Volume 1 – Arco 1
Capítulo 14: Campo Cego
Os corredores estavam quase vazios, apenas o eco de passos dispersos e portas se fechando ao longe. As últimas aulas tinham acabado há pouco. Lá fora, a lua surgia pelas janelas altas, fria e curiosa, iluminando os cantos do internato.
Lá em cima, na sala de treinamento ao terraço da academia, Kevin fechava o zíper da mochila com calma, como quem guarda não só o material, mas também o peso do dia. O vento frio da noite passava pelo espaço aberto, carregando consigo os últimos ecos dos alunos que saíam apressados.
E ali, no topo, ele ficou por um instante, só observando os planetas no céu, as estrelas, as luas — como se esperasse alguma coisa, antes de finalmente ir embora.
No instante em que Kevin se aproximava da saída. Um estalo ressoou na sala silenciosa. Alguém havia caído. Era Delal, o garoto que falava baixo e sempre parecia medir cada passo antes de se mover. Ele se encolheu, os olhos desviados, o rosto queimando de vergonha, desejando desaparecer ali mesmo. Kevin percebeu o pedido de desculpas implícito no gesto tímido, quase impossível de ignorar.
— Relaxa, campeão — disse Kevin, inclinando-se um pouco e estendendo a mão, com um sorriso breve que tentava aliviar a tensão. — Todo mundo tropeça de vez em quando, não é.
Delal aceitou a ajuda, evitando encarar diretamente, mas a vermelhidão no rosto o entregava. Mesmo assim, depois de soltar um “não foi nada” tão baixo e quase automático, ergueu o olhar como se tivesse reunido coragem para algo maior, e a pergunta saiu com um peso ensaiado, mas com uma voz suave demais para soar acusatória.
— Você... tem alguma coisa com a Anaru? — o jeito que ele disse “alguma coisa” fez Kevin parar no ato, franzindo a testa e estudando aquele olhar que parecia carregar uma curiosidade genuína, mas também uma observação que ele não esperava ouvir de alguém tão novo.
— O que é que você quer dizer com isso? — Kevin questionou , mas percebeu que Delal não queria encerrar o assunto. O garoto passava os dedos pelo próprio pulso, inquieto. Ele sem conseguir mascarar o leve desconforto continuou. — Se está falando sobre hoje, eu me importo com meus alunos, e isso não tem nada de especial; é literalmente por causa desses treinamentos que eu tenho o meu emprego aqui, e se alguém se machuca… ou pior… a responsabilidade cai inteira sobre mim.
Delal hesitou, mordendo o lábio inferior, antes de erguer o queixo de volta — como se cada palavra estivesse sendo escolhida com cuidado.
— É que… eu achei diferente. Quando ela perdeu, parecia que realmente importava pra você, é diferente de qualquer outro professor que eu já vi, e olha que nem meus pais ligam muito quando eu me machuco ou passo por alguma coisa ruim.
Kevin respirou fundo, sentindo a frase se alojar num canto desconfortável da mente, e respondeu com uma firmeza que talvez fosse mais pra si mesmo do que pro garoto.
— Claro que eu me importo... — disse ele, inclinando ligeiramente a cabeça e prendendo o olhar de Delal no seu. — Você também é meu aluno, e isso já te torna importante, não tem muito mais mistério do que isso.
O menino deu um passo mais perto, os olhos fixos como se quisesse atravessar qualquer fachada que Kevin tentasse erguer.
— Então... éh... será que você poderia se importar um pouco mais comigo? — perguntou Delal, com aquela voz que parecia tímida, mas carregava uma carência tão exposta que era impossível ignorar. — Eu sempre fico de reserva nos treinos, nunca consigo uma dupla, e às vezes parece que eu não faço parte de nada.
Kevin passou a mão pela nuca, olhando para o lado como se precisasse de um segundo para processar o pedido — havia algo ali que ia além da simples reclamação de um aluno esquecido.
— Olha Delal... posso te incluir mais nos treinos — Kevin respirou fundo, tentando manter o tom neutro. — E vou tentar dar um jeito de você não ficar de lado, pode confiar nisso.
Delal deixou escapar um sopro de descrença, mas um brilho leve apareceu no olhar, e então, num movimento rápido que Kevin não previu, ele avançou e o abraçou pela cintura — o corpo pequeno se encaixando no dele de um jeito que o obrigou a travar a respiração por um segundo, sentindo a pressão firme e a cabeça do garoto encostada no seu abdômen e peito.
Kevin ficou parado, surpreso com a proximidade inesperada de Delal. Por um instante, sentiu o peso daquele gesto e o que significava — um pedido silencioso de reconhecimento, de cuidado. Ele respondeu sem palavras, até que, quase por instinto, ergueu os braços e o envolveu também, consciente de que aquele contato carregava mais significado do que deveria, e que ambos sabiam disso.
— Obrigado, professor... — saiu abafado, baixo demais para ser ouvido por qualquer um além dele, carregando mais do que gratidão, como se fosse um segredo que só os dois podiam compartilhar.
