Volume 1 – Arco 1
Capitulo 25: No Coração da Maldição - Parte 2
Os olhos de Sylmara, como lâminas afiadas, não deixaram de percorrer o corpo de Glomme, notando, com um olhar desconfiado, a tonalidade esverdeada de sua pele. Glomme, um goblin místico humanoide, representava tudo o que ela temia sobre o desconhecido. Mas o olhar dela logo foi para Vanpriks, e a expressão de desgosto foi instantânea. A meia-vampira, com seus olhos penetrantes e a aura quase incontrolável, era o ponto de virada. Para Sylmara, aquilo era o ápice de tudo que ela achava errado naquele momento.
Kael, com seu semblante ainda mais fechado, se aproximou da porta, e o silêncio entre eles era tenso demais para ser ignorado.
— Boa tarde, sejam bem-vindos — Sylmara disse, a voz forçada e cortante. As palavras saíram com uma frieza que só tentava disfarçar a raiva interna.
Ártemis respondeu com seu tom calmo e seguro, tentando aliviar a tensão.
— Boa tarde, senhor e senhora Salavan — a voz dela foi suave, mas carregada de respeito.
Glomme, Vanpriks e Tiruli assentiram em silêncio, ambos sentindo a animosidade no ar, mas sem dar mais atenção ao clima pesado.
Trrira suspirou, já sabendo o que viria. Ela não podia mais evitar a situação. Sabia que o confronto estava prestes a acontecer, mas queria manter o controle. Sem esperar mais, ela tomou a frente da situação, tentando ser firme, mas com um toque de suavidade.
— O quarto fica no segundo andar, sigam por ali. Eu já subo! — disse, apontando para as escadas. Suas palavras estavam carregadas de um comando discreto, e ela esperava que os amigos seguissem sem mais palavras.
Enquanto eles começavam a subir, Trrira sabia que seus pais não demorariam a falar. Quando o som dos passos das escadas subindo ecoou pela casa, a conversa inevitável começou.
Sylmara foi a primeira a romper o silêncio, sua voz baixa e ameaçadora, como se cada palavra carregasse a tensão de uma guerra que ela não estava disposta a perder.
— O que é isso, Trrira? — sua expressão estava distorcida pela raiva contida, os olhos brilhando com indignação. — Monstros?
Kael, sempre o mais reservado, agora parecia prestes a explodir. Ele se virou para a filha, os punhos cerrados, mas sua voz saiu baixa, cortante.
— Uma vampira! — ele resmungou, a raiva se misturando com o medo. — E um garoto verde! Você trouxe isso para nossa casa, Trrira? Sabe o que isso pode significar? Sabe com quem está se metendo?
Sylmara avançou um passo, o olhar duro como aço.
— Você tem noção do que são essas criaturas? O que essas pessoas representam? — seu tom era baixo, mas a ameaça em sua voz não podia ser ignorada. — Você sabe que não podemos confiar neles. Eles são... folgados. Não têm respeito pelas regras, não têm respeito por nós, humanos!
Trrira sentiu sua raiva crescer, mas manteve o controle. Não queria que seus pais percebessem que estava sendo atingida. Ela sabia o que eles pensavam sobre os outros, mas não poderia permitir que aquela visão estreita deles destruísse o que ela acreditava ser certo.
— Eles não são folgados, mãe — respondeu com calma, o olhar firme, mas sem levantar a voz. — Eles são meus colegas, e estão aqui apenas por um tempo. Não vão destruir nada.
Sylmara riu, mas era uma risada amarga, cheia de desdém.
— São aberrações. Eles são perigosos, Trrira! Vampira, garoto verde... e você acha que são amigáveis? Não vamos permitir que você fique perto deles, isso é um péssimo exemplo. Eles vão corromper você!
Kael deu um passo à frente, a expressão furiosa.
— Inaceitável, Trrira. Você não vai continuar se envolvendo com esse tipo de gente. Eles são má influência, Trrira. Você vai ficar de castigo, e por um bom tempo! E nem adianta discutir! — sua voz estava gélida, como um comando.
Trrira, com a mandíbula cerrada, manteve a calma. A raiva pulsava em suas veias, mas ela sabia que não podia explodir agora. Não ia deixar que tudo se perdesse em um simples grito. Precisava manter o controle, precisava ser mais forte.
— Eu estou cuidando deles, e sei o que estou fazendo — respondeu, os olhos ardendo de uma determinação silenciosa. — Eles vão embora em breve, e até lá, eu preciso que vocês confiem em mim.
