Volume 1 – Arco 1

Capítulo 29: A Verdade Começa Aqui

Nos dias que se seguiram, Hanvasa passou a viver em estado de alerta constante. Andava diferente desde aquela descoberta. Ela começou a vigiar Marla de canto, sempre com extremo cuidado, nunca encarando direto, nunca ficando tempo demais no mesmo espaço. Aprendeu rápido que só dava pra observar quando não sentia nenhum poder ativo vibrando no ar; quando sentia, se afastava na hora. Hanvasa suspeitava que Marla tivesse algum poder escondido que poderia sentir a presença dela. E quando sentia algo, recuava. Fingindo desinteresse. Fingindo normalidade. Ela ainda não sentia que era a hora de confrontar Marla — alguma coisa dizia que puxar esse fio cedo demais faria tudo desabar de um jeito irreversível. Então ela juntava pedaços: horários, ausências, microexpressões, inconsistências pequenas demais pra chamar atenção, mas grandes demais pra ignorar.

À noite, quando o internato finalmente calava, Hanvasa passou a ligar com frequência pra Briaaron. Chamadas curtas, cortadas, porque ele já tinha deixado claro que estava sendo vigiado. A base tinha olhos demais, ouvidos demais, e qualquer deslize podia custar muito caro. Ele contou, aos poucos, que estava juntando provas, planejando vazar os podres da base, as ordens sujas, as missões que nunca deveriam ter existido — e que isso provavelmente ia dar muito, muito errado pra ele, talvez irreversível. Hanvasa ouvia tudo com o estômago embrulhado, sabendo que, por enquanto, estava sozinha nessa suspeita sobre Marla. Mesmo assim, tudo que ela encontrava, cada detalhe mínimo, ela guardava e mandava pra ele do jeito mais seguro que conseguia. Cada detalhe podia importar depois.

Enquanto isso, nesses mesmos dias, Delal e Kevin acabaram ficando mais próximos do que qualquer um teria previsto. Desde que as aulas voltaram, cinco dias atrás, eles passaram a andar juntos quase o tempo todo, como se sempre tivesse sido assim. Mas juntos só quando dava, conversavam em cantos específicos, sempre atentos aos olhares em volta. Kevin tinha medo real de alguém denunciar, de alguém inventar coisa, de acharem que era “algo sério demais” entre os dois e isso virar problema — naquela escola, qualquer vínculo virava munição.

Mesmo assim, a proximidade cresceu. Kevin percebeu rápido demais o quanto Delal era bom — não só bom, mas preciso. Os movimentos dele em batalha eram precisos, inteligentes, limpos, quase elegantes, e Kevin já imaginava o estrago que ele ia fazer quando o campo de batalha atrás da escola fosse reaberto. A pontuação de Delal ia estourar. Eles trocaram números nesse intervalo e passaram a conversar de madrugada, mensagens longas, cuidadosas, sempre apagadas depois. Kevin até repensou a ideia de continuar indo pra casa todo fim de expediente. Dormir no internato parecia menos pesado quando Delal estava por perto. Mas ele ainda não teve coragem de mudar isso.

Ainda assim, tinha uma coisa que ele não conseguia abrir mão: os abraços antes de ir embora. Rápidos, escondidos, cheios de cuidado, sempre longe de olhos curiosos. Delal sempre segurava um segundo a mais do que o necessário, e Kevin ia embora com o peito fervendo. Nada explícito, nada que desse margem pra fofoca — só o suficiente pra lembrar que aquilo existia. Tudo muito secreto, não por vergonha, mas por medo. Porque ali dentro, gostar de alguém do jeito errado, ou ser visto do jeito errado, podia custar muito mais do que só um boato. Mesmo sabendo que ali todo mundo escondia alguma coisa. Alguns segredos eram perigosos. Outros… só eram necessários pra continuar respirando.

E o clima ficou tenso quando todo o mistério dos Bambis começou a se organizar. O grupo tinha fuçado mais fundo na treta da Rowena no último dia e nas últimas horas, e o que apareceu não era pequeno nem fácil de engolir. Descobriram coisas importantes. Trrira, inclusive, já tinha decidido que visitaria o túmulo no dia seguinte, escondida, sem avisar ninguém fora dali.

Ficou claro que a história da Rowena não era tão perdida quanto todos acreditavam. Não era um caso esquecido nem apagado pelo tempo; era um caso enterrado vivo. Na época, tinha viralizado. Explodido. Não pra todo mundo, claro, mas o suficiente. Teve jornal clandestino, vídeos nas redes socias, gente esculachando a cidade, o governo, sem medo, jogando o nome da cidade na lama enquanto todo mundo fazia de conta que não via. O problema não foi a falta de barulho. Foi o silêncio que veio depois. 

