Volume 1 – Arco 1

Capitulo 13: Nada Se Apaga

Duas horas depois, o gramado do pátio frontal respirava um silêncio morno, quebrado só pelo vento passando baixo e o som distante da escola funcionando como se nada tivesse acontecido naquele dia. Eles estavam espalhados de forma quase íntima, corpos deitados lado a lado, alguns de barriga pra cima, outros virados de lado, dividindo o silêncio confortável e as risadas baixas. As mochilas servindo de travesseiro improvisado, o céu acima grande demais para qualquer problema caber inteiro ali. Bulmer falava olhando para cima, braços abertos, como se confessar deitado fosse mais fácil, enquanto Ártemis e Trrira acompanhavam com risadas preguiçosas. Glomme e Firefy permaneciam quietos um em cada canto, próximos o suficiente para ouvir tudo, longe o bastante para não serem obrigados a responder nada.

— É sempre assim, sabe — disse Bulmer, a voz calma, quase preguiçosa, enquanto desenhava formas invisíveis no ar com os dedos. — No começo é carinho, promessa, beijo lento, e do nada vira prisão; querem saber com quem você fala, onde vai, o que sente, como se amar desse direito de te encolher até caber no medo deles.

Ártemis virou o rosto de lado, o cabelo espalhando pelo braço e pelo gramado, o riso meio desacreditado de quem nunca viveu aquilo, mas reconhecia o absurdo só de ouvir. Os olhos semicerrados pelo sol, mas atentos demais para alguém realmente relaxada. Ela mexeu o ombro na grama, como quem se ajeita melhor pra conversa que estava ficando boa demais pra acabar rápido. 

— É por isso que eu nunca namorei — disse ela, sem vergonha nenhuma de admitir, a voz carregada de ironia e sinceridade. — Na verdade, é meu pai que odeia a ideia, sempre odiou, ele sempre manda mensagem perguntando se eu tô namorando só pra saber quem é, de onde veio, o que faz; é um saco, parece interrogatório.

Trrira riu alto, aquele riso solto que vinha do fundo do peito. Ela apoiou a cabeça no braço dobrado, o olhar brilhando porque se reconhecia demais naquele discurso. 

— Meus pais é igualzinhos. — disse ela, ainda rindo, mas com um fundo de cansaço que escapava. — Sempre tem alguém querendo te moldar, né. Incrivel que querem sempre decidir o que é melhor pra você, como se amar fosse controlar; eu fico calada, mas só pra não mandar todo mundo à merda.

Bulmer virou o rosto pra Trrira, sorrindo de um jeito mais aberto agora, sentindo que ninguém ali estava julgando nada. Ele respirou fundo, deixando a voz sair mais solta, quase como se estivesse falando algo que precisava sair há tempo.

— O pior é quando você é honesto desde o começo — continuou ele, a voz calma demais pra alguém claramente cansado disso tudo. — Eu sempre falo quem eu sou, com quem já fiquei, o que sinto, o que sinto, o que não sinto… jogo tudo na mesa. Aí, mesmo assim, tentam me prender. Às vezes eu não sei se eu tenho um péssimo gosto ou se sou um ímã pra gente emocionalmente desequilibrada — ele soltou um meio sorriso torto. — Parece que a verdade assusta mais do que a mentira, e no fim sobra pra mim. E isso cansa pra caralho. 

Por um segundo ficou um silêncio estranho, quebrado rápido demais por risadinhas abafadas. Trrira riu alto sem conseguir se segurar, Ártemis balançou a cabeça concordando, e até Firefy e Glomme acabaram soltando um riso curto, daquele que vem mais por identificação do que por piada.

Glomme ouviu tudo em silêncio, o sorriso pequeno e contido, o coração batendo um pouco mais rápido do que devia. Ele queria falar, sentia vontade, mas a coragem ficava presa na garganta, dura demais pra passar. Ver Bulmer tão aberto sobre si mexia com ele de um jeito estranho, admirável e doloroso ao mesmo tempo, como olhar alguém vivendo algo que ele ainda não conseguia nem nomear.

