Volume 1 – Arco 1
Capitulo 11: A Plateia Decide
Ahelys POV
Bom... Oi, eu sou a Ahelys. Se vocês me vissem na rua, diria que eu sou só uma garota calma, na minha. Mas a verdade é que eu sou meio obcecada por ele. E pelo sucesso também. Eu sempre quis ser uma caçadora dessa escola, queria ter o rank dele, a fama e o respeito que ele tem... só que, em algum momento, eu parei de querer o lugar dele e comecei a querer ele junto.
Delaryn.
Às vezes eu acho que tô aqui só porque ele me deixa ficar.
Não pelo que ele diz... porque ele não diz porra nenhuma. Mas pelo que ele faz. Pela forma como ele me olha depois de gozar dentro de mim e mandar eu dar um jeito nisso. Sempre com esse tom raso, nojento, como se eu fosse uma maldita lata de descarte.
Já aconteceu tantas vezes que virou rotina.
Nunca é um "você tá bem?", nem um "desculpa", nem um "precisa de algo?". Nada. É sempre assim: ele chega, me usa como se eu fosse um equipamento de treino e vai embora. E o pior é que eu deixo, porque o toque dele é a única coisa que me faz sentir que eu ainda estou no jogo. E porque eu não sei o que fazer com essa parte minha que ainda espera o amor dele.
Às vezes acho que, se eu sumisse amanhã, ele só levaria cinco minutos para encontrar outra garota para ocupar o meu lugar no pescoço dele. Eu sou descartável e sei disso, mas meu corpo insiste em querer mais.
Quem é a Ahelys quando ele não está? Porque agora eu só me sinto alguém quando ele está me apertando contra a parede. Sem ele, eu sou só uma caçadora medíocre com um rank que não sobe nunca. Eu me apaixonei pelo brilho dele e acabei ficando no escuro.
Minutos depois do sinal da próxima aula, uma das turma subia até o terraço, onde a sala de treinamento físico se abria para o campo externo — uma sala no topo da escola com uma das paredes laterais completamente ausente, abrindo uma abertura para um vasto campo sintético no terraço. Dali, a vista era absurda: os planetas pairavam enormes no céu, as montanhas surgiam, e até as regiões onde outras escolas ficavam brilhavam apenas como vazios distorcidos — camufladas pelos campos mágicos de proteção que as deixavam invisíveis também. De volta ao terraço, equipamentos de treino ficavam espalhados pelo gramado que permanecia calmo, contrastando com a agitação do lado de dentro da sala de treinamento.
Sob o olhar tenso do professor Kevin, os pares se formaram, mas ninguém dava a mínima. Cabeças se viraram em sincronia, pescoços se esticando, bocas se abrindo num misto de choque e excitação:
— Vaskara...
— Anaru?!
— Vai dar merda...
— Não acredito que o Kevin autorizou isso.
Lá fora, no campo de treino, a grama parecia prender a respiração. Os alunos cercavam o espaço como uma plateia faminta, formando um círculo longo. O céu aberto refletia o mesmo tom carregado de tensão no ar — havia um clima de julgamento, como se qualquer passo em falso custasse não só a luta, mas a reputação.
Vaskara se alongava com precisão, os movimentos controlados, prontos pro impacto. Focada, como quem se aquece para a guerra. Os ombros girando, o pescoço estalando devagar, os punhos cerrados e firmes, os olhos fixos na adversária com uma calma perigosa.
Anaru também se preparava. Estava silenciosa. Um pouco dura demais. Suava antes mesmo da luta começar.
— Sem show. Sem chilique. Técnica limpa. E brutalidade só com propósito! — gritou Kevin, abrindo espaço com os braços.
O primeiro ataque veio como uma explosão.
Vaskara se lançou com o rugido de uma fera — não um grito qualquer, mas um som de carne rasgando o próprio limite. O corpo dela se contraiu e explodiu pra frente com uma precisão assutadora. O primeiro soco foi rápido. O segundo, mais rápido ainda. O terceiro, um borrão.
O impacto dos socos reverberava pelos ossos de Anaru mesmo ao bloquear. Cada pancada contra os antebraços fazia os músculos arderem. O som era seco e duro, reverberando no campo. Cada impacto parecia arranhar o silêncio da plateia.
Perto da beirada do campo, quatro silhuetas se destacavam no meio da plateia. Delaryn estava recostado com os braços cruzados, sorrindo como quem já sabia o final da história. Makkolb mastigava alguma coisa com a boca aberta, sujando o uniforme. Tiruli, sempre mais quieto, assistia com os olhos semicerrados, mas com um canto de sorriso que denunciava o prazer daquilo tudo. E Misha, estava sentava um pouco atrás mas entre eles, com o rosto sério, como se estivesse sendo obrigada a estar ali
— Pega leve, Vas! Vai sobrar só o sutiã da garota! — gritou Makkolb, gargalhando.
