Aelum Brasileira

Autor(a): P. C. Marin


Volume 2

Capítulo 28: Nero

NERO

Um dia foi-me dada uma missão, e eu sacrifiquei tudo para completá-la. Conforme me foi ensinado a fazer.

Enviaram-me aqui para espionar as forças do continente de Nila Velum, todavia eu fui descoberto, e as circunstâncias me obrigaram a usar uma magia proibida. Algo que me ensinaram a não fazer.

Bom, a magia é proibida pelos Daraerun, mas não é aqui. Pois, no continente dos demônios, a corrupção da alma é uma dádiva e não um pecado.

Em todo caso, os membros da Mansão Negra nunca me disseram que ao combinar morte e destruição, eu encontraria a paz.

Sim, o povo deste continente sabe que eu nasci em Thar, mas é indiferente para eles, pois não ligam para o passado de seu governante, desde que ele seja o mais forte e guie seus passos conforme a vontade de Nila.

— Está pensativo hoje, amor — diz Cibele, minha mulher.

Com um vestido preto e jóias douradas, iguais que as cores de seus olhos. Uma bela mulher de cabelos e lábios pretos. É fácil identificar aqueles nascidos Fribram Tal, a capital deste continente, pois seus lábios são negros, assim como os de Cibele.

— Não vai me responder então? Humpf! — Ela cruza os braços e vira seu rosto.

Eu flertava com a ideia impossível de ter uma família um dia, algo não permitido aos assassinos de Erun, mas nunca me ocorreu que eu teria esta oportunidade em território inimigo, como um traidor.

— Perdão, minha vida, pois eu me perco em meus pensamentos às vezes.

— Você me ignora de propósito? — ela responde.

— Você sabe que não é de propósito, e não há nada mais importante que você e Júlia. É que não consigo evitar, pois a minha cabeça me leva para longe. Mas, diga-me o que deseja.

— Os lordes feudais insistem que devemos invadir o Continente de Kordara. Você não acha que já está na hora de começarmos os preparativos para a guerra? Caso contrário, provavelmente eles ficarão impacientes e lutarão entre si. Não será mais possível evitar um conflito interno.

— Sim, você tem razão, entretanto estou convencido de que posso mitigar qualquer conflito interno, e não desejo iniciar uma guerra por capricho.

— Você é forte, e isso os deixou na linha, porém nos bastidores há muitos que se perguntam se você é leal a Thar ou a Nila Velum. Devo te lembrar que se todos os lordes virem você como obstáculo, até você sucumbirá — alerta Cibele.

Além de minha esposa, é uma ótima conselheira. Nila é generosa comigo, certamente. Mais que Dara já foi.

— Pai! Pai! Aprendi a magia dormir hoje, e foi bem legal! — diz Júlia, minha filha, a qual acaba de entrar pela porta principal do salão real.

— É mesmo, filha, e como foi?

— Encostei a mão no Eduardo e proferi o conjuro, aí ele caiu no chão que nem pedra, e foi engraçado. Mas ninguém riu... — Minha filha explica e gesticula com as mãos para demonstrar como foi.

Júlia tem sete anos e é como uma miniatura de minha esposa, tanto em beleza, quanto em crueldade.

— Creio que precisarei conversar com sua professora novamente, verdade?

Ahm... É, e ela chamou o papai lá, mas acho que não deve ser nada demais.

— Você precisa parar de testar magias nos seus colegas desta forma, pois você só não foi expulsa ainda por ser minha filha, entretanto não tolerarei esse tipo de comportamento novamente. Como lideres, devemos ser temidos e amados pelo povo, mas ninguém te amará se você descumprir as regras que nós criamos. — Deixo meu trono e me abaixo para ficar da altura de Júlia, então continuo:

— Portanto, se fizer isso novamente, eu mesmo vou retirar você da escola e lhe usarei como exemplo de que ninguém está acima das leis — nem mesmo minha filha.

— Tá bom! Uhm... eu vou parar.

— Ótimo — digo isso, na medida em que, com minha mão direita, esfrego e bagunço seus cabelos.

Ah, não! A mamãe vai ficar brava por eu ter estragado o penteado que ela fez.

— Diga a ela que fui eu.

Ufa!

— Majestade! — diz meu secretário, Randal, ao entrar pela porta principal do salão do castelo. — Sinto a intromissão, mas um forasteiro matou vários dos nossos e disse... exigir uma audiência com Vossa Majestade. Disse também que conhecia Vossa Excelência.

— O forasteiro disse seu nome?

— Sim, Vossa Majestade, ele diz se chamar Solomon de Thar.

Não contenho minha felicidade, afinal ele é um amigo. Então pronuncio: — Diga ao forasteiro que ele deve parar sua investida, pois agora ele é um convidado meu. Proclame que ele terá sua audiência, mas quero tratar com ele a sós.

