História
Capítulo 1: Primeiro Encontro
O médico estava de pé ao lado da cama, com as mãos atrás das costas.
Flores decoravam o parapeito da janela, suas cabeças brancas desabrochando na ponta de longos e fortes caules.
Quase pareciam fogos de artifício explodindo no céu noturno. Cada vez que as cortinas brancas tremulavam na brisa, eu podia sentir o doce perfume das flores.
O médico falou novamente.
Eu deveria estar preparado para o que ele estava prestes a dizer — mas minha voz saiu misturada com lágrimas.
“Já chega. Vamos acabar com isso.”

Assim que eu estava quase dormindo, a voz alta de Narumi me acordou.
Ele devia ter acabado de contar uma daquelas piadas que aprendeu em sua terra natal, Kansai. Abri os olhos e vi que todos estavam aplaudindo e rindo.
Talvez eu tenha perdido uma das piadas de Narumi, mas não fiquei nem um pouco decepcionado. Na verdade, eu só fiquei irritado por ele ter me acordado. Assim que ele se sentou, cutuquei-o com o cotovelo.
“Ah, Sorano,” disse ele. “Você acordou.”
Narumi me deu um tapinha nas costas com uma expressão alegre no rosto.
“Tive um sonho estranho,” contei a ele.
“Que tipo de sonho?”
“Do tipo deprimente.”
“Como assim?”
Estávamos em uma festa de calouros organizada por vários clubes diferentes para dar as boas-vindas aos novos membros.
Eu estava sentado ao lado de Narumi — que me obrigou a vir — bem no fundo da sala. Conseguíamos ver todo o local dali.
Eu não estava nem um pouco animado com a festa e estava com sono. Eu estava sendo um estraga-prazeres total.
“Relaxa, tá? Já que você se deu ao trabalho de vir, é melhor aproveitar.”
“Não foi minha escolha vir. Você que me trouxe.”
Narumi era meu colega de quarto no dormitório da faculdade. Ele havia sugerido que “mudássemos de quarto” na noite anterior, e acabei fazendo exatamente isso até altas horas da madrugada.
Graças a ele, passei o dia inteiro com sono. Pensei que finalmente teria a chance de dormir depois das aulas, mas ele acabou me arrastando para esta festa de boas-vindas aos calouros.
Ao meu lado, Narumi olhava ao redor da sala com uma expressão animada.
Quanta energia esse cara tem…?
Refleti sobre essa questão enquanto tomava um gole do meu chá oolong e olhava ao redor.
A cena que se desenrolava diante de mim era surreal.
A “Super Mega Festa Conjunta de Boas-Vindas aos Calouros” havia começado de forma bastante tranquila. O presidente de cada clube disse algumas palavras e, em seguida, ergueu seus copos em um brinde tão grandioso que seria compreensível presumir que estivessem bebendo champanhe.
Então, como as coisas tinham chegado a esse ponto?
A grande sala, repleta de cerca de quarenta calouros, havia se transformado em um caos.
Ninguém permanecia sentado. Em vez disso, todos vagavam como zumbis agitados, segurando suas bebidas em uma das mãos.
Tinham adicionado macarrão à panela quente em uma das mesas para transformá-la em champon, mas ninguém se deu ao trabalho de pegar os hashis. A panela continuou fervendo até o macarrão perder toda a elasticidade.
Enfim, alguns rapazes paqueradores conversavam animadamente com as garotas, elevando a voz para serem ouvidos, enquanto um grupo de pessoas com aparência nerd permanecia encolhido em um canto. Também vi algumas garotas com maquiagem carregada, rindo e batendo palmas como brinquedos quebrados — embora eu não tivesse ideia do que elas achavam tão engraçado.
Estávamos em um bar, em uma sala separada por portas de correr, e a atmosfera animada fazia com que o ambiente parecesse quente e abafado. Todos falavam tão alto que eu sentia que estava ficando difícil respirar com a quantidade de dióxido de carbono no ar.
