Volume 1 – Arco 1
Capítulo 31: Pó e Julgamento
Quase uma hora depois, fora da diretoria, o corredor mergulhava num silêncio pesado, só quebrado pelo som apressado dos passos de Misha. Ela andava apressada, a sapatilha reverberando o corredor inteiro. Delaryn veio logo atrás, cuspindo raiva com cada passo, até alcançá-la.
— Ô, puta, tu vai aonde, caralho? — grunhiu Delaryn, se aproximando rápido. — Tu acha mesmo que vai meter o pé assim, como se nada tivesse acontecido? Tá achando que é quem, hein, filha da puta? Eu vou acabar com a sua vida, cacete!
Foi aí que ele alcançou ela de vez. Num impulso bruto, puxou-a pelo braço e a girou com força, fazendo seu corpo se virar bruscamente até ficarem frente a frente. Ele a encarou como um animal selvagem, o olhar queimando ódio. Mandíbula rígida. A voz, mais baixa agora, soou como um trovão sufocado.
— Tu sabe o que fez, né? Você perdeu a noção. Matou o Veyron, mano. Meu amigo. Dentro da porra da minha casa — ele riu sem humor, aquele riso de quem tá prestes a quebrar o próprio orgulho. — Se tu continuar nessa, vai puxar minha família inteira junto. E eu não vou pagar por crimes que não são meus — ele apontou pra ela, dedo firme, voz quase quebrando. — Se tu não se entregar, eu te entrego. E não tenta arrastar ninguém junto, Misha. Você tá fora dos Caçadores. Por que eu não vou proteger alguém que trata a vida assim. Se você não aparecer na porra da delegacia, eu vou. Vou dizer tudo. E se isso destruir sua vida... paciência. Eu não sacrifico a minha por alguém que evapora pessoas.
Misha encostou uma das mãos no peito no dele, sem medo nenhum, com aquele olhar vazio que parecia sempre dois segundos longe de fazer outra besteira. O perfume caro dela bateu no rosto de Delaryn, mas a voz... a voz veio gelada, cortante.
— Delar, Você não entende... você não cresceu ouvindo as palavras de Nael, e isso é muito ruim — ela ergueu o queixo, como se recitasse uma verdade absoluta. — Nael me fez mulher pra ser livre, não pra ser tocada por homens que acham que tem direito ao meu corpo — ela aproximou os lábios do ouvido dele, quase sussurrando, mas cada palavra entrando como uma lâmina. — O Veyron tentou me usar. Tentou violar aquilo que Nael protege. Então eu fiz o que qualquer filha fiel faria: eliminei o pecado. Cortei o mal.
Ela deu um risinho leve, arrogante, como se contasse uma fofoca e continuou.
— E vou continuar fazendo — disse ela. — Todo homem que tentar me usar, que tentar mandar em mim, que tentar me tocar... vai morrer. É simples. É justo. E... é o caminho de Nael — ela recuou só um pouco, os olhos marejados de uma fé completamente torta. — Pode chamar a polícia, chama quem quiser... Todos os demônios. Nael julga antes deles. E eu não caio, Delar. Eu sou escolhida. Quem cai são os que tentam me dominar. Sempre.
Delaryn rangeu os dentes, a mandíbula tremendo. As veias saltavam no pescoço, o rosto queimando de raiva, os olhos fixos nela como lâminas. O peito arfava, as mãos cerradas, o corpo inteiro tensionado como uma mola.
— Mas você é a culpada, porra! — berrou, e no mesmo instante, tudo ao redor parecia desacelerar, o som distante, o vento parado, os olhares congelados. Ele baixou a cabeça em lentidão. Seus olhos não desgrudaram dos dela, mas manteve o olhar fixo nela, como um predador prestes a atacar. E então, tudo voltou de uma vez. Com um impulso seco, ele desferiu um chute brutal no estômago dela, rápido demais para ela reagir.
O impacto foi violento. Misha foi arremessada para trás com a força da investida contra o chão liso do corredor. Misha rolou com força, os ombros raspando no piso polido, os joelhos batendo com violência. Parou com um gemido preso na garganta, o corpo curvado e ofegante. A mão foi instintiva ao estômago, apertando com força a área atingida, enquanto as pernas tentavam se firmar. O peito subia e descia rápido, e os olhos, marejados, buscavam o foco à frente. Ela se ergueu com dificuldade, cada músculo contraído pela força do golpe. A boca entreaberta, respirando com dificuldade, os dentes rangendo.