Tudo começou por causa de um grupo de artistas completamente obcecados por Rowena, fãs assumidos, quase um fanclub. Eles amavam o artesanato dela, as histórias, o jeito místico, estranho e intenso com que ela existia no mundo. Quando ela morreu, ficaram putos. A ponto de decidirem fazer homenagens públicas para mostrar quem ela realmente era e como destruíram ela.

Postaram vídeos antigos nas redes sociais, daqueles tremidos, com qualidade horrível, falando sobre o quanto aquela região da escola era importante pra ela. Aquela área não era só um espaço qualquer: era praticamente o quintal mágico de Rowena. Terreno da família, herdado, carregado de história. Ela protegia aquele lugar como se fosse o próprio coração.

Quando decidiram construir as escolas invisíveis ali, não houve conversa. Empurraram Rowena pra fora. Expulsaram. Trataram como louca, como uma bruxa atrapalhando o progresso. Chutaram ela do próprio território, tudo porque governadores adoram fingir que poder dá direito de pisar nos outros.

E o mais cruel é que Rowena era muito talentosa. Fazia trabalhos lindos de verdade. Esculturas, bordados, peças únicas. Cantava. Dançava — quando ainda conseguia andar. Era uma mulher cheia de vida, cheia de arte, cheia de coisas pra entregar ao mundo. E arrancaram isso dela sem mais nem menos. 

A vida definitivamente não foi gentil com ela.

Depois veio a morte. E agora, tudo aquilo estava acontecendo.

Seria ingenuidade acreditar em coincidência. O destino não brincava com dados quando permitiu que a magia do tempo profanasse a escola, nem quando silenciou o paradeiro daqueles dois jovens. A maldição que agora se manifestava era apenas a última peça de um tabuleiro que já estava montado muito antes de qualquer um deles perceber 

A sensação era clara: eles estavam perto.

Pra completar o quebra-cabeça, todo mundo daquele grupo de artistas que lutou por Rowena tinha saído da cidade. Um por um. Sumiram como poeira ao vento, levando junto as verdades, os registros e as histórias que Michilli nunca quis ouvir. Os bambis ainda tentaram cavar mais fundo — chegaram a mandar mensagem direto pra conta onde os vídeos tinham sido postados, um perfil antigo chamado "@TheHiddenCircle." Nada. Nenhuma resposta. A conta estava morta a dezoito anos, sem novas postagens, sem sinais de vida. No fim, não sobrou ninguém pra contar tudo por inteiro. Só rastros, silêncio... e um monte de perguntas que ninguém fez questão de responder. 

Então quem restou para lidar com essa maldição bizarra? Eles. Os Bambis.

Eles e esse puzzle demoníaco que insistia em cuspir peças incompletas para todos os lados. Mesmo assim, algo se mexia por baixo do medo. Uma sensação estranha, incômoda, mas firme, de que eles iam conseguir descobrir quem estava mexendo os pauzinhos.

A verdade parecia estar chegando. E vinha na direção deles correndo, sem coleira, como um pitbull prestes a morder.


Sábado do dia 23 de março, já pela tarde, na Sala de Treinamento, que parecia um formigueiro prestes a explodir, com o barulho de socos batendo nos alvos, respirações pesadas, passos correndo no tatame e o instrutor Kevin gritando correções que ninguém realmente queria ouvir. O ar estava quente, carregado de suor e adrenalina, e os alunos que treinavam no campo externo podiam ser vistos pela parede que faltava — uma massa de corpos se mexendo, lutando, errando, tentando de novo. Bem no canto, Misha assistia às simulações com aquele olhar de desprezo entediado, mexendo na própria unha como se não estivesse cercada de gente tentando sobreviver ao próprio ego.

As portas pesadas escancararam com tanta força que a vibração correu pelo chão. Delaryn entrou como uma tempestade de ódio, o maxilar travado, a respiração curta, os olhos duros e perigosos, tipo animal acuado que decidiu morder antes de pensar. Quem estava no caminho dele praticamente pulou para o lado — ninguém queria ser o infeliz a levar uma ombrada de Delaryn naquele estado.

Ele atravessou a sala como um míssil. Misha até levantou a sobrancelha, surpresa por um segundo. Antes que ela percebesse ele se aproximando, Delaryn a agarrou pelo pescoço com uma brutalidade tão crua que arrancou o ar da sala inteira. O corpo dela bateu na parede de cimento queimado com um estrondo seco, fazendo vários alunos se virarem imediatamente. Um silêncio estranho tomou o ambiente; o som das atividades fora da sala também parecia descer de volume, como se até o vento tivesse percebido que a merda tinha começado.

