Amor Invisível Sob o Céu Noturno Japonesa

Tradução: Valência

Revisão: DelValle


Amor Invisível Sob o Céu Noturno

Capítulo 7: Fogos de Artifício Desenhados

   Eu sempre achei que não precisava depender de outras pessoas. O que acabei percebendo, porém, foi que isso não passava de uma forma de autoproteção, algo muito próximo de desistir — e me surpreendeu descobrir o quão profundamente enraizada essa teimosia estava em mim.

   Apesar de todas as lágrimas que derramei, acabei voltando ao hospital, repreendendo a mim mesmo por ser tão insistente.

   Era o dia da leitura de livros ilustrados, e a voz suave de Hayase, levemente mais alta que o normal, ecoava pela Sala das Crianças. Todas estavam completamente absortas na história.

“A princesa deu uma mordida no pequeno pedaço de fruta, e lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto.”

   Ela havia comido o “fruto da verdade” feito pela bruxa, e a princesa chorou ao confessar a mentira que contara por preocupação com o príncipe. Vi lágrimas nos olhos de algumas crianças.

“E a princesa e o príncipe viveram felizes para sempre.”

   Graças aos esforços do príncipe depois de descobrir a verdade, a história terminou de forma feliz, deixando as crianças animadas.

   Embora todas parecessem estar se divertindo, Fuyutsuki, sentada numa cadeira ao fundo, parecia sofrer.

   Ela aparentava ter dificuldade para respirar.

   Depois da hora da história, chegou a vez dela tocar piano — mas ela errou muitas vezes e precisou parar repetidamente.

   No dia seguinte, quando fui ao trabalho voluntário, Fuyutsuki não estava lá. Ao que parecia, seu estado tinha piorado.

   Ela também não apareceu no dia seguinte.

   Eu sabia em qual quarto do hospital ela estava internada.

   Certa vez, preocupado com o quanto ela parecia cambalear ao andar, eu a tinha seguido até o quarto sem dizer nada. Tinha agido como um completo perseguidor. Na época, até eu mesmo tinha me assustado com aquilo, mas agora fiquei aliviado por ter feito o esforço.

   Depois de me despedir de Hayase e Narumi após a Hora das Crianças, fui direto ao quarto de Fuyutsuki. Como era um hospital grande e de alto padrão, todos os quartos da ala eram individuais. Eles se alinhavam em fileiras organizadas, cada um com uma plaquinha exibindo o nome do paciente.

   Fui até a ala oeste do sétimo andar — o andar acima da Sala das Crianças — e parei diante da placa que dizia: KOHARU FUYUTSUKI.

   Quando eu estava prestes a bater, ouvi vozes vindo de dentro.

“Você quer mesmo que eu corte?”

“Uhum. Por favor.”

   Deslizei a porta um pouco, em silêncio, e espiei para dentro.

   Tudo o que consegui ver pelo vão foi o pé de uma cama branca. Não vi Fuyutsuki, mas notei uma mulher vestindo um quimono.

   Eu não entendia muito de quimonos, mas até eu percebia, à primeira vista, que era algo caro. O tecido azul-ultramar claro parecia incrivelmente macio e era decorado com leques.

   A mulher lembrava muito Fuyutsuki. Parecia mais descontraída no entanto, e seus olhos eram um pouco maiores, e concluí que devia ser a mãe dela. Ela segurava uma tesoura.

   A mãe de Fuyutsuki olhou em direção à porta — devia ter percebido que eu estava espiando — e nossos olhares se encontraram.

   Droga, pensei, tão nervoso que meu coração quase parou. Mas a expressão dela logo se suavizou, e ela levou um dedo aos lábios, pedindo silêncio.

“Entendi, querida. Vou ali pegar algo para beber,” disse à pessoa na cama, com uma risadinha.

   A mãe de Fuyutsuki caminhou até a porta, saiu do quarto e olhou para mim, piscando de forma interrogativa.

“Você é amigo da Koharu?” perguntou em sussurro.

“Ah, sim,” respondi em tom normal — e ela rapidamente me mandou ficar quieto.

