Volume 1 – Arco 1
Capítulo 26: Pudim
Terça do dia 19 de março, logo pela manhã, o clima na escola se tornava mais tranquilo, com uma brisa morna entrando pelas janelas abertas e espalhando o cheiro de grama e folhas secas pelos corredores. O refeitório estava um caos no começo do dia — cadeiras arrastando, vozes e gargalhadas misturadas ao cheiro de comida quente e suor adolescente. No meio disso tudo, Marry ocupava um canto que não chamava atenção, curvada sobre a mesa, os ombros fechados, o corpo encolhido como se tentasse diminuir o próprio espaço no mundo. Era como se existisse uma bolha ao redor dela: o barulho continuava lá fora, mas chegava fraco, distorcido, incapaz de atravessar aquele silêncio particular. A bandeja diante dela estava quase intacta. O arroz frio era empurrado de um lado pro outro com a colher, num movimento automático, sem fome, sem pressa — só uma forma de manter as mãos ocupadas enquanto a cabeça parecia longe demais pra acompanhar o resto do corpo. De vez em quando, os lábios se mexiam sem som, palavras quebradas escapando num sussurro que morria antes de virar frase, como se ela estivesse respondendo alguém que só existia dentro da própria cabeça, fingindo comer para ninguém perceber que, na verdade, estava conversando sozinha.
Ártemis caminhava entre as mesas com um pudim nas mãos, um pequeno presente, sentindo olhares esquisitos seguirem cada passo, mas sem desviar; o coração dela batia rápido demais, e havia algo incômodo queimando embaixo da língua, uma urgência que não deixava ela adiar essa conversa nem mais um minuto. Quando parou diante da mesa, pousou o pudim suavemente, observando a expressão de alerta atravessar o rosto de Marry — um tremor rápido, o olhar desviando para baixo, o corpo encolhendo mais ainda, como um gato acuado esperando o pior.
— Oi, Marry... eu sou a Ártemis... Eu não vim aqui pra fazer cena, nem pra entrar na onda desses idiotas que tão te atormentando desde o festival — disse Ártemis enquanto se sentava devagar, deixando o corpo afundar no banco como quem tenta parecer o mais inofensiva possível. Cruzou as pernas, apoiou os cotovelos nas coxas e inclinou o tronco pra frente, respirando fundo, tentando mostrar que não tava ali pra intimidar ninguém. — Só… me escuta por uns segundos, tá? Não tô aqui pra te ferrar, nem pra apontar dedo, nem pra repetir essas merdas que tão falando de você.
Ela passou a mão no cabelo, prendendo uma mecha atrás da orelha, o olhar fixo no rosto abatido de Marry.
— É porque tem uma pessoa muito fodida que tá conectada a você — continuou ela, a voz baixa, quase um pedido. — Vendo coisas que não devia ver. Coisas que tão deixando ele mal de verdade. E tudo começou exatamente do mesmo jeito que você caiu no festival da colheita. Igualzinho. Os mesmos sinais, o mesmo terror no rosto, aquela sensação de que alguma coisa enorme e errada tá chegando... e você, Marry, você também tá no centro desse bagulho todo, queira ou não.
Ártemis apoiou as mãos entre as pernas, abrindo e fechando os dedos num ritmo nervoso, como se o próprio corpo recusasse ficar parado enquanto a cabeça girava em círculos. O olhar dela não se fixava em Marry por muito tempo; escapava pros lados, varria o ambiente, voltava rápido, atento demais para alguém sentado. Não era medo que tremia ali, era preocupação, daquela que afunda no estômago e deixa o peito pesado. Marry, ao contrário, mantinha os olhos baixos, confusa, tentando acompanhar algo que não entendia, observando Ártemis de canto como quem começa a perceber o exagero — ou a loucura — sem perceber que o perigo já tinha passado do ponto de ser visível.
— Se você não quiser olhar pra mim agora, beleza... eu entendo, de verdade — disse ela sem parar, a voz ficando mais suave, quase quebrada. — Mas me escuta. Porque tem gente que tá se ferrando feio por causa do que aconteceu com você e com um amigo meu... e se você não falar nada, se continuar nesse silêncio, eu tenho medo real do que pode acontecer com ele... e com você também.
