Aelum Brasileira

Autor(a): Marin


Volume 2

Capítulo 36: Atualização do Placar

GRIS

 

Se continuar neste ritmo, eu nunca vencerei o professor. Afinal ele mal chegou na cidade e já encontrou outra. Se eu fosse mais rápido, talvez conseguisse chegar na frente dele. Droga!

Não entendo o motivo do Sr. Khan manter a Kali prisioneira aqui em Ticandar. Porém, pelo que eu entendi, ela estaria em perigo fora daqui também.

O líder dos lumens não me pareceu uma pessoa malvada, e não tive a impressão de que ele queria o mal de Kali. Apesar que Khan e o professor têm alguma desavença entre sí.

Eu queria de poder ajudar Kali a sair, pois também não gosto da ideia de ficar preso em um lugar. Portanto, é algo que não desejo aos demais. Pensar nisso me dá até calafrios.

Claro, poderia até ser dito que eu fico preso na cabana. Mas, no meu caso, o professor me deu a escolha de desistir um dia. Eu poderia dizer que não seria um caçador, mas escolhi ser um. No final, eu que escolhi o meu caminho e creio que esta é a forma certa de se fazer as coisas.

Mas Kali não escolheu estar aqui, portanto se ela quiser fugir, eu quero ajudá-la de alguma forma. Só não sei como, nem sei se eu sou forte o suficiente para conseguir. Contudo nada me impede de tentar. Ainda que eu leve uma bronca do professor depois.

— Eu escolherei o meu quarto primeiro. Nem vem, sua albina! — diz Alienor, ao passar por mim e correr pelas escadas até o segundo andar.

Sua aparência pode ter mudado, mas segue a mesma Srta. Raposa que não perde a chance de bagunçar tudo.

— Pode ficar com qualquer um. Não tem problema — desabafa Kali.

— Que sem graça você! Sai de perto de mim que não quero pegar seu desânimo.

— A Srta. Calíope ficará no segundo quarto à direita, pois já está programado para ela — diz o Karakhan com a máscara de coiote, ao subir a escadaria também.

Ao atravessar a porta de entrada da casa diplomática, percebo que ela é enorme. Creio que mais parece uma mansão, na verdade. Assim como a maioria dos aposentos e lojas da cidade, ela fica no interior de uma das árvores gigantes.

Na entrada, há um grande salão de recepção, com sofás e poltronas. Mais adiante, lá no fundo, posso ver uma mesa redonda enorme e alguns utensílios de cozinha.

As paredes são todas de madeira, pois fazem parte da árvore que as compõem. Além disso, há diversas claraboias circulares distribuídas pelas paredes, as quais permitem a entrada de luz, além de ver a paisagem e os vaga-lumes prateados que voam do lado de fora.

Existem poucos móveis e objetos, mas tudo é muito espaçoso e bem-feito, e a luz interna é projetada por alguns cristais brancos nas paredes.

Dos lados direito e esquerdo existem duas escadarias que se unem no segundo andar. Lá em cima, Alienor já se encontra escolhendo o seu quarto. Pelo tamanho do local, creio que deve haver um quarto para cada pessoa ou mais.

— Vamos nos acomodar, Gris — diz o professor, e eu balanço a cabeça em afirmação.

Naturalmente, Alienor escolheu o último quarto, pois é o mais espaçoso e a cama é maior. Eu escolho o primeiro da direita; já o professor, o primeiro da esquerda. Por fim, o Karakhan elege o quarto em frente ao de Kali. Acredito que ele quer vigiá-la.

— Nós dois precisamos ir a um lugar, mas pode deixar suas coisas por aqui — diz Valefar, ao parar na porta do meu quarto.

— Certo, professor.

— O Gris e eu sairemos para resolver uns assuntos. Vocês duas estão livres para conhecer a cidade, porém terão de obedecer ao Karakhan. Certo?

— Tudo bem... — responde Kali, desanimada.

— Como assim, obedecer ao maluco da máscara? Eu mal o conheço, e se ele for um pervertido qualquer?

— Eu não diria pervertido, porém um tanto curioso. Hehehe — responde o mascarado, na medida que esfrega uma mão contra a outra. A sua atitude formal foi lançada fora assim que deixou a presença de Khan.

O professor olha com desconfiança ao mascarado e pergunta a ele: — Você tem certeza que é um dos olhos? Normalmente vocês não são tão... desinibidos.

