Amor Invisível Sob o Céu Noturno Japonesa

Tradução: DelValle

Revisão: Almeranto


História

Capítulo 2: O Terraço

   Não se vê isso com frequência hoje em dia, mas o dormitório da nossa faculdade tinham quartos compartilhados. Provavelmente era um resquício da longa história do estabelecimento.

   É compreensível que eu não estivesse muito animado com a ideia de ter que dividir um quarto.

   No entanto, havia uma vantagem que eu não podia ignorar: era barato.

   Meu aluguel era de dez mil ienes por mês — surpreendentemente barato para Tóquio.

   Não havia como eu resistir a uma pechincha dessas.

   O colega de quarto de cada pessoa era uma verdadeira loteria, e uma vez que vocês eram colocados juntos no primeiro ano, ficavam juntos até que um de vocês se mudasse. Parecia ser comum que os colegas de quarto morassem juntos durante os quatro anos.

   Embora Narumi pudesse ser insistente, eu sabia que, no fundo, ele era um cara legal. Ele me acordava quando eu parecia que ia dormir demais, e eu tinha começado a apreciar a presença dele.

“Você não tem aula no primeiro horário, Sorano? Ficou acordado até tarde de novo, né?” Ele disse, oferecendo-me uma sopa instantânea de missô assim que acordei.

   Ainda grogue, aceitei. Dei um gole e suspirei aliviado.

“Espera aí, você é minha mãe ou algo assim?”

   Ultimamente, eu sentia que o senso de humor de Kansai do Narumi estava começando a me influenciar.

   A primeira aula de segunda-feira era sempre um desafio, mas dormir o fim de semana inteiro tornava as segundas-feiras especialmente difíceis de encarar.

   A festa de calouros na sexta-feira me deixou mentalmente exausto, então passei o sábado e o domingo inteiros na cama. Ter que encarar uma aula às 08:50 com a mente tão desfocada era praticamente uma tortura.

[Del: Quem dera minha aula começar 8h50. Brasileiro médio base é 7h. // Almeranto: Ainda bem que terminei a escola]

   Enquanto esse pensamento passava pela minha cabeça, bocejei e respirei o ar fresco do final de abril.

   Saí do dormitório e atravessei a rua em uma pequena faixa de pedestres. Minha universidade, situada bem em frente ao nosso prédio, ficava a apenas um minuto de caminhada.

   Há um denso bosque de árvores logo na entrada da escola, pelo portão dos fundos. É fresco debaixo delas, e o ar está impregnado com o cheiro de terra e o canto dos pássaros. Essa atmosfera revigorante me animou, e dei passos mais largos enquanto caminhava até o grande auditório.

   O espaçoso auditório, que comportava cem pessoas, estava repleto de conversas animadas. Havia pequenas escadas de cada lado da entrada, e subi uma delas, virando-me para a frente do auditório, onde ficava o quadro-negro. Todas as carteiras da sala de aula estavam dispostas em declive em direção a ele.

   Não cumprimentei ninguém, nem ninguém me cumprimentou.

   Segui para o meu lugar de sempre, tentando ficar fora do campo de visão das pessoas. Não tínhamos lugares marcados, mas depois de um mês de aulas, praticamente todos já tinham um lugar preferido.

   Hoje, porém, alguém havia ocupado o meu. Relutantemente, procurei outro lugar para sentar e, por fim, encontrei um assento vago bem no fundo.

   Assim que cheguei lá, notei Fuyutsuki sentada na outra ponta de uma longa mesa.

   Fiquei surpreso, mas é claro que não a cumprimentei.

   Peguei meu celular e descobri que tinha recebido uma mensagem no LINE. Era de Hayase.

   Olhei a mensagem na tela principal do aplicativo para que não fosse marcada como lida.

[Almeranto: Quem nunca fez isso? Kkkkkk. O problema é apertar na notificação sem querer. // Del: Eu já usei para ler e tirar print de uma mensagem que eu sabia que seria apagada kkkkkk.]

《Yuuko: Cuide da Koharu para mim!》

   Ela era inacreditável. A essa altura, eu só podia aplaudir à sua audácia.

   Hayase e Fuyutsuki só tinham se conhecido na cerimônia de entrada, o que significava que nem sequer se conheciam há um mês.

   Me chocou que Hayase estivesse disposta a se intrometer tanto na vida de outras pessoas por causa de alguém que ela conhecia há apenas algumas semanas. Será que ela tinha um senso de justiça muito forte ou algo assim?

   Quando olhei para Fuyutsuki, notei que ela estava passando os dedos delicadamente sobre um livro. O livro era completamente branco — a capa, as páginas, tudo. Não parecia haver nenhuma letra preta impressa nele.

   Ela mantinha um marcador de páginas de plástico amarelo entre as páginas enquanto as virava, depois tirava o marcador e começava a acariciar as páginas em branco novamente com as pontas dos dedos. Quando olhei mais de perto, vi que as páginas tinham relevos; devia ser braille.

   A luz do sol da manhã que entrava na sala de aula dava a Fuyutsuki um brilho luminoso.

   Enquanto eu a observava, a agitação do auditório começou a diminuir.

     O que ela está lendo?

     Que tipo de livro é?

   Eu estava curioso, mas não consegui reunir coragem para perguntar. Isso me deixou sem outra opção a não ser dar uma olhada furtiva no título — mas até ele estava em braille. Eu não tinha como ler o que estava escrito.

   Tanto faz. — Decidi fingir que não a tinha visto.

   Acontece que eu não consegui manter esse plano por muito tempo.

   Fuyutsuki tentou inserir o marcador de páginas entre as páginas atrás da que estava lendo, mas ele ricocheteou na borda do livro e deslizou na minha direção.

   Ela não pareceu notar.

   Peguei e olhei para ela como quem diz “É seu?” mas é claro que não havia como ela saber. Tentei deslizar o marcador de volta para ela, mas mesmo assim, ela não percebeu que estava lá.

   Refleti sobre o que fazer a seguir; no entanto, não demorei a perceber que não tinha outras opções, então me preparei psicologicamente.

“Bom dia,” eu disse a ela.

   Custou-me muita coragem para dizer essas palavras, mas ela não respondeu.

   Fuyutsuki continuou lendo seu livro em silêncio.

“Bom dia,” repeti.

“Hum?” disse ela com uma voz aguda e assustada.

   Eu também fiquei um pouco sem jeito, mas gradualmente comecei a entender o problema.

     Ah, sim. Ela não consegue dizer para que lado estou olhando ou se estou olhando para ela.

“Bom dia, Fuyutsuki,” eu disse.

   Desta vez, dirigi-me a ela claramente pelo nome. Ela se virou, olhando vagamente em minha direção.

“Sorano?” disse ela. Parecia mais que ela estava virando a orelha na minha direção do que o rosto.

“Por que esse tom de dúvida?” — Perguntei.

