Volume 1 – Arco 1

Capítulo 28: A Primeira Pista

Quando ela abriu a porta do dormitório, encontrou Ártemis e Glomme sentados no chão, cercados por travesseiros e luz fraca de abajur, parecendo dois detetives improvisados esperando provas de um crime sobrenatural. Firefy entrou devagar, colocou o jornal no chão, e os três se aproximaram, abrindo as folhas como se fossem pistas de um assassinato esquecido. As matérias falavam de casos isolados dos anos 90, acidentes misteriosos, alunos desaparecidos, e manchetes sobre uma mulher chamada Rowena que tinha enlouquecido tentando impedir a construção da escola. Quanto mais eles liam, mais pesado o ar ficava. A foto do presidente que financiou o internato contrastava brutalmente com a imagem tremida de Rowena segurando um martelo pequeno, sendo arrastada por guardas enquanto gritava que todos iriam morrer se construíssem aquele lugar.


— Cara, isso é de noventa e sete, olha isso aqui — disse Ártemis, inclinando o jornal para os dois, o dedo batendo na foto antiga de um prédio em construção. —  Essa mulher foi presa por tentar derrubar a escola com um martelinho e ainda avisou que ninguém devia estudar aqui porque todo mundo ia morrer, foi presa, solta, chamou a imprensa e morreu dias depois. Isso não é coincidência, porra nenhuma.

Glomme se aproximou, apoiando o queixo no joelho e lendo junto, os olhos tremendo de preocupação. Ele não falava muito, mas o corpo inteiro dele denunciava o medo — os dedos apertados um contra o outro, o pé balançando de leve, o olhar indo e voltando entre as linhas como se procurasse algo que não queria encontrar.

— Mas... assassinatos? — perguntou ele, a voz baixa, hesitante, quase infantil. — Esses jornais falam de gente sumindo, de corpos encontrados nas praças, de alunos que desapareceram sem deixar magia pra trás. Por que ninguém nunca comentou isso com a gente?

Firefy mexia as asas devagar, como se cada batida fosse um pensamento que ela estava tentando organizar antes de abrir a boca. O brilho alaranjado nelas tremia levemente, denunciando mais do que ela deixaria aparecer no rosto.

— Porque... ninguém quer admitir nada, Glom — disse ela, respirando fundo antes de continuar. — Essa escola vive empurrando pra gente essa história de que Hiden é o paraíso, o berço da magia, o continente perfeito que nunca erra, aquela mesma ladainha que aparece nos murais, nos livros, nas palestras. Só que quanto mais eu cresço, mais eu percebo que é tudo mentira.

Ela ajeitou as asas, cruzou os braços e inclinou a cabeça como quem tenta escolher as palavras com cuidado.

— Eu cresci ouvindo essas histórias. Que Hiden inventou tudo, que os feiticeiros daqui salvaram o mundo, que Alfheim e os outros continentes só existe porque Hiden permitiu. A escola repete isso como se fosse verdade absoluta, como se só existisse um lado da história. Mas quando a gente começa a olhar fora da bolha... quando conhece gente de outros lugares... tudo começa a se encaixar. Tem muita coisa que eles escondem. 

O tom dela ficou mais sério, quase amargo.

— Esses casos que aparecem no jornal? Essas mortes, esses desaparecimentos antigos? Eles existem há séculos. Séculos, Glomme. Só que nunca passaram nas TVs de Hiden, nunca viralizaram. Porque Hiden tem uma reputação perfeita pra manter. Eles não deixam vazar nada que faça o continente parecer... menos humano. Com falhas. Ou perigoso.

Ela deu um sorriso triste, pequeno.

— Eles preferem fazer o mundo acreditar que tudo é limpo, mágico e organizado. Mas a verdade é que eles encobriram essas mortes, porque admitir que tem algo amaldiçoado aqui seria assumir que o governo construiu uma escola em cima de um lugar amaldiçoado. E o governo não pode admitir erro. Erro vira manchete. Manchete vira caos.

Firefy bateu as asas uma vez, curta, irritada.

— E essa coisa da "velha louca"? — ela continuou, revirando os olhos. — Eles chamaram ela de maluca pra calar a mulher. Ela avisou que não era pra colocar ninguém aqui dentro. Insistiu. Gritou. Tentou impedir. Aí prenderam ela, soltaram quando ninguém tava olhando, e deixaram a mulher morrer esquecida. Problema resolvido. Assunto enterrado. Literalmente.

Ela olhou para Glomme com um brilho mais suave, mas cheio de verdade.

— O que tá acontecendo agora não é novo. Só é a primeira vez que a gente tá vivo pra ver. E a primeira vez que eles não conseguiram apagar rápido o suficiente.