Puxei a gola da minha camiseta, tentando criar alguma brisa. Entre o calor e a qualidade do ar, o índice de desconforto estava altíssimo, então eu estava desesperado para sair.
Mas assim que esse pensamento me passou pela cabeça, alguém que parecia muito mais velho do que nós começou a cantar “Parabéns pra você” em voz alta e rouca. Vinha da sala ao lado — aquela separada da nossa pelas portas de correr — o que fez com que nossa mesa também começasse a bater palmas e cantar, como se fosse uma espécie de chamada e resposta.
Eles estavam comemorando o aniversário de um completo estranho ou estranha que nem conseguíamos ver.
Talvez as pessoas de lá tivessem pedido isso com antecedência, ou talvez fosse algum tipo de flash mob. Alguns caras ao meu redor estavam tentando se destacar exagerando no vibrato, cantando “Parabéns… pra você!” com uma batida de atraso. Para não ficarem atrás, outros gritavam “Parabéns!!”. Tão alto que eu não me surpreenderia se tivessem rompido as cordas vocais. Se era um flash mob, era um muito estranho e mal executado, então só pude presumir que foi algo improvisado.
[Almeranto: Flash mob é uma ação combinada em que um grupo de pessoas se reúne em um local público e, de repente, realiza algo inesperado, como uma coreografia, um canto, uma encenação ou alguma comemoração, e depois se dispersa rapidamente, como se nada tivesse acontecido.]
Eu me sentia como se estivesse em um zoológico, observando todos os animais enjaulados uivando em uníssono.
“Obrigada!” veio a voz de uma jovem do outro lado.
Alguns dos caras começaram a sugerir, nervosamente, que dessem uma olhada na mulher misteriosa — o que lhes rendeu olhares silenciosos das garotas.
Ugh…
“Você parece enojado.”
Meu desconforto deve ter ficado estampado no meu rosto. Narumi estava sorrindo de canto, o que me fez sentir ainda mais constrangido.
“Quem não acharia isso nojento?” eu disse.
“Quem se importa? É engraçado.”
“Não acho nada disso remotamente engraçado.”
“Awww…”
As provocações de Narumi me irritaram um pouco, então apontei discretamente para uma mesa a duas de distância da nossa.
“Quer dizer, você não acha aquilo um pouco nojento?”
Um grupo de garotos estava cercando uma garota ali.
O assunto da conversa mudou de “Entre para o nosso clube” para bisbilhotar a vida amorosa dela. Quando a revelação tentadora veio à tona: que ela era solteira e morava sozinha, a discussão acabou se transformando em uma sessão de auto promoção descarada. Se ela mencionasse que não gostava de fumar, todos os garotos apagavam seus cigarros imediatamente. Se ela dissesse que gostava das veias nos braços de um homem, todos arregaçavam as mangas.
“Não é tão grosso assim, né? Você deve ser um santo, Sorano.”
“Você está zombando de mim?”
Narumi acenou com a mão em negação.
“Nah. Mas mesmo assim, acho que você é uma dessas pessoas.”
Ele me deu um sorriso cúmplice.
“O que você quer dizer com isso?” perguntei.
“Quero dizer, olha só para você. Está com as costas contra a parede, se recusando a sair do lugar. Todo mundo lá fora está tentando desesperadamente se conectar com outras pessoas.”
“É esse desespero que eu acho tão—”
Mas antes que eu pudesse terminar a frase, ouvi uma palma vinda de uma mesa no fundo.
“Posso ter a atenção de todos?”
Acho que ele era o presidente de algum clube, mas não conseguia me lembrar qual. Podia ser algo relacionado à música ou a esportes. Não me pareceu que fosse o clube de tênis, mas, pensando bem, talvez fosse. Enfim, um cara com cabelo castanho-claro e um ar de playboy se levantou da cadeira.
“Tenho um anúncio importante a fazer!”