“Desculpe. Não consigo ter certeza a menos que você diga seu nome.”

     Ah, certo. Já que ela não enxerga, deve ser difícil identificar a quem pertence uma voz.

“Agora mesmo, descobri pelo seu tom de voz,” explicou ela.

“Meu tom de voz?”

“Sim. Sua voz é um pouco mais aguda.”

“É mesmo?”

“Hum-hum. A maioria dos homens tem um tom mais próximo de ‘dó’, mas o seu é mais para ‘mi’.”

“Então você deve ter um ouvido absoluto.”

“Toco piano desde criança.”

   Ela imitou o som de alguém tocando piano, e sua reação alegre me deu uma sensação de alívio.

   Quando olhei atentamente para seus dedos, pude ver que eram longos e finos. Ela era realmente linda. Não sei por que aquilo me surpreendeu tanto, mas por algum motivo, surpreendeu.

   Perguntei se “aquele marcador de livros” pertencia a ela, e uma expressão de perplexidade surgiu em seu rosto.

   Certo. Ela não consegue vê-lo.

   Peguei o marcador e pedi para Fuyutsuki tocá-lo delicadamente com a ponta dos dedos. Ela pareceu entender o que tinha acontecido.

“Você o pegou para mim? Você é tão gentil, Sorano,” disse ela, sorrindo.

   Seu sorriso inesperado fez meu coração disparar. Não queria me deter nesse sentimento, então me virei. Logo, o professor chegou e a aula começou.

   Meu curso era na área de Humanas, mas por algum motivo, tínhamos uma disciplina sobre arquitetura e processamento de computadores. Como alguém que havia se refugiado em Humanas porque não conseguia nem entender completamente o sistema decimal, o sistema binário estava muito além da minha compreensão. Bits se transformando em bytes e armazenando endereços no espaço de memória — tudo aquilo me parecia um absurdo.

   As aulas na faculdade geralmente tendem a deixar os alunos por conta própria. A ideia é que, se você quiser entender algo, precisa pesquisar por conta própria. Eu poderia entender por que eles queriam nos incentivar a ser independentes, mas isso era mais do que sadismo.

   A aula de noventa minutos se arrastou indefinidamente.

   Dei uma olhada no meu celular; tinham se passado apenas quarenta minutos. Se fosse uma aula do ensino médio, só teríamos dez minutos restantes.

   Incapaz de me concentrar por mais tempo, olhei pela janela. A visão do céu azul claro se estendendo infinitamente me animou um pouco.

   Quando olhei para baixo novamente, vi Fuyutsuki olhando fixamente para frente com uma expressão séria. Ela tinha um par de fones de ouvido conectados a um pequeno dispositivo com um teclado. Um fone estava em sua orelha, enquanto ela parecia usar o outro para tentar acompanhar a aula.

   Procurei informações sobre o dispositivo no meu celular. Aparentemente, era um dispositivo para anotações em braille. Como o nome sugeria, era um dispositivo que fazia anotações em braille, assim como se estivesse escrevendo à mão.

   Assim que os longos noventa minutos finalmente terminaram, o professor saiu da sala e uma algazarra tomou conta do espaço. Minha próxima aula seria apenas no terceiro período, então, com o segundo período e o intervalo para o almoço, eu tinha quase três horas livres. Toda semana, eu aproveitava esse tempo para voltar ao dormitório e dormir. Planejando fazer o mesmo hoje, levantei-me.

[Almeranto: Vida de universitário médio.]

   Olhei para Fuyutsuki, que estava arrumando as coisas em sua mesa. Ela colocava os itens dentro da bolsa um por um, verificando meticulosamente se cada um estava lá. Cada movimento que ela fazia levava tempo. Enfiar as coisas na bolsa aleatoriamente provavelmente não era uma opção para ela.

     Parece uma luta.

   Não pude evitar pensar isso.

   Me odiei por pensar isso.

   E me odiei por notar essas coisas e ficar chateado com elas.

     ...Eu deveria ir para casa.

   Mas assim que me virei de costas para ela, ouvi um barulho de algo caindo.

   Olhei para trás. Fuyutsuki havia derrubado sua bengala branca, que estava encostada em uma cadeira. Ela deslizou escada abaixo, parando no pé do primeiro lance.

   Fuyutsuki se agachou, tateando o chão, procurando lentamente por sua bengala branca. Mas ela não ia encontrá-la.

   Isso era óbvio. Se me pedissem para fechar os olhos e procurar algo, eu também não conseguiria encontrar.

   Olhei ao redor, mas Fuyutsuki e eu éramos os únicos que restavam na sala de aula.

   Toda essa situação era péssima.

   Eu odiava ter hesitado por um momento em situações como essa.

   Esperei que alguém tomasse a iniciativa, o que me fez sentir uma pessoa bem desprezível.

   Por um lado, era um alívio não haver mais ninguém por perto. Esse tipo de situação me fazia me preocupar com a opinião dos outros, o que me deixava ainda mais enojado. Se Hayase ou Narumi estivessem por perto, teriam ido pegar a bengala dela sem pensar duas vezes. Era tão fácil imaginá-los fazendo isso. 

“Fuyutsuki, espere. Eu pego para você.”

“Muito obrigada.”

“Pode deixar.”

“Sério, obrigada.”

   Tudo o que eu tinha feito era pegar algo que ela havia deixado cair. — Será que ela precisava mesmo ser tão grata?

“Não foi nada demais,” assegurei.

“Eu devia ter colocado um sino.”

“Não. Depois que caísse, não faria barulho mesmo.”

“Ah… Você tem razão. Ah-ha-ha.”

   Quando ela ria assim, Fuyutsuki parecia uma garota normal. Mas quando a vi andando com sua bengala branca de novo, não pude deixar de pensar na visão dela.

“Você tem aula no segundo período?” ela me perguntou.

“Não, nada.”

“Você tem algum plano?”

   As portas do elevador se abriram e esperei Fuyutsuki entrar. Assim que estávamos lá dentro, apertei o botão.

   Meu plano era ir para casa e dormir, mas não consegui admitir isso. Parecia que eu tinha perdido a oportunidade de ir embora. Nesse momento, você não podia simplesmente dizer: “Vou para casa.”

“Quer passar um tempo comigo?” perguntou Fuyutsuki. “A Yuuko acabou de me contatar para dizer que está ocupada.”

“Ela te ligou?”

“Não. Ela me mandou uma mensagem no LINE.”

“Ah, você sabe usar o LINE?”

   Fiquei surpreso, mas Fuyutsuki apenas deu uma risadinha.

   Ela disse que me daria as informações de contato dela mais tarde, e fomos juntos para o centro estudantil.

   O centro tinha uma área em terraços com uma fileira de máquinas de venda automática e uma cerca de ferro, presumivelmente para oferecer alguma privacidade ou proporcionar sombra. A cerca difusava a luz do sol, criando um local agradável e com iluminação suave.