“Vamos conversar ali, para a Koharu não ouvir,” disse em voz baixa, ainda segurando a tesoura junto ao peito.

   Ela poderia ter largado a tesoura, mas, em vez disso, a carregava enfiada no polegar e no indicador. Era um pouco inquietante, mas também passava uma impressão de distração — algo que combinava com a mãe de Fuyutsuki.

   Sentamos no sofá em frente à máquina de bebidas. Ela sorriu para mim, olhando diretamente nos meus olhos. Fuyutsuki nunca conseguia sustentar meu olhar, então aquilo me pareceu estranho — talvez por serem tão parecidas.

“Você é amigo da Koharu?” ela perguntou novamente.

“Sim. Meu nome é Kakeru Sorano. Estudamos juntos na faculdade.”

“Faculdade?” ela repetiu. “Então ela foi mesmo para a faculdade.”

“Foi. Estudávamos na mesma área.”

“Que alívio”, disse ela, se jogando contra o encosto do sofá. “Desde que a Koharu foi internada, ela insiste que nunca foi para a faculdade. Eu já estava achando que tinha enlouquecido.”

“Ela disse isso em casa também?”

“Ela te disse alguma coisa?”

“…Ela age como se não tivesse nenhuma lembrança de mim,” respondi.

   Os olhos da mãe de Fuyutsuki se arregalaram.

   Será que eu tinha falado demais? Talvez devesse ter guardado aquilo para mim.

   Uma onda de culpa me atingiu.

   Para minha surpresa, porém, a mãe de Fuyutsuki sorriu de forma gentil.

“Entendo… Isso também deve ser difícil para você.”

   Ela se recusava a deixar a tristeza transparecer, e isso fez meu peito apertar.

“Não, eu estou bem.”

“Não acredito nisso nem por um segundo. Deve estar muito difícil.”

“Eu estou bem.”

“Se você diz,” respondeu ela com uma risada.

   Como ela conseguia sorrir daquele jeito?

“A senhora não acha isso difícil?”

“‘Senhora’? Você fala como se estivesse conhecendo a sogra. Você e a Koharu…?”

“N-não!” neguei apressadamente.

“Estou brincando,” ela disse, rindo.

   Ela riu durante toda a conversa. A maçã realmente não caía longe da árvore — não pude deixar de pensar no quanto ela se parecia com a filha.

“Não sei se deveria te dizer isso…” ela começou em voz baixa.

   Houve uma breve pausa.

“Tem sido muito difícil.”

   A tranquilidade na voz dela deixou meu corpo inteiro tenso.

“Não há um dia sequer em que eu não deseje que minha filha tivesse nascido com um corpo mais saudável. Mas… se eu ficar sempre abatida, isso só vai tornar tudo mais difícil para ela. Se ela vai passar por tudo isso, eu preciso estar ao lado dela, sorrindo.”

   Lágrimas se acumularam nos cantos de seus olhos. Minha visão também começou a se embaçar.

“Então, por favor. Quero que você fique ao lado dela. Pode ser difícil, mas quero que faça companhia a ela com um sorriso no rosto.”

“Eu vou,” respondi.

“Obrigada,” disse ela, abrindo um sorriso radiante.

   A mãe de Fuyutsuki começou a abrir e fechar a tesoura que segurava.

“Para que é a tesoura?” perguntei.

   Ela olhou para baixo.

“Ah… vou cortar o cabelo dela. Está começando a cair por causa do tratamento. Já é a terceira vez que ela passa por isso, então tenho certeza de que ela sabe o que vai acontecer.”

“…Entendo. Mas o cabelo dela é tão bonito e comprido.”

“Ah, mas ela não vai simplesmente cortar para jogar fora. Você já ouviu falar em doação de cabelo?”

“Tipo… deixar de ter o cabelo em si?”

   Peguei meu celular para pesquisar. Descobri que a doação de cabelo serve para a confecção de perucas destinadas a crianças que perderam o cabelo por causa de doenças — e que essas perucas são distribuídas gratuitamente. Parecia haver muitas crianças aguardando na fila.

