Volume 1 – Arco 1

Capítulo 10: Rachaduras

Se olhasse de muito, muito alto — talvez de um ponto onde nem mesmo os satélites ousassem pairar — veria o internato mágico Velmoria como um castelo inexistente adormecido. Mas quando se vê um pouco mais perto, atráves das barreiras que protegem esse lugar. Suas paredes acinzentadas e elegantes ainda refletiriam os resquícios do luar, mesmo agora com a estrutura marcada por buracos, rachaduras e vestígios do que parecia ter sido um impacto brutal nessa noite. Mas era por dentro que os vestígios se transformavam em algo além da compreensão.

Através dos buracos abertos pelo colapso da queda, seguindo o rastro da destruição andar por andar, como janelas abertas em um organismo ferido, até alcançar o fundo — o salão principal. Lá, no meio do espaço vazio e silencioso, algo se mexia.

Uma presença solitária. Alguém...

A silhueta se erguia imóvel no centro do salão, no centro das aberturas ao teto, escura como um borrão na retina. Não era possível dizer se era homem, mulher, jovem ou velho. Mas se mexia como uma pessoa comum — sua sombra oscilava levemente como se estivesse submersa em água. Mas então... os dedos daquela figura começaram a brilhar. Um vermelho intenso, vivo, quase sanguíneo, iluminou suas mãos com uma energia pulsante e mágica. Logo depois, os olhos cintilaram — dois faróis escarlates no meio da escuridão — se acenderam.

Com gestos lentos e fluidos, como um ritual antigo e esquecido, o ser começou a manipular a matéria. Destroços e vigas flutuavam no ar como se dançassem hipnotizados, girando ao redor dele num balé silencioso. O brilho vermelho se espalhava por cada fragmento, envolvendo tudo numa luz mística e precisa. Como se o tempo, o espaço e as leis físicas fossem brincadeiras infantis diante daquela força.

Os pisos superiores começaram a vibrar levemente. Não de medo, mas de obediência.

Os buracos, lentamente, começaram a se fechar. Como feridas cicatrizando sob um bálsamo invisível, cada rachadura se colava, cada trinca sumia, cada pedaço partido se religava com perfeição milimétrica. Era como ver o tempo rodar ao contrário — um processo atômico, preciso, impecável. Do chão ao teto, do teto ao céu.

O solo do segundo andar voltou a ser o que era. O do terceiro. O do quarto. Um a um, os buracos desapareciam, os vestígios da destruição sendo apagados como palavras riscadas por um autor arrependido. A magia vermelha se dissolvia com elegância, como tinta na água, até o último fragmento do telhado se encaixar em silêncio absoluto, completando o quebra-cabeça com perfeição.

E então... os andares ficaram escuros de novo.

Nada havia ali.

Nenhum rastro.

Nenhuma pista.

Como se nunca tivesse acontecido nada, como se nunca ninguém houvesse caído ali.


Algumas horas se perderam no vai e vem de passos inquietos do amanhecer e o sinal da escola finalmente ecoou pelos corredores: o descanso acabou. Era hora de fingir normalidade, sentar em cadeiras duras e agir como se tudo ali fosse só uma escola comum. 

E minutos depois, na sala de Magia Avançada, o professor Daeros surgiu — passos firmes, olhar afiado, irradiando autoridade como quem já sabia que alguém ia tentar bancar o engraçadinho.

A luz fria da sala contrastava com a tensão silenciosa que pairava no fundo de certas cabeças. Porque, mesmo com livros abertos e poções bem feitas, nem todo mundo ali conseguia esquecer o que tinha acontecido mais cedo. Ou o que ainda podia acontecer.

— A magia negra, embora seja proibida há séculos, seu estudo serve para entendermos como combater suas influências — disse Daeros.

Os alunos se remexeram nas cadeiras, atentos ao tom sério do professor.

— Há mil e duzentos anos, figuras como Eldrik Sombyvil, Laetira, a Malígna e Okan, o Corrompido, espalharam terror usando magia negra por toda Alfhenia. Seus nomes foram apagados dos registros oficiais depois de tanto tempo, mas suas marcas permanecem nas lendas.

Ele caminhou lentamente pela sala, seus olhos fixando-se em cada aluno.

— Atualmente, não existe ninguém que pratique magia negra ou magia das sombras... pelo menos não oficialmente. Qualquer indício é investigado e eliminado pelas autoridades arcanas.

Ártemis, sentada ao fundo, ouvia em silêncio, absorvendo cada palavra. Havia algo na forma como Daeros falava, uma certeza fria que a fazia se perguntar o quanto daquela história havia realmente desaparecido. 

***

Ártemis POV

Sábado do dia 23 de Fevereiro.

