Aelum Brasileira

Autor(a): Marin


Volume 2

Capítulo 61: Mentiras e Promessas

GRIS

 

Aquela alegria que contagiava a plateia dá lugar a um silêncio constrangedor. Os espectadores se levantam e se dirigem à saída, sem dizer qualquer palavra, ao passo em que os médicos atendem aos guerreiros de Anak.

— Dá sua mão aqui — aduz Alienor. Sem esperar minha resposta, ela me segura e complementa: — Sana. — Um calor e brilho branco preenchem meu corpo, à medida em que meus ferimentos superficiais são curados.

Ui! Dá até um calafrio gastar fluxo com isso. Você tem que parar de se machucar assim. Sabe que eu não gosto de...

Coleto meu arco do chão. Valefar me deu esta arma como recompensa por conseguir chegar à cabana sem fazer barulho naquele dia. Mas agora ela está condenada, sua corda se rompeu com o disparo, e a haste está trincada em vários pontos.

Seguro o arco com ambas as mãos em suas extremidades e contorço a arma. Ela produz um som de galho seco na mesma medida em que termino de quebrá-la. Não passa de lixo.

Tsk! Que saco, Gris...

Não guardo ódio em relação aos dois competidores, porém eu me deixei levar por um momento. Que bom que Alienor me impediu.

— Não foi legal igual àquela vez. O arrombado do Diego mereceu cada chute nas bolas, mas isso não foi divertido...

Este lugar me faz mal. Quero ir embora daqui. Alienor e eu estamos curados, já concluímos nossos objetivos.

me ignorando de novo!? — exclama Alienor, ela cerra seus punhos e se coloca perante mim com um olhar fulminante. — Só não te arrebento agora, porque não quero te curar depois!

Como que ela consegue ser racional só nessas horas?

— Tá pensando idiotices sobre mim!? Pois saiba que...

— Eu quero ir embora de Ticandar. Vamos embora, Alie...?

Ela me abraça tão rápido que mal consigo reagir. — Para com isso. O que está acontecendo? — ela pergunta.

— Só quero ir embora.

A ruiva me libera dos seus braços, porém me segura pelos ombros, me chacoalha algumas vezes e questiona: — Vai desistir da Kali mesmo? Você não é assim!

Ah! Eu até me esqueci dela...

— Eu... pensei melhor. Kali não gosta muito de mim e já deixou isso bem claro. A deixarei em paz.

— Ah! É por isso... — Ela olha para o chão. — É que meio que... — A ruiva solta meus ombros, cruza os braços e leva sua mão direita à boca, tampando-a. — Meio que...

— O que você fez?

— Digamos que eu não tive muitas opções...

— Alienor, chega de mentiras. Eu não ficarei bravo. Só me conte o que você fez.

Tá... — Ela abaixa sua cabeça e, com sua mão ainda tampando a boca, começa a resmungar: — Eu aumentei as histórias sobre o que você fez em Lumínia. Inventei algumas coisas também... Uhum! Uhum! Não achei que... — A ruiva vira seu rosto para o lado.

— Entendi, Kali acha que eu sou alguém cruel, alguém demoníaco. — Talvez ela não esteja errada. — Deve ser por isso que não me curou antes.

— Hummm... — resmunga a ruiva. — Desculpa. Não vou mais inventar coisas sobre você, eu prometo.

— Nós dois sabemos que você se esquecerá que prometeu e fará de novo.

— Desta vez é verdade! Se eu inventar algo, ficarei um dia sem explodir coisas. Você pode me cobrar!

— Quando você a vir, terá de desfazer esse mal-entendido.

— Tá bom...

— Além disso, você ficará uma semana sem explodir ou queimar coisas se mentir de novo.

— Não! Eu... Ah! Tá bom, eu prometo.

Ela termina com um sorriso no rosto, ao passo que endireita a postura e repousa os punhos na altura da cintura. Na cabeça dela, saiu ganhando com esses termos.

Os médicos e os soldados lumens nos espreitam, ao ouvirem as bizarrices da ruiva. Porém, todos permanecem em silêncio.

Alguém repousa sua mão em meu ombro. — Hey, Canhoto! — É a voz de Pur. — Caramba, você é forte mesmo! Meus músculos ainda doem. Hahahahaha!

Eu me volto para trás e vejo o brutamontes moreno cair na gargalhada.

— Eu vi umas lutas suas, mas não imaginava que você era forte assim. Pegou leve com os outros?

— Meu braço estava machucado — respondo. — Uma amiga me curou antes da luta.

— Caramba, que sorte a nossa!

— Sorte nossa?