“Você quer algo para beber?” perguntei, parado em frente a uma máquina de venda automática. Era daquelas em que você coloca um copo de papel e a máquina o enche com o que você escolher.

“Eu posso comprar sozinha,” respondeu Fuyutsuki.

   Ela descobriu quais moedas colocar na máquina usando apenas o tato e, em seguida, apertou os botões para chá com leite e açúcar extra como se já tivesse feito isso um milhão de vezes.

“Como você fez isso?”

“Hehe. Você está curioso?”

“Quer dizer, você não pode ver.”

“Esta é a minha máquina de venda automática.”

“…Você não trabalha, tipo, com máquinas de venda automática ou algo assim, trabalha?”

   Será que a família dela se tornou magnata das máquinas de venda  automática e comprou aquele apartamento de luxo para ela com os lucros? — Fuyutsuki congelou por um instante, depois caiu na gargalhada.

“Não, claro que não.”

“Mas você disse que esta máquina de venda automática era sua,” continuei educadamente.

“Então você conta piadas, afinal.”

“Espere, você achou que eu era algum tipo de rabugento que nunca contava piadas?”

   Algo deve tê-la irritado, porque Fuyutsuki não conseguia parar de rir.

“Um rabugento. Ah-ha-ha. Ha-ha-ha.”

   Fuyutsuki enxugou delicadamente as lágrimas com o dedo. Havia uma certa sofisticação em cada movimento que ela fazia.

“Quando digo ‘minha máquina de venda automática’, quero dizer que é uma que uso regularmente. Para pessoas como eu, usar máquinas de venda automática com as quais não estamos familiarizados é como jogar roleta russa. Você quer chá com leite, mas acaba com sopa doce de feijão vermelho (oshiruko)!”

“Parece divertido,” respondi, mas imediatamente me desculpei. — “Desculpe, não quis dizer isso.”

“Não precisa se desculpar,” disse Fuyutsuki. “Às vezes pode ser divertido, mas se eu usar uma máquina diferente a cada vez, nunca vou conseguir a bebida que quero. Então, escolho uma máquina de venda automática para usar regularmente. É por isso que chamo isso de—”

“Sua máquina de venda automática,” interrompi.

“Exatamente.” Fuyutsuki sorriu. “A Yuuko me disse para que serviam todos os botões outro dia, então foi assim que aprendi.”

“Você memorizou todos os botões?”

“Desculpe, não. Só os de açúcar e chá com leite.”

“Por que exagerar, então?”

“Foi só uma figura de linguagem.”

   Ela se virou na minha direção quando falei com ela, e nossas conversas eram incrivelmente naturais — tanto que quase me esqueci de que ela não enxergava. Mesmo quando estávamos cara a cara, porém, nossos olhares nunca se encontraram, o que servia como um lembrete de que Fuyutsuki era realmente cega.

“Pensando bem, como você usa o LINE?,” perguntei.

   Fuyutsuki colocou delicadamente sua xícara de chá com leite sobre a mesa e pegou o celular para me explicar. Aparentemente, a maioria dos smartphones vem com um recurso de leitor de tela. Quando essa função está ativada, ela lê qualquer texto em que você toca. É preciso tocar duas vezes para selecionar algo.

   Fuyutsuki explicou com entusiasmo como funcionava.

“É difícil usar um celular assim. Acontecem coisas diferentes dependendo se você usa dois ou três dedos.”

“Nossa. Parece complicado.”

“Existem outros comandos para deslizar quatro dedos na tela e tocar três vezes também, então leva bastante prática para se acostumar. Foi um desafio, mas as pessoas realmente conseguem fazer qualquer coisa quando não têm outra escolha.”

   Fuyutsuki falou sobre suas dificuldades com entusiasmo, como se não as considerasse dificuldades.

“Como se escrevem mensagens no LINE e outras coisas?”

“Eu uso ditado por voz. Às vezes dá uns erros, então tenham paciência comigo,” disse ela com um sorriso radiante. Parecia que a felicidade dela não tinha limites.

“O Narumi também me pediu meu LINE outro dia,” acrescentou.

   De fato, eu conseguia ver a foto de perfil dele na tela do celular dela.

   Então, ainda sorrindo, Fuyutsuki disse algo que me arrepiou.

“Acredite ou não, nós, deficientes visuais, fazemos as mesmas coisas que todo mundo.”

   Eu não sabia como reagir ao fato dela se autodenominar “deficiente” abertamente. Havia várias outras maneiras pelas quais ela poderia ter se expressado — “pessoa com deficiência visual” ou “pessoa com dificuldade física-visual” — mas ela escolheu se referir a si mesma como “deficiente”. E disse isso com tanta naturalidade. Como se não fosse nada demais.

   Eu não conseguia me imaginar admitindo com tanta alegria que vinha de uma família monoparental. Afinal, era algo que ainda lançava uma sombra sobre meu coração.

     Quanto Fuyutsuki havia passado para chegar a esse ponto?

   Ao tentar imaginar, comecei a me perguntar que talvez fosse indelicado fazer perguntas como “Como você faz isso?” e ​​”Você consegue fazer isso?”. Eu já não tinha certeza.

     Sobre o que eu poderia perguntar?

     Que tipo de coisa a magoaria?

     Como eu deveria tratá-la? Como qualquer outra pessoa?

     O que isso significava, afinal?

   Eu podia sentir uma parede transparente entre nós.

   Uma barreira invisível que eu mesmo havia criado.

   Eu sabia as respostas para todas as minhas dúvidas.

   Eu precisava ouvi-la com atenção, conversar com ela com atenção.

   Eu entendia isso. Ou pelo menos, achava que entendia.

“Me passe o seu também, Sorano,” disse Fuyutsuki de repente.

   Por um instante, não tive certeza do que ela estava me pedindo. Vi um código QR na tela do celular dela; ela estava me pedindo para trocar informações de contato. Meu cérebro tentou processar a informação, mas o único som que saiu da minha boca foi “Ah, é, hum.”

“Você pode escanear, Sorano?” ela continuou, sem pressa.

   Escaneei o código. A foto de perfil de Fuyutsuki apareceu na tela do meu celular, junto com o nome Koharu.

   A foto de perfil dela era de uma flor que eu nunca tinha visto antes.

 

 

   Aconteceu depois da primeira aula da segunda-feira seguinte.

   Fuyutsuki tinha deixado cair sua bengala branca de novo. Eu esperava que alguém notasse, mas ninguém notou, e me senti mal por simplesmente deixá-la lá.

“Você está bem?” perguntei, me aproximando dela.

“Obrigada por me ajudar de novo,” ela disse. O sorriso dela parecia meio tímido, considerando que ela estava apenas me agradecendo.