Ártemis respirou fundo, puxando o ar devagar, tentando segurar o próprio desespero, mas nada no corpo dela colaborava. Os ombros estavam tensos, a perna balançava sem ela perceber, a boca comprimida num esforço de não deixar tudo sair de uma vez.
— Marry... — ela continuava a falar, olhando diretamente pra garota, sem piscar. — Eu sei que parece absurdo, mas eu tô achando que tem alguma coisa aqui dentro da escola. Algo que tá sequestrando uns e possuindo outros, como se usasse a gente de hospedeiro. Eu não tô falando isso pra te assustar, eu tô falando porque… porque tudo aponta pra isso. O que aconteceu com você no festival não foi normal. O que tá rolando com o meu amigo também não. Não é coincidência. Tem alguma coisa errada de verdade.
Marry passou a mão no próprio rosto com força, arrastando os dedos da testa até o queixo num gesto de puro cansaço acumulado, como quem tenta se manter sã enquanto escuta Ártemis falar sem parar sobre coisas confusas demais, claramente fora do alcance — respirou fundo, se endireitou e manteve a postura firme, não porque estava calma, mas porque desistir naquele momento simplesmente não era uma opção.
— Eu tô aqui porque você viu, você sentiu... e eu preciso entender. Porque se eu estiver certa… se algo tá entrando na cabeça das pessoas... não vai parar. Não vai escolher quem merece ou não. Vai continuar. E você pode ser a única pessoa que consegue explicar como isso começou — continuou Ártemis.
Ártemis respirou fundo mais uma vez e, só então, virou o rosto de verdade para Marry, como se adiar aquele contato tivesse sido a única forma de aguentar até ali. O corpo dela cedeu um pouco para a frente, os ombros perdendo rigidez, como quem finalmente decide não esconder mais nada. O olhar encontrou o de Marry direto, intenso, carregado de urgência contida, como se aquela fosse a verdade mais pesada que já teve coragem de colocar em voz alta.
— Então, por favor... me ajuda a entender isso antes que alguém desapareça de novo — finalizou ela.
Marry permaneceu em silêncio por alguns segundos depois de ouvir Ártemis, não porque o mundo tivesse desabado, mas porque ela realmente não sabia o que dizer. O corpo dela não ficou tenso; ficou quieto, recolhido do jeito tímido de sempre, os ombros levemente curvados enquanto os dedos se apertavam uns nos outros no colo. Os olhos piscaram devagar, confusos, descendo um pouco, como se ela estivesse tentando organizar uma história que não fazia sentido nenhum. Para Marry, aquilo soava distante, quase como alguém contando uma fanfic elaborada demais, cheia de conexões que ela não conseguia enxergar. A respiração seguiu calma, só um pouco mais rasa por nervosismo social, não por medo. Ela olhou Ártemis de lado, com cuidado, sem julgamento, apenas com aquela expressão tranquila de quem quer entender, mas ainda está longe de acompanhar — mais preocupada em não parecer rude do que em decifrar qualquer ameaça invisível. Inclinou o tronco um pouco pra trás na cadeira, como quem cria distância física, e passou a mão pelo bolso da jaqueta já puxando o celular, os olhos fugindo do rosto de Ártemis sem qualquer peso emocional — só estranhamento mesmo.
— Tá... desculpa, mas eu não faço ideia do que você tá falando, Ártemis — disse ela, direta, sem suavizar. A boca puxou um sorriso torto, nervoso, enquanto ela desbloqueava a tela e fingia checar qualquer coisa. — Essa história doida que cê tá criando, só faz sentido na sua cabeça. Eu não sei do que você tá falando, não tô conectada com ninguêm, e não vejo nada disso, e honestamente você é louca.
Ela soltou outra risadinha seca, balançando a cabeça de leve, como se estivesse tentando manter a situação sob controle socialmente, não emocionalmente. Os dedos tamborilaram no celular, evitando contato visual. Se levantou um pouco da cadeira, ainda rindo baixo, desconfortável, mais constrangida do que assustada.
— Sério. E se você puder... — Marry fez um gesto vago com a mão livre, apontando pra lateral da mesa. — Mudar de lugar. Ou parar de falar disso comigo. Eu agradeço.
