Volume 1 – Arco 1
Capítulo 18: Por Pouco
Primeiro, um estalo seco — como se o internato tivesse respirado errado.
Depois, fissuras surgiam no teto, as paredes se abriram, o chão se fraturou.
E em segundos o corredor inteiro estava trincado, o teto fragmentado, as paredes se fissurando e o chão rachando como se a terra quisesse engolir a escola inteira.
Caos. Rápido. Imparável. Sufocante.
Alunos corriam sem direção, entre tropeços e empurrões, o pânico crescia, misturado ao estrondo do concreto cedendo. Alguns tropeçavam, outros se empurravam desesperados — professores tentavam organizar, mas suas vozes eram engolidas pelo estrondo.
No andar de cima, entre o pânico coletivo que varria os corredores, uma única figura não correu. Enquanto dezenas de adolescentes despencavam em direção às escadas, tropeçando uns nos outros na ânsia de escapar, ela permaneceu de pé — silenciosa, quase alheia ao caos. Os chifres de cervo que despontavam de sua cabeça a destacavam como uma presença estranha, quase etérea, uma alma calma em contraste brutal com a histeria à sua volta. O chão tremeu, rachaduras se espalharam como veias escuras sob seus pés, mas ela apenas fechou os olhos por um instante, inspirando devagar. Ao abrir os olhos, nenhum traço comum: brancos, sem pupilas, translúcidos como vidro antigo.
A magia pulsava como um organismo doente, viva e profana, empurrando a escola em direção ao abismo. A garota ergueu as mãos com uma lentidão quase ritual, e seus chifres brilharam em tons suaves de verde, roxo e dourado, firmando-se contra aquela correnteza de destruição. Só então, entre os estalos e o eco do desespero, alguém murmurou seu nome — Faelynn.
Atrás dela, dois colegas que haviam saído correndo de outras salas pararam de repente após chamarem seu nome. Nenhum deles ousou respirar alto. Seus olhos vidrados refletiam o brilho intenso dos chifres roxo-dourados. A aura rosada de suas mãos iluminava o corredor, traçando as fissuras do teto e das paredes como linhas de fogo, como se ela estivesse costurando a própria escola com pura energia mágica.
Com um gesto firme, Faelynn travou os dedos no ar, como se estivesse segurando as correntes invisíveis que rasgavam a estrutura. Cada fissura congelou no lugar por um segundo, o chão parando de rachar. A poeira caiu em silêncio repentino, suspensa pela tensão mágica. O peso da escola inteira parecia empurrar contra seu crânio; a dor explodiu em sua mente, latejando como se lâminas estivessem pressionando dentro de sua cabeça. Ela cerrou os dentes, os olhos tremendo, mas não cedeu.
O fluxo das rachaduras, no entanto, não era passivo — parecia responder, lutar contra ela. As linhas no chão vibravam, tentando avançar, quase como se algo profundo estivesse empurrando para romper. Faelynn arfou, os joelhos tremendo, mas manteve os braços erguidos. O ar ao redor dela ondulava, como calor no verão, e o estalo do concreto cessou por completo.
Lá embaixo, alguns professores ergueram o olhar, surpresos pelo súbito silêncio no teto. A poeira ainda caía em pequenas partículas brilhando sob a luz quebrada, mas as rachaduras haviam parado de se espalhar. Entre os alunos aterrorizados, poucos notaram a mudança — mas aqueles mais atentos sentiram que algo, ou alguém, segurava a escola com pura força de vontade.
Faelynn respirava ofegante, cada segundo pesado, o sangue pulsava em seus ouvidos, mas ela não soltou. Ela sabia que, se largasse, talvez fosse o fim não só do andar em que estava, mas de toda a escola...
***
Ártemis POV
Éeh... não é que ela salvou a escola, no fim das contas.
O poder dela não só parou as rachaduras. As fendas que estavam rasgando tudo... simplesmente estagnaram... e então começaram a se fechar, como se o castelo estivesse respirando de volta pra dentro. Não foi só contenção, foi reconstrução. E quando eu ouvi os amigos dela contando depois, eu não acreditei de primeira. Nem os Reconstrutores fariam isso sozinhos. Eles trabalham em esquadrão, com equipamento e tudo. Ela? Fez tudo sozinha, freou o colapso de uma fortaleza com a força da mente! E reconstruiu! Com a mente...! Aquilo ia cair, derrubar a escola inteira. Mas não caiu. Agora eu não consigo parar de pensar nisso. O que mais ela consegue fazer? Controlar matéria atômica? Voltar no tempo...? Pera... Éehh... não. Esquece. É que... Eu lembrei dos buracos que foram reconstruídos na terça-feira... Será que ela volta estruturas no tempo...? É muito parecido. Não? Não, deixa...
