Volume 1 – Arco 1
Capítulo 32: Herança Sob a Terra - Parte 1
Sábado do dia 23 de março, amanheceu com uma luz pálida atravessando as enormes janelas da casa de Trrira, espalhando claridade fria pela fachada impecável e silenciosa. O dia tinha aquele ar limpo demais que incomodava, como se tudo estivesse organizado em excesso, bonito em excesso, controlado em excesso. Dentro do quarto, o ambiente refletia a mesma ordem rígida que sempre cercou sua vida: móveis escuros, linhas perfeitas, nada fora do lugar. Trrira se encarava no espelho alto, respirando fundo, sentindo o peso daquele teto que não apertava o corpo, mas esmagava decisões, enquanto ajustava suas vestes — jaqueta de couro preto, camisa branca, calças jeans de grife e botas elegantes — os olhos pousaram na bolsa lateral de couro caríssimo que completava o visual. Lá dentro, além do celular, guardava uma carteira recheada de dinheiro e alguns documentos: sempre uma precaução.
Respirando fundo, ela saiu do quarto e desceu a escadaria de mármore branco, os passos ecoando pela casa grande demais para poucas vozes. A sala principal exalava luxo, tradição e expectativa, e o cheiro de café recém-passado misturado a massa amanteigada preenchia o ar. Na cozinha, Sylmara, sua mãe, estava sentada à mesa, postura impecável, lendo um jornal estrangeiro como se o mundo inteiro fosse algo distante e sob controle. Ao ouvir a filha se aproximar, levantou o olhar com um interesse contido, calculado demais para ser simples curiosidade.
— Você está saindo cedo demais para um sábado, Trrira, e isso normalmente significa que existe algo planejado que eu não fui informada — disse Sylmara, pousando a xícara com cuidado exagerado. — Quero entender se isso faz parte do programa que investimos ou se é apenas mais uma distração que não leva a lugar algum.
Antes que Trrira pudesse responder, os passos firmes de Kael, seu pai, atravessaram o piso de mármore como um aviso. Ele surgiu na entrada da cozinha com a presença de quem nunca precisava levantar a voz para ser obedecido. O olhar afiado pousou nela sem delicadeza alguma, avaliando postura, intenção e mentira em potencial. Para ele, qualquer saída precisava ter propósito mensurável.
— Aonde você vai exatamente, Trrira? E por que isso não estava na minha agenda? — perguntou Kael, o tom baixo e rígido, como se já soubesse que algo estava sendo omitido. — Não gosto de improvisos, filha, e você sabe muito bem disso.
Trrira manteve a expressão controlada, escondendo o nervosismo com uma naturalidade treinada desde cedo. Explicou que encontraria algumas colegas para trabalhar em um projeto acadêmico, algo voltado para portfólio, estética e comportamento profissional. Falava com segurança, escolhendo cada palavra como se estivesse montando uma apresentação formal. Nada ali soava espontâneo, mas tudo soava aceitável.
— É um trabalho de observação e composição visual, pai — disse ela, sustentando o olhar dele sem vacilar. — Vamos fotografar locações pela cidade, analisar arquitetura, ambientes e como eles comunicam emoções. Isso ajuda diretamente na construção de imagem e presença profissional, que é exatamente o que vocês sempre exigiram de mim — continuou ela, sem baixar a cabeça. — Não achei necessário avisar antes porque é algo rápido, pai, coisa simples mesmo. São só algumas fotos pela cidade, nada demorado, nada fora do que já faço, e em duas horas eu estou de volta sem impactar em absolutamente nada.
Kael estreitou levemente os olhos, absorvendo a explicação com desconfiança evidente. Perguntou detalhes, quis saber o objetivo final, como aquilo seria avaliado, que tipo de retorno aquilo traria. Trrira respondeu tudo sem tropeçar, usando termos técnicos, linguagem estratégica, mostrando que sabia jogar o jogo que ele respeitava. Ele não parecia convencido, mas também não encontrou brecha suficiente para proibir.
— Duas horas — decretou ele por fim, encerrando o assunto com um simples aceno. — Sem atrasos, sem desvios, e espero resultados que justifiquem esse tempo.
Sylmara interveio apenas para confirmar se aquilo fazia parte do treinamento oficial. A pergunta veio fria, distante, como se falasse de um investimento financeiro e não da própria filha. Trrira assentiu de imediato, sem hesitar, afirmando que sim, que aquilo contaria pontos na avaliação final. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de cálculos e expectativas que nunca foram dela.