Separaram-se devagar, e Delal foi embora sem se virar, os passos leves ecoando no corredor vazio. Kevin ficou ali, sentindo o toque dele ainda na pele, e soube que aquela conexão não iria se dissolver facilmente. O próximo treino seria diferente… e ele não sabia se estava pronto para isso.
Antes de sair, Kevin varreu o local com o olhar, o corpo ainda preso à tensão do momento. O medo de alguém ter visto latejava — especialmente se fossem Hanvasa ou Marla. No terraço, lá estavam elas, sentadas na mureta, cigarro na mão, a fumaça subindo junto da brisa fria. Pareciam distraídas... por um instante Kevin se perguntou se, por acaso, tinham visto mais do que deviam. Mas a brisa fria da noite apenas balançava levemente os cabelos delas.
Hanvasa soltava a fumaça devagar, enquanto comentava num tom que misturava curiosidade e surpresa.
— Você vai dormir aqui de novo, Ma? — perguntou, virando o rosto para encarar a colega com um meio sorriso cético. — Pensei que hoje ia voltar pra casa, ver as crianças.
Marla, que estava tragando no momento, quase tossiu, como se a pergunta tivesse pegado num ponto sensível. Ainda assim, manteve a postura, soltando a fumaça pelo canto da boca antes de responder.
— O Nanwil tá cuidando de tudo lá — respondeu, girando o cigarro entre os dedos, sem encarar diretamente Hanvasa. — É melhor eu passar mais uns dias aqui, dar um tempo... Sabe, sair um pouco do peso da maternidade. Vou ter muitos outros dias com eles, e... — deu um meio sorriso cansado, que tentava mascarar o desconforto. — Com ele desempregado, é o meu salário que tá segurando as contas. E ele aguenta.
Hanvasa observou a colega por alguns segundos, inclinando a cabeça com aquele jeito prático que sempre tinha.
— Entendo... Não é fácil mesmo — murmurou, apertando o cigarro entre os dedos antes de levar à boca novamente. — Eu não tenho filhos, então não vou fingir que sei o que você sente, mas sei que é um peso enorme. Eu mesma tô juntando grana pra ir pra Neblin, começar de novo... mas não saio dessa escola sem descobrir quem diabos fez aqueles buracos aqui.
O tom dela mudou, ganhando firmeza, e os olhos se estreitaram como se já tivessem um culpado em mente.
— É muito estranho, Marla. Aquilo não me engana — continuou ela, erguendo o queixo na direção das árvores lá embaixo. — Tenho certeza que não foi o Briaaron... ele encenou alguma coisa pra esse internato engolir a história. Não tem como o campo de proteção 11 ter falhado. Não faz três meses que a última análise foi feita, e estava tudo absolutamente normal, com o campo em plena função.
Ela ficou em silêncio por um segundo, os olhos se fixando num ponto distante, como se vasculhasse a própria memória. De repente, seu rosto nublou-se com uma expressão de frustração crescente.
Na verdade... — ela murmurou, baixando a voz num tom quase consigo mesma. — Na verdade, eles não testaram o campo, não é? Porra, só revisaram os registros... Eu nunca, nunca vi ninguém ativamente testar a barreira. Só confiam nos dados...! — ela suspirou, o som carregado de uma decepção ácida.
Ela fechou os punhos, a incredulidade transformando-se em raiva contida.
— Vinte anos... — continuou ela. — Essa escola tem mais de vinte anos, Marla. Mais de vinte anos confiando cegamente em um sistema que, pelo visto, nunca foi posto à prova de verdade. Nunca...! — ela suspirou, o som carregado de uma decepção profunda e ácida. — Que merda de segurança é essa? Que piada... Então... então é possível? Realmente pode ter caído algo aqui, e nós estávamos todos aqui dentro, pensando que estávamos seguros numa redoma que talvez nunca tenha existido de verdade.
A fumaça parou nos lábios de Marla. Não foi um susto comum. Foi um silêncio brusco, como se o ar tivesse sido sugado do lugar. Seus olhos não buscaram o céu como refúgio — ficaram presos no horizonte, fixos na enorme cúpula de proteção da escola, como se pela primeira vez estivessem enxergando o vazio ali.
Quando baixou o cigarro, a mão dela tremia levemente. Não de medo abstrato, mas do cálculo frio que estava fazendo.
— Se o campo nunca foi testado... se eles só revisam logs... — disse Marla, a voz dela saiu estranha, quase clínica. — Então não sabemos se ele falhou ontem. Nem sabemos se ele funcionou algum dia — continuou ela, sua voz baixa e áspera, a voz de quem vê um castelo de cartas balançar. — Certa. Você sempre está tão certa — ela balançou a cabeça, não em negação, mas em um lento processamento do horror. — Isso significa que estamos há anos sentados em uma gaiola, anos com medo do mundo lá fora, e o verdadeiro buraco estava bem aqui, no teto imaginário que a gente achava que nos protegia — ela apagou o cigarro com força excessiva contra a pedra do parapeito.