   Depois que me aproximei dela, acabamos fazendo a mesma coisa que na semana anterior: matando tempo no terraço do centro estudantil. Fuyutsuki tomava seu chá de leite açucarado, um pequeno gole de cada vez. Começamos a conversar sobre amenidades, mas ambos percebemos que não havia necessidade de forçar a conversa, então ela se dissipou naturalmente.

   Eu não me importei com o silêncio. A julgar pela expressão de Fuyutsuki, ela também não parecia se sentir desconfortável, então nós dois relaxamos e ficamos divagando por um tempo.

   Havia uma brisa suave e eu podia ouvir as árvores próximas farfalhando. A agradável luz do sol me fez bocejar, mas reprimi o bocejo, não querendo fazer barulho.

   Foi então que uma voz chamou: “Ei!”

   Hayase estava acenando e caminhando em nossa direção.

“Ah, é a Yuuko,” comentou Fuyutsuki, virando-se na direção do som.

“Você a reconheceu só pela voz?”

   Fiquei impressionado. Duvido que eu conseguiria descobrir quem era de olhos fechados.

[Del: É muita massa ter o dom de reconhecer à voz de outros. Eu por exemplo, consegui reconhecer quem era a dubladora da Fuyutsuki só pelo teaser do anime. // Almeranto: Já eu não consigo direito. Só se for um personagem com uma voz marcante.]

“A Yuuko tem uma voz fofa, então é fácil de reconhecer.”

“Entendo.”

   Eu tinha ouvido dizer que quando alguém perde a visão, os outros sentidos ficam mais aguçados. Fiquei me perguntando se isso era verdade.

   Eu queria perguntar para a Fuyutsuki, mas não queria interrogá-la. Também me pareceu uma pergunta um pouco indelicada.

   Assim que a Hayase se aproximou, deixou os ombros caírem, desanimada.

“Minha aula do segundo período foi cancelada porque o professor não pôde vir. Sobre o que vocês duas estavam conversando?”

   Eu ia dizer “Nada demais,” mas a Fuyutsuki respondeu antes que eu pudesse.

“Estávamos falando sobre como sua voz é fácil de reconhecer à distância.”

“Huh? Sério?”

   A Hayase sentou-se entre nós. Virou-me as costas e encarou a Fuyutsuki.

“Então, perder a visão realmente melhora a audição?” Essa era exatamente a pergunta que eu estava relutante em fazer, mas Hayase fez parecer que não era nada demais. Eu não pude deixar de pensar em como ela era ousada.

“Ah, não. Acho que não,” respondeu Fuyutsuki.

“Ouvi dizer que algumas pessoas conseguem usar ecos para descobrir onde as coisas estão, distinguindo os diferentes sons...”

“Eu definitivamente não consigo fazer isso.”

[Almeranto: Existem pessoas que conseguem fazer isso. O nome dessa técnica se chama ecolocalização. Também presente nos morcegos.]

   Fuyutsuki sorriu e acenou com a mão na frente do rosto.

“Bem, eu toco piano há muito tempo, então acho que consigo distinguir alguns tons.”

“Ah, é verdade; você toca piano, Koharu. Nesse caso, tem uma coisa que eu quero que você faça para mim…”

   Hayase e Fuyutsuki continuaram conversando amigavelmente enquanto eu olhava para o céu. Enquanto observava as nuvens passando lentamente, comecei a fantasiar sobre como seria bom deitar em uma delas.

[Del: Aoba Shikamaru.]

   Em outras palavras, a luz suave do sol estava me deixando com um sono insuportável.

   Dei uma olhada de soslaio em Hayase e Fuyutsuki. Eles estavam curtindo a conversa, e de repente me veio uma ideia brilhante.

     Essa poderia ser minha chance de ir para casa…

“Bem, acho que está na hora de eu voltar para o meu dormitório,” eu disse, tentando me retirar discretamente. Eu estava louco para ir para casa e ficar de bobeira.

   No entanto, minha tentativa de sair foi completamente frustrada.

“Ah, você pode nos mostrar onde fica o Salão Memorial no caminho?” perguntou Hayase.

   Eu não tinha ideia do que ela estava falando.

“Te mostrar onde fica o quê no caminho?”

“A gente estava falando disso agora mesmo,” disse Hayase, arqueando as sobrancelhas. “Precisamos usar o piano no Salão Memorial para o concerto de jazz do festival da escola. Ele fica no terreno do seu dormitório. Como faço parte da comissão organizadora, preciso garantir que ele esteja funcionando direito, e a Koharu disse que ia verificar se não está fazendo nenhum barulho estranho.”

   Eu não fazia ideia de que Hayase era da comissão organizadora do festival da escola.

“…Então, por que você quer que eu te leve lá?” perguntei, sem rodeios.

   Hayase pareceu surpresa.

“Você já está voltando para o seu dormitório, não é?” respondeu ela.

     Desde quando “Estou voltando para o meu dormitório” e “Eu te levo lá” significam a mesma coisa?

“O terreno do dormitório tem placas de ‘Entrada Proibida para Moradores Não Autorizados’, então você só pode entrar se for residente, certo?” explicou Hayase. “Vamos, por favor?”

   Pensei que causaria uma impressão negativa se dissesse não, então, relutantemente, concordei.

“Acho que fica no meu caminho de volta mesmo.”

   Eu ia tirar um cochilo quando chegasse em casa. Ainda conseguiria dormir umas duas horas.

   Com a cabeça já em ir para a cama, saí pelo portão dos fundos com as duas garotas, indo em direção ao dormitório.

   Nesse momento, porém, Hayase recebeu uma ligação. A julgar pela reação dela, provavelmente era de um veterano.

   Após a breve conversa telefônica — durante a qual as respostas de Hayase se limitaram a “Sim” e “Claro” — ela nos disse que precisava voltar para o campus.

“Desculpem. Tenho uma reunião do comitê do festival.”

   Pouco antes de sair, Hayase pegou a mão de Fuyutsuki.

“Você pode dar uma olhada naquele piano para mim, Koharu?” perguntou ela, e então me deu um aceno alegre. “Cuide dela para mim, Sorano!”

   No fundo, eu queria resistir, mas sabia que recusar o pedido de Hayase naquele momento me faria parecer socialmente inepto. Suspirei e Fuyutsuki e eu começamos a caminhar em direção ao nosso destino.

   Dei instruções a Fuyutsuki enquanto a guiava até o Salão Memorial onde o piano estava guardado, dizendo coisas como “Tem um degrau aqui”, “Vamos virar à direita” e “Tem uma escada à nossa frente”. Fuyutsuki usava sua bengala branca para identificar obstáculos enquanto caminhava.

   Seria correto não oferecer minha mão a ela enquanto caminhávamos juntos? — Parecia a opção mais segura, mas eu estava relutante em tocá-la.