Sua voz transbordava confiança — daquele tipo que fazia alguém parecer que nunca tinha passado por um dia difícil na vida. Para ser honesto, achei sua atitude excessivamente confiante bem irritante. Talvez outras pessoas tenham achado engraçado, porque ouvi algumas risadinhas.
Suas pausas exageradas tinham atraído a atenção das pessoas… ou pelo menos era o que eu pensava. Em vez disso, as pessoas começaram a devorar o champon, agora frio, e sons de sorver ecoavam por todos os cantos da sala.
Mesmo assim, o cara não ia deixar um pouco de barulho impedi-lo. Ele certamente não sairia dessa parecendo mais descolado, mas faria seu anúncio de qualquer jeito. Ou ele tinha bebido demais para ouvir direito, ou era feito de uma fibra mental incrivelmente resistente.
“Caloura Yuuko Hayase!”
Acontece que Hayase era uma das que estavam sorvendo. Ela colocou mais macarrão na boca e fez uma cara que parecia dizer: “Hã, eu?”
Quando as pessoas ao redor a incentivaram a se levantar, ela o fez, cobrindo a boca com uma das mãos enquanto mastigava. Usou a outra mão para tentar pentear o cabelo, como se estivesse desconfortável.
Olhares curiosos convergiram para a nova aluna.
O rapaz passou a mão pelos cabelos e lançou-lhe um olhar intenso. A garota, por outro lado, não lhe deu atenção; apenas olhou ao redor da sala, claramente constrangida. Não parecia que eles fossem trocar olhares dramáticos tão cedo.
Ele respirou fundo.
“Nunca tinha me apaixonado à primeira vista antes, mas sinceramente acho que não consigo guardar isso para mim. Você quer sair comigo?”
Quem esse cara pensa que é? Qualquer pessoa sóbria ficaria completamente enojada.
No entanto, a multidão embriagada irrompeu em aplausos.
“Diga sim! Diga sim!” a multidão começou a gritar em inglês. Por alguma estranha razão, eles estavam usando uma língua estrangeira para exigir uma resposta.
“Qual é o problema? Sai com ele!” alguém zombou irresponsavelmente.
“Saia comigo também!” outro acrescentou oportunisticamente.
Ignorando os presentes, a garota baixou a cabeça profundamente.
“Desculpe, mas não!”
Foi uma rejeição decisiva. Apenas essas poucas palavras teriam bastado, mas ela insistiu, dizendo: “Você não faz meu tipo!” Foi impiedoso, como se ela continuasse a atacá-lo quando ele já estava no chão.
“Mesmo?” perguntou o rapaz que havia sido rejeitado, incrédulo com o que estava ouvindo.
“Mesmo,” ela respondeu timidamente.
A sala explodiu em barulho novamente, e os aplausos recomeçaram.
Todos estavam aplaudindo e rindo — até mesmo Narumi, sentado ao meu lado.
“Você é um estraga-prazeres, Sorano,” disse ele, dando um tapinha nas minhas costas.
“Nunca gostei de pessoas que tentam se destacar,” eu disse a ele.
“Por que não? É engraçado!”
“Acho que só detesto o desespero deles. Sabe, como se estivessem se esforçando demais.”
“Talvez eles só estejam tentando se reinventar na faculdade. É para isso que serve este lugar, não é?”
“Mesmo assim, não gosto quando as pessoas tentam causar problemas. Pessoalmente, não quero nem causar a menor ondulação.” Eu me sentia assim de todo o coração.
Ser impressionante ou memorável exigia um certo esforço. Era mais fácil passar despercebido.
Eu sempre me certificava de que nada do que eu dissesse fosse tão estranho a ponto de ser desagradável, e tentava perceber o clima do ambiente para me encaixar.
Mas eu detestava tomar a iniciativa socialmente.
“Se você não tivesse me convidado hoje, eu não teria aparecido.” Assim que deixei escapar meus verdadeiros sentimentos, me arrependi.