Bom... muitos levaram os créditos naquele dia. Eu, essa Faelynn, a Anaru, Firefy, o Glomme, a Trrira... todos aplaudidos por impedir mortes, destruição ou um caos ainda maior... Que a gente foi herói... Eu escutei tudo aquilo com a cabeça zunindo, porque nenhuma dessas pessoas tava lá de verdade. Não daquele jeito. Elas não sentiram o nosso desespero, não sentiram o ar pesado entrando e rasgando seus pulmões... Elas não viram seus amigos morrendo no chão... a certeza nojenta de que um segundo a mais podia acabar com tudo. Não tem aplauso que encoste nessa sensação.
Porque estar lá não foi bonito, nem épico... Foi feio. Foi rápido demais e lento demais ao mesmo tempo. Era como olhar pros lados e perceber que qualquer movimento errado podia virar um corpo no chão, que qualquer atraso podia ser o último erro. Aquilo não foi "a gente salvando o dia". Aquilo foi sobreviver por pouco... E o pior é saber que aquilo ali não foi nem o tudo. Foi só um pedaço... Uma amostra minúscula do que poderia ter acontecido... e talvez ainda possa acontecer de novo. Essa é a parte que ninguém aplaude, porque essa fica grudada na pele, mesmo quando todo mundo finge que já acabou.
Quanto ao Bulmer... Ele desmaiou depois de rachar parte da escola, como vocês viram. Os professores analisaram a situação dele e disseram que ele ia desmaiar de qualquer jeito, que aquele surto era temporário, e que ele não aguentaria tanta pressão no corpo, que o ataque — aquele que quase mandou tudo pro caralho — foi "proposital", porque o tempo dele tava acabando. Um roteiro bonito, fechado, pra ninguém fazer pergunta demais. Só que eu tava lá, porra. Eu vi antes de todo mundo. Eu senti.
E eu avisei. Falei que tinha algo errado, que alguma coisa entrou nele, que ele não tava só fora de controle, ele tava possuído, sequestrado por alguma merda que não era dele. E sabe o que eu ganhei? Um "cala a boca, Ártemis", uns olhares tortos, e muita gente me mandando parar de inventar coisa no meio de uma situação seria. Eu fiquei assistindo tudo desandar enquanto me diziam que eu tava exagerando. Agora querem fingir que foi simples, que foi escolha, que foi cálculo? Vai se foder.
Porque naquele momento, olhando meus amigos estirados no chão, eu só conseguia sentir a culpa me esmagando o peito... o medo me deixando com vontade de vomitar e uma raiva absurda — de mim... deles... de todo mundo — por eu não ter gritado mais alto, não ter quebrado tudo antes pra fazer alguém escutar. E isso é o que mais dói: não é só o que ele fez... é o fato de que dava pra ter sido diferente, e ninguém quis ouvir...
E é estranho pra caralho, sabe? Sobreviver e perceber, que nada vai ser igual nunca mais. Não tem volta, não tem "vida normal" depois disso. Que foi real, e isso assusta. Fica ali, grudado. A gente nunca vai esquecer esse dia. Nunca... Nem o cheiro da poeira entrando no nariz e queimando a garganta, nem o som seco dos escombros caindo, como se o lugar inteiro estivesse desistindo de ficar em pé.
E principalmente o olhar dele. Aquilo não era ele. Eu sei disso com cada osso do meu corpo. O que eu vi, que eu senti ali foi o vazio, sim, mas um vazio errado, como se alguém tivesse desligado o Bulmer e deixado outra coisa olhando por trás dos olhos dele. Não tinha intenção dele ali, não tinha vontade própria, não tinha culpa. Tinha alguma coisa usando o corpo dele como se fosse descartável. Quem tava ali pronto pra matar não era o Bulmer. Era o que entrou nele. E isso é o que me fode a cabeça: continuar andando, respirando, fingindo normalidade, enquanto essa imagem volta sem pedir permissão, de novo e de novo, me lembrando que o corpo dele saiu dali... mas alguma parte de mim ficou presa naquele momento, tentando provar pra mim mesma que eu não tava louca por acreditar que ele também foi uma vítima.
O internato enfrentou tempos difíceis; as aulas ficarão suspensas por três semanas. Após um aluno ter enlouquecido sem explicação. Outro aluno ter desaparecido misteriosamente minutos antes. Rumores tomaram conta dos corredores, e a escola nunca mais foi a mesma.
O impacto deixou marcas em todos. Bulmer, mesmo sendo o centro do caos, foi quem mais demorou a se recuperar. O corpo dele estava intacto, mas ninguém via o rastro persistente da força profana que o dominou e somente a Ártemis viu entrando nele. Ele só abriu os olhos dias depois, dopado de remédios, em um quarto frio de clínica psiquiátrica, sem conseguir distinguir o que era memória e o que era delírio.