Delaryn permaneceu de pé, rígido, o maxilar travado, como se a raiva fosse a única coisa mantendo sua postura ereta. O desprezo no rosto dele não era só ódio; era medo mal disfarçado, aquele tipo de pânico que se veste de arrogância. Ele a encarava como se quisesse esmagá-la só com o peso do olhar, já calculando consequências, punições, audiências e o próprio nome sendo arrastado para a lama.
— Muito burra mesmo... Matou o Veyron e acha que vai sair dessa limpa? Você não entende o que fez, né? Quando os Detetives Temporais virem tudo que você fez, cada segundo, cada pedaço do Veyron espalhado no chão, você vai perder tudo — Delaryn cuspiu as palavras com a voz tensa, os punhos fechados tremendo levemente. — Não sobrará poder... e nem fé. E eu vou assistir você virar nada, do jeito que você merece.
Misha gemeu baixo, não de submissão, mas de irritação, como quem sente a dor e decide que ela não manda em porra nenhuma. O corpo respondeu rápido demais para alguém supostamente quebrada; ela apoiou um joelho, depois o outro, e se levantou, encarando Delaryn de cabeça baixa, os fios de seus cabelos caindo sobre o rosto, as mãos pressionadas contra a barriga em uma tentativa falha de conter a dor que a consumia por dentro. O chute havia desestabilizado seu corpo por completo, e mesmo assim, ela permanecia ali, tremendo, mas sem recuar. O sorriso que surgiu foi lento, venenoso, feito para machucar mais que qualquer poder.
Ela deu um passo à frente, mesmo com o estômago pulsando de dor. Seus dedos se contraíram, as pontas das unhas começaram a vibrar levemente, um brilho fraco surgindo por um instante... e sumindo logo depois, como se algo dentro dela estivesse quebrado. Delaryn viu. O instinto dele reagiu antes do cérebro, o peso do corpo projetando-se à frente, pronto para avançar sobre ela— e então travou. A memória veio inteira, brutal: Veyron morto, o poder dela rasgando alguém com facilidade obscena. O medo o paralisou no meio do impulso.
Foi nesse silêncio tenso que Misha tocou a poeira com o olhar; algo respondeu. Os olhos dela começaram a brilhar com uma luz amarela intensa. As mãos seguiram o mesmo ritmo, como lamparinas instáveis, carregadas de uma força bruta que pedia para sair. Ela girou o corpo num movimento seco, rápido, encarando Delaryn com um olhar feroz que o fez recuar tarde demais. Ela ergueu as mãos, e a poeira e os grãos de sujeira no chão responderam como se fossem uma extensão do seu corpo. As partículas se moviam e deslizavam pelo ar, seguindo cada movimento de seus dedos e pulsos com precisão. Com um gesto rápido e firme das mãos dela, a sujeira se enrolou ao redor de Delaryn , prensando seu corpo contra a parede com um som áspero de partículas raspando concreto enquanto ele lutava para se soltar.
Delaryn se debatia contra a parede como um animal encurralado, os músculos tensionados ao limite enquanto tentava arrancar com força bruta o manto de partículas que o esmagava sem piedade. A poeira não cedia; girava ao redor dele num movimento constante, quase hipnótico, apertando mais a cada tentativa desesperada, roubando espaço, ar e dignidade. Cada respiração vinha curta, falha, e o som áspero escapando do peito denunciava o pânico que ele jamais admitiria em voz alta. À frente dele, Misha se erguia lentamente, vértebra por vértebra, como se o próprio corpo estivesse sendo reconstruído pelo ódio. Os olhos queimavam em dourado vivo, e quando ela avançou, firme e dominante, o corredor inteiro pareceu reconhecer quem mandava ali.
O silêncio que se seguiu foi sufocante, pesado como concreto fresco. Nem o corredor parecia respirar. O brilho nos olhos de Misha permaneceu estável, frio, e o rosto assumiu uma calma perturbadora, distante de qualquer traço de compaixão. Um sorriso lento surgiu em seus lábios, gélido, cortante, como se ela finalmente estivesse vendo Delaryn sem máscaras, reduzido ao que realmente era. Ela o observava sem pressa, sem pressentir urgência alguma, como quem encara algo já condenado desde o início, e aquela tranquilidade era mais aterradora do que qualquer grito.
