Volume 1 – Arco 1

Capítulo 29: Se Caírem, Arrastam Todo Mundo

O clima ficou tenso quando tudo aquilo começou a se organizar. O grupo tinha fuçado mais fundo na treta da Rowena nas últimas horas, e o que apareceu não era pequeno nem fácil de engolir. Descobriram coisas importantes, recentes demais para ignorar. Trrira, inclusive, já tinha decidido que visitaria o túmulo no dia seguinte, escondida, sem avisar ninguém fora dali.

Ficou claro que a história da Rowena não era tão perdida quanto todos acreditavam. Não era um caso esquecido, abafado ou apagado à força pelo tempo. Pelo contrário: tinha viralizado na época. Viralizado de verdade. Jornal clandestino, vídeos nas redes socias, gente esculachando a cidade sem filtro algum.

Tudo começou por causa de um grupo de artistas completamente obcecados por Rowena, fãs assumidos, quase um fanclub. Eles amavam o artesanato dela, as histórias, o jeito místico, estranho e intenso com que ela existia no mundo. Quando ela morreu, ficaram putos. A ponto de decidirem fazer homenagens públicas para mostrar quem ela realmente era e como destruíram ela.

Postaram vídeos antigos nas redes sociais, daqueles tremidos, com qualidade horrível, falando sobre o quanto aquela região da escola era importante pra ela. Aquela área não era só um espaço qualquer: era praticamente o quintal mágico de Rowena. Terreno da família, herdado, carregado de história. Ela protegia aquele lugar como se fosse o próprio coração.

Quando decidiram construir as escolas invisíveis ali, não houve conversa. Empurraram Rowena pra fora. Expulsaram. Trataram como louca, como uma bruxa atrapalhando o progresso. Chutaram ela do próprio território, tudo porque governadores adoram fingir que poder dá direito de pisar nos outros.

E o mais cruel é que Rowena era muito talentosa. Fazia trabalhos lindos de verdade. Esculturas, bordados, peças únicas. Cantava. Dançava — quando ainda conseguia andar. Era uma mulher cheia de vida, cheia de arte, cheia de coisas pra entregar ao mundo. E arrancaram isso dela sem cerimônia.

A vida definitivamente não foi gentil com ela.

Depois veio a morte. E agora, tudo aquilo estava acontecendo.

Coincidência? Depois de alguém ter usado magia do tempo na escola? Depois de dois jovens terem sumido na cidade? Depois de dois jovens terem sido amaldiçoados?

A sensação era clara: eles estavam perto.

Pra completar o quebra-cabeça, todo mundo daquele grupo de artistas que lutou por Rowena tinha saído da cidade. Sumiram como poeira, levando junto as verdades e as histórias daquele lugar. Não sobrou ninguém para contar tudo por inteiro.

Então quem restou para lidar com aquela maldição bizarra?

Eles. Os Bambis.

Eles e aquele puzzle demoníaco que insistia em cuspir peças incompletas para todos os lados.

Mesmo assim, algo se mexia por baixo do medo. Uma sensação estranha, incômoda, mas firme, de que eles iam conseguir descobrir quem estava mexendo os pauzinhos.

A verdade parecia estar chegando.

E vinha na direção deles correndo, sem coleira, como um pitbull prestes a morder.


As luzes fracas do dormitório da Firefy tremulavam como se estivessem tentando acompanhar a respiração dela, que vinha curta e quente, presa no peito desde o instante em que Ártemis entrou. As duas ficaram em silêncio por uns segundos, sentadas lado a lado na cama estreita, o colchão rangendo sob o peso delas e o quarto inteiro cheirando a incenso misturado com o perfume doce que sempre grudava nas asas da Firefy. Enquanto Glomme observava, encostado na porta com o corpo meio trêmulo. O rosto pálido, os olhos arregalados, e o peito subia e descia rápido demais, ele sabia que a conversa era séria.

Ártemis esfregou o rosto com as duas mãos, os olhos cansados de quem já carregou peso demais para alguém da idade dela, e quando finalmente abriu a boca, a voz saiu baixa, tensa e tremida como se estivesse confessando algo proibido.

— Firefy, a Marry falou umas coisas comigo horríveis uns dias atrás — começou ela, com o olhar preso nas próprias pernas, o joelho balançando inquieto. — Ela disse que queria morrer, Firefy. Falou que não aguenta mais viver com essa sombra em cima dela, que aquele demônio dos sonhos tá matando ela. E eu acho que o Bulmer provavelmente tá sentindo a mesma coisa. Ela falou como se a morte fosse descanso... como se morrer fosse a única saída.

Firefy fechou os olhos devagar, apertou as mãos entre as próprias pernas, o rosto se contorcendo num sofrimento tão íntimo que chegou a doer na garganta da própria Ártemis. Ela passou os dedos pelas asas, que tremeram como se estivessem frias, e respirou fundo antes de encarar Ártemis, a voz trêmula, mas não surpresa.

