Volume 1 – Arco 1

Capítulo 30: Prontos Para o Setor

— Delaryn! Misha! Direção. Agora! — a voz de Kevin cortou o ar como um trovão.

Ele tinha entrado na sala do campo de treino em passos largos, a presença pesada ocupando a sala inteira. O silêncio que se instalou foi tão abrupto que dava pra ouvir a respiração rápida de uns quatro alunos que ainda tentavam entender o que diabos tinham presenciado.

Delaryn desviou o olhar dela por um instante, o rosto duro e raivoso. Depois virou de costas e saiu da sala com passos pesados, os ombros tensos, o corpo ainda pronto pra briga.

Misha, por outro lado, apenas alisou a gola amassada do próprio uniforme, respirou fundo e, num piscar, os olhos brilhantes se apagaram — voltaram ao amarelo canário comum, dócil, impecável.

Sem uma única palavra, caminhou atrás do professor, a postura impecável, o queixo erguido, passou a mão pelo cabelo e recuperou a expressão impecável, seguiu em frente como se nada tivesse acontecido.

Quando passou pela porta, o silêncio da sala era tão profundo que chegava a doer. Todo mundo tinha visto. Todo mundo tinha sentido. Mas ninguém abriu a boca.


Minutos depois, na sala da direção, Delaryn e Misha estavam sentados em cadeiras de madeira dura, aguardando a chegada da vice-diretora Hanvasa. A sala era austera, com paredes escura e móveis simples. A única decoração chamativa era um grande quadro antigo na parede, representando a fundação da escola. A tensão entre os dois era palpável, mas ambos estavam em silêncio, o olhar de Delaryn ainda carregado de raiva, enquanto Misha observava tudo ao seu redor com uma expressão enigmática.

Delaryn se mexeu na cadeira, inquieto, sentindo o desconforto se espalhar por seu corpo. Ele olhava fixamente para a porta, como se desejasse que ela se abrisse imediatamente, mas a ansiedade o corroía por dentro. Seus pensamentos estavam em turbilhão, voltando com força à conversa com Misha mais cedo, à maneira como ela havia reagido, tão fria, tão distante. A morte de Veyron não parecia ter importância para ela, e isso o deixava com um nó na garganta. Ele sentia o peso daquilo, a responsabilidade esmagadora de manter a imagem de sua família intacta.

Os pais de Delaryn eram tudo para ele. A boa reputação deles era tudo o que ele conhecia e respeitava, e ele sabia que, se algo saísse do controle, isso arruinaria tudo o que haviam construído ao longo dos anos. Ele não podia entender como Misha, com aquele sorriso debochado e sem remorso, poderia não perceber as consequências que isso traria. Enquanto ela seguia sua vida, impune e sem preocupações, sua família estava à beira do abismo. Ele sabia que tudo estava em jogo. A boa imagem de sua família, suas festas, seus privilégios... tudo isso estava sendo ameaçado. Os pais dele, que sempre estiveram acima de qualquer suspeita, agora eram alvo de investigações, com todos os olhares voltados para eles.

A ideia de que seus pais pudessem ser presos por homicídio era uma constante em sua mente. Delaryn sentia o peso disso, como uma sombra que nunca o deixava. Ele queria justiça. Não só porque isso era o certo, mas porque não podia permitir que sua família fosse destruída dessa maneira. Seus pais, tudo o que eles construíram... ele não podia deixar que tudo fosse por água abaixo por causa da Misha.

Ela estava feliz, talvez até se sentindo vitoriosa, mas Delaryn sabia que tudo estava prestes a desmoronar. Ele não podia permitir que ela se saísse impune. Ele queria que ela se entregasse para a polícia, que assumisse a culpa e parasse de jogar a responsabilidade nos outros. Delaryn sabia que, se ela se entregasse, poderia ser o fim desse pesadelo. Mas se ela continuasse, se fosse permitido que ela se saísse dessa, sua família poderia pagar o preço mais alto. Ele não permitiria que isso acontecesse.

Por outro lado, Misha estava tranquila, quase entediada, como se tudo ao seu redor fosse apenas uma distração temporária. Como se estivesse observando um jogo, e ela soubesse, sem sombra de dúvida, que era a vencedora. A ideia de perder nunca a preocupava; ela sempre se saía ilesa, não importava o que acontecesse. Ela sabia que a situação com Delaryn a divertia, e isso a deixava satisfeita de uma maneira quase perversa.

Ela lançou um olhar vago para ele, um toque de desdém em seus olhos, mas não disse uma palavra. Não precisava. Ele estava tão óbvio, tão visível em sua raiva que ela quase podia sentir a frustração dele emanando, como se estivesse prestes a explodir. Misha adorava ver essa luta silenciosa. Delaryn tentava controlar o que sentia, mas isso só o tornava mais previsível, mais fraco aos olhos dela.