Glomme leu cada linha com a respiração curta, o peito subindo rápido demais, os olhos arregalados no reflexo das letras escuras que narravam histórias de morte, surtos e avisos ignorados. Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa, mas firme o bastante para quebrar o silêncio preso no ar.

— Eu... eu só não entendo como isso voltou agora — murmurou ele, apontando para uma linha com o dedo trêmulo. — A escola sempre foi tranquila, por anos, sem nada bizarro, sem ninguém explodindo ou desmaiando ou sumindo de repente. Então por que justo agora isso aconteceu? Se é uma maldição, por que ela dormiu tanto tempo? Eu não consigo pensar em nenhum motivo que faça sentido para isso começar só esse ano.

Ártemis ergueu o rosto devagar, com aquele olhar carregado de certeza irritante que sempre aparece quando uma teoria começa a se encaixar nos ossos dela. Os dedos dela tamborilaram no jornal, e o corpo inclinou para frente com a convicção de quem está pronta para brigar com o mundo inteiro.

— Porque alguém achou a maldição, gente — disse ela, a voz baixa e pesada, quase vibrando no quarto pequeno. — Não foi um acidente, não foi destino. Alguém tirou essa porra da gaveta do inferno e jogou em cima dos alunos dessa escola. Alguém acordou o que tava dormindo.

Ela parou. Silêncio seco. Aquela pausa calculada de mesa de RPG, quando todo mundo já sabe que vem bomba. Ela bate as mãos com força no chão, ecoando.

— E é a Faelynn...

O nome caiu pesado, sem pressa.

— É ela. Porque foi ela que reconstruiu as rachaduras que o Bulmer fez. Igualzinho às crateras no começo do ano. Mesma vibe, mesmo milagre conveniente demais. E ela é estranha pra caralho, sempre foi. Aparece quando tudo dá merda, resolve coisa impossível, nunca explica nada, nunca parece surpresa. Isso não é talento, isso é muito suspeito.

Ela ergueu o olhar, sério, afiado.

Firefy cruzou os braços com força, pensativa, as asas tremendo por baixo do casaco de nervoso puro, enquanto Glomme reagia como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos pés dele. Os ombros dele encolheram, as orelhas baixaram num reflexo quase infantil, e ele engoliu em seco. O silêncio ficou pesado, desconfortável, até denso demais pra continuar intacto.

— A Ártemis pode tá certa — disse Firefy, quebrando o silêncio, a voz firme apesar do tremor nas asas, o olhar erguido agora, decidido. — Faz sentido. Muito mais sentido do que eu gostaria. Ela acertou com a Marry. E se for a Faelynn... então tentar não é loucura, é sobrevivência.

Glomme desviou o olhar por um segundo, respirou fundo, e assentiu devagar, como quem odeia concordar, mas odeia ainda mais a ideia de ignorar o óbvio. O clima no quarto mudou ali — não virou esperança, longe disso — virou aquela certeza incômoda de que o próximo passo ia ser tenso, mas não dava mais pra fugir.

Até serem cortados por uma voz que veio de cima, sem aviso, atravessando o quarto pequeno como quem entra numa conversa alheia de propósito.

— A Faelynn que tá possuindo os alunos? — disse a voz, leve demais pra situação, quase divertida, como se aquilo tudo fosse só um comentário jogado no meio do caos.

Os três congelaram ao mesmo tempo, o tipo de congelar automático, e só então levantaram o olhar. Narapha estava largada na parte de cima do beliche, o queixo apoiado nas mãos, balançando levemente os pés, com um sorrisinho tranquilo de quem claramente estava ouvindo tudo desde o começo e só resolveu se manifestar agora.

— Narapha?! — exclamou Ártemis, levantando tão rápido que o colchão amassou sob seus pés. — Desde quando você tá ouvindo a gente?!

— Desde sempre, né? — respondeu Narapha, rolando para o lado até sentar com uma elegância irritante. — Essa é minha cama. Vocês esqueceram que eu durmo aqui?

Narapha desceu do beliche com um salto ágil, pousando com leveza no chão polido, e cruzou os braços, inclinando o corpo para frente com um olhar firme.

— E pra ser sincera... — disse ela, dando um pequeno sorriso de canto. — Essa da Faelynn é nova. Mas eu também sinto que tem alguma coisa errada rolando aqui. Desde o começo do ano eu sinto que tem algo estranho com essa escola. Sei lá. É tipo... um desconforto constante, como se algo tivesse olhos na nossa nuca.