— Eu já sabia — disse ela, e o jeito como falou aquilo fez o ar do quarto ficar mais pesado. — Quando eu conversei com ele, eu vi. Eu senti. Sei que se eu não fizer nada, aquela clínica idiota vai matar ele. E eu acho que já estão matando... Eles o dopam... Isolam ele... e fingem que estão tratando, mas estão destruindo tudo que ainda existe nele. E... Ártemis, eu amo tanto ele. Eu não posso ver ele acabar daquele jeito. Não posso.

Ártemis puxou as pernas para cima, sentando de um jeito mais firme, com a mão segurando o braço da Firefy, o polegar deslizando ali como um gesto de força, como se estivesse assinando um pacto silencioso.

— A gente ama, Firefy — disse ela, com os olhos queimando de sinceridade bruta. — Ninguém aqui quer que ele morra. Ninguém quer que ele seja ceifado por um lugar que trata gente como experimento. Você tem que impedir aquela clínica, Firefy. Ele não vai sobreviver lá dentro. Ele vai acabar se matando, e aí vai ser tarde demais. Então... tira ele de lá, esconde ele, mantenha ele vivo do jeito que for possível... Por favor...

O silêncio que veio depois parecia estilhaçar o ar. Firefy arregalou os olhos, o choque batendo forte como se um balde de água gelada tivesse caído sobre a pele quente dela. As asas se abriram meio centímetro, nervosas, um reflexo de pânico antigo. Ela encarou Ártemis como quem encara um precipício, a respiração completamente perdida, as mãos trêmulas na beira da cama.

— Ártemis... Você tá pedindo pra eu cometer um crime. Isso é um crime absurdo — disse ela, a voz quase falhando. — Isso é tipo sequestro, Ártemis... Eu posso ser presa, eu posso ser expulsa, eu posso ser internada no lugar dele. Se eu fizer isso, acabou pra mim. Eu vou ser levada, vou ser fichada, vou ser marcada, você sabe muito bem como esse sistema funciona. Eu não vou ter volta. Isso destrói a minha vida. Eu não sei se consigo fazer uma coisa desse tamanho.

Mas então ela lembrou — "E eu não vou deixar. Vou fazer tudo por ele. Tudo. Mentir, implorar, quebrar regra, comprar briga com quem for. Nem que eu vire o alvo do demônio. Se alguém tiver que cair, que seja eu. Ele, não."  — O olhar dela mudou devagar, quando essa memória atravessou sua mente, o corpo dela inclinou um pouco para frente, as asas se dobrando com um tremor determinado.

— Eu falei uma vez que faria qualquer coisa por ele — continuou Firefy, a voz crescendo de coragem e desespero ao mesmo tempo. — Falei que faria qualquer coisa por ele, que não importava o que acontecesse comigo. Se eu fosse trancada, se me chamassem de louca, se me colocassem numa clínica também... não importa. O que importa é ele não morrer. Então, se eu fizer isso, você não pode parar a investigação, Ártemis. Você tem que achar quem tá amaldiçoando as pessoas e acabar com essa merda. Alguém quer nossos amigos. Alguém tá brincando com o Bulmer e com a Marry. Você vai ter que ir até o fim, sem mim.

Ártemis não disse nada por alguns segundos. Só olhou para ela, com aquele olhar carregado que ela só usa quando realmente entende o tamanho da dor do outro. E então assentiu devagar, firme, como se estivesse assinando um pacto silencioso entre as duas. As duas se abraçaram, um abraço apertado, desesperado, cheio daquele medo que só existe quando você percebe que o próximo passo pode mudar tudo — e destruir tudo também.

Enquanto elas se seguravam, tentando respirar dentro daquele quarto abafado, Glomme observava as duas com uma expressão tão vulnerável que parecia que o coração dele estava aberto no peito. Ele viu o abraço, viu o desespero, viu a decisão, e algo dentro dele mudou tão rápido que até o ar ao redor dele pareceu sacudir.

Ele percebeu, de forma cruel e sincera, que todos estavam fazendo alguma coisa.
Firefy achou jornais antigos e abriu a primeira trilha real.
Ártemis conectou a Marry ao Gumer e puxou a investigação para o centro da escola.
Trrira estava pronta para violar um cemitério se fosse necessário.

E ele?
Ele estava só assistindo.
Parado.
Pequeno.
Inútil.

O rosto dele ficou vermelho, mas não de vergonha — de decisão. Ele cerrou os punhos, as orelhas tremendo com o impulso repentino. E então correu pelo corredor, os pés quase tropeçando de tão rápidos, decidido a ir direto para a biblioteca. 

Ele ia entrar nos arquivos antigos.
Ele ia ler cada relato esquecido, cada caso, cada aviso ignorado.
Ele ia encontrar histórias, padrões, pistas, qualquer coisa que ajudasse o grupo.

Porque, naquele momento, Glomme finalmente entendeu que se ele não fizesse a parte dele, alguém ia morrer, e a Firefy iria se perder.
E ele se recusava a ser o personagem que só observa a tragédia acontecer.