— Que sutiã, idiota? Essa aí nem peito tem — rebateu Delaryn, sem tirar os olhos da luta.
Tiruli não disse nada, mas riu baixo, e o som foi mais cruel que qualquer piada.
Vaskara não parava. Era como um relógio de guerra, cada batida uma martelada.
— Reage, porra! — cuspiu ela, com os dentes cerrados, enquanto girava o corpo para um soco no estômago que Anaru mal conseguiu desviar. — Não me faz perder tempo com defesa manual, garota!
Lá dentro da sala, Ahelys mal disfarçava o ódio enquanto desferia socos secos e desajeitados num dos sacos de boxe mágicos. O saco rangia, os braços tremiam. Ela não olhava pra luta, mas o rosto parecia escutar cada soco. Cada impacto do lado de fora batia por dentro, nos nervos dela, no estômago, nos olhos semicerrados. Ela socava mais forte. Como se estivesse na arena.
Anaru respirou fundo. Recuava. Bloqueava. Deslizava. Cada impacto a fazia recuar mais um passo, os pés cavando terreno pra se manter de pé. Mas não tremia. Ela não parecia assustada.
Parecia... atenta. Os braços trêmulos, os olhos intensos. Então girou. Um giro limpo de seu corpo, ensaiado no instinto. E suas asas surgiram — dois pares imensos, orgânicos, mas de um poder quase místico. Asas de mariposa, mas não frágeis. Marrom-claras, com manchas brancas e bordas espessas como escudos. As asas se abriram num rasgo repentino, rasgando o ar com um som cortante, o vento gritando em resposta.
Vaskara não teve tempo. Travou por um segundo. Só um. Mas bastou. As asas colidiram sobre ela com um impacto seco, a força foi tanta que o som ecoou como uma pancada no osso. Jogando Vaskara para trás. Voou de costas, os braços tentando se firmar no ar, sem sucesso. O corpo girou uma, duas, três vezes, os cotovelos raspando a grama, a cabeça inclinada para o lado, a boca aberta num grito mudo. O mundo pareceu desacelerar ao redor dela...
A plateia congelou.
E Ahelys lá dentro da sala parou de socar. Ficou ali, imóvel, encarando a luta com a testa suada, os punhos cerrados, a respiração pesada. Os olhos dela não piscavam.
E Vaskara... não se levantou de imediato.
O campo se encheu de silêncio, e uma dúvida rastejou pelo ar.
Seria esse o fim?
Mas se tem uma coisa que ninguém ali deveria ter feito — era subestimar Vaskara.
Ninguém jamais tinha visto ela cair daquele jeito. Corpo estendido no chão, joelho ralado, o olhar perdido entre o choque e a raiva.
E aquilo bastou.
A galera ao redor não perdeu tempo — começaram a vomitar insultos e a desmerecer a Vaskara. Porque, claro, uma falha já era motivo suficiente pra te chamarem de fraca.
Enquanto isso, já estavam aplaudindo a Anaru, que derrubou a híbrida e virou a queridinha da galera.
Parece que a maioria só quer ver a Vaskara no chão mesmo. E é mais fácil odiar do que respeitar.
Mas, pra quem tá ligado, essa luta tá longe de acabar. A queda de Vaskara não era só dela.
Atrás da linha da plateia, os quatro se entreolharam — Delaryn, Makkolb, Tiruli e Misha. Nenhum deles piscou. Nenhum deles sorriu. A derrota, ali, era uma palavra proibida. E se tem uma coisa que esse grupo não sabe lidar — é com fraqueza. E, por um segundo, os três congelaram.
— Que porra foi essa? — rosnou Delaryn, se endireitando como se o chão tivesse ficado torto.
Makkolb deixou a comida cair da boca. Misha cerrou os olhos.
Tiruli franziu o cenho. Não riu. Só olhou, como quem repensa a aposta.
— Ela vai levantar, né? — murmurou ele.
Mas ninguém respondeu.
Vaskara ergueu o corpo com uma fúria contida, o joelho já dobrado, os olhos arregalados de fúria que queimava como gelo no olhar. Um filete de sangue escorria do canto da boca, mas ela nem ligava. Passou a língua nos lábios, sorrindo com aquela mistura de dor e prazer na derrota momentânea.
— Agora sim... — murmurou ela, como quem anuncia o início da tempestade.