O som que escapou de Misha não foi um grito — foi um gemido curto, rouco, faltando ar. O corpo dela se tensionou inteiro, dedos abrindo e fechando no ar, tentando agarrar algo que não existia. Os pés bateram no chão na tentativa instintiva de buscar apoio, raspando, deslizando, falhando. As pontas das sapatilhas mal alcançavam o piso, e cada vez que ela tentava firmar-se, as pernas tremiam mais, como se o próprio corpo estivesse entrando em pânico.

O braço de Delaryn tremia, não de fraqueza, mas de raiva pura. Ele aproximou o rosto do dela, tão perto que ela sentiu o calor da respiração dele misturado ao desespero que subia pelo próprio peito. A mandíbula dele estava tensionada num nível quase assustador.

— Você quer acabar com minha vida, porra? — a voz dele saiu baixa e venenosa, pior do que um grito. — Você é doente. Psicopata. Matou o Veyron, caralho.

Misha só conseguiu soltar outro som engasgado, o corpo pendendo contra a parede enquanto os dedos dela tentavam puxar a mão dele, sem força, sem ar, sem controle. A sala inteira estava silenciosa, como se todos ali tivessem parado de respirar junto com ela, presos na tensão que parecia prestes a estourar.

Delaryn encostou o antebraço direito na clavícula dela, prensando Misha contra a parede como se quisesse esmagar cada mentira, e todos ali pareceram prender a respiração enquanto a garota desabava. O impacto arrancou dela um soluço agudo, o tipo de som que explode no fundo da garganta quando o corpo inteiro entra em choque. O rosto dela empalideceu tão rápido que parecia que o sangue tinha fugido, e os olhos arregalados brilharam de um jeito molhado, quase vidrado, como se a qualquer segundo ela fosse desmaiar ali mesmo. Os dedos dela se fecharam na própria roupa, agarrando o tecido perto da cintura como quem tenta um apoio que não existe.

— Delar... amigo... Eu... eu não sei do que você tá falando... — ela conseguiu balbuciar, a voz saindo fina, fragmentada, quebrada em nervosismo real. — Delaryn... por favor... Eu não fiz nada, eu juro... juro por tudo.

Ele apertou o rosto dela com a mão esquerda com tanta força que dava pra ouvir o som da respiração dela falhando, tropeçando no próprio ar. O polegar dele afundou na bochecha dela, forçando o olhar dela a prendê-lo, obrigando Misha a encarar aquele fogo que queimava nos olhos dele.

— Para de bancar a santa — rosnou, cada palavra cuspida com violência. — Eu sei o que você fez no banheiro, cacete. Eu vi você entrando com ele. Agora os pais do Veyron acham que foi a minha família.

O corpo dela bateu na parede quando ele a sacudiu, um impacto seco que fez as pernas dela subiram num reflexo desesperado — uma tentativa fraca, quase inútil, de acertar algum chute que afastasse o peso dele. Os lábios se abrindo num gemido abafado.

Delaryn nem se mexeu. Nem precisou. A mão dele no rosto dela parecia uma prensa, firme, absurda, esmagando qualquer resistência.

— Mas foi você. Misha — ele aproximou o rosto, o olhar afiado, venenoso. — Sua vadia. Você me fodeu, sua puta.

Misha soltou uma risada curta, amarga, quase um estalo de veneno saindo da garganta dela. A expressão inteira dela se reorganizou — o medo, a fragilidade, o tremor nos ombros... tudo sumiu como se alguém tivesse apagado um interruptor. No lugar, ficou algo muito mais escuro. Os lábios dela se curvaram num sorriso torto, gelado, e o olhar endureceu numa intensidade que parecia cortar o ar.

— Então era Veyron o nome dele? — perguntou, a voz baixa, arrastada, carregada de um desprezo tão puro que dava arrepios. O timbre dela deixou de ser trêmulo; virou uma lâmina. Foi nesse instante que os olhos de Misha acenderam num amarelo intenso, vivo, como dois faróis. Era poder puro. O poder dela, real, ativado sem esforço, soltando uma aura de energia que parecia empurrar o ar ao redor. O brilho mergulhou o rosto de Delaryn que o fez congelar no lugar, o coração tropeçando dentro do peito ao perceber que aquilo não era só drama. Misha estava mostrando exatamente o que era capaz.

— Ele mereceu — completou ela, simples, como quem comenta sobre o tempo.

Delaryn recuou sem perceber que tinha recuado. Um passo, depois outro. Tirou as mãos dela com um movimento brusco, quase violento. Misha caiu contra a parede com leveza, ajeitando o próprio corpo como se nada tivesse acontecido. O choque estampado no rosto de Delaryn era tão real quanto o ódio que o fazia respirar fundo, os olhos arregalados e a mandíbula travada, incapaz de acreditar no que tinha ouvido — ou no que tinha visto brilhar nos olhos dela.

E então...

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