“Se a Fuyutsuki vai perder todo o cabelo, ela não poderia fazer uma peruca para si mesma?” perguntei.

“Ela não quer isso”, disse a mãe de Fuyutsuki, balançando a cabeça. “Quando era mais nova, perder o cabelo a deixou muito abalada. Por isso, agora ela quer doá-lo para crianças que estão passando pela mesma coisa.”

“Isso…”

   As palavras ficaram presas na minha garganta.

   Essa demonstração repentina da gentileza de Fuyutsuki quase me fez chorar.

   Respirei fundo — depois ainda mais fundo — tentando conter as lágrimas.

“Isso realmente soa como algo que a Fuyutsuki faria.”

“Não é?” ela respondeu, sorrindo. “Talvez seja só coisa de mãe coruja, mas acho que não poderia ter pedido uma filha melhor. Venha visitá-la de novo, pode ser?”

   Deixando essas palavras para trás, a mãe de Fuyutsuki acenou para mim com a mão direita — ainda segurando a tesoura — e voltou para o quarto da filha.

 

 

“Hoje, vamos desenhar fogos de artifício neste papel.”

   Na Hora das Crianças daquele dia, pedimos que as crianças desenhassem fogos de artifício.

   Existia um tipo especial chamado fogos de formato, que criava desenhos no céu — como sorrisos ou estrelas — e eu estava incentivando as crianças a criarem esses formatos.

   Uma semana antes, depois de decifrar o marcador de página da Fuyutsuki na biblioteca, eu havia ligado para a Hayase.

   A primeira coisa que disse foi: “Vamos soltar fogos.”

   Como Hayase fazia parte da comissão do festival estudantil, perguntei a ela sobre os fogos que estavam planejados para serem lançados no festival.

“Acho que isso pode despertar algumas memórias nela.”

   Contei o que o médico havia me dito, e começamos a discutir a possibilidade de realizar o espetáculo de fogos que Fuyutsuki tinha perdido.

   Passamos dias planejando.

   Hayase, como membro da comissão, levantou a questão de saber se as crianças do hospital conseguiriam ver os fogos. Depois de pedirmos conselhos a Kotomugi, o presidente do clube de fogos de artifício, o plano evoluiu para um evento chamado Fogos de Artifício das Crianças.

   Explicamos a situação para todas as partes envolvidas — incluindo a universidade e os fabricantes de fogos — e, por fim, decidimos realizar um festival de fogos de verão para exibir aqueles que não haviam sido lançados no festival estudantil.

   De volta à Sala das Crianças, elas desenhavam fogos com entusiasmo, usando giz de cera e lápis de cor.

   Fuyutsuki, porém, não tinha aparecido.

   Segundo uma enfermeira com quem eu havia feito amizade, ela estava deitada em seu quarto. Por se tratar de informação confidencial, a enfermeira não pôde me dizer mais nada sobre seu estado.

   Quando a Hora das Crianças terminou, Hayase me entregou uma folha branca e alguns lápis de cor.

“Aqui.”

“Valeu.” assenti com a cabeça, e nos separamos.

   Ela levou os desenhos das crianças de volta ao campus, enquanto eu segui para o quarto de Fuyutsuki.

   No caminho, encontrei a mãe dela, que me deu um sorriso caloroso.

“Obrigada,” ela disse.

“Não foi nada. Até me sinto mal por aparecer todos os dias.”

“Cuide da Koharu para mim. Preciso resolver uma coisa.” ela segurava o celular da filha, cuja tela estava estilhaçada como uma teia de aranha. “Parece que ela quebrou isso no quarto outro dia. O substituto finalmente chegou, então preciso ir buscá-lo.”

“Entendo.”

“Ah, e leve isto.” Ela me entregou uma máscara e borrifou álcool desinfetante em minhas mãos. “Existe a chance de ela estar dormindo.”

   Só aquele gesto já deixava claro que o estado de Fuyutsuki havia piorado.

   Respirei fundo diante do quarto dela para me acalmar, então bati na porta.

   Nenhuma resposta.

“Vou entrar.”