Sylmara e Kael trocaram olhares de reprovação, claramente preparados para seguir com o que já haviam decidido.
— Não vai ser assim. Não enquanto estivermos aqui — Kael disse, com firmeza. — Você não vai mais falar com eles, Trrira. Eles não são bem-vindos aqui.
Trrira sentiu o peso de suas palavras, mas permaneceu imóvel, os dedos apertando as palmas das mãos. Ela queria gritar, queria desabar, mas não podia. Não diante deles. Ela sabia que isso não acabaria bem, mas tinha que manter tudo sob controle.
Trrira subiu as escadas com passos rápidos, o sangue fervendo em suas veias. A raiva de seus pais, de todo o preconceito que eles tinham contra seus amigos, fazia seu peito apertar. Eles nem sequer deixam ela ter amigos. Seus pais, com toda aquela rígidez, simplesmente não conseguiam aceitar o diferente. Cada palavra deles parecia um peso imenso, como se a culpa fosse dela por apenas existir em um mundo onde seres como Vanpriks e Glomme eram comuns. Eles não viam, não entendiam, e talvez nem quisessem entender.
Ela entrou no quarto com a respiração acelerada, a porta se fechando atrás de si. O quarto, que antes parecia um refúgio, agora a sufocava. A tensão ainda corria em seu corpo, mas ao ver Ártemis, tudo pareceu diminuir um pouco.
Antes que pudesse se sentar, olhou rapidamente para o canto onde a caixa com os objetos estava guardada e apontou com a cabeça.
— A caixa com os objetos está embaixo da cama — disse, a voz carregada de cansaço. Não estava no clima para grandes conversas, mas tinha que ser objetiva. — Pode pegar lá.
Glomme e Tiruli se agacharam imediatamente, com o som das mãos mexendo entre os pertences e os objetos sendo retirados debaixo da cama.
Ártemis a observou atentamente, percebendo o cansaço que transparecia em Trrira. A expressão dela, normalmente serena, estava agora marcada por uma tensão silenciosa, o que fez com que Ártemis se aproximasse mais, com um toque suave em seu ombro.
— Ei... — Ártemis começou, sua voz tranquila e reconfortante. — Está tudo bem?
Trrira suspirou, passando a mão pelo cabelo como se tentasse se acalmar antes de responder. A raiva ainda a queimava por dentro, mas, ao olhar para Ártemis, ela sentiu um alívio pequeno, uma sensação de que talvez fosse possível dividir um pouco do peso.
— Só estou passando por alguns problemas... — respondeu de forma cansada, o tom quase frustrado. — Nada demais, só... meus pais não aceitam muito bem essas coisas. Eles têm um... preconceito com seres místicos. Só porque são diferentes, pra eles são monstros. E tudo o que eu ouço é não se associe a essas pessoas, não fale com esses seres... tudo isso por causa da religião deles, e isso me sufoca. É como se eu tivesse que me esconder o tempo todo.
Ela fez uma pausa, tentando controlar a voz que, por um instante, vacilou.
— Mas... — Trrira olhou para o chão, evitando o olhar de Ártemis por um momento. — Mas vou dar um jeito. Não se preocupem com isso agora.
Ártemis ouviu cada palavra, o coração apertado pela dor que a amiga estava sentindo. Mas ela sabia que Trrira não queria ser tratada com pena. Ela queria ser ouvida e compreendida.
— Eu entendo. Não deve ser fácil... Eles querem o melhor pra você, mesmo que da maneira deles. Mas não precisa seguir o que eles pensam. Você tem sua própria vida, suas escolhas.
Trrira sentiu o apoio nas palavras de Ártemis, mas ainda se sentia exausta, como se uma grande carga tivesse se colocado sobre seus ombros. Ela então respirou fundo e trancou a porta, criando um pequeno espaço seguro entre ela e o mundo lá fora.
Todos começaram a se sentar no chão, e o silêncio tomou conta do ambiente, um silêncio confortável, mas carregado de tensão. Cada um dos amigos estava em suas próprias preocupações, mas o apoio mútuo ali presente, mesmo que em palavras simples, significava mais do que tudo.
Trrira fechou os olhos por um momento, sentindo-se mais leve, mas sabia que o que estava por vir não seria fácil. E, no entanto, no fundo, ela sabia que, com seus amigos ao lado dela, seria capaz de enfrentar qualquer desafio que surgisse.
Enquanto eles se preparavam, sentando no tapete sobre o chão, em outro lugar acontecia algo.