Ela não se importava com a reputação da família dele. Não percebia o impacto que suas ações tinham sobre eles. Para Misha, a única coisa que importava era o controle, o poder. Delaryn, com sua raiva contida, não a assustava. Ele pensava que suas palavras e ameaças a afetariam, mas ela estava além disso. Ele achava que ela estava colocando a culpa na sua família, mas Misha mal notava os efeitos reais de suas ações. A ideia de destruir a reputação da família dele parecia tão distante, tão irrelevante para ela, que não conseguia sequer ver as consequências disso. Ela simplesmente não se importava.

Enquanto Delaryn se debatia com a culpa e temia pelo que sua família poderia perder, Misha o observava com frieza, enxergando apenas mais uma peça prestes a ser descartada. Ele era um caçador, como ela. Faziam parte do mesmo grupo, juraram proteger os mesmos princípios — mas, aos olhos de Misha, ele havia cruzado uma linha que jamais deveria ser tocada. Ele a havia enforcado, havia ameaçado, não aceitou a morte de Veyron e, pior, questionou os desígnios divinos, como se pudesse se colocar acima de Nael. Veyron? Para Misha, não passou de um peão. Ela o eliminou sem hesitar, fria, precisa. Talvez não matasse Delaryn, mas isso não significava que o perdoaria. Ela o faria se ajoelhar. Iria dobrá-lo, fazê-lo rezar a Nael para que ela não acabasse com ele ali mesmo. Porque, no fim, não importava o que ele fosse ou o que sentia — Delaryn a havia desafiado. E Misha não aceitava ser desafiada. 


Hanvasa já tinha chegado fazia uns minutos, e a conversa — se é que dá pra chamar de "conversa" aquele massacre verbal — já tinha rolado inteira. A sala tava num silêncio estranho, meio desconfortável e meio fascinado. Agora ela só estava ali, parada no centro da sala, respirando fundo, como se tivesse acabado de domar dois animais selvagens usando apenas o olhar. Imóvel só pra lembrar os dois de quem realmente mandava naquele território.

Misha estava com as costas coladas à cadeira, as pernas fechadinhas, os dedos enroscados no próprio short como se estivesse tentando manter a pose de princesa mesmo com o mundo desabando na cara dela. Ela respirava rápido, o peito subindo milimétrico, tentando esconder o tremor nos dedos. E cada vez que Hanvasa virava minimamente o olhar, os olhos dela abriam um pouco mais, denunciando o medo que ela nunca admitiria em voz alta. 

Delaryn, ao lado, não estava muito melhor. Ele havia começado a bronca encostado na parede, braços cruzados e queixo erguido, aquela arrogância que sempre parecia pronta pra explodir. Só que agora ele estava sentado, jogado na cadeira como se tivesse sido derrubado ali. A perna balançava sem parar, batendo o pé no chão num ritmo agressivo. As mãos estavam fechadas em punhos tão fortes que os nós dos dedos estavam brancos. O olhar estava fixo no chão, mas a linha dura da mandíbula tremia de raiva — aquela raiva adolescente profunda, estúpida, que não sabe se quer chorar, gritar ou quebrar o prédio inteiro.

Hanvasa caminhou dois passos — e só esses dois passos silenciaram qualquer respiração. O salto tocou o chão com precisão militar. Ela entrelaçou os dedos atrás do corpo, inclinando a cabeça como quem analisa dois incêndios tentando decidir qual apagar primeiro.

— Vocês são dois palhaços, né — disse ela, rindo com aquela voz baixa, grave, que cortava mais fundo do que gritar. — Eu já ouvi, já respirei fundo umas dez vezes, e mesmo assim continuo sem acreditar no circo que vocês montaram em menos de trinta minutos. A postura de vocês, o jeito que entraram aqui, o modo como se encararam... nada disso combina com a historinha que tentaram esfregar na minha cara. Transformaram a sala de treinamento num campo de guerra. Sem motivo. Sem lógica. Sem nenhum indício de que vocês têm o mínimo de maturidade. 

Delaryn desviou o olhar, mas o corpo dele não sabia mentir. A garganta subia e descia rápido demais; os ombros estavam tensos; a respiração curta vazava pelas narinas. Misha, do lado dele, mantinha a coluna absurdamente reta, as mãos cruzadas na frente do corpo como quem tenta parecer santa. Só que o dedinho mínimo da mão esquerda tremia — quase imperceptível, mas não pra Hanvasa. A diretora inclinou a cabeça de leve ao notar, e esse gesto simples fez Misha engolir seco, o pescoço movendo num espasmo pequeno.

— Vocês não vão pra direção. Pra direção vocês vão quando ainda existe alguma chance de eu acreditar que vocês têm solução. Mas não tem — ela cruzou os braços, o jaleco balançando com aquele ar de autoridade que ninguém ali ousaria peitar. — Vocês vão direto pro Setor de Correção Intensiva. 