Eu nunca costumava dizer coisas assim.
Será que eu estava mesmo tão irritado? Eu não queria dizer isso…
Meu arrependimento pareceu desnecessário, no entanto. O homem grande e descontraído ao meu lado fez uma sugestão completamente aleatória.
“Ei, vamos lá dar uma olhada.”
Ele estava olhando para a mesa onde a garota que acabara de rejeitar a confissão importante estava sentada.
Sério? Pensei, perplexo.
A maioria das mesas estava cheia de caras, formando pequenos grupos ao redor das mulheres — mas ninguém parecia interessado nas garotas da mesa da Hayase.
Não fazia sentido. Mesmo de longe, elas não pareciam feias. Na verdade, pareciam o grupo mais bonito ali.
Não era surpresa que Hayase tivesse sido convidada para sair, e a garota sentada ao lado dela era tão bonita que poderia ser confundida com uma modelo.
Todo mundo ali estava procurando o sexo oposto como zumbis em busca de carne, mas ninguém dava atenção àquelas garotas lindas.
O que estava acontecendo…? Era como se aquela mesa estivesse em um universo paralelo.
Eu conseguia entender por que os caras hesitariam em se aproximar de mulheres tão elegantes. Havia a possibilidade de elas nem sequer lhes darem atenção, e suas personalidades podiam ser verdadeiros campos minados. De qualquer forma, meu instinto me dizia para ficar longe.
Narumi, no entanto, pensava diferente.
“Vamos lá,” disse ele, casualmente pegando meu braço e se levantando.
“Espere!” protestei, mas foi inútil.
“Você se importa se sentarmos aqui?” perguntou Narumi.
Ele sentou-se em frente às garotas, me obrigando a sentar ao lado dele.
Hayase parecia visivelmente cautelosa.
A aspirante a modelo, por outro lado, parecia mais receptiva.
“Olá!” disse ela.
“Sou Ushio Narumi. E este é—”
“Kakeru Sorano,” respondi com um rápido aceno de cabeça.
Hayase suspirou, como se estivesse encurralada.
“Sou Yuuko Hayase. E esta é...”
“Koharu Fuyutsuki.”
A garota à minha frente — Koharu Fuyutsuki — nos deu um sorriso gentil. Por algum motivo, porém, achei-o estranho.
Era porque ela era muito bonita.
Antes de abrir a boca, Fuyutsuki parecia uma verdadeira beldade, mas quando sorriu e seus olhos se estreitaram, ela pareceu ainda mais adorável.
Seu rosto era pequeno, seus olhos grandes e brilhantes, e seus longos cabelos reluziam sob as luzes. Seu tom de voz era calmo e doce, mudando completamente a impressão que eu tinha dela. Em vez de uma modelo, ela quase parecia uma idol.
Era como se ela fosse de outra dimensão. Como se não houvesse como nós dois vivermos no mesmo planeta.
Ela era tão linda que me assustou. Foi a primeira vez que isso aconteceu comigo.
No entanto, havia algo em Fuyutsuki que eu achava um pouco estranho.
Ela simplesmente não parava de olhar fixamente para frente.
Curioso para saber o que ela estava olhando, segui seu olhar — mas não havia nada além de uma parede em branco atrás de mim.
Me perguntei se havia algo na parede, mas por mais que eu olhasse, não conseguia ver nada. Me vi sob uma espécie de estranha ilusão de que, se alguém tão bonita quanto ela estava olhando para a parede, então deveria haver algo ali. Cheguei a me perguntar se estávamos em um prédio mundialmente famoso, mas descartei a ideia, lembrando a mim mesmo que aquele era apenas um dos bares de uma rede com o mesmo nome.
Quando desviei o olhar da parede e voltei para Fuyutsuki, a vi tateando a mesa com a mão direita. Bem à sua frente havia um copo cheio de suco de laranja, mas ela estava com dificuldade para pegá-lo. Parecia que ela estava se guiando por uma densa neblina. Não pude deixar de me perguntar o que ela estava fazendo.