E Firefy também não dizia muito, mas o silêncio dela era diferente, menos tenso, mais contemplativo. Ela ria de canto, acompanhando a conversa com os olhos, sentindo aquele calor estranho de pertencimento. Não precisava se abrir agora. Não precisava explicar nada. Só estar ali, ouvindo, já era o suficiente por enquanto, enquanto o céu escurecia devagar e deixava a conversa aberta, sem pressa de terminar.

Horas se passaram. O gramado estava frio agora, úmido o suficiente pra lembrar que o tempo passava mesmo quando eles queriam congelar aquele momento. Bulmer ficou um tempo em silêncio, respirando fundo, os olhos fixos em nada específico, como se estivesse escolhendo palavras que não ferissem mais do que o necessário. Quando falou, a voz saiu mais baixa, mais densa, carregando algo que claramente não era só curiosidade.

— Posso perguntar uma coisa pesada? — disse Bulmer, girando o rosto pra encarar todos aos poucos, sem pressa, sem ironia. — Amar alguém que não te ama… insistir por alguém que nunca te enxerga do mesmo jeito… isso muda a gente por dentro, né? Tipo, te quebra em lugares que você nem sabia que existiam. Vocês já sentiram isso, de verdade, daquele jeito que vira trauma?

O silêncio não assustou ninguém. Ártemis foi a primeira a reagir, o peito subindo num suspiro fundo demais, como se o ar tivesse ficado curto. Ela olhava para o céu, os braços cruzados nas costas enquanto apertava a grama, os olhos úmidos, brilhando, mas firmes, sem vergonha nenhuma de estar exposta daquele jeito.

— Eu... senti, sim — disse Ártemis, a voz cheia de peso. — E não foi pouco. Eu amei alguém num nível tão ridículo, do tipo que você começa a se apagar pra caber no mundo da pessoa. Eu... teria feito tudo por ele, tudo mesmo, inclusive morrer, sem drama, sem pensar duas vezes.

Ela riu baixo, um riso amargo, fechando os olhos com força antes de continuar, como se estivesse enxergando algo antigo no ar.

— Eu imaginava apocalipses — completou ela. — O mundo acabando, o céu caindo, tudo pegando fogo... e em todos eles eu largava tudo e corria pra passar os últimos segundos ao lado dele. Mesmo sabendo que, pra ele, eu nunca fui prioridade. Isso fica, sabe. É complicado...

Trrira ouviu em silêncio, o rosto sério e meio triste, absorvendo cada palavra. Quando falou, não foi com deboche nem leveza, mas com uma honestidade crua que contrastava com a intensidade da Ártemis.

— Eu nunca cheguei nesse ponto... — disse Trrira, deitando e colocando as mão na barriga devagar, mas com os olhos mais atentos do que nunca. — Nunca amei alguém assim. E, sendo sincera, às vezes fico me perguntando se isso é proteção ou vazio. Eu vejo vocês falando e penso se tem algo quebrado em mim por não sentir desse jeito… ou se eu só tive sorte de não me perder em alguém.

Ela respirou fundo, coçando a nuca, rindo sem humor.

— Mas ouvir vocês dói um pouco — completou ela. — Porque parece bonito e destrutivo ao mesmo tempo. E eu não sei se eu sobreviveria a isso.

Firefy demorou mais pra falar. Ela estava quieta demais, os dedos brincando com a grama, o olhar distante, como se estivesse sentindo algo antigo se mexer. Quando finalmente abriu a boca, a voz saiu suave, mas carregada de medo e desejo misturados.

— Eu queria sentir também — disse Firefy, quase num sussurro. — Mesmo sabendo que fadas morrem quando amam demais... Que a gente se dissolve, some, perde o brilho... eu ainda queria saber como é amar alguém a ponto de esquecer de si. Talvez seja egoísmo meu... Talvez seja só curiosidade. Mas viver sem nunca sentir isso também parece uma morte lenta...