Aviso número um: se você veio aqui esperando uma garota sensível e cheia de dilemas morais, sinto te decepcionar. Eu sou a Ártemis... e eu falo um pouco mais que o normal, odeio regras e tenho o péssimo hábito de me meter onde não sou chamada. Eu não sou uma deusa, mas garanto que a minha história é muito mais interessante do que qualquer uma que aconteceu no Olimpo.

Bom... passaram-se três dias desde que o Briaaron caiu do céu e fez a escola virar um buraco negro de sete andares. Literalmente. E eu achei aquilo muito pica. Era o segundo dia de aula e já tinha nave despencando do nada, ninguém entendendo porra nenhuma e, como se não bastasse, uma celebridade aparecendo do nada no saguão como se fosse terça-feira comum.

Mas... resumindo do meu jeito. Os buracos? Sumiram. Tipo... puff. Reconstruídos magicamente, como se nada tivesse acontecido. Nem rachadura na parede, nem poeira fora do lugar. Muitos alunos viram aquela magia vermelha levitar tudo. Mas ninguém sabia quem tinha feito aquilo, ou por quê. Só que não foi só um "reparo mágico" qualquer. Foi... algo maior.

Os professores, claro, surtaram de um jeito quase patético, a compostura acadêmica evaporando no instante em que perceberam que aquilo não era só Deus corrigindo um erro do passado. A polícia maga foi chamada às pressas, e não qualquer divisão meia-boca. Vieram eles — os Detetives Temporais. Aqueles filha da puta que botam medo até em fantasma. Sério, dizem que eles conseguem ver o passado inteiro de um lugar. Tipo, conseguem descobrir quem roubou uma colher na cantina em 1993. São a salvação de qualquer crime.

Só que dessa vez não encontraram porra nenhuma. Nenhum rastro temporal, nenhuma assinatura arcana, nenhum eco mágico residual. O pior veio depois: a varredura completa confirmou que não existia sequer um único usuário de magia registrado na escola, muito menos magia vermelha, aquela que sangra no ar e deixa cicatriz no espaço. Seja quem fez aquilo, não era aluno, não era professor, não era da escola — e o vazio deixado por essa constatação foi mais assustador do que qualquer resposta possível.

A teoria? Algum estranho voltou o lugar no tempo. E não reconstruiu — simplesmente reverteu os andares pra antes da queda. Como se tivesse dado Ctrl+Z em sete andares de destruição.

Magia do tempo. É... coisa de gente fodida. Tipo, nível "quebra todas as regras da realidade". E se essa pessoa não quer ser encontrada... então, meus amigos, ninguém vai encontrar mesmo.

Mas enfim, a vida seguiu, porque esses acontecimentos estranhos não são problema meu — isso é dor de cabeça dos professores, não minha. E sim… finalmente eu entrei pros Furacões.

Quer dizer... vocês devem ou vão conhecer como os Bambis. Todo mundo chama de Bambis. Nome merda, inclusive. Mas foda-se — agora eu tô dentro.

Virei praticamente a melhor amiga da Trrira. A Trrira. E antes que alguém comece com aquela ladainha de “ai, ela tá apaixonada”, não, porra. Eu só acho ela foda. Sabia que ela curte Queen? Tipo, Queen de verdade. Ela tem um pôster do Freddie Mercury escondido atrás do armário. Eu vi. Eu quase chorei.

E o Bulmer... bom, ele é um puta de um gostoso. Não tem nem como descrever de outro jeito. Alto, forte, carisma no talo, sorriso de comercial de refrigerante. E ainda toca violão. Qual é, né?

E a Firefy nem se fala. Um anjo. Sério, se eu for pro inferno, é só porque ela existe e a balança do universo precisa se equilibrar. Ela é perfeita.

E o Glomme... ah, o Glomme é bem gay, na real. Tenho tipo 98% de certeza. Só não cravo 100 porque ele fica nervoso quando a gente pergunta, e aí eu fico com dó. Pode ser insegurança, algum trauma, pode ser só medo de se assumir mesmo, e ninguém é obrigado a se explicar também. Mas enfim. Ele é fofo demais, meio perdido às vezes, e eu juro que daria um murro na cara de qualquer um que tentasse machucar ele por causa disso — ou por qualquer outra coisa. 

E por falar em gente que merecia um socão…

A Misha é uma filha da puta mesmo. Com todas as letras. Ela jogou sopa na cabeça da Firefy ano passado. Sopa, mano. Quem faz isso? Eu juro por tudo que é mágico que eu só não taquei uma cadeira nela porque a Firefy me segurou. Ela é evoluída demais pra esse mundo, e eu claramente não sou. E o Delaryn é outro, puta que pariu... Babaca. Babaca nível “vomita testosterona e acha que é perfume”. Ele ficava zoando o Glomme pelo andado e pelas orelhas dele, mas ele mesmo tem duas barbatanas plantadas na cabeça. Olha que hipócrita. Quando me contaram, eu tive que me levantar e dar umas voltas. Respirar. Contar até cem. Por que eu odeio bullying. Tenho nojo de quem vive disso. E só não fiz merda porque ainda quero me formar, mas olha... que vontade.