Hayase tocou no ombro de Fuyutsuki e sussurrou em seu ouvido:
“Está bem na sua frente, Koharu.”
“Obrigada, Yuuko.”
Fuyutsuki estendeu o braço para a frente, tocando delicadamente o copo e segurando-o.
Enquanto eu permanecia sentado, confuso, tentando entender qual era o problema, Narumi perguntou casualmente: “Hum? Você tem problemas de visão, Fuyutsuki?” Fiquei chocado… Como ele pôde fazer uma pergunta tão pessoal para alguém que acabara de conhecer? Fuyutsuki, porém, não pareceu se importar. Ela pousou o copo e sorriu docemente.
“Sim. Sou cega.”

Assim que saí do bar, a brisa fresca roçou minha bochecha. Meu corpo ainda estava quente por estar lá dentro, então foi uma sensação boa.
Devia haver pouco oxigênio no ambiente, porque até o ar poluído pela fumaça dos escapamentos na rodovia agora parecia refrescante.
O grupo barulhento com quem estávamos provavelmente já estava a caminho de uma festa. Eu conseguia ouvir risadas ecoando à distância — provavelmente deles.
Quando estávamos saindo, Hayase se inclinou e sussurrou para mim, tomando cuidado para que Fuyutsuki não ouvisse.
“Aqueles caras trocaram de mesa assim que descobriram que Koharu não enxergava.”
“Então é por isso que sua mesa era como uma ilha remota.”
“Uma ilha remota?” perguntou Hayase, com os olhos arregalados.
“Era como uma ilha separada do continente, não acha?”
“Do que você está falando?” disse Hayase, rindo.
Depois de sairmos do bar em que estávamos em Tsukishima, nos vimos caminhando pela Avenida Kiyosumi-dori em direção a Monzen-nakacho. Narumi e eu estávamos indo para o nosso dormitório da faculdade do outro lado da Ponte Aioi, enquanto Hayase disse que ia pegar o metrô depois de deixar Fuyutsuki.
Fuyutsuki seguia o piso tátil amarelo usando uma bengala chamada bengala branca.
Hayase caminhava ao lado dela, mantendo a mão no cotovelo de Fuyutsuki. Narumi, enquanto isso, tagarelava com as duas garotas.
O som dos carros abafava suas vozes enquanto caminhávamos pela avenida. Olhando para cima, notei que era uma noite clara de luar. Não havia estrelas à vista; o brilho da lua e das luzes da cidade provavelmente eram os culpados por isso. Mesmo assim, as luzes dispersas dos prédios de apartamentos pareciam estrelas de verdade. A enorme lua espreitava por entre os arranha-céus, parecendo estar suspensa num céu estrelado.
Então é assim que a cidade se parece à noite, pensei — mas então algo mais me ocorreu.
A Fuyutsuki não conseguiria ver a lua, conseguiria? Ela é cega.
O que eu faria se perdesse a visão? — Provavelmente me trancaria no quarto, amaldiçoando meu destino com todas as minhas forças. Não me surpreenderia se perdesse toda a esperança. Me sentiria culpado por ser um peso para os outros sempre que tivesse que comer ou dar uma volta. Nem consigo imaginar o quão difícil seria. Não havia a menor chance de eu agir com a mesma alegria que Fuyutsuki.
Por que ela decidiu vir à festa dos calouros mesmo sem enxergar? — Narumi perguntou isso a ela durante o evento, o que me chocou.
Ele nunca amenizava as coisas, mas Fuyutsuki não pareceu se importar.
“Você veio porque era uma experiência nova, né...?”
Enquanto eu refletia sobre suas palavras, ouvi uma voz ao meu lado.
“O que foi isso?”
“Ah!” Deixei escapar sem querer.
Hayase me olhava, piscando confusa.
“Huh? Você me odeia ou algo assim?” ela perguntou.