Quando terminaram, atiraram as bitucas para o escuro e viraram-se antes de verem a brasa morrer. Seus passos no terraço não ecoavam com o peso de uma descoberta, mas com a solenidade de um pacto.
Dentro da sala de treinamento, não apagaram todas as luzes. Uma permaneceu acesa, lançando um quadrado pálido de vigília contra a noite que engolia as montanhas e a floresta ao redor.
Ao fecharem a porta da sala, o som da fechadura não marcou um fim. Marcou o início. A ilusão de proteção estava morta do lado de fora. Agora, dentro daquela redoma de mentira quebrada, elas finalmente estavam seguras para começar a desmontá-la.
Hanvasa foi direto à sua escrivaninha, puxando mapas e registros antigos do internato com uma calma letal. Marla trancou a janela, mas não para manter algo fora. Foi um gesto simbólico, para selar o espaço onde trabalhariam.
A pergunta não precisava ser dita em voz alta. Por quê? Por que uma fortaleza falsa? Por que essa escola, neste lugar isolado, precisava de uma mentira tão elaborada?
A resposta não estaria em reuniões ou relatórios. Elas a escavariam, tijolo por tijolo da farsa, até encontrarem a fundação podre. O céu noturno, visto através do vidro, não era mais um teto. Era uma tela em branco, aguardando a verdade que elas escreveriam sobre ele.
Enquanto isso, nos corredores quase desérticos, Bulmer, Firefy e Glomme saíam da sala de poções, caminhavam rindo baixo e conversando calmamente, desviando dos poucos alunos que ainda estavam por ali, até que, de repente, pararam e perceberam que a passagem estava completamente bloqueada por Makkolb, Tiruli e várias garotas coladas neles. Makkolb exibia aquele sorriso arrogante de sempre, enquanto Tiruli parecia cada vez mais confortável no papel de galã improvisado. Mais à frente, Delaryn observava tudo com um olhar duro — repulsa misturada a algo que queimava por dentro, um ciúme disfarçado de confusão, sem nome e sem freio, cada gesto de Tiruli parecendo tocar algo que ele ainda não conseguia nomear.
— Mano, tu precisava ver o Tiruli hoje! — disse Makkolb, animado e rindo com aquela mania de dono do pedaço. — O moleque tá pegando geral igual a gente. Tá aprendendo, mano, quase que eu fico com inveja dele, se exibindo na frente de todas. E eu não aguento ver essas coisas, caralho.
Tiruli retribuiu a provocação com um sorriso, abraçando duas garotas de uma vez, a pose, cheia de charme. Os dentes cerrados num sorriso que escondia o nervosismo e a satisfação ao mesmo tempo, completamente alheio ao que Delaryn sentia por dentro. Mas Delaryn não tirava os olhos dele, e o incômodo crescia até virar náusea. Num impulso bruto, empurrou Makkolb e Tiruli com as mãos e abriu caminho, passando por eles com o corpo rígido e a respiração irregular. Os dentes cerrados, tentando não admitir o que aquela cena tinha mexido com ele. Makkolb xingou baixinho, irritado; Tiruli só piscou, sem entender nada do que tinha acontecido.
Mais atrás, Bulmer e Firefy quase se engasgavam para não rir, cúmplices no deboche da cena. Já Glomme ficou parado, os olhos arregalados e a mão grudada nos bolsos, como se tivesse presenciado algo que não deveria. Para ele, aquilo parecia mais espetáculo obsceno do que simples briga de corredor — uma mistura de ciúme, provocação e um jogo estranho de poder que deixava o ar pesado demais para ignorar. Enquanto aquele grupo de alunos tarados continuavam andando pelos corredores, sem a menor vergonha ou controle, rindo e cochichando entre si.
— Eu juro pra você, Bulmer, esse Delaryn é muito gay. Ou bi. Tanto faz. Eu tenho certeza que ele gosta do Tiruli — disse Firefy, inclinando o corpo para frente, a voz baixa, mas carregada de certeza e ironia ao mesmo tempo, tentando provocar o amigo e rir da situação.
Bulmer, ainda boquiaberto com tudo o que tinha acabado de testemunhar, respondeu, sem conseguir disfarçar o choque misturado com curiosidade:
— Sério...? Será que ele é mesmo? Tipo... Todo mundo fala dele como se ele fosse o hétero mais macho da escola, mas acho que ninguém sabe direito como ele realmente é.
Glomme, sentindo o celular vibrar no bolso, olhou a mensagem que piscava na tela: era Ártemis pedindo que eles se encontrassem com ela e Trrira nos toilettes do terceiro andar. Mostrando a mensagem para Bulmer e Firefy, os três trocaram olhares rápidos, sorrindo baixinho, e retomaram o caminho pelos corredores e escadas, tentando não tropeçar nas próprias pernas ou rir demais, mantendo o coração acelerado e o cérebro rodando, pensando em tudo o que tinham acabado de ver e no que ainda estava por vir.
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