Bulmer ouviu tudo em silêncio, o peito apertado, sentindo aquela mistura estranha de pertencimento e dor compartilhada. Então ele se inclinou e olhou pra Glomme. Não houve pressão no gesto, só reconhecimento. A pergunta veio baixa, respeitosa, mas impossível de ignorar.

— E você, Glomme... — disse ele devagar. — Você sabe como é isso, né? Amar alguém que não te ama, que some da sua vida enquanto você fica ali, chorando todos os dias, tentando entender o que faltou em você.

Glomme ficou imóvel por alguns segundos. O sorriso nervoso apareceu, fraco, e morreu rápido. Ele desviou o olhar, encarando o céu escurecendo, os olhos brilhando demais. Quando falou, foi como se cada palavra custasse caro.

— Eu sei... — disse ele, a voz baixa, quase quebrada. — Sei o que é acordar todo dia esperando uma mensagem que não chega. Sei o que é se culpar, se diminuir, achar que se fosse diferente a pessoa teria ficado. Sei o que é amar alguém que te abandona e continuar amando mesmo assim, porque o sentimento não obedece lógica.

Ele respirou fundo, engolindo em seco, claramente lutando pra não ir além.

— Mas é um lado meu que eu não gosto de abrir, desculpa... — completou, com um meio sorriso triste. — Não porque não confio em vocês… mas porque dói lembrar que eu já me perdi assim, sabe... E ainda não sei se me encontrei de novo.

Todos assentiram mas ninguém falou nada depois disso. Eles relaxaram enquanto olhavam a lua no céu. E naquele silêncio pesado, mas acolhedor, ficou claro que amar — ou insistir — deixava marcas profundas demais pra serem apagadas fácil, e que ali, deitados no gramado, eles estavam dividindo não só histórias, mas feridas que ainda estavam abertas.


Quase sete da noite. O céu já tava todo azul escuro com um filtro brilhante da lua. E as últimas aulas escorreram pelo ralo como o resto do dia.

Fim de expediente.

Todo mundo fingindo que nada aconteceu. Clássico.

A enfermaria era fria, estéril, e cheirava a limpeza forçada. Nada ali lembrava uma escola. Nada ali lembrava algo vivo.

As luzes estavam baixas, e o único som constante era o bip irregular do monitor cardíaco preso ao corpo da garota desacordada. Anaru estava deitada numa das camas isoladas, envolta em lençóis brancos demais pra parecerem confortáveis. O rosto virado pro lado, os cabelos bagunçados ainda com resquícios de grama, poeira e suor seco.

Vaskara entrou sem fazer alarde. O som dos saltos ecoava pelo chão, passo por passo, ela se aproximava da maca onde Anaru estava deitada, cercada por fios, com marcas roxas nos braços, o rosto inchado, e os olhos imóveis. Cruzou os braços e suspirou, o peito subindo com arrogância controlada.

Mas então os dedos de Anaru mexeram. Depois os braços. A máquina ao lado bipou com mais força.

Vaskara deu um passo pra trás, surpresa, mas não assustada.

Anaru abriu os olhos. Devagar. E assim que a visão estabilizou, o rosto dela não transmitia dor, nem confusão — mas ódio puro.

— Você... — a voz dela saiu rouca. — Sua desgraçada...

— Já tá falando? Achei que tivesse perdido o maxilar junto com o resto da dignidade — disse Vaskara enquanto recuava um pouco, erguendo uma sobrancelha.

Anaru não pensou duas vezes. Os músculos gritaram, mas ela levantou da maca como uma marionete possuída pela raiva, arrancando fios e derrubando uma bandeja de metal no chão com um estrondo. Pulou em cima de Vaskara como uma fera. As mãos dela foram direto pro pescoço da rival.

— Você prometeu, caralho! — berrou Anaru, os olhos arregalados, os dedos pressionando com força o pescoço de Vaskara, que caiu de costas contra a parede, tossindo. — Era pra você ganhar, não pra me deixar em coma, sua puta!