“Claro que não,” eu respondi.
“Estou só brincando.”
Hayase fez beicinho por um instante, mas logo em seguida soltou uma risadinha. Nós quatro tínhamos passado o final da festa conversando, e a cautela que ela demonstrara inicialmente parecia ter desaparecido.
“Tudo bem você não segurar a mão dela?” perguntei a Hayase.
Fuyutsuki caminhava sozinha sobre os ladrilhos amarelos, seguindo em frente.
“Contanto que não haja nada bloqueando o caminho dela no piso tátil, ela pode andar sozinha sem problemas. Ela não gosta que as pessoas a toquem sem que ela peça ajuda,” explicou Hayase.
“Vocês duas são amigas de longa data?”
“Por que a pergunta?”
“Quer dizer, você está fazendo o papel de acompanhante dela. Eu meio que imaginei que fosse esse o caso.”
“Ah, é isso que você quer dizer. Eu só conheci a Koharu na cerimônia de entrada. Eu sou Hayase e ela é a Fuyutsuki, então somos Fu e Ha, certo?”
Por um instante, senti como se Hayase estivesse falando em enigmas. Os alunos são organizados em ordem alfabética para as cerimônias de entrada, então ela devia estar se referindo a sentarem juntas.
“…Entendo.”
“Ei, você sabia que nossa universidade tem um programa chamado guias estudantis? Eles estão anunciando vagas nos murais.”
“Eu não sabia disso.”
“É, imaginei. Guias estudantis são voluntários que auxiliam pessoas com deficiência durante a faculdade.”
Pelo que Hayase me contou, a função envolvia acompanhar o aluno às aulas, ajudá-lo a se locomover pelo campus e auxiliá-lo nas refeições, dependendo das necessidades de cada um. Hayase era uma pessoa admirável. Mesmo assim, senti que era melhor manter distância. Aparentemente, Fuyutsuki tinha mencionado que queria ir à festa hoje à noite, então Hayase foi com ela. Ela parecia ser o tipo de pessoa que fazia esse tipo de coisa com frequência. Eu sabia que pessoas como ela existiam, mas eram raras — e o completo oposto de mim.
“Eu tenho o péssimo hábito de tentar ajudar a qualquer momento, mas, como regra geral, é melhor não interferir a menos que a pessoa peça explicitamente.”
“É mesmo?”
“Sim. Caso contrário, é como se você estivesse dizendo que ela não consegue fazer isso sozinha,” disse Hayase, olhando para o chão.
Isso fazia sentido. Provavelmente seria péssimo ter alguém se intrometendo em tudo o que você faz, te tratando como uma criança.
“Ela me disse que queria tentar ir a uma festa enquanto estivesse na faculdade,” disse Hayase suavemente. “Incrível, não é?” Havia um toque de pena em sua voz.
“Ah, sim!” ela exclamou de repente, levantando a cabeça de forma exagerada. “Você está no mesmo departamento que eu, né, Sorano?”
“Você também estuda logística?” perguntei para Hayase.
“Sim. A Koharu também.”
“Nossa. Então o Narumi é o único que estuda algo diferente.”
“Você faz ciência da computação?” ela perguntou.
“Aquela primeira aula de segunda? Bom, sim…”
“Não.”
“Estou arrependido de ter me matriculado nessas aulas… Não entendo nada,” admiti.
“A Koharu disse a mesma coisa.”
“Estamos na mesma turma?”
Agora que parei para pensar, talvez tivesse alguém parecido com a Fuyutsuki sentada lá no fundo. Tentei me lembrar, mas não consegui, provavelmente porque eu não tinha muito interesse.
Enquanto eu fingia quebrar a cabeça, Hayase fez uma sugestão repentina.
“Você tem interesse em ser um guia estudantil, Sorano?”
Nuvens escuras pairaram sobre nossa conversa. Eu não gostei para onde isso estava indo. “Por quê?” perguntei, tentando sutilmente rejeitar a ideia dela.