Misha nem piscou. Não arregalou os olhos, não travou, não fez cena. Só inclinou a cabeça de leve, como quem acabou de ouvir algo irrelevante demais pra gastar reação. O Setor era onde mandavam alunos que realmente tinham passado do limite — e, honestamente, aquilo não significava nada pra ela. Não quando já sabia que não ficaria lá tempo suficiente pra importar.

— Uau — ela soltou, sem emoção alguma, a boca puxando num meio sorriso torto. — Dois dias? Que assustador.

Hanvasa virou o rosto devagar, o olhar afiado cravando nela.

— Se você abrir a boca de novo, vira três.

— Relaxa — Misha deu de ombros, tranquila demais.

O silêncio que caiu foi pesado. Não de medo — de afronta pura. Hanvasa não respondeu de imediato. Só respirou fundo, como quem já tinha visto esse tipo de aluno antes e sabia que castigo não era ameaça, era só protocolo.

— Você vai amar, Misha — disse ela por fim, fria. — Sem maquiagem, sem celular, sem frescura. Só você e o vazio. Talvez lá você aprenda alguma coisa.

Misha sorriu de verdade dessa vez. Um sorriso pequeno, quase entediado.

— Duvido.

Hanvasa não se deu ao trabalho de responder. Apenas virou o corpo e fixou o olhar no garoto ao lado, como se estivesse mudando de alvo num tabuleiro.

Delaryn levantou o rosto devagar quando percebeu que agora era ele o foco. A mandíbula se contraiu num estalo seco, o maxilar marcado por pura contenção, não de medo, mas de irritação. O peito subia e descia num ritmo controlado demais, como quem segura uma resposta não por respeito, mas por cálculo.

— E você… — disse ela, avançando um passo. O perfume cítrico dela chegou primeiro, limpo demais pro clima pesado que se arrastava ali.

Delaryn revirou os olhos. Foi automático. Um gesto pequeno, cansado, quase entediado. O erro não foi o movimento — foi a indiferença.

Hanvasa viu. E o rosto dela perdeu qualquer sombra de neutralidade.

— Dois dias no Setor de Correção Intensiva — decretou ela, sem elevar a voz. — E se você fizer esse olhar de novo, eu transformo em três sem gastar mais de um segundo pensando.

Delaryn soltou uma risada curta pelo nariz, mais sopro do que som, e abriu a boca sem pressa alguma.

— Hanvasa, vamos fingir que isso vai mudar alguma coisa? Porque a gente sabe que não vai — disse ele, a voz baixa, firme, sem desafio explícito, mas cheia daquela calma perigosa de quem não se sente encurralado.

— Chega — ela cortou, erguendo a mão num gesto preciso demais pra ser só autoridade. — Toda vez que você tenta se explicar, Delaryn, você me entrega mais um motivo para aumentar sua punição. E eu estou, sinceramente, no limite da minha paciência hoje. Então você vai. Calado. E vai aprender que suas explosões não são troféu, são sinal de fraqueza emocional. E eu não tolero fraqueza que machuca os outros.

Ele fechou a boca. Não por intimidação — por escolha. Os olhos dele não desviaram, não tremeram, não pediram nada. Só ficaram ali, firmes, quase desinteressados.

— Beleza — respondeu por fim, dando de ombros. — Dois dias, três… tanto faz. Não vai mudar quem eu sou quando eu sair de lá.

Hanvasa sustentou o olhar por um segundo a mais, tentando encontrar rachadura onde não havia. Não encontrou. Então virou de costas, já certa de que tinha feito o que o protocolo exigia.

Delaryn ficou parado, intacto, o castigo já reduzido mentalmente a um inconveniente logístico. Aprender uma lição nunca foi o problema.

Cumprir ordens… isso sim era opcional.

— Podem ir — finalizou ela, a voz mais baixa, mas não menos poderosa. — Devagar. Vão direto pro Setor. E aprendam que o mundo não gira ao redor do ego gigante de vocês dois — ela respirou fundo. Os ombros relaxaram um pouco. Depois, girou o corpo devagar, caminhando até a mesa com passos firmes. Parou atrás da cadeira, apoiou as mãos no encosto e inclinou ligeiramente, observando os dois adolescentes como se estivesse os enviado para a guerra.

Delaryn foi o primeiro a se mover. A cada passo, dava pra ver a raiva sacudindo o corpo dele, desde a mão fechada até o pescoço tenso. Misha saiu logo atrás, levantando o queixo, tentando recuperar a postura de patricinha de quem nunca erra. Quando a porta se fechou atrás deles, a sala soltou um suspiro coletivo, como se o ambiente tivesse prendido a respiração junto com Hanvasa.

A diretora passou as mãos no rosto devagar, os ombros finalmente caindo num gesto real, humano, cansado.

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