   Entrei em silêncio, como um ladrão.

   Fuyutsuki dormia, deitada com a cabeceira da cama ajustável elevada.

   A janela estava aberta. As cortinas balançavam suavemente sempre que uma brisa fresca entrava no quarto, e o ar parecia surpreendentemente limpo para uma cidade.

   O cabelo de Fuyutsuki estava curto. Antes, era o comprimento típico da maioria das jovens, mas agora terminava logo acima das orelhas.

   Sentei-me na cadeira ao lado da cama, sentindo o vento na pele.

   O som de sua respiração tranquila e constante preenchia o quarto.

   Ela parecia a Branca de Neve, dormindo ali.

   Ao observá-la, senti uma onda de carinho crescer dentro do peito.

   Contemplei seu belo rosto, tentando ser o mais discreto possível. Não queria acordá-la.

   Desejei que aquele momento de paz durasse para sempre.

   Mas sempre que pensava naquela doença devorando seu corpo, um frio me atravessava.

     Por que tinha que ser a Fuyutsuki?

   A chance de ela sobreviver até o fim do ano era de apenas cinco por cento.

   Quando esse número passou pela minha mente, senti medo ao olhar para seu rosto sereno.

   Imaginei Fuyutsuki morrendo, e o desespero de perdê-la me dominou.

   A brisa que antes era refrescante passou a parecer fria, então comecei a fechar a janela devagar. Nesse momento, ela fez um rangido.

   Droga, pensei, congelando no lugar.

   O som fez Fuyutsuki se mexer de repente.

“Ngh…” Ela gemeu, se espreguiçando. “Mãe, é você?”

   Ela abriu os olhos e olhou em minha direção. Meu coração disparou ao pensar que talvez ela pudesse me ver — mas, é claro, Fuyutsuki não percebeu quem eu era.

“Pode deixar a janela aberta. Está fresquinho,” disse, naquele tom doce e mimado com que costumava me chamar de ‘malvado’. Foi estranhamente reconfortante vê-la agir assim.

   Quando ela se virou de bruços, quase ri — mas, ao notar que sua “mãe” não respondia, ela pareceu desconfiar.

“É você, mãe? Ou é uma enfermeira?” havia um toque de pânico em sua voz.

   Constrangido demais para continuar em silêncio, falei: “Desculpa… sou eu, Sorano.”

   Fuyutsuki ficou sem reação por um instante, mas logo pareceu se lembrar de algo. Com uma expressão irritada, começou a procurar o botão para chamar a enfermeira.

“E-espera um pouco!” gritei.

“Por que você entrou aqui sem permissão?”

“Eu só estava preocupado. Faz tempo que você não aparece na Sala das Crianças.”

“Eu mandei você se esquecer de mim.”

“Vamos lá, estou só fazendo uma visita. Sua mãe me pediu.”

“Você falou com a minha mãe?”

   Ela se sentou bruscamente na cama, mas, assim que o fez, se curvou, apertando o peito de dor.

   Havia um acesso ligado ao braço esquerdo, com um soro transparente pendurado no suporte.

“Você está bem?” perguntei.

“Só… me dá… um momento.”

   Ela respirava com dificuldade, tentando se acalmar. Seu rosto estava pálido, e suor frio escorria por sua testa. Também parecia mais magra.

“Desculpa,” murmurei, sem saber o que mais dizer.

“Você é insistente demais, Sorano. O que vai ser preciso para você se esquecer de mim?”

“Desculpa.”

“Para de pedir desculpa.”

“Você está bem?”

“Dói.”

   Mesmo sem enxergar, ela virou o rosto na minha direção e sorriu.

   Não era o sorriso genuíno de sempre. Havia tristeza nele.

“Ultimamente, até água me faz vomitar. Por isso estou no soro.”

“É efeito colateral do remédio? Ele é tão forte assim?”

“É. Meus glóbulos brancos estão baixos, e minha boca está cheia de feridas.” A respiração dela ficou mais pesada enquanto falava, e o suor frio era visível.

“Já te afastei o suficiente? É melhor você me esquecer.”