As Terras Abandonadas... Um bairro decadente de Michilli, um símbolo da brutalidade governamental e do esquecimento. Antes, haviam sido um lar para inúmeras famílias, mas quando os moradores se recusaram a ceder suas casas para os planos de expansão do governo, a resposta foi implacável: as construções foram demolidas, deixando apenas ruínas e destroços espalhados pelo que um dia foram ruas movimentadas.
O vento quente da tarde soprava com preguiça pelo estacionamento abandonado, levantando poeira e fazendo o lixo espalhado pelo chão rodopiar como folhas secas.
Misha sentada de pernas cruzadas, flutuando no meio da quadra abandonada. O celular em sua mão vibrava sem parar, mas ela nem se deu ao trabalho de olhar. Não precisava. Ela já sabia exatamente quem era. Ela suspirou, de olhos fixos no horizonte empoeirado.
Ali, no centro do local, sua figura era a única que parecia não ser consumida pelo abandono. Ela estava isolada em seu próprio mundo, alheia à destruição ao seu redor. Mas, como sempre, sua paciência era algo que se esgotava rapidamente, e o atraso de Quinn estava começando a irritá-la profundamente.
Dez minutos já haviam se passado, mas para Misha, parecia uma eternidade. O céu azul e o sol que banhava a quadra já não conseguiam desviar sua atenção. Ela estava irritada, visivelmente incomodada com o tempo perdido. Pensou consigo mesma: Doze minutos... Quinze? Eu deveria ter me acostumado com isso já. Como um homem pode demorar tanto para se arrumar? E ainda um idiota como o Quinn... Não é possível que ele tenha passado meia hora só arrumando aquele cabelo ridículo. O que ele pensa que é? Uma diva? Uma drag?
Ela se reclinou um pouco, fechando os olhos por um instante, enquanto seus pensamentos ferviam. Ela nunca havia entendido esses hábitos masculinos, essa obsessão por aparência. Os homens passavam mais tempo arrumando o cabelo do que ela, e ela, sendo uma mulher que tinha toda a razão para se preocupar com a própria imagem, nunca conseguia compreender como aquilo era tão importante para eles.
Foi quando o som de um motor distante finalmente cortou o silêncio. Misha virou a cabeça, e logo avistou o carro de Quinn se aproximando. Um carro esportivo branco surgindo como um clarão de ostentação no meio da paisagem decadente, brilhando com um exagero quase cômico. Um dos carros mais baratos de Quinn, mas que valia milhões. Ela olhou para o veículo, observando-o com um misto de impaciência e desdém.
"Finalmente", pensou, enquanto suas sobrancelhas se erguiam com um certo desdém. Quinn como sempre, barulhento, espalhafatoso, e, na opinião de Misha, completamente estúpido. Misha levantou os olhos e observou a silhueta do carro esportivo, brilhante e chamativo, avançando em sua direção. O carro, com todo seu luxo e ostentação, era a última coisa que Misha queria naquele momento. Como ele ousava? Como ousava aparecer assim, com um veículo tão chamativo, em um lugar tão imundo? O plano que ela tinha cuidadosamente arquitetado estava em risco por causa de sua falta de noção. O carro freou com força, os pneus cantaram, e ele desceu a janela e olhou para Misha com aquele sorriso de quem nunca teve que trabalhar um dia na vida.
Ele saiu do carro com o sorriso de um vencedor, como se tivesse conquistado o mundo, sua postura relaxada contrastando com o ambiente decadente. Misha revirou os olhos, sem se importar com o charme que ele tentava exalar. Ela já estava sem paciência.
— Como você faz isso? — Quinn perguntou, franzindo as sobrancelhas e se aproximando. — Como fica flutuando assim? Não é todo dia que vejo alguém fazer isso — ele estava visivelmente curioso, seus olhos brilhando de interesse enquanto ele se aproximava mais. — Ah, não, mas isso já era esperado. Tipo, eu já vi você flutuando quando me enforcou, eu já imaginava que fosse alguma coisa do tipo, mas agora assim, com todas as letras... Voando, mesmo? Planando pelo céu feito uma ave? Inacreditável. Eu queria saber voar também. Mas, é claro, Deus só dá asas para quem não merece.
Misha bufou, revirando os olhos de um jeito tão exagerado que parecia que ia girar a cabeça inteira.
— Sério isso, Idiota? — Misha apertou os olhos, os braços se cruzando, sem nenhuma paciência para ele.
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