Ela pulou da beliche e pegou o jornal da mão de Ártemis, leu alguns parágrafos rápidos e sua expressão mudou lentamente, os olhos estreitando enquanto a testa franzia de um jeito nada brincalhão — nenhum dos três entendia o motivo dela estar ali, e a reação dos Bambis foi pura estranheza, tipo quando alguém entra numa conversa que não pertencia a ela e age como se fosse parte do grupo. Cada um, do seu jeito, deixou isso bem claro no silêncio incômodo que seguiu — quando Narapha ergueu o rosto, a voz já estava mais séria, firme e carregada de uma estranha certeza.

— Mas enfim... Olhem só — disse ela, com a postura rígida. — Se essa tal Rowena morava aqui antes da escola, e ela tentou impedir a construção dizendo que todos iam morrer, então ela sabia de alguma coisa que ninguém levou a sério. E ninguém escuta os "loucos" até o mundo começar a rachar no meio. Isso aqui não é coincidência, é padrão. Tem gente sumindo, tem gente sendo possuída, tem energia estranha saindo das paredes, e vocês sabem disso. E pelo jeito a Faelynn está por trás de tudo isso, e essa garota não tá brincando. Se querem respostas, comecem pela pessoa que tentou avisar o mundo antes de morrer. É, sério, não vai adiantar bancar o detetive e investigar cada aluno que vocês acharem serem suspeitos, são dois mil adolescentes nesse muquifo. Vocês iam morrer de tédio antes de chegar no culpado.

Ela levantou o olhar, fitando cada um com intensidade, a voz mais grave do que o normal.

— Vão até o caixão dela. Vejam se ela deixou alguma mensagem, carta, símbolo, qualquer aviso. Se ela sabia que tinha algo aqui, pode ter tentado avisar antes de morrer, se forem confrontar o inimigo primeiro, vão perder. Eu não vou poder ir com vocês. Primeiro que eu tenho minha vida, compromissos, um cronograma inteiro de ser maravilhosa. Segundo porque, com todo respeito, vocês são Bambis, e ser vista passeando com vocês é basicamente assinar contrato de bullying vitalício.

Narapha riu, aquele riso meio alto demais, meio provocador. Ela ergueu as sobrancelhas, teatral.

— E terceiro, talvez o mais importante, se a Misha me vê andando com vocês pela cidade, ela me mata antes de vocês encontrarem qualquer pista. Literalmente. Eu vi aquela garota espancar  três garotos com as próprias mãos.

Ela bateu palminhas baixas, como quem deseja boa viagem pra um navio prestes a afundar. 

— Então boa sorte, meus amores. Vão lá, abram o caixão, encontrem um símbolo demoníaco, sei lá. Me mandem mensagem se acharem alguma coisa. Eu mando um emoji triste em homenagem. E se encontrarem um fantasma, manda beijo. De verdade. Espero que a parte nojenta não inclua nenhum espírito tentando puxar o pé de vocês.

Glomme estreitou os olhos pra ela, o rosto franzido num desdém quase infantil. Narapha rapidamente se ajeitou e se retirou do quarto com aquele andar leve demais pra quem tava indo embora rapidamente. A porta fechou atrás dela... e nenhum deles notou que uma das páginas do jornal — justamente a que falava da Rowena — tinha sumido junto, dobrada e escondida dentro da bermuda dela.

— Mas... a gente precisa mesmo mexer com caixão? — perguntou ele, apertando os dedos uns nos outros. — Isso é muito estranho, Ártemis. Não faz sentido abrir o túmulo de alguém só porque um jornal velho falou que uma senhora acreditava em coisa ruim. Parece que a gente tá passando de curiosidade para crime, e eu não sei não.

— Olha, Glom. Estranho é, claro — disse Firefy após respirar fundo, o tom hesitante mas firme. — Mas se a Rowena sabia o que tava vindo e tentou impedir a escola de existir, talvez ela tenha deixado alguma coisa para trás. Pode ser a única pista real que temos, porque o que aconteceu com o Bulmer e com a Marry... não tá acontecendo sozinho. Tem algo conectando tudo.

Ártemis suspirou fundo, passou a mão no cabelo e ergueu o rosto com a decisão que só aparece quando ela está prestes a fazer algo completamente irresponsável.

— A Trrira — disse ela, com firmeza. — Ela tá lá fora. Ela consegue ir lá antes da gente, sem chamar atenção, e olhar o caixão. Ela vai entender o que a gente tá procurando, e vai saber o que fazer. Vou ligar pra ela agora mesmo.

Os três assentiram devagar, o peso da decisão caindo sobre eles como uma sombra. 

E ali, no chão apertado de um quarto abafado, entre jornais velhos, respirações tensas e teorias perigosas, o grupo decidiu o próximo passo.

A maldição não tinha voltado por acidente, vocês sabem disso.

Alguém despertou ela.

E Rowena provavelmente tentou avisar antes de morrer.

E agora, a busca pela verdade finalmente tinha começado.

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