Pouco depois, Trrira atravessou a grande porta de carvalho entalhado e saiu. O ar frio da manhã atingiu seu rosto como um choque libertador, ainda que temporário. Do lado de fora, longe dos olhares controladores, ela respirou fundo antes de entrar no táxi. Enquanto o veículo seguia pelas ruas de Michilli, o céu cinzento se estendia acima da cidade em tons apagados, árvores secas balançando ao vento, pessoas apressadas ocupando calçadas cheias. Seus pensamentos estavam longe dali, presos ao túmulo de Rowena Cinder, às possessões, aos desaparecimentos e à sensação incômoda de que algo errado continuava se espalhando, silencioso, esperando ser encontrado.
O dia avançava para o meio da manhã, alguns minutos depois, quando Trrira desceu do táxi alguns quarteirões antes do portão principal do cemitério, escolhendo a distância como quem já previa perguntas indesejadas. Ela caminhou pela lateral do muro antigo, acompanhando a cerca de ferro enferrujada até encontrar um trecho afundado pelo tempo, onde a vegetação crescida escondia uma abertura discreta. Não havia pressa nos movimentos, apenas cálculo; cada passo era medido para não produzir som demais, cada respiração controlada para não denunciar nervosismo. Quando finalmente atravessou o limite, passando por entre galhos secos e pedras soltas, o cemitério pareceu engolir sua presença de imediato, abafando o mundo externo como se aquela entrada jamais tivesse existido.
Lá dentro, o Cemitério de Michilli se estendia como um organismo antigo e esquecido, com árvores retorcidas lançando sombras longas demais para aquela hora do dia. O vento cortava a pele com insistência, carregando o cheiro de terra velha e musgo úmido, enquanto lápides antigas surgiam e desapareciam entre a névoa rasteira. Trrira caminhava com cuidado, o celular brilhando baixo na palma da mão esquerda, vasculhando imagens antigas, nomes, registros incompletos. As fotografias de Rowena Cinder pareciam sempre erradas, marcadas por pichações grotescas que distorciam qualquer traço original, como se a própria memória da morta tivesse sido violentada ao longo dos anos. Nada ali combinava com o silêncio respeitoso ao redor, e isso a deixava ainda mais alerta.
Ela caminhou e se agachou diante de uma lápide coberta por musgo espesso, os dedos pressionando a pedra fria numa tentativa quase íntima de arrancar alguma resposta. Não havia insultos, não havia tinta descascada, apenas letras apagadas pelo tempo e uma quietude opressiva. Ao se levantar, sentiu o peso daquele lugar se fechar um pouco mais ao redor do corpo, como se o cemitério exigisse algo em troca da presença dela. A névoa se adensava a cada passo, transformando lápides em silhuetas tortas, e a sensação de estar sendo observada crescia junto com o frio que se infiltrava por baixo da pele, fazendo sua respiração sair curta e visível no ar.
O primeiro som às costas fez seus músculos reagirem antes do pensamento. Trrira se abaixou lentamente, a mão direita tocando a terra escura enquanto fechava os olhos por um instante. O solo tremeu levemente sob seus dedos, uma vibração funda, e raízes grossas romperam a superfície, subindo pela mão dela sem pedir permissão, rasgando a pele enquanto se entrelaçavam ao redor do pulso e do antebraço. O sangue escorregou pelos dedos, manchando a terra, e arrancado do chão um espinho grosso entrelaçado por vinhas úmidas, longo, irregular, pulsando verde. A lâmina vegetal cravada ao braço dela, como se a arma estivesse tentando se tornar parte dela de vez. Mesmo com o maxilar travado e a respiração pesada, Trrira se levantou devagar, girando o corpo com a lâmina viva em posição, encarando o vazio atrás de si.
Não havia ninguém. Ainda assim, o cemitério parecia diferente, como se as lápides tivessem mudado de lugar enquanto ela não olhava, reorganizando-se para confundir. O rangido seco de pedra contra pedra voltou a ecoar mais adiante, e quando ela avançou, notou uma lápide deslocada, marcas recentes no solo denunciando movimento. O arrepio que subiu por sua espinha não vinha apenas do medo, mas da certeza incômoda de que ela estava perto demais, e que algo ali dentro sabia disso tão bem quanto ela.