“Isso não me afasta nem um pouco.”

“…Você realmente não desiste fácil, né?” disse ela, virando o rosto.

   Sua voz soava fraca.

“O médico disse que meu cabelo pode começar a cair na semana que vem.”

“Ah… entendi.”

“Essa é a parte que eu mais odeio.”

   Hoje, Fuyutsuki estava falando bastante.

   Talvez porque, se não colocasse tudo para fora, seria esmagada pelo peso das preocupações. Ou talvez porque tivesse simplesmente desistido.

“Eu não enxergo… então não sei como eu pareço.”

   Sua voz foi ficando cada vez mais embargada, e só de ouvi-la daquele jeito já doía.

“É tão difícil quando você é forçada a depender do tato para imaginar as coisas…”

   Ouvi um soluço sufocado. Ela começou a chorar.

   O carinho que eu sentia por ela foi engolido pela dor no meu peito.

   Parecia que eu estava sendo estrangulado.

   Então, em voz quase inaudível, ela disse:

 

“Eu quero morrer.”

 

   Eu não conseguia acreditar que aquela era a mesma Fuyutsuki que eu conheci, sempre sorridente.

   Mas será que aquela Fuyutsuki realmente existia?

   Ou não passava de uma imagem que eu tinha criado na minha cabeça?

   A verdadeira Fuyutsuki não era essa, tremendo ali diante de mim?

   O que eu podia fazer? Como eu podia ajudá-la?

   Era nessas horas que você devia passar a mão nas costas de alguém, não era?

   Por um instante, hesitei em tocá-la.

   Mas a pior coisa que se pode fazer quando alguém que você ama está chorando… é não fazer nada.

   Toquei as costas de Fuyutsuki, e ela se sobressaltou. Pensei que talvez não gostasse, mas, para minha surpresa, ela não disse nada.

   Falei com a voz mais calma que consegui.

“Estamos planejando um evento chamado Fogos de Artifício das Crianças, na universidade.”

“F-fogos de Artifício?”

“Como parte do trabalho voluntário, vamos transformar os desenhos das crianças em fogos de artifício e soltá-los no campus.”

   Falei devagar, esperando que ela entendesse.

“Então… eu queria te pedir uma coisa. Você gostaria de desenhar também?”

“Eu?”

“Sim. Vamos enviar todos os desenhos para a empresa de fogos de artifício hoje, mas a produção leva tempo. O espetáculo vai ser no fim de setembro. Por isso… precisamos dar o nosso melhor. Temos pouco mais de três meses. Vamos tentar melhorar sua saúde até lá.”

“Por quê?” Fuyutsuki elevou a voz. “Por que você diria uma coisa dessas?! Eu já disse que está difícil para mim! Por que você sugeriria que eu preciso me esforçar mais…? Como você pode ser tão cruel?!”

   Ela cobriu o rosto com as duas mãos e começou a chorar.

   As lágrimas pingavam, uma a uma, nos lençóis brancos.

“Você consegue sentir isso?”

   Segurei seu braço e coloquei algo em sua mão.

   Era o marcador de página amarelo.

   Assim que o tocou, ela pareceu surpresa.

“Isso é meu?”

“Desculpa… eu já li.”

“…Isso não é justo… Não é justo mesmo.”

   Ela voltou a chorar, o rosto encharcado de lágrimas.

   Segurei seus ombros e reuni toda a positividade que consegui.

“Não é melhor ter um objetivo?”

   Mesmo sofrendo tanto, Fuyutsuki havia decidido doar o próprio cabelo para outras pessoas. Eu queria animá-la.

“Ter um objetivo é melhor do que só chorar. Então vamos dar o nosso melhor para realizá-lo. Eu não posso tornar sua doença menos dolorosa, mas posso vir te ver, te ouvir e te apoiar. Então vamos tentar juntos.”

   Eu sabia que ela não podia me ver, mas sorri mesmo assim.

   Talvez meu sorriso transparecesse na minha voz. Talvez se infiltrasse no ar ao nosso redor.