   Encontramos o piano em uma sala grande e estranhamente silenciosa dentro do Salão Memorial. A luz do sol iluminava as partículas de poeira flutuando no ar, fazendo toda a sala brilhar.

   O grande piano de cauda estava em um canto, sozinho, sua superfície preta brilhante coberta por uma fina camada de poeira.

   Levei Fuyutsuki até as teclas. Ela passou os dedos sobre elas.

“Uau!” exclamou ela com um deslumbramento infantil.

“Precisa de ajuda para se sentar?” — Perguntei.

“Obrigada, mas eu consigo.”

   Ela se sentou no banco do piano. Observei bem ao lado dela enquanto pressionava uma tecla com o dedo indicador.

“Sei que é uma pergunta estranha para se fazer agora, mas como você consegue tocar piano se é cega?”

“Só consigo tocar músicas que memorizei quando ainda enxergava.”

“Ah. Acho que existem pianistas cegos, afinal.”

“Essas pessoas estão em outro nível. Eu não conseguiria aprender uma nova composição sem vê-la.” Fuyutsuki deu uma risadinha.

“Muitas das minhas memórias e hábitos de quando eu conseguia enxergar permaneceram comigo. Ainda olho para o lugar onde a partitura ficaria enquanto estou tocando e me viro para olhar para as pessoas quando elas falam comigo. Quando há fogos de artifício, não consigo evitar olhar para cima, então às vezes as pessoas pensam que eu consigo enxergar. Ainda consigo visualizar como as coisas são, o que me faz ser grata por ter conseguido enxergar em algum momento.”

   O fato de Fuyutsuki ter conseguido dizer o quão grata era por ter conseguido enxergar — apesar de ter perdido a visão — me deixou sem palavras.

   Seria apropriado dizer “Que ótimo”? Ou ela pensaria que eu estava presumindo injustamente que a maioria das pessoas não seria tão positiva?

   Congelei, sem saber como responder — mas então um som agudo e estridente me trouxe de volta aos meus sentidos.

“Oh, é um piano de cauda,” comentou Fuyutsuki.

“Dá para perceber?”

“É uma sensação totalmente diferente. As teclas voltam muito mais rápido.”

“Uau.”

“Fico nervosa sabendo que você está ouvindo,” disse Fuyutsuki, antes de tocar alguns acordes para testar o piano. Parecia que aquilo era algo natural para ela. Então, ela ajustou a postura e a posição da cadeira. “Tudo bem. Posso começar a tocar?”

“Claro.”

   Fuyutsuki colocou seus longos dedos nas teclas e respirou fundo. Ao expirar, aplicou pressão lentamente.

[Del: https://www.youtube.com/watch?v=04n1niTOwc4&list=RD04n1niTOwc4&start_radio=1 Escutem em velocidade próxima de 0.8x para se adequarem melhor a cena aqui na novel.]

   Uma melodia suave começou a preencher a sala silenciosa.

   Os dedos de Fuyutsuki acariciavam as teclas, produzindo um som rico.

   Fiquei impressionado com o seu talento. A música que ela estava tocando me fez pensar no oceano.

   Eu podia sentir as ondas batendo suavemente nos meus pés, molhando meus tornozelos enquanto o céu azul se estendia acima de mim. Eu podia ver a superfície do oceano brilhando à distância e avistei aves marinhas voando ao redor. Esses pensamentos passaram pela minha mente enquanto eu olhava distraidamente para o mar, e ondas de crista branca de repente invadiam a praia, a espuma brilhando intensamente ao redor dos meus pés.

[Del: Detalhe, essa imagem é originalmente do mangá e foi pintada por fã aparentemente, no entanto, achei a muito bonita e coloquei aqui para que pudessem desfrutar também. Só perdoem-me pela baixa resolução.]

   Pelo menos, era assim que sua serena apresentação me fazia sentir.

“Como foi?” Fuyutsuki me perguntou assim que terminou sua música.

     O que eu deveria responder…?

“Hum. Eu realmente adoro Bach,” respondi displicentemente.

   Fuyutsuki caiu na gargalhada, com a boca escancarada.

“Desculpe, mas não era Bach.”

“Mozart?”

“Ah, você está tão… tão enganado.”

“Então deve ser Chopin!” — Fuyutsuki riu novamente.

“Você me faz rir muito, Sorano. É uma peça chamada ‘Arabesco de Ondas’ de Akira Miyoshi.”

“Como eu ia saber disso?” A maioria das pessoas que não estudaram música clássica só conhece compositores cujas fotos são exibidas nas salas de música das escolas — Beethoven, Bach, Mozart, Chopin e outros do gênero.

“É uma música que costuma ser escolhida para competições de piano. Eu também a toquei quando estava na quinta série e a adoro desde então. Gosto de tocá-la em um andamento mais lento do que o sugerido na partitura.”

“Honestamente, achei você muito, muito boa.”

   Elogiei Fuyutsuki, surpreso que uma aluna do ensino fundamental conseguisse tocar uma peça como aquela. Ela me agradeceu e deu um sorriso satisfeito. Então, alegremente, perguntou se eu me importaria se ela tocasse mais um pouco.

“Claro,” eu disse, e Fuyutsuki continuou tocando pelos próximos trinta minutos.

“O piano talvez precise de um pouco de afinação, mas acho que está bom o suficiente,” disse Fuyutsuki animadamente. Ela caminhava ao meu lado, tendo tocado até se fartar.

“Você toca com frequência?” — Perguntei a ela.

“Só em um teclado elétrico que tenho em casa. Toco nele o tempo todo.”

   Eu não tinha mais tempo para tirar um cochilo, então decidimos voltar para o campus e comer alguma coisa no refeitório. Saímos do dormitório e esperamos o sinal abrir na faixa de pedestres perto da entrada dos fundos.

“Obrigada,” disse Fuyutsuki.

“Não se preocupe.”

“Não estou falando só do piano,” ela continuou. “Quando minha bengala caiu mais cedo, tentei pegá-la, me perguntando por que ainda não tinha colocado um sino nela — mas, no fundo, eu tinha a sensação de que você a pegaria para mim. E você pegou! Fiquei tão feliz.”

   Essa confissão inesperada me pegou totalmente de surpresa.

“Mas não havia garantia de que eu agiria de acordo… né?”

“Não, mas você atendeu!” — Fuyutsuki estava radiante — “Você foi chamado durante a aula, então eu sabia que você estava lá. Eu esperava que pudéssemos tomar um chá no terraço de novo, mas gritar seu nome no auditório teria sido muito constrangedor. Estou muito feliz por termos conversado de novo.”

“Você tem meu LINE agora, então pode me mandar mensagem. Não precisa gritar meu nome na sala de aula.”

   O sorriso repentino e largo de Fuyutsuki e seu comentário sobre como estava feliz por conversar comigo de novo me deixaram tão envergonhado que esqueci como ser educado.

“Sério? Posso?” ela perguntou, surpresa.

