Volume 1 – Arco 1
Capitulo 12: O Mundo Segue
Anaru tentava usar as mãos para se levantar, mas sem sucesso imediato.
A força do golpe havia a deixado momentaneamente subjugada, uma sombra entre as nuvens de pó e terra.
Do lado de fora da poeira, Kevin invadiu o campo num ritmo quase hesitante, passos largos e nervosos sobre o chão instável. Ele tinha visto a explosão de poeira de longe, ouvira o baque que parecia um desmoronamento — e aquilo não era mais uma luta qualquer. O pavor no rosto dele deixava isso bem claro.
Ele se aproximou rápido. E quando finalmente viu a imagem de Anaru caída, imóvel. Kevin congelou. O peito dele se contraiu num soluço mudo. Aquilo não era normal.
— NÃO... não, não, não... — sussurrou, se ajoelhando do lado dela. — Anaru?
A garota jazia ali, o rosto parcialmente coberto por poeira, os braços tortos. O corpo parecia todo quebrado. Kevin tocou de leve o ombro dela, depois deu um pequeno chacoalhada, as mãos tremendo. O terror no olhar de Kevin deixou isso claro quando ele agachou no meio do campo, olhos arregalados, e gritou com o coração na garganta, mandando chamarem os reconstrutores e os enfermeiros.
E no meio daquele caos, Vaskara andou. Simplesmente passou por eles. Não olhou pra trás, não hesitou, não se virou. As costas eretas, os passos firmes. Como se o mundo não estivesse rachado às suas costas. E só no canto da boca, por um segundo, um sorriso — não de vitória, mas de constatação. Como se aquilo, no fundo, já estivesse escrito desde o começo.
O caos só aumentava. Os estalos continuavam nas rachaduras. Os Reconstrutores entraram em campo apressados, manipulando o solo com gestos amplos. As rachaduras iam se reconstituindo como cicatrizes curando em câmera rápida, os pedaços de terra se encaixando de volta com rangidos e brilho arcano, enquanto o chão inteiro parecia respirar aliviado.
Dois enfermeiros chegaram deslizando pelo campo e se ajoelharam do outro lado de Kevin. Ele cedeu espaço sem dizer uma palavra. As mãos ainda tremiam. E os enfermeiros falavam, mas ele só ouvia o som das rachaduras se fechando — como se fosse o último fôlego do erro.
Enquanto Anaru era cuidadosamente imobilizada e levada pra enfermaria numa maca encantada que levitava alguns centímetros do chão, a multidão começava a se dispersar, misturada entre cochichos, indignação, e o gosto amargo da derrota que ninguém ali queria admitir que estava sentindo por ela.
E o mundo seguiu. Porque o mundo sempre segue, mesmo quando alguém quase morre estatelado no chão de uma arena escolar.
Os treinos voltaram como se nada tivesse acontecido. Os cochichos viraram piada de corredor. A diretoria fez aquele teatrinho básico de responsabilidade. Mandaram Vaskara e Kevin pra sala do Aelzy, sentaram todo mundo, conversaram em tom baixo, registraram no sistema. Tudo muito limpo, muito protocolar.
Kevin conversou com o Aelzy depois, sem plateia, sem pose. Contou, meio travado, que a luta tinha saído do controle, que a Vaskara quebrou os ossos de Anaru como se não estivesse lutando com alguém de verdade, só testando força. Aelzy ouviu tudo em silêncio, com aquela cara de quem entende exatamente o que aconteceu — e exatamente o que não ia dar em nada.
Porque é a Vaskara.
Vaskara não é só uma aluna forte. Ela é o tipo de pessoa que entra numa sala e o ar muda. Treina como se estivesse sempre em guerra, luta sem medir consequência, não perde o sono com limites. Ganha tudo, quebra tudo, e segue em frente. E ninguém encosta nela. Ninguém nunca encostou.
E o Kevin se ferrou bonito nessa história. A culpa caiu mais no colo dele do que deveria. Professor irresponsável, aula mal calculada, treino que passou do limite. Pelo menos Anaru não morreu — e esse “pelo menos” pesava mais do que devia. Aelzy no fim concordou que daquele jeito não dava pra continuar.