— Claro! Imagine ganhar ou perder para alguém ferido, seria uma vergonha. O Ifan e eu estávamos quase desistindo de encontrar algum adversário forte para desafiar, mas bem que me disseram que aqui em Ticandar nós conseguiríamos. Ah! Toma aqui, antes que eu esqueça. — Ele me entrega uma medalha dourada.

— O que é isso? — pergunto.

Alienor pega a medalha da minha mão, antes que eu consiga analisá-la e responde: — É o prêmio do festival. Muito agradecida. — A ruiva guarda a medalha em um bolso da calça.

— Isso mesmo, com ela, vocês podem exigir uma audiência com o líder lumen e pedir o prêmio, foi o que me explicaram.

— Não acho que nós dois mereçamos essa medalha, mas a verdade é que uma amiga precisa muito desse prêmio.

— Ah! Ele é seu, Canhoto, nem esquente com isso. Em Anak, só o vencedor é recompensado. Seria uma humilhação voltar para casa com o prêmio depois de uma derrota. Assim como seria uma humilhação voltar com uma vitória por desistência. Se não quiser, pode dá-la para qualquer um...

— Obrigado.

— A propósito, acho que te subestimei. — Ele olha para a ruiva. — Lutei contra o pessoal de Galantur, e a magia deles mal atravessou minha pele. Agora, nessa luta aqui, só tomei para dentro. Hahahaha!

— Rá! É um vacilão mesmo. — comenta Alienor, enquanto faz uma cara de exibida.

Ele é um pouco estranho. Por que ele ficaria tão animado assim por perder?

— Vocês também são muito fortes — respondo. — Creio que só conseguimos vencer pelo fato de que vocês gastaram muito fluxo durante a luta.

— Você percebeu, né? Bom, não adianta mais esconder mesmo. Manter a forma de gigante custa muito. Os veteranos de nossa terra conseguem lutar por um bom tempo, mas nós ainda não somos tão bons. — Ele olha para seu companheiro caído. — Se não fosse o Ifan, eu teria perdido já no começo para aquelas explosões.

Na verdade, mais um golpe daquele tacape reforçado com magia, creio que eu teria afundado no chão e desmaiado.

— Ainda assim, acho que fizemos pouco por merecer o prêmio. Há algo que possamos fazer por vocês?

— Agora que perdemos, voltaremos para treinar mais. Se vocês quiserem nos retribuir, então aceitem uma revanche na próxima vez que nos encontrarmos. Na próxima, arrebentarei sua fuça. Hahaha. — aduz o brutamontes, enquanto cutuca com o dedo em meu peito.

— Feito, se algum dia nos virmos, lutaremos de novo. — Estendo minha mão para ele.

Pur olha para minha mão com estranheza, mas aceita meu gesto e responde: — Certo, e se passarem por Anak, nos procure. — Ele volta sua atenção ao companheiro. — Vou ali ver como está o Ifan, preciso tirar uma com a cara dele. Se é que restou algo da cara dele. Hahaha!

— Sinto muito por isso.

Ele para de rir no momento em que ouve minhas palavras.

— Não sinta — contesta o garoto e franze sua testa, seu semblante muda repentinamente. — Vocês nos venceram e possuíam o direito de nos matar. Em nossa terra, deixar o adversário vivo significa que você reconhece a força dele. Eu sei que para vocês daqui é diferente; mas, em Nila Velum, se arrepender por deixar o inimigo com vida é um insulto.

— Nossa vontade — ele continua — era de matar muitos dos que perderam aqui, pois eram fracos. Só nos seguramos por respeito às regras deste país.

— É a vontade de Nila — eu comento.

— Sim, vivemos e morremos pela glória de contemplar a deusa — contesta Pur.

Alienor toma a frente e comenta: — Então, eu reconheço que vocês são cabulosos, e permito que vocês vivam. Da próxima vez, te explodirei com mais força ainda, e você terá que aguentar.

— Hahahahaha! Eu mal posso esperar! — exclama o guerreiro, à medida em que vira as costas e vai ao encontro de seu companheiro, com um largo sorriso no rosto.

A ruiva parece se dar bem com as pessoas do continente demoníaco. Será que é porque em Galantur também há muito fluxo negativo?

Pego o amuleto do bolso de Alienor, enquanto ela se distrai.

— Hey! — ela reclama. — Tsk! Tá bom. Pode pegar.

Uma medalha dourada com o símbolo de uma árvore ao fundo e um dragão a sua frente. Essa é a joia que nos foi entregue por vencermos esta luta. — Você vem comigo, Alienor? — indago.

— Aonde?

— Ajudar uma santa. — Mostro a medalha para ela, na altura de nossas cabeças. — O que mais poderia ser?

Alienor checa o objeto em minha mão, me encara, abre um sorriso de orelha a orelha e exclama: — Sim! Vamos ajudar a Srta. Perfeitinha!

 

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