“…Claro.”

“Okay.”

   Por algum motivo, ela ainda estava radiante, e eu pensei em como ela era uma pessoa estranha.

   O sinal de pedestres ficou verde e o som de um pássaro cantando veio do botão da faixa de pedestres.

“Vamos?” perguntou Fuyutsuki, ouvindo o barulho.

[Del: Cara… pensando bem, poderíamos ter semáforos sonoros no BR… // Almeranto: Seria uma boa coisa a se fazer.]

   Por algum motivo, a voz dela soava tão alegre quanto a do pássaro.

 

 

   Era final de maio e fazia cerca de um mês desde que conheci Fuyutsuki.

   Tínhamos o hábito de passar um tempo juntos no terraço sempre que tínhamos tempo livre depois das aulas.

   Desde que eu a convidei para me contatar pelo LINE, ela começou a me mandar mensagens no dia anterior, perguntando: 《Você gostaria de tomar um chá no terraço?》 Isso tornava difícil recusar o convite.

   E lá estávamos nós, matando tempo juntos no terraço mais uma vez.

   Eu estava comendo meu ramen da cantina, enquanto Fuyutsuki bebia seu chá com leite bem doce de sempre.

   Ela nunca almoçava.

   Aparentemente, ela não precisava depois do farto café da manhã que sua mãe preparava para ela todas as manhãs.

   Fuyutsuki me contou que morava naquele prédio com a mãe. Havia um hospital que ela precisava visitar regularmente por causa da visão, então elas compraram uma segunda casa nas proximidades. Ela disse “segunda casa” com tanta naturalidade que eu fiquei chocado.

“Tenho uma milionária de verdade sentada aqui na minha frente.” — Fuyutsuki inflou as bochechas, fingindo estar brava comigo.

   Assim que terminei meu ramen, mergulhei no sol e me desliguei de tudo.

   Havia uma brisa de início de verão no ar, e o céu azul melhorou meu humor.

“Kakeru?”

“Hum?”

“Pensei que você tivesse desaparecido.”

“Ah, é mesmo. Acho que me fechei em mim mesmo.”

“Que maldade a sua.”

   De acordo com Fuyutsuki, sempre que eu ficava quieto e retraído por um momento, parecia que eu realmente desaparecia. Aparentemente, eu era bem peculiar na maneira como conseguia apagar minha presença.

   Por algum motivo, eu me afeiçoei ao jeito como ela começava nossas conversas com “Kakeru?”

   Não me lembrava exatamente quando tinha acontecido, mas um dia, Fuyutsuki perguntou de repente se poderíamos nos chamar pelos primeiros nomes.

   Para mim, chamar alguém pelo sobrenome era o máximo que eu conseguia. Naturalmente, recusei — mas, a partir daí, Fuyutsuki começou a me chamar de Kakeru mesmo assim.

   Para ser sincero, eu nunca imaginei que desenvolveria esse tipo de relacionamento com Fuyutsuki, onde pudéssemos brincar um com o outro.

   No entanto, eu me sentia estranhamente à vontade com ela. Devíamos ter nos adaptado aos nossos ritmos ou algo assim.

   Era a primeira vez na minha vida que me divertia conversando com uma garota.

“Eu queria perguntar, qual é aquele livro que você está sempre lendo?”

“Este aqui?” respondeu Fuyutsuki, tirando-o da bolsa.

“É, esse mesmo.”

“O título está escrito aqui na capa,” disse ela.

“Qual é, você sabe que eu não sei ler braille.”

“É o Diário de Anne Frank.”

“Ah, não acredito!”

“Hã?! Você já leu?”

“Não.”

“O quê?! Que reação foi essa, então?!” — Fuyutsuki perguntou, rindo.

     O livro é interessante?

[Del: O diário retrata a história de Anne Frank enquanto se escondia em um cômodo oculto em uma empresa durante a ocupação Alemã nos países baixos, durante a Segunda Guerra mundial. É um livro de reconhecimento como resistência contra o preconceito.]

“Ver como ela era determinada e forte… meio que me dá vontade de me esforçar também. Tem uma passagem que eu gosto muito, então acabo lendo várias vezes.”

   Como eu nunca tinha lido o livro, não entendi muito bem do que Fuyutsuki estava falando, mas ver como ela acariciava a capa com tanto carinho me disse tudo o que eu precisava saber.

   Deve ser um livro muito especial. Daqueles que deixam uma impressão duradoura.

   Encarei fixamente a capa branca.

“É difícil ler em braille?”

“Já me acostumei, mas leva um tempinho para dominar. Ultimamente, os audiolivros têm se tornado mais comuns, então também os ouço. Mesmo assim, não há nada como passar os dedos pelo papel.”

“Ah, é?”

“Você quer tentar ler em braille?” Fuyutsuki me passou o livro branco. Peguei-o e passei os dedos pelas lombadas.

“Uau.”

“Isso não é uma resposta.”

“Bem, me dê um tempo para pensar.”

“Imagino que seja um não.”

   Fuyutsuki, que já tinha me desmascarado, riu novamente.

“A propósito, o que é isso?” — Perguntei.

   Peguei o marcador de páginas amarelo que estava dentro do livro. Era o mesmo que ela tinha deixado cair naquela aula, há muito tempo.

“O que é o quê?” perguntou Fuyutsuki, estendendo a mão.

[Almeranto: Ele esquecendo que ela é cega é engraçado, lembra Avatar.]

   Pedi que ela o tocasse.

“Ah,” disse ela. “É um marcador de páginas que eu fiz.” Havia letras em braille nele.

“O que está escrito?”

“É algo que eu gostaria muito que você lesse, Kakeru.”

“Vou tentar descobrir o que está escrito quando estiver mais inspirado.”

“Ah, então você nunca vai conseguir fazer isso,” disse ela, antes de murmurar: “Você é tão engraçado.”

   Um instante depois, ela fez uma pergunta.

“Você gosta de soltar fogos de artifício?”

“Por que fogos de artifício?”

“Eu gosto.”

“Lembro de você ter dito isso antes.”

“Disse mesmo?”

   Na noite em que nos conhecemos, Fuyutsuki disse que seu sonho era soltar fogos de artifício com os amigos.

   Mesmo sem poder ver? — Fiz a mim mesmo a mesma pergunta que me fiz quando ela me contou pela primeira vez, mas, mais uma vez, guardei meus pensamentos para mim.

“Sou de Shimonoseki,” eu disse a ela. “Bem, nos mudamos muito, mas acabamos aqui.”

   As fortes correntes do Estreito de Kanmon, em Shimonoseki, me vieram imediatamente à mente.

“Há um festival chamado Festival de Fogos de Artifício do Estreito de Kanmon, onde soltam fogos de artifício em ambos os lados do estreito. Alguns são lançados em Shimonoseki, enquanto outros são lançados no Porto de Moji, em Fukuoka.”