Criaram uma nova fórmula de treinamento pro Kevin dar aula. Mais controle, mais divisão de níveis, mais limites claros. Menos arena, mais sobrevivência. Não era punição oficial, mas era o recado: alguém precisava segurar aquela bomba antes que ela explodisse de vez.
E a Vaskara? Bem. Vamos ser sinceros. É a Vaskara. Os pais dela têm dinheiro suficiente pra comprar o terreno inteiro da escola e ainda transformar em shopping com estacionamento VIP. Então nada aconteceu de verdade. Até mandaram ela pro Setor, a detenção de castigo com trabalho voluntário nos corredores, banheiros e cantinas, mas todos ali sabiam que ela não iria cumprir. E ela nem reclama da punição; já foi tantas vezes que virou rotina. Em todas, ela dava um jeito de fugir ou simplesmente cagava pros afazeres. No fim, nenhuma consequência real, nenhuma mancha visível.
Aelzy com mais um arquivo engavetado, e a Vaskara com o histórico limpo como sempre. Só mais uma mancha invisível num sistema que faz questão de continuar impecável.
Em seguida, o vestiario feminino do quinto andar se tornava um ambiente sufocante, abafado pelo vapor e pânico, onde a agonia da escola inteira escorria pelas paredes de azulejo branco sujo. Sob a luz fluorescente que tremia e zumbia, corpos nús e seminus se aglomeravam sob os jatos de água quente dos chuveiros. Os espelhos estavam embaçados, o chão molhado demais, mochilas jogadas em cantos errados, toalhas molhadas, algumas manchadas de maquiagem ou sangue menstrual seco e garotas falando alto demais. Era um espaço enorme mas parecia apertado demais para tanta tensão acumulada.
A porta de aço abriu-se e bateu na parede com um barulho que calou todas as vozes. E as três garotas do terceiro ano entraram em formação, um pequeno pelotão de execução. Calista Kingswell parou no limiar, seus olhos claros percorrendo a cena com um desprezo tão físico que parecia limpar o vapor à sua frente. Seu nariz franziu quando sentiu o fedor do lugar, uma mistura de mofo e fluidos corporais esquecidos, atingiu-a em cheio.
— Que porra é essa? — a voz dela cortou o ar, rouca e carregada de desdém. — Parece um abatedouro de vacas... — ela deixou sua mochila de couro cair no chão encharcado com um baque surdo, sem se importar com as maquiagens dentro. — É sempre a mesma porra, todo santo dia essa canalhada de vaginas baratas sem educação transforma o único lugar que presta num chiqueiro público. Parece que foram criadas por porcos.
Ela não esperou resposta. Começou a se despir no meio do banheiro, arrancando a blusa e a saia do coro e jogando-os em cima dos bancos. Ficou só de calcinha e sutiã por um instante, o corpo magro e duro como um arame farpado, antes de arrancar o último pedaço de roupa. Ninguém dentro dos chuveiros se moveu; o som da água caindo sobre corpos anônimos continuou, um desafio mudo. Calista olhou para Lorna, que desabotoava o jeans, e para Maíra, que já estava nua, encarando a imundice do local ao seu lado.
— Vocês acham que isso aqui é um clube social, suas vadias analfabetas? — gritou Calista, avançando pelo chão escorregadio, seu corpo preto destacando-se contra o branco sujo dos azulejos. — É um vestiário, vadias. Não um parque aquático para suas bundas suadas e seus dramas de merda. Saiam agora, antes que eu perca a paciência e faça vocês engolirem essa água de xereca suja.
O silêncio que se seguiu foi mais insultuoso que qualquer resposta. Calista não hesitou. Seu corpo reagiu com uma violência coreografada pela raiva. Ela se lançou para a frente, os pés descalços encontrando firmeza no azulejo áspero, e suas mãos, com unhas pintadas de vermelho escuro, fecharam-se como garras em dois punhados de cabelo molhado de duas garotas diferentes. Um grito duplo e agudo, rasgou o ar, mais alto que o barulho da água, quando ela puxou com toda a força para trás, arrancando as duas garotas do fluxo do chuveiro.