Ártemis, que raramente deixava alguém ver fraqueza, teve de engolir o orgulho. Uma clavícula quebrada não parecia nada diante do que poderia ter acontecido, mas a imobilidade a irritava como se fosse pior do que dor. Ela voltou pra casa antes de todo mundo, ainda sentindo dor pra caralho, recusando qualquer internação longa porque ficar parada parecia pior do que sangrar. E Trrira, por sua vez, saiu com a lombar deslocada; cada movimento lembrava a fragilidade que ela odiava admitir. Ficou dias se apoiando em cadeiras e mesas antes de conseguir andar ereta de novo.
O caso mais grave foi o de Glomme. O goblin-humano passou por várias cirurgias delicadas no rosto, o que para qualquer outro sinthra teria sido irreversível. Mas a resistência mística de seu sangue goblin fez diferença: costuras que deveriam deixar cicatrizes eternas cicatrizaram rápido demais, e a regeneração mágica tratou de recompor feições que pareciam perdidas. Ainda assim, os médicos comentavam em sussurros — fosse ele totalmente humano, não teria sobrevivido.
Firefy, no entanto, nem pareceu ter estado lá. Como fada, a ligação dela com a cura era tão profunda que na mesma noite o corpo se fechou, a pele voltou a brilhar e as asas não tinham sequer arranhões. Enquanto todos ainda estavam entre camas e talas, ela já caminhava em sua casa, intacta.
Anaru também não ficou dias presa em hospital nenhum. Algumas horas deitada foram o bastante, o tempo exato de alinhar ossos quebrados, checar o que realmente tinha estourado por dentro. O resto foi rápido demais. Os cortes e arranhões que derrubaram ela naquela noite fecharam rapidamente, e no dia seguinte já dava pra levantar, andar, fingir normalidade. Não sobrou marca na pele, só aquela lembrança amarga de ter desmaiado no pior momento possível, presa na cabeça como uma falha que o corpo não conseguiu apagar.
Quando os dias pesados acabaram, Glomme recebeu alta oficialmente. Diferente dele, porém, Bulmer enfrentou uma nova realidade. Ele foi transferido da escola para receber aulas particulares em uma clínica para doentes mentais, afastado de qualquer outro jovem. O tratamento psicológico tornou-se uma imposição; era necessário lidar com a "doença" que achavam que o atormentava. Bulmer se sentia preso, odiando cada sessão de terapia e cada lição que passava, mas, no fundo, sabia que não tinha outra escolha. A sensação de solidão o acompanhava enquanto os dias se arrastavam, e ele se perguntava se algum dia poderia voltar a ser quem era antes.
Enquanto isso, Trrira enfrentava uma batalha própria. Em constantes discussões com seus pais, ela se via em um impasse. Eles queriam transferi-la para uma escola normal, sem qualquer tipo de magia ou perigo, para que pudesse focar na carreira que planejavam para ela. Para eles, as habilidades mágicas não era um futuro lucrativo; estavam determinados a moldar o futuro da filha de acordo com suas próprias aspirações. Trrira não conseguia entender como eles podiam ser tão insensíveis às suas vontades. Ela queria continuar a aprender sobre seus poderes, sonhando em se tornar uma grande heroína, mas cada argumento que tentava apresentar pra eles era abafado por suas expectativas. A frustração crescia dentro dela, e a sensação de impotência a deixava angustiada, sem saber como lutar por sua própria felicidade. Assim como Bulmer, Trrira se via sem escolhas, presa nas decisões que os outros tomavam por ela.
E durante o fechamento da escola, a vida de Ártemis virou um turbilhão. Sua família estava desesperada, especialmente o pai, decidido a tirá-la do internato escolar Velmoria — como os pais de Trrira haviam feito. Armon não enxergava que ela havia ajudado a salvar o lugar, só via o perigo, o caos, o estrago.
Mas Ártemis não cedeu. Enfrentou o pai com a certeza de quem descobriu o próprio limite só depois de atravessá-lo. Disse que tinha sido um acidente, que Bulmer foi possuído e que não foi culpa dele. Que coisas estranhas sempre aconteciam em Alfhenia. E que foi bom ter acontecido, porque ela só conseguiu usar seu poder daquela forma quando estava em ação de verdade, em perigo de verdade, quando não havia escolha além de reagir. Até então, seus poderes nunca tinham passado de pequenos tornados fracos no quintal, instáveis, quase ridículos, poderes que não assustavam ninguém. Só que naquela noite foi diferente, o poder dela veio inteiro, sem esforço, poderoso demais para ser ignorado, e isso mudou a forma como ela se via. Ártemis pediu que confiassem nela, não como filha obediente, mas como alguém que tinha encontrado um caminho próprio, acreditando que podia mudar o destino da família, sair da pobreza e provar, pela primeira vez, que podia ir além, que tinha nascido para algo maior.
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