   De repente, me lembrei de quando ia ao festival de fogos de artifício com minha mãe quando criança.

   Então, contei a Fuyutsuki como me senti a respeito.

“Estava super lotado.”

   Foi um comentário tão direto que ela caiu na gargalhada, batendo na mesa.

“Pensei que você estivesse insinuando algo bom. Que tipo de comentário é esse?”

“Mas falando sério, a multidão era insana. É o segundo festival de fogos de artifício mais movimentado de todo o Japão, ou algo assim.”

“É tão típico de você se concentrar nessa parte,” disse Fuyutsuki, ainda rindo. “Eu adoraria ir lá. Aposto que é incrível. Eles devem se revezar lançando fogos de artifício de cada lado da água, um após o outro.”

“Mas é tão lotado.”

   Nesse momento, Fuyutsuki disse algo absurdo.

“Você não acha legal como as pessoas se aglomeram para assistir aos fogos de artifício?”

   Não consegui evitar soltar um “Hã?”

   Fuyutsuki abriu os braços exageradamente.

“Todo mundo está olhando para o céu noturno, rindo animadamente. Você está cercado por um monte de gente, todos fazendo a mesma coisa. Pensando bem, os fogos de artifício são realmente incríveis, não são?”

“Uhhh...”

   Fiquei sem palavras. O jeito dela de ver as coisas era tão diferente do meu que me deixou perplexo.

   Fuyutsuki era incrível.

   Como o mundo parecia para ela?

   Eu tinha certeza de que essa garota cega na minha frente via algo completamente diferente do que eu via.

   Acometido por uma espécie de complexo de inferioridade, abaixei o olhar, constrangido.

   Já que Fuyutsuki não podia ver o que eu estava fazendo, eu podia ficar sentado de cabeça baixa pelo tempo que quisesse. Mesmo assim, não queria preocupá-la encerrando a conversa abruptamente.

“Como você fez isso, afinal?”

   Acariciei o marcador de livros que eu estava olhando. — “É bem fácil se você tiver a impressora certa.”

   Nem preciso dizer que eu não consegui ler. Passei os dedos pelos relevos, mas ainda assim não havia como decifrá-los. Na verdade, era difícil distinguir quais partes eram em relevo e quais não eram quando eu usava a ponta do dedo. É muito legal que ela consiga ler isso, pensei — mas tocar nas letras em braille me lembrou que ela era realmente cega. Não pude deixar de sentir que vivíamos em mundos diferentes.

“Então você pode fazer marcadores de livros em braille. Eu não sabia.”

“Eu fiz o meu depois que entrei na faculdade. Você já fez algum? Acho que é como uma lista de desejos.”

   Tentei pensar em coisas que eu queria fazer antes de morrer, mas a única coisa que me veio à mente foi ganhar na loteria e passar o resto dos meus dias lendo no meu quarto. Mas isso não era bem um item da lista de desejos — era mais um desejo geral.

“Nunca se sabe quando se vai morrer,” disse Fuyutsuki com um sorriso.

   Completamente incapaz de compreender por que ela estava sorrindo, fiquei tenso. Aquela piada era muito pesada para o meu gosto.

   Ela deve ter percebido, porque tentou amenizar a situação em pânico.

“Desculpe. Era uma piada. Eu estava brincando!”

“Certo, certo, já entendi.”

   Assim que enxuguei o suor das palmas das mãos e coloquei o marcador de volta na mesa, algo terrível aconteceu.

   Um vento forte e úmido de verão veio em nossa direção.

   Algumas cadeiras no terraço caíram.

   As páginas do livro sobre a mesa farfalharam com a brisa, e o marcador… voou para longe.

   Estendi a mão, mas o marcador escapou das minhas mãos. “Quê…? Não?!”

   O marcador voou para longe com o vento.

   Corri atrás dele, tentando pegá-lo, mas o marcador de livros voou do terraço para o telhado do prédio da associação estudantil, desaparecendo de vista.

“Huh?” Foi tudo o que consegui dizer.

“O-o que aconteceu?”

   Fuyutsuki estava abalada. Meu pânico a contagiou.

   Expliquei toda a situação do começo ao fim.

“Desculpe. Era importante para você, não era?” Continuei me desculpando repetidamente.

“...Oh, bem.”

   Fuyutsuki ficou em silêncio, seus ombros visivelmente caídos.

“Tudo bem. Eu me lembro do que estava escrito nele.” Ela estava tentando parecer corajosa, mas eu ainda me sentia meio culpado.

   Talvez fosse por isso que eu fiz aquilo.

“Você sabia disso?” ela começou, e eu não consegui recusar o pedido que se seguiu.

“Existe um clube chamado Sociedade de Pesquisa de Fogos de Artifício.” — Nossa universidade tem um curso para treinar navegadores marítimos, então há um porto no campus chamado Lagoa, que tem alguns barquinhos ancorados. Segundo Fuyutsuki, havia uma construção pré-fabricada ao lado do primeiro galpão de barcos em frente à Lagoa, com um folheto de fogos de artifício colado nela. Aparentemente, era a sala do clube da Sociedade de Pesquisa de Fogos de Artifício. Foi Hayase quem contou a ela sobre isso.

“Você se importaria de me levar lá? Odeio ter que pedir ajuda para a Yuuko o tempo todo.”

“Ela teve um turno no trabalho de meio período hoje de manhã, não foi?”

“Sim. Ela deve estar ocupada trabalhando no café agora mesmo.”

“Um emprego de meio período, hein?”

   Fiquei pensando se eu também deveria arranjar um.

   Como meu dormitório era super barato, eu conseguia me virar só com a bolsa de estudos. Nunca é demais ter um dinheirinho extra, mas eu não estava com a menor vontade de trabalhar.

“A Yuuko fica ainda mais adorável quando cheira a café.”

“Parece bem legal.”

“Eu também quero arranjar um emprego de meio período,” disse Fuyutsuki.

   Fiquei surpreso, já que imaginei que qualquer um ouviria isso. Não parecia ser um sonho vago, mas algo que ela realmente queria fazer. O otimismo dela era genuinamente impressionante.

   Saímos do terraço e começamos a caminhar em direção ao porto. Não demoramos muito para chegar ao lago. Apesar da placa de “PROIBIDO PESCAR” na entrada, já havia três pessoas lá com suas linhas na água. O mar estava cintilante e nuvens brancas flutuavam lentamente sobre nossas cabeças. “Este deve ser o lugar,” eu disse.

“Como ele é?” perguntou Fuyutsuki.

   Descrevi o prédio pré-fabricado à nossa frente.

“É, hum, uma visão impressionante.”

“Isso não me diz nada,” retrucou Fuyutsuki, rindo.

   O prédio parecia mais um depósito abandonado.