Anaru preparou-se com uma rapidez quase sobrenatural. Saltou em um único impulso — um salto limpo, devastador, como um disparo direto da alma. O ar se partiu ao redor dela, as asas desapareceram em pleno voo, se dissolvendo numa cintilância mágica que brilhou e sumiu em menos de um segundo. As pernas esticadas, o tronco firme, os braços preparados como lanças, os punhos cerrados, a respiração curta. Era tudo ou nada — e ela sabia disso. Ela avançava como um míssil, como se fosse capaz de atravessar qualquer coisa, até mesmo a Vaskara.
Mas Vaskara não recuou. Estava parada no centro do ringue, com os pés levemente afastados, joelhos dobrados, os olhos vidrados como de um predador. O corpo dela permanecia imóvel. O mundo inteiro parecia esvaziado de som e cor — só existiam as duas. A respiração de Vaskara era silenciosa, precisa, os olhos acompanhando cada detalhe do avanço inimigo.
E o tempo desacelerou.
Tudo em volta perdeu a cor.
Só o som da respiração, e o pulso estrondando no fundo da cabeça.
E então, no último segundo, Vaskara se moveu. Ela deslizou pro lado, os pés raspando no chão como lâminas, desviando com precisão. No mesmo movimento, torceu o tronco e saltou com brutalidade, o corpo girando numa espiral de força. No auge do salto, agarrou a perna de Anaru no ar com uma das mãos — dedos firmes, punho travado — e num giro completo em pleno voo, usou o próprio impulso da adversária contra ela.
E ali, congeladas num instante de suspensão, as duas flutuaram no tempo.
Vaskara girou.
E o impacto, quando veio, não foi apenas um baque — foi uma sentença.
BOOM...
O corpo de Anaru, lançado com brutalidade ao chão. Colidiu com o gramado de cara, o peso inteiro do salto anterior amplificado pela queda. O chão quebrou. Uma rachadura violenta se abriu sob o corpo dela, e uma nuvem espessa de poeira subiu num círculo de destruição, engolindo as duas como bomba de fumaça.
Mas não tinha acabado.
Vaskara ainda pairava no ar, o corpo esticando numa lança afiada que parecia cortar o próprio espaço tempo. Suas pernas se uniram, rígidas, como um projétil mortal mirando direto o corpo abatido de Anaru abaixo dela.
No instante exato em que os pés de Vaskara se chocaram contra o corpo da Anaru, um estrondo surdo e profundo explodiu como uma bomba silenciosa. Uma nuvem colossal de poeira e fragmentos subiu como uma onda, engolindo tudo em seu caminho. O solo tremeu, rachaduras serpenteando pelo terraço como feridas vivas, ameaçando engolir a multidão que recuava em pânico. A energia liberada não era apenas física — era uma promessa de destruição.
Passos apressados, corpos se afastando com urgência, vozes abafadas e sussurros nervosos cortados pelo som constante de rachaduras se abrindo sob seus pés.
Delaryn, Makkolb e Tiruli — reunidos na borda do círculo, observavam a cena como predadores avaliando sua presa. Delaryn foi o primeiro a recuar um passo, um sorriso cruel surgindo nos lábios enquanto seus olhos brilhavam com uma mistura de admiração e cálculo, reconhecendo a brutalidade da força que se manifestava diante deles.
Makkolb soltou uma risada seca, debochada, desviando o olhar do chão rachado, como quem nega a gravidade do momento.
Tiruli permaneceu imóvel, a testa franzida e os punhos cerrados com uma tensão contida. Cruzou os braços, o cenho franzido, estudando as fissuras com uma preocupação contida, a calma de quem sabe o que está por vir.
Enquanto eles se afastavam, Misha, sentada atrás do trio, observava a fumaça densa e sufocante que cobria metade do campo. Levantou-se devagar, um brilho mágico surgindo em seus olhos enquanto estendia suas mãos que igualmente brilhavam.
Uma onda de energia amarela emergiu de seus dedos, fluindo para frente como uma maré silenciosa, rasgando o ar com delicadeza, mas de forma implacável. A fumaça começou a se dispersar, limpando o campo daquela neblina suja.
Vaskara já estava firme no solo, a postura imponente e inabalável, pernas ainda unidas como pilares de aço que sustentavam a tempestade que era sua presença. O olhar dela queimava com uma fúria selvagem, o peito arfando, cada respiração carregada de poder e determinação.
Anaru jazia caída sob a poeira que ainda flutuava no ar, seu corpo quebrado e machucado, respirando com dificuldade. Entre as pedras quentes e os cacos de orgulho, a consciência de Anaru se despregava em fragmentos.
Em algum lugar, alguém gritava seu nome.
Mas ela só ouvia água.
Como a queda no lago quando era pequena. Frio. Fundo. Escuro.
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