— Vão aprender a obedecer, suas porcas nojentas — rosnou ela, os dentes cerrados, enquanto arremessava os dois corpos nus e escorregadios contra o chão. O impacto foi úmido e brutal, um baque de carne e osso contra cerâmica, seguido por um gemido de ar sendo expulso de pulmões jovens. Uma delas deslizou e bateu a cabeça na quina de um armário com um som seco e horrível.
Antes que o eco da primeira violência se dissipasse, Calista já havia virado, seu olhar predador encontrando outra presa — uma garota mais nova, paralisada de medo sob um chuveiro. Ela a agarrou pelo braço, a unha cravando-se na carne até fazer sangrar, e usou o impulso para arremessá-la sobre as duas que ainda se contorciam no chão. O trio de corpos nus, machucados e humilhados, se amontoou em um emaranhado de membros pálidos e choros abafados.
Lorna e Maíra, não disseram uma palavra sequer. Elas simplesmente contornaram a pilha de garotas no chão, seus rostos impassíveis, e entraram sob os jatos de água quente que agora estavam livres, como se aquela fosse a ordem natural das coisas. Calista fez o mesmo, entrando no último chuveiro, deixando a água quase escaldante lavar a adrenalina e o suor de sua pele. Ela inclinou a cabeça para trás, os músculos do pescoço tensionados, e fechou os olhos por um instante, em paz.
As garotas no chão se recomporam como animais feridos, arrastando-se para longe, escorregando em seu próprio sangue — um filete vermelho vivo que se diluía rapidamente na água rosa que corria para o ralo. Elas apanharam toalhas sujas do chão para cobrir seus corpos, e fugiram cambaleantes, sem olhar para trás, deixando somente um rastro de humilhação e o cheiro metálico do medo.
Com a água escorrendo por suas costas delineando cada vértebra, Calista abriu os olhos e falou, sua voz soando clara e mortalmente calma no espaço que agora só tinha o som da água e da respiração ofegante das outras.
— Eu quero esse lugar limpo, seco e cheirando a desinfetante quando eu voltar depois — ela declarou, sem levantar a voz, mas cada sílaba ecoando como um decreto. — Se qualquer uma de vocês, qualquer miserável preguiçosa, pensar que pode deixar uma escova de cabelo ou uma calcinha suja aqui, ninguém mais vai usar esse andar, e vocês vão se lavar com a próprio cuspe no banheiro do térreo.
As garotas recolheram suas coisas em silêncio apressado, mãos tremendo enquanto puxavam roupas molhadas dos armários entupidos e enfiavam tudo nas mochilas sem se importar com ordem ou dignidade. Ninguém se olhava nos olhos. O vapor ainda queimava a pele, mas o frio vinha de dentro, daquela humilhação que gruda. Elas saíram uma a uma enroladas em toalhas, escorregando pelo chão úmido, ombros curvados, passos rápidos demais, como se o banheiro pudesse engoli-las se demorassem mais um segundo.
Minutos depois, não demorou para Calista Kingswell ser mandada pro Setor depois de jogar três garotas no chão do vestiário e expulsar o resto dos chuveiros como se fosse dona do espaço. Ela não negou nada. Só atravessou o corredor, assinou a detenção e seguiu direto pro seu dormitório, largada na cama, mexendo no celular como quem acabou de vencer uma aposta.
Era simples assim. Igual à Vaskara. Família poderosa, dinheiro velho, influência suficiente pra transformar agressão em “incidente”. O tipo de aluno que ninguém peita sem calcular o preço depois. E todo o corpo docente sabia: levantar a voz pra esse tipo de gente era o caminho mais curto pra ser afastado, processado ou simplesmente substituído.
E o Aelzy sabia disso melhor do que ninguém. Ele se importava muito com o emprego. Com o salário. Com continuar ali. Então fechava os olhos pra muita coisa. Não por concordar — mas porque, naquele lugar, justiça tinha limite, e o limite sempre parava onde começava o dinheiro desses jovens com sobrenomes pra se proteger.
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