Enfim. Esses idiotas que mexam com outro grupo. Com esse aqui, não. Não é proteção nem nada, só... prefiro evitar problema desnecessário.

Mas vambora. Capítulo novo. A calmaria acabou. Chegou a hora do grande mistério começar. O quebra-cabeça. As pistas. Os segredos.

Essa merda toda vai enlouquecer. E eu tô no olho do furacão. Literalmente.

Que comecem os jogos.


No começo da tarde, Atrás do internato, Ahelys tinha ido até lá porque Delaryn dissera que precisava dela. Só isso — e ela foi. Porque no fundo, ainda esperava que ‘precisar’ fosse mais do que o seu corpo. A parede fria e áspera que parecia morder as costas nuas de Ahelys como se quisesse acordá-la. Delaryn a segurava com uma posse selvagem. As mãos dele agarravam a bunda dela com força, os dedos enterrando-se na pele, deixando marcas vermelhas que ainda arderiam depois. O corpo dele era sólido, quente, como uma rocha viva, cada músculo contraído enquanto ele a estocava com pressa. O rosto e o corpo dela entregues ao prazer do momento, mas os olhos semicerrados guardavam uma tempestade — uma mistura amarga de prazer físico e uma esperança silenciosa por algo mais. Era como se tentasse convencer a si mesma que aquilo era mais do que um ato físico — que existia algo além daquele toque duro e impiedoso. Ele se enfiava nela com força, uma invasão brutal que ela apenas tentava suportar, sentindo o peso de ser usada mais uma vez. 

O ritmo era duro, ríspido, quase violento, o suor escorrendo pelo pescoço dele e descendo pelos ombros largos. O corpo dela respondia por instinto, o sangue pulsando acelerado nas veias, mas a mente continuava distante, buscando o afeto que o toque nunca entregava. Faltava uma palavra. Um carinho. Faltava o 'nós' que nunca vinha. As mãos dele apertavam as dobras dela, marcando a pele, enquanto a alma permanecia intocada e solitária. 

A boca de Delaryn mordia e sugava o pescoço dela — não totalmente por desejo, mas por necessidade de dominar. Ela sentia a dor da possessão, mas ansiava pelo toque que dissesse ‘cuidado’.

Ahelys respirava com dificuldade. O peito duro dele a esmagava, a pele arrepiada e os mamilos rígidos expondo uma reação que ela não conseguia controlar. Quando ele chegou no ápice, foi rápido, seco. Um último impulso forte dentro dela fez o corpo dele se tensionar, os músculos do quadril se contrairam violentamente, enquanto ele soltava um gemido rouco que parecia mais um aviso do que um prazer. Sem nenhum cuidado ou gentileza.

Ele se afastou um pouco. Respirava pesado, o peito subindo e descendo em movimentos bruscos, enquanto ele já começava a puxar a calça pra cima com uma mão rápida e nervosa.

— Vá se limpar e faz o de sempre, tá? Não quero saber de bagunça depois — ordenou ele, com a voz baixa, ríspida, carregada daquele misto de comando e desdém.

Ela não respondeu. Apenas assentiu, sorrindo levemente ao olhar para ele.

Ele ajeitou o cinto e a camisa desabotoada, puxando o tecido para dentro da calça, como se com isso pudesse organizar também aquele momento bagunçado que tinham acabado de viver.

Delaryn se virou, pegando a mochila jogada ali perto. Antes de sair, deu um passo a frente e agarrou o rosto dela com uma mão firme, segurando o queixo dela como se a tivesse na palma da mão. Então, com um movimento brusco e urgente, inclinou-se e a beijou — não um beijo doce, mas uma mistura de possessão e desprezo. Ela correspondeu não por vontade, mas por um desejo torto de ser vista, de ser tocada além do corpo. E logo ele se afastou, deixando um gosto amargo no ar.

— Não esquece, em... — sussurrou ele, os olhos frios cravados nos dela.

E então Delaryn saiu, o som dos passos firmes se perdendo na escuridão, enquanto Ahelys ficava ali, com o corpo dolorido. Ela sabia que não era amor. Nunca foi. O corpo dela ainda pulsava. Não de prazer. Mas de ausência. A alma permanecia fria e faminta. Ainda assim, a esperança, estúpida e silenciosa, queimava lá dentro, só para mantê-la viva.

***

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