“Meus horários e os da Koharu não coincidem. Eu esperava que você pudesse nos ajudar, mesmo que seja só durante aquela aula.”
“Bem, o negócio é—”
“Você só precisa ajudá-la se ela parecer estar com dificuldades, okay?”
Hayase estava sendo muito direta — até insistente. Achei isso honestamente incrível.
Enquanto eu me recuperava do leve choque, ouvi um estrondo à nossa frente.
Uma bicicleta havia caído e pareceu assustar Fuyutsuki.
Parecia que ela a havia derrubado acidentalmente com sua bengala branca no piso antiderrapante, onde estava estacionada.
“Você está bem?” perguntou Hayase, correndo até ela.
“Desculpe por isso. Eu não tinha percebido que estava ali,” disse Narumi.
Quase dei um passo à frente, mas parei quando vi Narumi pegar a bicicleta caída do chão.
“Desculpe!” disse Fuyutsuki.
Tudo o que fiz foi ficar paralisado, observando-a.
“Está tudo bem, sério. Qualquer um poderia ter derrubado essa sucata velha.”
O suporte estava quebrado ou algo assim? — Narumi estava lutando para manter a bicicleta enferrujada em pé.
Hayase voltou, franzindo a testa.
“Ultimamente, tenho me preocupado muito mais em não estacionar minha bicicleta no piso tátil,” disse ela. “Mais pessoas precisam saber o quão importante isso é.”
“É,” respondi quase automaticamente.
“É!” Hayase repetiu, ligeiramente irritada.
Então, mantendo o mesmo nível de irritação, ela voltou ao nosso assunto anterior.
“Então, o que você acha da ideia de ser guia para estudantes?” Eu esperava que o incidente com a bicicleta derrubada tivesse feito com que ela esquecesse o assunto, mas, infelizmente para mim, não aconteceu.
“Hum.” Fingi pensar um pouco. “Me dê um tempo para considerar,” respondi vagamente.
Eu queria dizer isso como mais uma recusa indireta, mas Hayase não ia recuar.
“Me dê seu contato,” ela exigiu, mostrando-me um código QR para adicioná-la no aplicativo de mensagens LINE. Relutantemente, troquei os IDs com Hayase. Assim que isso foi feito, ela sorriu e disse: “Não se esqueça de ajudar a Koharu sempre que ela precisar de alguma coisa,” e correu de volta para Fuyutsuki.
Isso era ruim.
“Mas—”
Quase disse ‘Sou péssimo nessas coisas,’ mas me contive no último momento.
Quando eu era criança, me mudava muito, de uma casa para outra.
Aparentemente, essa era a única maneira que minha mãe divorciada e solteira tinha para conseguir criar um filho.
Começamos morando na casa dos meus avós, mas quando eles adoeceram, acabamos na casa da minha tia. Depois, após uma briga entre minha tia e minha mãe, tivemos que ir morar com um parente distante. Em certo momento, uma amiga da minha mãe nos acolheu, mesmo não sendo parentes.
Para onde quer que eu fosse, as pessoas me odiavam por ser “arrogante demais”. Quando eu tentava ser cortês, me odiavam por ser “educado demais”. Me destacar era uma maneira infalível de ser antipatizado em todas as escolas novas para as quais eu me transferia, mas ninguém dizia nada quando eu me esforçava ao máximo para ficar na minha. No fim das contas, todo mundo gosta de pessoas discretas.
Com o tempo, aprendi que me misturar e ficar longe das pessoas era a melhor abordagem. Antes que eu percebesse, me tornei especialista em ler expressões faciais, passar despercebido e identificar zonas seguras.
Olhei para cima e vi a lua obscurecida pela neblina.
Só consegui distinguir seu contorno vago. O luar tênue dava ao conjunto de prédios de apartamentos um brilho misterioso. Achei a vista linda, mas a natureza fria e inorgânica do concreto me chamou a atenção, me deixando um pouco desconfortável.
