. Vou logo dizer.

“Eu, Kakeru Sorano, gosto da Koharu Fuyutsukiiiii! E eu quero sair com elaaaa!” O silêncio tomou conta do salão. Parecia que a maré tinha recuado.

   E então…

“Wooooooooowww!”

   As pessoas começaram a aplaudir e o restaurante se encheu de aplausos estrondosos.

“É a juventude, né?” gritou um cliente para mim.

“Sai comigo também!” zombou outro homem, me deixando perplexo.

“Isso é bom o suficiente para você?” perguntei a Narumi.

   Ele estava sentado bem na minha frente, parecendo atônito.

“É, sim. Que coragem a sua, hein?”

   Hayase deu uma risadinha e mexeu no celular, que estava apontado na minha direção. Então, por algum motivo inexplicável, ela virou a tela para mim.

“Enviei isso para a Koharu.”

“O quê?”

   Olhei para o celular de Hayase; com certeza, ela tinha enviado um vídeo para uma pessoa chamada Koharu.

     Huh? O quê?

   Esfreguei os olhos e olhei para a tela novamente.

   Ela tinha enviado um vídeo para Koharu — e a mensagem tinha sido lida.

“Você está falando sério?”

“Muito sério,” disse Hayase, antes de cair na gargalhada.

“Você só pode estar brincando!” retruquei, mas Hayase continuou rindo.

   Narumi se juntou a ela, assim como alguns outros clientes, e eu queria que a terra me engolisse.

   Vários dias se passaram.

   Ainda não havia resposta de Fuyutsuki.

 

[Del: Pai amado… bomba kkkkkk, esse capítulo foi uow, to curtindo demais,a interação deles é boa demais e bem fofa. Tá valendo a pena traduzir isso aqui, simbora que ainda tem coisa para acontecer. | Almeranto: Será que a gente conta pra ele?]

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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