— Eu só não te mato agora porque seria fácil demais, Delar — disse ela, a voz baixa e firme, os olhos brilhando de desprezo cru. — Você é fraco. Você vive quebrado, surtado, fingindo força porque morre de medo de encarar quem é. Usa o título de Caçador como muleta, se esconde atrás da família... Mas por dentro só existe insegurança e raiva mal digerida.
Delaryn se encolheu sem que nenhum golpe precisasse acontecer, como se o próprio corpo tivesse entendido antes da mente o peso do que Misha tinha acabado de dizer. O corpo rígido denunciava o reconhecimento forçado de si mesmo, das máscaras quebradas, da covardia exposta sem piedade. E ele desviou o olhar não por desafio, mas porque sustentar aquelas verdades seria admitir que a máscara tinha rachado. O silêncio do corredor parecia amplificar cada palavra que ela jogara contra ele, transformando-as em ecos persistentes, incômodos, impossíveis de abafar.
— Cala a boca... você não sabe de porra nenhuma sobre mim, nunca soube, só fala isso porque acha que ganhou, porque teve sorte — murmurou, a voz baixa, falhando, carregada de negação desesperada, enquanto evitava encarar o espaço vazio onde ela estivera, incapaz de sustentar aquelas verdades sem se despedaçar por dentro.
Misha respirou fundo, o peito subindo e descendo rápido, tentando organizar o caos que ainda vibrava dentro dela. O olhar permaneceu fixo nele, enquanto a energia dourada começava a se dissipar lentamente. O brilho nos olhos perdeu intensidade, enfraquecendo até desaparecer por completo, e as mãos, antes envoltas naquela força opressiva, cederam. A poeira que o mantinha preso se desfez num estalo quase silencioso, como fumaça se dissolvendo no ar. Delaryn caiu no chão sem resistência, gemendo baixo, as mãos tremendo descontroladas, o corpo reduzido a um amontoado frágil. Misha continuou olhando para ele, impiedosa, ignorando a dor aguda no próprio estômago, concentrada apenas em esmagar o que restava do orgulho dele.
— Nunca mais encosta em mim — disse, inclinando-se levemente. — Se Nael quiser agir, ele vai agir no tempo dele. Mas se não quiser… eu termino sozinha. E da próxima vez, não vai ter aviso, nem pausa. Eu te mato.
Ela se virou sem olhar para trás, os passos pesados ecoando pelo corredor. Misha não era vítima, não naquele momento, e a decisão cravada dentro dela era mais firme do que qualquer ferimento. Delaryn jamais voltaria a vê-la fraca, jamais teria esse privilégio de novo.
Delaryn permaneceu caído no chão, as mãos tremiam incontrolavelmente pela humilhação esmagadora que se infiltrava fundo demais para ser ignorada. Ele nunca imaginou que Misha fosse capaz de dominá-lo daquela forma, usando algo tão básico quanto poeira e sujeira para transformá-lo em nada diante dela.
Ele socou a cerâmica com força repetidas vezes, até a pele dos dedos se romper e arder, a frustração transbordando em cada impacto. Se houvesse água ali, uma gota sequer, qualquer coisa que respondesse aos seus poderes, tudo teria sido diferente. Ele teria virado o jogo, teria colocado Misha de volta no lugar que julgava ser dela. Mas o silêncio sujo do corredor só devolvia o som da poeira se erguendo de novo, como se zombasse da impotência dele.
— Filha da puta... você acha que ganhou, mas isso não acabou... — sussurrou, a voz falhando, carregada de ódio cru. — Eu ainda tô vivo, e você vai pagar por cada segundo dessa humilhação, nem que eu precise desmontar você, sua cadela...
Delaryn não esqueceria. Não perdoaria. Misha podia ter saído andando com a cabeça erguida, mas ele ainda respirava, e isso era suficiente para alimentar a sede de vingança que crescia dentro dele. Saber que ela era perigosa, capaz de reduzi-lo a pó com um gesto, só tornava tudo pior. Ele não deixaria aquilo impune. Nem hoje, nem amanhã. Aquela história estava longe de acabar.
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