“Ah, é este prédio, né?” disse Hayase, parando.
Estávamos em uma das extremidades da Ponte Aioi. A universidade ficava do outro lado.
“Que lugar bonito!” exclamou Narumi, olhando para o complexo de apartamentos.
À nossa frente, havia dois prédios, cada um com cerca de cinquenta andares. Pareciam típicos blocos de apartamentos de vários andares. Havia uma pequena escada e uma rampa de acesso para cadeirantes que levavam a um longo passeio, e no final dele ficava a entrada adornada por uma cascata que descia por um grande painel de vidro. Ficou imediatamente óbvio que eram apartamentos de luxo. Fuyutsuki emanava uma aura de limpeza e organização, o que confirmou minha impressão de que ela era uma garota rica e impecável.
Hayase guiou a mão de Fuyutsuki em direção ao corrimão da rampa de acesso para cadeiras de rodas. Ela bateu levemente no piso tátil com sua bengala branca e fez uma reverência educada.
“Obrigada.”
“Boa noite.”
“Até logo.”
“Boa noite.”
Nos despedimos e acenamos um para o outro.
Foi então que aconteceu.
Ouvimos o estrondo de algo explodindo e uma luz vermelha refletida nas janelas do prédio.
Tum, tum. As explosões continuaram, uma após a outra. Cada vez que o som cortava o céu noturno, as janelas do prédio se tingiam de cores vibrantes — amarelo, azul e, depois, vermelho novamente.
Narumi apontou para o outro lado da Ponte Aioi.
“Parece que eles estão lá.”
Hayase caminhou da rampa de volta para a calçada e olhou para o céu.
“Ali não é a universidade? Eles podem soltar fogos de artifício lá?”
“Espera, o quê? Fogos de artifício?” disse Fuyutsuki animadamente.
Ela devia estar louca para vê-los com os próprios olhos, porque desceu a rampa correndo, guiada pelo corrimão. De repente, sua mão escorregou e ela perdeu o equilíbrio.
“Cuidado!” gritei, instintivamente a amparando.
Ajudei Fuyutsuki a se firmar novamente. Quando toquei sua palma, senti-a fria contra a minha.
“Suas mãos são tão quentinhas, Sorano,” disse ela, parecendo totalmente tranquila.
“Você poderia ter se machucado,” eu disse.
“Desculpe.”
“Não, tudo bem.”
Quando a ajudei a chegar à calçada, os fogos de artifício já tinham acabado.
“Perdemos, não é?” perguntou ela com um sorriso travesso.
“Você consegue vê-los?” perguntei, achando sua reação um pouco estranha.
“Não,” respondeu ela, virando o rosto para mim. “Mas eu adoro fogos de artifício.”
“Gosta mesmo?”
Mesmo que você não consiga vê-los? — Guardei essa pergunta para mim.
“Um dia, quero soltar fogos de artifício com meus amigos,” disse ela, radiante.
Fuyutsuki não conseguia ver o mundo ao seu redor, então como poderia gostar de fogos de artifício?
Ela estaria sozinha, cercada pela escuridão total.
Sozinha, ouvindo as explosões ecoando ao seu redor.
Então, por que ela parecia tão feliz falando sobre isso?
Estava fingindo ou era genuíno?

Ela era um mistério para mim.
“Sorano,” Hayase sussurrou no meu ouvido. “A Koharu é bonita, não acha?”
“Sim, claro,” respondi ambiguamente. Eu sabia que seria ruim dizer não.
“Ela é bonita e legal.”
Hayase continuou insistindo até que finalmente nos separamos. Ela dizia coisas como “Você só precisa ajudar quando tiver vontade,” e em várias ocasiões, as palavras ‘Eu não posso’ quase escaparam dos meus lábios.
A melhor estratégia era ignorá-la.
Então foi o que eu fiz — simplesmente deixei para lá.
Traduzido por Moonlight Valley
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