Ártemis travou no lugar no instante em que a reação de Marry bateu nela, foi como um tapa de realidade seco e humilhante. O rosto dela esquentou de uma vez, o estômago despencou, e a vergonha veio pesada, esmagando qualquer certeza que ela tinha segundos antes. Um riso nervoso escapou sem controle, curto e errado, enquanto ela levava a mão ao próprio braço, apertando como se precisasse se ancorar no corpo pra não desmontar ali mesmo. Os olhos fugiam, rodavam pelo entorno, evitando Marry, evitando todo mundo, e o coração batia rápido demais, denunciando que ela tinha falado coisa demais pra pessoa errada.
— Que...? Tá... Hhhm... — ela murmurou, assentindo rápido demais, a voz falhando num tom constrangido. — Nada do que eu falei fez sentido nenhum pra você, então? — ela respirou fundo, engoliu em seco e forçou um meio sorriso torto.
Marry respondeu sem hesitar, direta, quase aliviada:
— Não. Nenhum.
Aquilo foi o suficiente. Ártemis assentiu outra vez, rápido, já se levantando, os dedos tremendo enquanto ajeitava a própria postura.
— Ok... desculpa então. Éehh... Pode ficar com o pudim.
Ela deu um sorriso nervoso e se afastou sem olhar pra trás, os passos apressados e desajeitados, o corpo inteiro vibrando de vergonha crua, sentindo cada segundo daquela conversa ecoar na cabeça como um erro impossível de apagar.
***
Ártemis POV
Caralho... e se eu tiver mesmo errada? Porque fazia tanto sentido dois minutos atrás. Os sinais, o festival, o jeito que ela caiu, igualzinho ao que aconteceu com ele. Ele sentiu a Marry... Como isso é possível...? As coincidências. Eu tinha certeza... E aí eu chego nela, falo tudo, me exponho inteira, pareço uma maluca conspiracionista... e ela simplesmente não sabe de porra nenhuma...?
Será que eu tava tão certa disso que nem considerei as possibilidades... A Marry não parecia assustada. Nem confusa. Só incomodada. E agora minha cabeça não para. Porque tá, vamos lá. Ou ela tava fingindo. Tipo, fingindo muito bem. Até pra ela mesma. Porque isso acontece, né? Às vezes a coisa entra tão fundo que a pessoa nem percebe. Só age normalmente.
Mas por que ela agiria como se nada tivesse acontecido? Será que é pelo bullying...?
Se ela não tava fingindo — se ela tava falando real — aí a coisa fica ainda mais esquisita. Porque então talvez os efeitos só não começaram ainda. Talvez o que entrou nela não tenha acordado. Pode ser só o começo. Esperando o momento certo pra dar sinal. Igual foi com o Bulmer. Igualzinho. O Bulmer não teve visões de uma hora pra outra. Ele ficou em coma por três dias antes. Teve um intervalo depois. Um tempo em que parecia só cansaço e estresse. E olha como terminou. Pensar nisso me deixa inquieta, porque significa que não acabou. Que pode estar só começando.
E se talvez eu seja mesmo louca. Talvez tudo isso seja só a minha cabeça se partindo em pedaços porque eu não consigo lidar com o que tá acontecendo. Talvez não tenha monstro nenhum, nem possessão, nem nada. Só eu, aqui, delirando sozinha numa escada fedendo a mofo, achando que o mundo tá acabando quando na verdade sou eu que tô estilhaçada. Mas e se não for? E se eu estiver certa e ninguém acreditar até ser tarde demais? E se eu tiver que assistir ela se desfazer, e ele, e quem mais vier depois, porque eu não consegui provar que não sou maluca...
Essa é a parte que mais dói admitir. Porque eu sempre confiei em mim. Sempre. Sempre fui a primeira a sentir quando algo tava errado, a primeira a perceber quando o clima mudava, quando alguma coisa começava a apodrecer por baixo. Agora essa confiança tá meio rachada. Não quebrada, mas rachou. Dá pra ouvir o estalo se eu mexer demais.
Mas eu ainda sinto. Ainda tem algo me incomodando no fundo do peito. Aquela sensação chata de que isso não acabou. De que tá cedo demais pra declarar normalidade.
Então foda-se.
Se eu tiver certa, vai dar merda. Paciência, né?
E se eu tiver errada, eu vou parecer a maluca da história.
Mas entre parecer louca e ficar quieta vendo tudo desandar… eu já sei o que vou escolher.
Eu prefiro ser a errada que falou demais, do que a certa que ficou calada.
E se isso me colocar sozinha no fim, azar.
O pior seria fingir que eu não senti nada.
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