   Hera verde o cobria. Havia uma grande janela, mas as cortinas estavam fechadas, impedindo-nos de espiar lá dentro. As palavras “Sociedade de Pesquisa de Fogos de Artifício” estavam pintadas de forma desleixada na porta, que também tinha um pôster desbotado anunciando o Festival de Fogos de Artifício de Sumidagawa colado nela. Tubos de metal de vários tamanhos, variando de cerca de vinte centímetros de comprimento até pouco abaixo da altura do joelho, estavam espalhados ao redor da parte externa do prédio.

   Quando contei a Fuyutsuki o que eu estava vendo, sua primeira reação foi:

“Isso é uma das suas piadas, Kakeru?” 

“Não estou brincando. Estou te dizendo exatamente como é. Há uma boa chance de este lugar ser algum tipo de covil maligno… O que você quer fazer? Devo bater na porta?”

“Sim, por favor.”

   Engoli em seco, nervoso, e bati na porta do covil.

   Não houve resposta, então tentei novamente.

“Parece que não tem ninguém aí,” eu disse para Fuyutsuki.

“Ah~.”

   Nós dois nos viramos — apenas para sermos recebidos por um homem magro com uma barba por fazer. Ele estava parado na nossa frente, carregando uma vara de pescar.

“Precisam de alguma coisa?” perguntou ele.

   Dei um suspiro de surpresa. Involuntariamente, agarrei a manga de Fuyutsuki, e ela agarrou a minha também. Ela franziu os lábios, tensa.

“Não há necessidade disso,” disse o homem em voz baixa, franzindo a testa.

   Fuyutsuki continuava agarrada à minha manga, sem dizer uma palavra. Era inútil; ela estava paralisada.

“Hum, você é membro da Sociedade de Pesquisa de Fogos de Artifício?” — Perguntei.

“Sou Yuichi Kotomugi, o presidente do clube... embora só haja eu no clube,” respondeu ele, letárgico. Ele abriu a porta do prédio pré-fabricado e enfiou sua vara de pescar lá dentro. “Como posso ajudar?”

“Só viemos dar uma olhada.”

“E essa garota? Ela é cega?” perguntou ele, sem rodeios, ao notar a bengala branca de Fuyutsuki.

“Eu... eu sou,” disse Fuyutsuki, finalmente conseguindo falar.

“Você é cega e gosta de fogos de artifício? Bem, acho que você não precisa vê-los para apreciá-los. O som também faz parte da diversão.”

   O presidente do clube fechou os olhos e assentiu em aprovação.

   Então, do nada, Fuyutsuki perguntou algo inesperado.

“Vocês podem soltar fogos de artifício aqui?”

   Kotomugi pareceu visivelmente cético — “Por que a pergunta?”

“Vimos alguns fogos de artifício sendo lançados do campus outro dia, então faria sentido.”

   Pensei nos fogos de artifício que vi no dia da festa dos calouros — o mesmo dia em que conheci Fuyutsuki. Parecia que eles tinham sido lançados de perto do lago.

“Eu também gostaria de soltar fogos de artifício.”

“Qual o problema de assistir de longe como todo mundo?”

“Eu preferiria vivenciar isso de perto, se possível.”

“Mais fácil falar do que fazer. Fogos de artifício são perigosos. Se você não enxerga, pode acabar se machucando.”

   Enquanto falava, Kotomugi arregaçou a manga, revelando cicatrizes de queimaduras em seus braços. Devem ter sido causadas por fogos de artifício. Ele provavelmente estava tentando nos dar um aviso visual dos riscos envolvidos, e se Fuyutsuki pudesse ver, tenho certeza de que teria entendido a mensagem.

   No entanto, sua expressão era inexpressiva.

   Vendo sua falta de reação, o rapaz disse: “Ah sim,” e abaixou as mangas novamente.

“O que foi?” perguntou Fuyutsuki.

“Não, não é nada,” respondeu ele secamente.

“Por favor, me conte,” insistiu ela, mas Kotomugi apenas lhe deu as costas.

   Fuyutsuki parecia querer dizer algo mais, mas eu intervi.

“Vamos,” eu disse, e nós dois decidimos voltar para o terraço.

 

 

“Aconteceu alguma coisa lá?” Ela perguntou.

“O que você quer dizer?”

“Ficou tudo em silêncio. Imaginei que aquele cara estivesse fazendo algum gesto ou algo assim.” Contei a Fuyutsuki sobre as cicatrizes de queimadura que eu tinha visto.

“Ah,” ela murmurou depois de ouvir a história. “Fico muito triste quando as pessoas simplesmente desistem de explicar as coisas.”

   A julgar pelo tom dela, isso era algo que ela já tinha vivenciado inúmeras vezes.

   Eu me lembrava de ter ouvido que os humanos absorvem cerca de 70% das informações pela visão — mas Fuyutsuki era cega. Também havia momentos em que as pessoas se comunicavam usando apenas pistas visuais, como contato visual ou gestos, e se alguém não conseguia fazer isso, muitas vezes simplesmente desistia de tentar. Eu conseguia entender por que isso poderia ser desanimador.

“Eu, no caso, não quero desistir,” murmurou Fuyutsuki.

   Alguns instantes depois, porém, ela de repente elevou a voz, como se tivesse tido uma grande ideia.

“Já sei!” — Enquanto caminhávamos pela rua rodeados por vegetação exuberante, Fuyutsuki se virou para mim com um sorriso enorme.

   A forma como ela mudou de sua expressão abatida anterior para esse sorriso radiante me surpreendeu. A luz do sol filtrando pelas folhas iluminava seu lindo rosto. Eu não pude deixar de pensar em como seu sorriso era adorável.

   No entanto, o que ela disse em seguida me trouxe de volta à realidade.

“Vamos fazer nosso próprio show de fogos de artifício!”

“De jeito nenhum!”

   Parecia uma trabalheira danada.

“Uhhh...” disse Fuyutsuki, parando. “Quer dizer, você não acha isso frustrante?”

   Eu não me sentia nem um pouco assim, mas Fuyutsuki continuou, imperturbável.

“Ouvi dizer que tem lojas de fogos de artifício em Asakusabashi.”

“Continua sendo um não categórico da minha parte.”

“Só deixe-me dizer mais uma coisa!”

“Ah, é? E o que seria?”

“Você é um cara muito legal, Kakeru.”

“Huh? Já está presumindo que eu vou te levar lá?”

   Fuyutsuki conteve uma risada, depois sorriu e disse cinco palavras simples:

“Perdi meu marcador de livros.”

“Uhhh…”

   Dessa vez, fui eu quem parou.

[Del: Kkkkkk, tipo, “você vai me levar lá do jeito fácil ou do jeito difícil?”]

   Será que era o jeito dela de dizer que eu não podia recusar?

“Por favor,” ela implorou novamente, radiante.

   No fim, cedi.

“Quando você quer ir?” perguntei, completamente humilhado.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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