O Karakhan limpa o pigarro da garganta e responde: — Ah! É mesmo? Nem havia notado. Hehehe.

— Como assim, um dos olhos, professor?

— Eles são espiões de Khan — interrompe Kali —, por isso são chamados de olhos. Apesar que atualmente eles mais parecem carcereiros.

— Kali tem razão, mas isso não é tudo — aduz o professor. — Kara significa olhos na linguagem dos lumens, portanto Karakhan significa: Os Olhos de Khan.

Agora faz sentido, desde que encontrei a dríade, tenho ouvido eles falarem: Olhos de Khan.

— É, mas vamos manter esse segredinho entre nós aqui, correto? — diz o mascarado na medida em que cutuca o peito do professor com seu cotovelo. Já Valefar lhe devolve um olhar de estranheza pela intimidade não correspondida. Acho que é a primeira vez que vejo o professor desconfortável.

Não conheço muitos Karakhans, mas eu esperaria que um espião fosse mais... comedido? Na frente de Khan, ele parecia outra pessoa, porém creio que era por conta do seu respeito ao líder.

Valefar o afasta com a mão e diz: — Não é como se isso fosse um segredo. O que, sim, é um segredo e o mais importante de tudo é que tudo aquilo que os Karakhans veem, seu líder também vê: É uma magia muito poderosa. Portanto, saibam que seremos vigiados o tempo todo, enquanto o mascarado estiver conosco.

Olho para Kali, e ela não parece surpresa com o que o professor disse, já Alienor parece muito interessada e aflita com essa informação. Achei isso incrível, e gostaria de aprender mais sobre essa e outras magias também.

Como será que é ver pelos olhos de outras pessoas? Será que Khan consegue ver por meio dos olhos de todos os Karakhans ao mesmo tempo?

Ah! Mas não se preocupem, pois eu virarei o rosto quando vocês se trocarem. Hahaha. — caçoa o mascarado.

— Viu? Eu falei: Tá-rá-dô! — Alienor aponta com seu indicador para ele. — E você vai nos deixar com este cara?

— Reconheço que ele é um pouco inusitado. Mas, se foi a escolha de Khan, é porque ele é confiável e competente.

Ain! Eu fico com vergonha assim, Sr. Caçador. — Ele entrelaça seus dedos, junta suas mãos na altura cabeça e rebola levemente. Como se simulasse uma adolescente apaixonada. Porém todos o ignoram.

— Você não pareceu confiar muito no líder dos lumens agora a pouco — responde Alienor.

— Quando você viver mais tempo e conhecer mais pessoas, entenderá que desconfiança é um sinal sabedoria, e que os sábios não se ofendem com desconfiança, mas a admiram e respeitam. Khan e eu temos nossas desavenças, porém eu sei que ele é um líder justo e tem bom senso. Todavia, tanto a justiça, quanto o bom senso de um líder podem significar uma pena de morte para vocês.

Plá! Plá! Plá! Escuto aplausos e eles vêm das mãos do Karakhan, o qual diz: — Belas palavras. Vocês têm um ótimo professor, sem brincadeira. Muito bom, excelente mesmo...

— Esse cara é maluco — diz Alienor.

Logo você a dizer isso!

— Pois bem, tomem estas moedas de ouro. É dinheiro de Thar, mas eles aceitarão aqui em Ticandar durante o festival — o professor entrega uma algibeira a Kali, e ela aceita, relutante.

Hey! Nos conhecemos há um tempão, e você entrega o dinheiro a ela? — diz a ruiva.

— É por te conhecer que eu não lhe entrego, já a lumen ainda tem o benefício da dúvida. Em todo caso, se eu precisar de alguém para destruir algo ou transformar uma floresta em cinzas, eu procurarei por você, pode ter certeza.

— É bom me chamar mesmo — contesta a ruiva, com uma mão na cintura e o indicador apontado para o rosto do professor.

Acho que Alienor não entende ironia. Contenho meu riso, mas Alienor percebe e devolve um olhar fumegante. Ela vai me matar!

— Vamos, Gris — diz Valefar, então ele observa a cada um dos demais e complementa: — Não arrumem confusão.

Tenho certa nostalgia ao ouvir isso.

Agora que tive algum tempo para refletir sobre o assunto, teorizo que o professor me chamou para sair a sós e fazer algo longe da vista do Karakhan. Mas me pergunto o que seria? Talvez haja alguma relação comigo, caso contrário, ele não me chamaria também.