— Me solta, sua louca — rosnou Vaskara, batendo os joelhos contra a barriga de Anaru, tentando afastá-la.

— Você me pagou! — cuspiu Anaru, as mãos ainda firmes. — Era um acordo! Só pra fingir...

Com um grunhido, Vaskara empurrou Anaru com força contra a maca, levantando-se num movimento seco. Anaru caiu de lado, ofegante no chão.

— Você devia agradecer que tá viva, sua inútil — cuspiu Vaskara, ajeitando a gola do uniforme. — Você achou mesmo ia me derrubar no meio da arena e sair andando? Achou que eu ia deixar aquelas asas ridículas me fazerem passar vergonha na frente de todo mundo?!

— Eu devia ter te matado ali... — Anaru cuspiu sangue no chão. — Eu devia ter te lançado da porra daquele terraço.

Vaskara soltou uma risada seca, desdenhosa.

— Agora vai bancar a fortona? Você é fraca. Você se vendeu, e ainda quer bancar a justiceira?

Anaru tentava se levantar. Trêmula, suando, com a respiração falhando entre arfadas que misturavam dor e ódio. Os olhos estavam arregalados como se queimassem de dentro pra fora.

— Acabou — disse ela. — Não tem mais acordo, não tem mais jogo comprado. A próxima vez que a gente se enfrentar... vai ser com a porra da plateia inteira sabendo que você é uma fraude. Que você me pagou pra perder.

Vaskara congelou. Por dois segundos. O suficiente pro veneno ferver por baixo da pele.

— Cuidado com o que você tá falando.... Você que veio atrás de dinheiro, sua puta...

— Eu vou te destruir, Vaskara — continuou Anaru, a voz firme. — Eu vou desenterrar essa merda toda. Todo mundo vai saber que a princesinha dos Caçadores compra vitória no campo. Que você é só fachada. Um monstro mimado bancado pelo pai.

O tapa não veio. Mas o olhar que Vaskara lançou podia fazer qualquer um recuar dois passos.

— Se alguém descobrir, eu mato você, garota. Eu te enterro debaixo de um cemitério e cavo com as próprias mãos se precisar — a voz dela agora era um sussurro gélido, e o sorriso, seco. — Você quer jogar sujo com essa historinha de merda? Vai em frente, porra. Mas você nunca vai entrar no meu caminho. Eu sou o topo da cadeia alimentar, Anaru. Você é o aviso do que acontece com quem tenta subir demais. Tenta, aberração. Agora é pessoal. Você cavou sua própria cova com essas asinhas nojentas.

Anary começou a tossir sem parar. E as duas ficaram ali, por segundos, respirando pesadamente.

Nenhuma vai recuar.
Nenhuma vai perdoar.
E só uma delas vai sair andando no final.

A guerra começou com palavras.
Mas pode apostar que vai terminar com muito sangue.


A porta se abriu com um estrondo, e a enfermeira entrou correndo. Mas Anaru mal percebeu a presença dela. O que se impôs foi a imagem da Vaskara indo embora, ajeitando o cabelo com calma, como se não tivesse anunciado a morte de Anaru segundos antes. A porta bateu tão forte que o batente tremeu. E Anaru ficou no chão, as mãos tremendo sem controle, o peito subindo e descendo rápido demais, o sangue latejando alto dentro dos ouvidos.

A enfermeira a segurou pela cintura e a empurrou para a cama, usando o peso do próprio corpo para mantê-la deitada. Ela afundou nos braços da enfermeira, a cabeça virada para o lado, cuspindo sangue pelo canto da boca. Os olhos estavam secos, mas tremiam. Não era medo. Era ódio. Raiva crua. E uma certeza ardendo mais forte que qualquer ferida: aquilo não seria esquecido.

A partir daquele dia, Anaru começou a contar.
Não os próprios dias.
Mas os de Vaskara.

 

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