   Mesmo que ela sentisse apenas um por cento do que eu estava tentando transmitir, já seria o suficiente.

   Forcei um sorriso, tentando dizer para ela não desistir.

“Você acha que… pode dar tudo certo?”

“Tenho certeza que sim.”

“Talvez… eu consiga tentar.”

   Fuyutsuki continuou chorando, e eu fazia carinho em suas costas, repetindo várias vezes que ficaria tudo bem.

“…Eu posso… desenhar um também?” perguntou, rouca.

“Claro.”

“Então me promete uma coisa. Depois que eu desenhar e dobrar o papel, promete que não vai olhar.”

“Prometo.”

“Vira de costas, por favor.”

“Tá.”

“Você está mesmo virado?”

“Estou.”

   Ela me pediu os lápis de cor, e eu os entreguei.

   Não demorou muito até que terminasse.

“Você precisa de ajuda?”

“Eu consigo desenhar algo assim sozinha.”

   Ela dobrou o papel com cuidado, três vezes, e me entregou o desenho — junto com um último aviso:

“Você não pode olhar. De jeito nenhum.”

 

 

   O Dia do Mar chegou, marcando o início das férias de verão.

   Na maioria das faculdades, as férias de verão começavam em agosto e terminavam em setembro, mas a nossa seguia o mesmo calendário do ensino fundamental, médio e colegial. Pelo que ouvi dizer, isso era para permitir que os alunos do curso do Narumi realizassem um treinamento de navegação de um mês inteiro. Outro detalhe que nos diferenciava de outras universidades era o fato de fazermos as provas do primeiro semestre em setembro, depois do fim das férias.

   Como como a imagem do Dia do Mar, o clima estava quente e ensolarado.

   Depois de um bom tempo, nós três fomos juntos ao trabalho voluntário e brincamos com as crianças. Narumi era absurdamente popular entre elas — sempre que aparecia, os meninos corriam até ele gritando “Narumi!”. Enquanto isso, eu era chamado de “Sorano-sama”.

   Quando a Hora das Crianças terminou, Hayase, Narumi e eu fomos juntos ao quarto de hospital da Fuyutsuki.

   Cada vez que eu a via, ela parecia ainda mais magra.

“Como você está?” perguntei.

“Mais ou menos,” respondeu Fuyutsuki, com um sorriso ambíguo.

   Não dava para saber se aquilo significava que as coisas estavam um pouco melhores… ou piores.

   O tom afiado que ela costumava ter havia suavizado bastante.

   Mesmo assim, ainda parecia estar sentindo dor.

   Narumi falava sem parar, no seu sotaque de Kansai, contando animadamente histórias do trabalho de meio período como se fossem feitos heroicos, enquanto Hayase respondia de forma fria. Fuyutsuki apenas acompanhava a troca com um sorriso educado.

   Só de voltar do hospital, já estávamos todos suados, então passamos em uma loja de conveniência para comprar sorvetes. Narumi escolheu um picolé sabor soda, e Hayase e eu fomos na dele e pegamos o mesmo. Caminhamos lado a lado enquanto comíamos.

   Quando mordi o gelo azul, a sensação gelada se espalhou pela boca junto com aquele sabor familiar de refrigerante.

“Uou!” Narumi exclamou ao morder a parte de baixo do picolé, que já estava meio derretido.

   Já era fim de tarde, mas o sol ainda estava alto. Apressei-me em comer o meu antes que derretesse completamente. Hayase, por outro lado, dava mordidas minúsculas. Não havia a menor chance de ela terminar antes que virasse uma lambança.

“Ei, Hayase. Não deixa pingar,” avisei.

“Não dá para evitar,” respondeu ela, virando-se na direção do Narumi.

“Ei, não aponta isso pra mim,” ele reclamou — então ela se virou para mim.

   Hayase estava espremida entre nós dois, e ficamos indo e voltando com “Ei!” e “Sai pra lá!”, enquanto ela girava de um lado para o outro. No fim, a situação ficou tão absurda que nós três caímos na gargalhada.

“Não riam de mim!” Hayase reclamou, emburrada, quando o último pedaço do picolé caiu no asfalto.

