Volume 1 – Arco 1
Capítulo 27: Fio Solto
Aquele dia continuou estranho pra caralho, mas o pior nem foi o dia em si — foi o depois. O silêncio. Aquele intervalo podre entre uma merda e outra, quando não tem distração nenhuma e sobra só você e a sua cabeça te mastigando por dentro. Ártemis passou dois dias inteiros remoendo a Marry, virando a situação de ponta-cabeça, tentando achar um detalhe escondido, uma falha, um olhar torto que denunciasse que ela sabia mais do que dizia. E no fim... nada. Absolutamente nada. Ela parecia tranquila demais pra estar fingindo. E foi aí que Glomme soltou aquela observação dele na festa da colheita, quase jogado, mas pesado o suficiente pra grudar: Bulmer não lembrava de nada. Nada da enfermaria. Nada do que fez com eles. Aquilo caiu na mente da Ártemis como uma peça torta que, ainda assim, encaixava perfeitamente no quebra-cabeça errado que eles estavam montando.
Aquilo encaixou rápido demais na cabeça da Ártemis, como uma peça que você queria encontrar a muito tempo. Se ele não lembrava… então a Marry provavelmente também não lembrava. Mas aí vinha a parte que não deixava ela em paz: a Marry tava bem. Bem demais. Ou ela era uma atriz absurda... ou simplesmente ainda não tinha visto nada.
E se não tinha visto... então ainda ia ver.
A ideia ficou ali, rodando, criando forma, ficando cada vez mais difícil de ignorar. Aquilo não era imediato. Não era explosão. Era processo. Tempo. Uma coisa que se instalava, crescia, e depois... mostrava. A maldição não vinha de uma vez. Ela esperava. E foi aí que, pela primeira vez, Ártemis sentiu que talvez — só talvez — ela tivesse feito a escolha certa.
Porque quando a Marry tivesse uma visão... ela não ia ficar quieta. Ela ia procurar resposta. E a única pessoa que tinha falado sobre isso antes era ela.
Isso deu uma sensação estranha. Meio vitória, meio armadilha.
Então Ártemis fez o que ela mais odiava: decidiu acreditar.
Não confiar — isso nunca — mas acreditar o suficiente pra esperar. Porque agora não era mais sobre adivinhar. Era sobre tempo. Sobre quando.
E isso, de algum jeito, deixava ela mais confiante... e muito mais insegura ao mesmo tempo.
Essa espera trouxe algo que ela odiava admitir: a insegurança voltou. A última vez que ela tinha se sentido assim foi quando chegaram as cartas de aprovação das escolas. Desde então, Ártemis tinha aprendido a engolir o medo seco, a fingir controle, a se convencer de que não precisava pensar demais. Só que agora a sensação era a mesma de antes: o peito apertado, o corpo em alerta constante, a certeza incômoda de que algo estava fora do lugar e ninguém mais parecia perceber.
Como se isso não bastasse, o dia anterior ainda tinha deixado gosto de ferrugem na boca. Anaru resolveu crescer pra cima dela no corredor, toda cheia de marra, dizendo que Ártemis a tava devendo porque tinha usado os poderes na enfermaria e desmaiado ela no chão, impedindo-a de sedar o Bulmer.
Ártemis não teve paciência — despejou tudo o que vinha guardando. Disse que a Anaru devia era agradecer, porque na enfermaria ela não fez porra nenhuma, não ajudou em nada, e quando tentou não conseguiu — e mesmo assim saiu cheia de crédito como se tivesse salvado o mundo. Mandou a garota ficar caladinha no canto dela, parar de encher o saco de quem tá realmente fazendo alguma coisa, porque a Ártemis sabia muito bem o que a Anaru fez naquele dia: nada. Absolutamente nada. A medrosa só ficou invisível, sumiu que nem uma barata com aquelas asinhas de mariposa dela e deixou todo mundo se foder. E ainda achou que poderia ajudar. Com um sedativo e uma seringa idiota. Enquanto o Bulmer arrebentava DUAS PESSOAS na parede enquanto ela olhava. Ela sabia que a Anaru era covarde pra caralho. Deixou bem claro que, se ela continuasse, ia abrir a boca e acabar com aquela fama falsa e aquela pose de fodona que não se sustenta nem com fita adesiva.
Mesmo depois, caminhando pelos corredores, a sensação não era de vitória. Era de desgaste. Como se cada confronto, cada suspeita, cada silêncio acumulasse mais peso nas costas dela. Ainda assim, havia uma pequena satisfação amarga: pelo menos daquela vez, ela não tinha engolido a própria raiva.