Minutos haviam se passado, e Trrira continuava sua busca pelas lápides, seus olhos atentos aos detalhes enquanto observava as marcas, as inscrições apagadas pela idade e o desgaste do tempo. Cada passo que ela dava fazia o silêncio do cemitério se aprofundar ainda mais, criando uma tensão no ar, como se o próprio lugar estivesse respirando ao seu lado. De repente, um som distante a fez parar. O rangido seco de pedra contra pedra, como se uma lápide tivesse sido deslocada. Seu corpo se alertou instantaneamente, os músculos tensos, prontos para a ação. Trrira girou para o lado esquerdo, os olhos procurando freneticamente pela origem do som. À sua frente, uma lápide parecia fora de lugar, inclinada de forma irregular, como se tivesse sido movida recentemente. Um calafrio percorreu sua espinha, mas ela não hesitou — avançou em direção ao túmulo com a cautela de quem sabe que o perigo nunca vem sem aviso.
Ela se agachou diante da lápide deslocada, suas mãos estendidas, tocando a base fria de pedra. O olhar de Trrira, sempre afiado, detectou as marcas no solo. Marcas recentes. Evidências de que algo ou alguém tinha passado por ali, movido aquele pedaço de história. Seu estômago se revirou com a sensação de que o cemitério estava jogando um jogo com ela. Algo estava se movendo ali, algo que a queria fora, longe da verdade. Mas Trrira sabia o que era. O medo não a dominava, ao contrário — só alimentava a fome de descobrir o que estava escondido.
"Não é só o cemitério..." pensou, seu coração batendo com mais força. "Tudo está se movendo aos poucos, mudando de lugar, tentando me confundir." Ela sorriu levemente, o desejo de desvendar aquele mistério queimando mais forte dentro dela. "Se o cemitério reage à minha presença, significa que estou chegando perto do que procuro."
Sua mente estava focada, mas a inquietação ainda a consumia. "Rowena..." seu pensamento ecoava, mais uma vez. "Você está sendo escondida de mim, não está? Talvez porque não queira ser encontrada. Ou talvez porque algo está te protegendo. O que há de tão importante em você?"
Mas as palavras de Rowena eram apenas ecos distantes. E ainda assim, Trrira não parou. Ela continuou sua caminhada, agora mais cautelosa, os olhos vasculhando as lápides enquanto o vento gelado arrastava folhas secas entre as pedras. Cada passo se tornava mais pesado à medida que se aproximava do fim do cemitério, como se a própria terra estivesse querendo retê-la.
Então, ao se levantar, algo a fez estremecer novamente. O som de passos, firmes e deliberados, ecoou por trás dela. Sua respiração ficou mais curta, o medo invadindo cada centímetro de sua pele. Mesmo Trrira sendo de se esconder. Ela não recuou, não se virou imediatamente. Ao contrário, sentiu uma onda de desafio percorrer seu corpo, alimentada por um instinto profundo e incontrolável. Ela estava preparada para enfrentar o que quer que fosse. Ela estava pronta.
A mão dela, ainda segurando a espada de espinho, brilhou com uma luz verde escura. As vinhas cresceram ao seu redor, apertando ainda mais o braço, como se sentissem o perigo iminente. Seus olhos se transformaram, se tornando completamente brancos — um sinal claro de que seus poderes estavam à ativa. Ela não era mais simplesmente sinthra-humana. Ela era a natureza, a força verde que pulsa nas raízes da terra, nas folhas, nas vinhas. Quando usava seus poderes, tudo ao seu redor parecia respirar com ela. As plantas, as vinhas, até mesmo o musgo sob seus pés reagiam à sua vontade.
Seu coração batia com força, mas ela não se deixou paralisar. Ela ajustou sua postura, os músculos se esticando, os dedos firmemente envolvidos na espada de espinho, que agora estava vibrando com a força da natureza em seu interior. Ela girou lentamente, o som de seu corpo se movendo misturado ao sibilo do vento. Seus pés estavam prontos para se mover, a tensão crescente enquanto ela se preparava para enfrentar o que quer que estivesse atrás dela.
Foi então que a viu. A estátua do anjo, que antes estava distante, agora se encontrava virada diretamente para ela. A pedra parecia fria, mas a ameaça era palpável. O medo se apoderou de sua garganta, e ela sentiu seu corpo tremer, seus músculos endurecendo. Mas Trrira não era fraca. Ela sabia o que precisava fazer.
A estátua se moveu...
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