   Trocamos olhares e suspiramos ao mesmo tempo.

   Por algum motivo, tínhamos sido tomados pelo riso. Era como se uma represa tivesse se rompido depois de termos passado tanto tempo sérios e contidos no quarto da Fuyutsuki.

“Minha barriga dói,” disse Hayase, segurando o abdômen.

“Por que a gente foi comprar picolé, afinal?” Narumi murmurou.

“Eu sei que é meio cedo, mas que tal hambúrguer no jantar? Tem um lugar lá em Tsukishima.”

   Eu gostei da ideia, mas Hayase resmungou.

“Então o que você quer comer, Hayase?” Narumi perguntou.

“Tem uma casa de ramen que eu sempre quis conhecer.”

   O restaurante ficava depois da estação Monzen-Nakachō, sob o viaduto da via expressa. Um(a) veterano(a) havia elogiado muito o lugar, e Hayase sempre teve curiosidade. Ainda assim, ela não tinha coragem de ir sozinha — e ficava envergonhada demais para convidar o(a) veterano(a).

“Mas com a gente você não tem vergonha”, comentei, lançando-lhe um olhar frio.

“Não mesmo,” respondeu Hayase, com um sorriso insinuante.

“Então vamos pegar o trem em Tsukishima,” disse Narumi, entrelaçando as mãos atrás da cabeça. Em seguida, num tom estranhamente calmo, acrescentou: “Acho que a gente não devia mais visitar a Fuyutsuki em grupo.”

“Sim,” concordou Hayase, séria.

   O estado da Fuyutsuki estava tão ruim que não conseguimos ficar nem quinze minutos no quarto.

   Era a decisão certa não prolongar a visita, considerando sua saúde. Mesmo assim, naquele dia, parecia que simplesmente não devíamos estar ali.

   Não conseguíamos suportar vê-la sofrer. Aquilo lançava uma sombra pesada sobre nossos corações.

“Quando as férias começarem, vou estar no treinamento de navegação, então só volto pro dormitório no fim de agosto,” disse Narumi.

“É mesmo?” Hayase perguntou.

“Você não sabia? É coisa do meu curso — a gente navega pelo Japão num navio-escola.”

“Quero um caramelo Genghis Khan de lembrancinha de Hokkaido,” disse Hayase.

“Não são férias,” respondeu Narumi, com um sorriso sem graça. Ainda assim, tive a sensação de que ele acabaria comprando.

“Que tal a gente se revezar para visitar a Koharu?” sugeriu Hayase.

“Eu vou,” respondi automaticamente.

“Sozinho?”

“Sim.”

“Você não quer que eu vá?”

“Não… na verdade, prefiro ir sozinho.”

“Tudo bem,” disse Hayase, assentindo. “Então, para compensar, eu cuido de tudo relacionado ao evento dos fogos. Talvez isso ajude a trazer as memórias da Koharu de volta.”

“Só tentando para saber.”

“É,” respondeu Hayase, e um clima pesado se instalou entre nós.

“As chances de recuperarmos as memórias dela são mínimas, mas já fico feliz se conseguirmos mostrar fogos para a Fuyutsuki e para as crianças.”

   Hayase e Narumi trocaram olhares e assentiram um para o outro.

“Ei, você não vai voltar pra casa nas férias?” Narumi me perguntou.

“Não pretendo. Pensando bem… onde é sua casa, Hayase?”

“Eu? Moro com a minha família.”

“Espera… sua família tem casa em Kiyosumi Shirakawa? Ter casa no centro de Tóquio… vocês devem ser ricos.”

“Talvez nossa amiga rica possa pagar o ramen hoje,” Narumi riu.

“Nem pensar! Minha família é de assalariados comuns!” Hayase protestou. A entonação estranhamente ritmada com que ela disse “assalariados comuns” fez Narumi e eu cairmos na risada.

   Hayase inflou as bochechas, indignada, enquanto entrávamos no metrô — e assim, nós três seguimos para comer ramen juntos.

 

 

Traduzido por Moonlight Valley

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