E no meio disso tudo, o pensamento voltava pra Marry. Sempre voltava. E ela tava tentando não pensar nisso. Tentando mesmo. Só que o problema da cabeça da Ártemis é exatamente esse: quando ela decide que não vai pensar em alguma coisa, a coisa cresce, se multiplica, vira um inferno barulhento lá dentro. Cada hipótese virava dez, cada detalhe virava um sinal, e aquela teoria torta — que talvez só fizesse sentido pra ela — começava a se montar sozinha, peça por peça, como um quebra-cabeça amaldiçoado que ninguém pediu pra montar. E, no fundo, ela só torcia pra estar errada. Torcia com força.
Porque, se estivesse certa... aquela escola tinha tudo pra virar um filme de terror antes do fim do ano. Sem exagero. Do tipo que ninguém sai ileso e todo mundo finge surpresa depois.
Enquanto isso, cada um deles tava se virando do jeito que dava pra tentar salvar o Bulmer. Não teve reunião, plano mirabolante nem discurso bonito. Aconteceu porque tinha que acontecer. Um puxando pro seu lado, outro investigando no silêncio, outro só tentando não enlouquecer no processo. No caso da Ártemis, o foco era claro: Marry. Pra ela, a garota era a peça mais importante dessa merda toda. Ela tinha certeza que Marry e Bulmer estavam presos no mesmo pesadelo, vítimas do mesmo bagulho podre. E se ela conseguisse fazer a Marry falar — nem que fosse pouco, nem que fosse estranho, nem que fosse desconexo — isso já podia ser o fio solto que faltava pra provar que o Bulmer não era louco. Que ele não inventou nada. Que aquilo foi real. Que ele foi possuído de verdade. E, principalmente, que ainda dava pra ajudar os dois.
Isso importava pra caralho. Porque ninguém merece carregar o rótulo de maluco só por ter sobrevivido a um demônio escondido dentro da própria cabeça.
Quanto à Firefy e ao Glomme... bom, aí a coisa ficava nebulosa. Sempre ficava. A verdade crua é que a Ártemis não fazia ideia do que aqueles dois estavam aprontando. Quase não se viam nos últimos dias. Cada um correndo pra um canto diferente, lidando com suas próprias paranoias, seus medos particulares, seus jeitos tortos de tentar consertar o que já nasceu quebrado.
Ela conhecia a Firefy o suficiente pra saber: quando ela dizia “tá tudo bem”, nunca tava. Era o tipo de mentira que só cola em quem não sabe encarar aqueles olhos por mais de três segundos. E o Glomme... o Glomme era silêncio demais pra ser simples. Um silêncio fundo, pesado, que guardava coisa demais ali dentro. Às vezes a Ártemis nem entendia como ele ainda não tinha implodido.
Ela não sabia o que eles estavam fazendo. Não sabia mesmo.
Mas uma coisa era certa: eles iriam descobrir.
E quando descobrissem... ia ficar bem claro que essa história tava só começando.
Quinta do dia 21 de março, pela tarde quente e arrastada, em um dormitorio desconhecido, o quarto quase totalmente às escuras, iluminada apenas por pequenas luzes penduradas que piscavam como vagalumes preguiçosos. Firefy, encolhida em uma cadeira rangente, puxou o capuz mais pra frente enquanto ajeitava os óculos falsos no rosto com um gesto rápido, tentando parecer que sabia o que estava fazendo ali. Os garotos falavam alto, cada um mais empolgado que o outro, debatendo as regras do jogo de tabuleiro com uma paixão tão exagerada que parecia até ensaiada, batendo miniaturas sobre o tabuleiro e discutindo estratégias com a intensidade de generais decidindo sobre guerras antigas. Ela imitava a energia deles, murmurando comentários aleatórios, fingindo entender quando não entendia nada, e levantou um copo quando alguém comemorou, bebendo um gole do líquido amargo que a fez estremecer por dentro, mas sem deixar o sorriso cair do rosto.
À medida que o jogo avançava, a animação deles parecia tomar conta da sala, criando uma bolha calorosa onde todos se perdiam em narrativas de mundos fictícios, criaturas bizarras e heróis improváveis. O entusiasmo deles era tão infantil e puro que quase parecia mentira, e Firefy esperou pacientemente até o fim da partida, onde sempre surgia o momento das conversas informais — aquela pausa em que todo mundo relaxava, jogava o corpo nas cadeiras e começava a falar besteira com a boca meio cheia de bebida. Quando Selindra jogou os dados e venceu, os gritos ecoaram pela sala, e o grupo se espalhou numa roda torta de cadeiras, cada um segurando um copo qualquer, enquanto as luzes piscavam criando uma sombra mística sobre os rostos animados. Era o momento perfeito, e o coração dela batia levemente acelerado pelo nervosismo de estar ali por um motivo que tinha zero a ver com diversão.
— Posso perguntar uma coisa? — disse Firefy, cruzando os braços e recostando na cadeira, balançando as asas de leve, tentando soar casual. — Algum de vocês já ouviu história de possessão ou feitiço rolando por aqui? Tipo... coisa estranha mesmo, daquelas que a gente devia levantar e sair correndo?