Ele não deixaria os outros lutarem sozinhos. Ele também faria sua parte, nem que fosse até seu limite quebrar.
A porta da biblioteca se aproximava.
Uma nova linha do destino estava nascendo.


No mesmo instante, na Sala de Treinamento, que parecia um formigueiro prestes a explodir, com o barulho de socos batendo nos alvos, respirações pesadas, passos correndo no tatame e o instrutor Kevin gritando correções que ninguém realmente queria ouvir. O ar estava quente, carregado de suor e adrenalina, e os alunos que treinavam no campo externo podiam ser vistos pela parede que faltava — uma massa de corpos se mexendo, lutando, errando, tentando de novo. Bem no canto, Misha assistia às simulações com aquele olhar de desprezo entediado, mexendo na própria unha como se não estivesse cercada de gente tentando sobreviver ao próprio ego.

As portas pesadas escancararam com tanta força que a vibração correu pelo chão. Delaryn entrou como uma tempestade de ódio, o maxilar travado, a respiração curta, os olhos duros e perigosos, tipo animal acuado que decidiu morder antes de pensar. Quem estava no caminho dele praticamente pulou para o lado — ninguém queria ser o infeliz a levar uma ombrada de Delaryn naquele estado.

Ele atravessou a sala como um míssil. Misha até levantou a sobrancelha, surpresa por um segundo. Antes que ela percebesse ele se aproximando, Delaryn a agarrou pelo pescoço com uma brutalidade tão crua que arrancou o ar da sala inteira. O corpo dela bateu na parede de cimento queimado com um estrondo seco, fazendo vários alunos se virarem imediatamente. Um silêncio estranho tomou o ambiente; o som das atividades fora da sala também parecia descer de volume, como se até o vento tivesse percebido que a merda tinha começado.

O som que escapou de Misha não foi um grito — foi um gemido curto, rouco, faltando ar. O corpo dela se tensionou inteiro, dedos abrindo e fechando no ar, tentando agarrar algo que não existia. Os pés bateram no chão na tentativa instintiva de buscar apoio, raspando, deslizando, falhando. As pontas das sapatilhas mal alcançavam o piso, e cada vez que ela tentava firmar-se, as pernas tremiam mais, como se o próprio corpo estivesse entrando em pânico.

O braço de Delaryn tremia, não de fraqueza, mas de raiva pura. Ele aproximou o rosto do dela, tão perto que ela sentiu o calor da respiração dele misturado ao desespero que subia pelo próprio peito. A mandíbula dele estava tensionada num nível quase assustador.

— Você quer acabar com minha vida, porra? — a voz dele saiu baixa e venenosa, pior do que um grito. — Você é doente. Psicopata. Matou o Veyron, caralho.

Misha só conseguiu soltar outro som engasgado, o corpo pendendo contra a parede enquanto os dedos dela tentavam puxar a mão dele, sem força, sem ar, sem controle. A sala inteira estava silenciosa, como se todos ali tivessem parado de respirar junto com ela, presos na tensão que parecia prestes a estourar.

Delaryn encostou o antebraço direito na clavícula dela, prensando Misha contra a parede como se quisesse esmagar cada mentira, e todos ali pareceram prender a respiração enquanto a garota desabava. O impacto arrancou dela um soluço agudo, o tipo de som que explode no fundo da garganta quando o corpo inteiro entra em choque. O rosto dela empalideceu tão rápido que parecia que o sangue tinha fugido, e os olhos arregalados brilharam de um jeito molhado, quase vidrado, como se a qualquer segundo ela fosse desmaiar ali mesmo. Os dedos dela se fecharam na própria roupa, agarrando o tecido perto da cintura como quem tenta um apoio que não existe.

— Delar... amigo... Eu... eu não sei do que você tá falando... — ela conseguiu balbuciar, a voz saindo fina, fragmentada, quebrada em nervosismo real. — Delaryn... por favor... Eu não fiz nada, eu juro... juro por tudo.

Ele apertou o rosto dela com a mão esquerda com tanta força que dava pra ouvir o som da respiração dela falhando, tropeçando no próprio ar. O polegar dele afundou na bochecha dela, forçando o olhar dela a prendê-lo, obrigando Misha a encarar aquele fogo que queimava nos olhos dele.

— Para de bancar a santa — rosnou, cada palavra cuspida com violência. — Eu sei o que você fez no banheiro, cacete. Eu vi você entrando com ele. Agora os pais do Veyron acham que foi a minha família.

O corpo dela bateu na parede quando ele a sacudiu, um impacto seco que fez as pernas dela subiram num reflexo desesperado — uma tentativa fraca, quase inútil, de acertar algum chute que afastasse o peso dele. Os lábios se abrindo num gemido abafado.

Delaryn nem se mexeu. Nem precisou. A mão dele no rosto dela parecia uma prensa, firme, absurda, esmagando qualquer resistência.

— Mas foi você. Misha — ele aproximou o rosto, o olhar afiado, venenoso. — Sua vadia. Você me fodeu, sua puta.

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