Espero que a Srta. Raposa... digo, que Alienor não arrume confusão neste meio tempo. Porém, creio que, com o Karakhan a vigiá-la, não fará nada imprudente. Já a Srta. Kali não parece ser alguém que faria algo ruim, salvo tentar escapar, quem sabe. Porém eu creio que ela confia um pouco mais em nós agora.

— Gris, sobre o que ocorreu na floresta mais cedo, você disse ter se encontrado com uma dríade, correto?

— Sim, professor.

— Eu lhe disse uma vez que as dríades não gostam muito do seu professor. Não falei isso por acaso, pois eu fiz muitas maldades até hoje e não nego isso. A verdade é que você merece alguém melhor do que eu para ser o seu mentor.

— Não diga isso. Eu não conheço muitas pessoas, mas tenho certeza que tive sorte por encontrar o professor. — Ao dizer tais palavras, o professor abaixa sua cabeça. Então ele respira fundo e me responde:

— Há algo que eu não te ensinei ainda, e creio que seja a lição mais importante. Não quero que você cometa os mesmos erros que seu professor. Se há alguém realmente sortudo neste mundo, é quem consegue aprender sem errar. Desejo que você seja essa pessoa, Gris. Seja mais sábio do que eu.

— Não sei se entendi, professor.

— O que eu quero dizer, é que eu te ensinei a ser um caçador. Ensinei que em dados momentos nós precisamos desistir de nossa presa, caso ela seja mais forte que nós...

— É melhor vivermos para voltarmos um novo dia e mais preparados. — Complemento a fala do professor.

— Exato. Entretanto isso só se aplica às caçadas, pois se alguém estiver em perigo, e você recuar, talvez não tenha uma segunda chance, ainda que esteja preparado para ela.

— É por isso que o professor me ensinou...

— Exato. Você aprendeu algo para enfrentar seus inimigos de frente, mas a escolha a se fazer será sua e não minha. Porém eu te conheço bem e sei que escolherá o melhor caminho, porque você é um caçador melhor do que eu.

— O Sr. diz isso, mas nós sabemos que o professor é o melhor caçador. — Ele coloca sua mão sobre minha cabeça, bagunça todo o meu cabelo e diz:

— Preciso confessar algo a você, garoto. Pois eu fiquei tentado a aceitar a proposta de Khan em seu lugar, sobre ele ser o seu professor. Isso porque, ele seria um mentor melhor do que eu. Todavia não me orgulho de ter pensado isso, porque eu faria não pelo seu bem; mas, sim, por temer essa responsabilidade.

— Eu fico feliz que o professor não aceitou.

— Não tenho o direito de fazer essa escolha por você.

— Porém, por que o professor disse que eu não entendia a proposta dele?

— Khan está entre os dez seres mais poderosos de Aelum, e ser seu aprendiz é uma hora sem igual, esta que é a verdade. Entretanto, ele ofertou isso pelo preço de você se tornar um lumen. Ser um lumen significa que você nunca mais deixará a Orla Interior da Floresta de Prata, salvo por ordem dele.

Devo admitir que é tentador aprender magia. Ver Alienor dar forma ao fluxo e criar diferentes tipos de conjurações é muito divertido, e eu gostaria de fazer igual. Na verdade, ela até me ensinou uma magia básica de explosão, longe das vistas do professor, e foi bem divertido. Porém se aprender significa ficar preso neste lugar...

— Então eu não quero, professor. Pois eu quero conhecer o mundo e encontrar todos os santos. Foi o que nós combinamos.

Pf! Hahahahaha. — Ele dá uma longa e alta gargalhada, já os lumens param de caminhar e nos observam pela rua, cochicham algo entre eles, já outros fazem cara feia. — Você me diverte, garoto. Por falar nisso, eu já encontrei três, e você?

— Nenhum — respondo em baixo som. Que vergonha eu sou.

— O quê? Não ouvi! — diz Valefar em deboche.

— Nenhum! — Mas que droga, o placar está feio para mim. Três para o professor e zero para mim. Assim eu vou acabar perdendo. — Mas, professor, eu gostaria de tentar ajudar a Srta. Kali de alguma forma.

— Sim, é o que seu professor também deseja. Porém precisamos resolver um problema primeiro.

— Aonde nós vamos?

— Precisamos conversar com Átrios, um amigo meu de longa data, e para falar a verdade nós já chegamos ao local.

 

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