Vários olhares cruzaram no ar. Um deles começou a rir baixinho, outro bebeu como se estivesse se preparando para responder uma idiotice muito grande, e Dreyko ergueu a sobrancelha como se tivesse sido provocado diretamente.
— Feitiço? Possessãozinha? — disse Dreyko, esticando as palavras com aquela arrogância brincalhona. — Claro que já ouvimos. Porra, a gente é literalmente o grupo mais informado dessa escola. A gente sabe de tudo, absolutamente tudo.
Tioran deu um tapa forte no ombro dele, rindo alto, quase derrubando o próprio copo, e virou o corpo na direção de Firefy com um sorriso torto.
— Pelo amor dos Elfos, não cai nessa. Esse idiota só lê revista barata que tem bruxa de biquíni na capa — disse ele, balançando a cabeça. — Aqui não tem mago fodão, nem feiticeiro oculto, nem caralho nenhum desses filmes. Aqui só tem syntrahs como nós, gente com poderzinhos de nascença. Feitiçaria de verdade é pra quem vai pras escolas separadas pelo governo, lugares que eles escondem a milhas daqui. Eles não misturam "inferior" com mago.
Os dois garotos mais ao fundo, Kaelun e Ezven, riram com aquela animação irritante de quem já sabe o que vai acontecer e puxaram três jornais velhos de uma pilha caótica no canto. Jogaram os papéis na mesa com um baque seco, levantando poeira.
— Aqui, ó — disse Kaelun, empurrando um jornal pra perto dela. — Isso aqui fala de casos sombrios que aconteceram na cidade, tem até da velha cadeirante que morreu há uns vinte anos. A bruxa louca era obcecada por essa escola, ficava dizendo que tinha maldição, possessão, essas merdas todas por aqui.
Ezven se inclinou pra frente, os olhos estreitos como se estivesse prestes a contar um segredo proibido.
— E não é só isso. A véia vivia falando que quando a Lua de Sangue voltasse, ia trazer problema pro mundo inteiro de Aflhenia. Uma maldição sem fim, caos total. E se tu procurar direito, vai ver que a escola já passou por umas paradas bem feias. Tipo aparição, aluno enlouquecendo, magia fora do controle, essas histórias que ninguém gosta de admitir que são reais.
Kaelun mexeu nos jornais, espalhando páginas amarelas, e apontou para manchetes antigas, algumas borradas, outras quase ilegíveis.
— Tem um monte de gente que jura que viu sombra andando sozinha nos corredores. Outros falam que ouviam vozes nas paredes, como se a escola tivesse uma consciência velha e doente. Parece até que o prédio carrega coisas ruins desde antes da gente nascer, cheio de mistério que ninguém tem coragem de encarar.
Firefy folheou as páginas devagar, sentindo o cheiro de poeira subir com cada movimento. As matérias eram curtas, os textos confusos, mas havia um padrão perturbador ali: a tal mulher era considerada insana, mas suas previsões e suas "obsessões" tinham a escola como ponto central. A menção da Lua de Sangue fazia seu estômago apertar, como se algo estivesse coincidindo cedo demais com tudo que tinha acontecido nos últimos dias.
— Esses jornais... alguém sabe de que ano são? — perguntou ela, tentando manter o tom desinteressado, mas os olhos examinavam obsessivamente o rodapé.
Selindra deu de ombros, relaxando na cadeira.
— Boa pergunta. A gente achou isso aí num brechó perto do centro. Tava empoeirado, no meio de uns quadrinhos velhos. Mas parece ser bem antigo, da época em que essa velha morreu. Deve ter uns vinte anos, fácil.
Malrik, que estava encostado na parede, ergueu a mão preguiçosamente.
— Pode apostar que é dessa época aí. Ninguém liga pra esses jornais velhos, mas se tu curte história estranha, pode levar. Não vai fazer falta pra gente.
Firefy segurou o jornal com cuidado, como se estivesse lidando com algo frágil e perigoso ao mesmo tempo, e sentiu o coração bater um pouco mais rápido.
— Valeu, sério. Isso pode... sei lá, ser útil pra uma coisa minha.
Selindra riu de leve, coçando a nuca.
— Pode ficar então. Quem sabe tu não descobre algo que a gente deixou passar? Só não volta possuída, beleza? A gente já tem problema demais.
O quarto abafado dos garotos parecia sugar o ar dos pulmões, e assim que Firefy empurrou a porta e saiu para o corredor fresco, respirou fundo como quem volta à superfície depois de muito tempo submersa. O corpo dela relaxou de imediato, e ela apertou o jornal contra o peito, como se fosse um pedaço roubado de algum arquivo proibido, e caminhou depressa pelo corredor silencioso, ouvindo o eco das próprias botas enquanto subia as escadas para o dormitório da Ártemis, onde havia combinado de encontrá-la junto com Glomme. O coração batia inquieto, e cada passo parecia arrastar consigo a sensação de que aquele jornal velho escondia mais do que deveria.
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