— Entendido, Vossa Majestade — aduz o secretário, o qual dá cinco passos para trás, vira as costas, e corre para cumprir as minhas ordens.

Olho para minha guarda real e lhes instruo: — Esperem do lado de fora e garantam a segurança de meu convidado.

— Sim, Vossa Majestade — respondem.

Uso o tempo de espera para refletir sobre tudo o que ocorreu nos últimos anos. Eu deveria passar aproximados dois anos neste continente, mas já fazem quinze que estou aqui. Solomon provavelmente me repreenderá pelas minhas escolhas.

— Está receoso de rever seu amigo, meu marido?

Olho para Cibele, e ela não deveria estar aqui. Disse a elas para esperarem em seus quartos, porque não quero que ela saiba de meu passado.

— Quando nos casamos, prometemos dividir tudo, inclusive os segredos — diz Cibele.

— Sim, você tem razão, minha amada, mas não faço isto com a intenção de lhe esconder, mas sim de proteger.

— Então não há problemas, pois ninguém no mundo ousaria fazer mal a mim, não enquanto você for o rei.

A porta do salão se abre e vejo um homem com uma longa barba e vestes brancas se aproximar. É tarde demais para que a faça sair daqui, portanto terei que lidar com as coisas assim mesmo.

— Pai, é ele o seu amigo? — diz Júlia, a qual também me desobedece e entra no salão.

— Eu disse para você não vir até aqui! — grito à Júlia, ao passo que me levanto de meu trono.

Tanto Júlia, quanto Solomon se detêm, mas Solomon quebra o silêncio primeiro e diz: — Pensei que eu era um convidado de Vossa Majestade?

Creio que ofendi Solomon sem querer. Portanto eu lhe digo: — Ora, velho amigo, claro que você é meu convidado, e onde estão os meus modos? Venha, se aproxime.

Assim, Solomon volta a caminhar em minha direção.

— Meu amor, ele não deveria deixar o cajado na entrada? Ninguém deve se aproximar de você com uma arma.

— Silêncio! Não desrespeite ainda mais o meu amigo.

Ao ouvir isso, novamente Solomon detém sua caminhada, me observa confuso e então continua a vir em minha direção, na medida em que diz:

— Nós exigimos muito de você, não é mesmo, Nero? Você é o maior servo de Erun desta geração, mas colocamos sobre suas costas uma responsabilidade muito grande. Sua missão acabou, e eu vim aqui para lhe trazer de volta.

— Não escute ele, meu amor. Se você voltar, eles vão te executar como traidor.

— Eu disse, silêncio! — Grito para Cibele, pois ela não pode interferir nisto.

Minha esposa abaixa sua cabeça e me obedece, ao passo que Júlia começa a chorar e diz: — Pai, por que você está fazendo isso com a mamãe? É por eu ter te desobedecido? Eu prometo que não vou mais machucar o Eduardo.

— Não é sua culpa, filha. O papai só precisa resolver este assunto de adultos, depois nós conversaremos, portanto volte para seu quarto e me espere lá.

— Não, pai, pois você vai bater na mamãe de novo se eu sair!

Droga, por que vocês não me escutam? Quanta humilhação em um momento importante!

Olho para frente, e Solomon já está a dois metros de mim agora, assim eu me aproximo para o abraçar, mas ele faz um sinal para eu manter distância e diz:

— Calma, velho amigo. Também desejo lhe cumprimentar, como nos velhos tempos, mas temos que resolver algo importante antes.

— Algo importante? Se você se refere a voltar para Thar, isto está fora de questão, pois não quero ser morto como um traidor. Ainda que eu concorde que sou um. Eu fiz exatamente o que me mandaram fazer, entretanto a consequência destes atos me levaram até este ponto em que estou.

— Sim, eu sei. Foi um erro a imperatriz ter mandado você vir até aqui sozinho, mas receio que ela não fez para te prejudicar, e sim porque acreditava em suas capacidades.

— De fato, mas não pagarei pelos erros dela, não mais — respondo a ele.

— Não é isto que eu peço, amigo. Quero que volte comigo, pois a Imperatriz da Guerra prometeu lhe conceder anistia.

— Ela não tem poder para tal, não em tempos de paz, e ambos sabemos disto.

— Verdade — responde Solomon —, mas uma guerra contra Galantur se aproxima, por isto a imperatriz será declarada ditadora, motivo pelo qual poderá decidir monocraticamente pela sua anistia. Ninguém a questionará, pois ela será a pessoa mais poderosa do Continente de Kordara.

— E eu devo acreditar nas palavras dela?

— Eu peço que acredite nas minhas palavras, Nero.

— Amor — interrompe Cibele —, este homem mente, ele... Gahhh! — Antes que ela termine suas palavras, eu a pego pelo pescoço e digo:

— Somnun — Então ela desmaia, ao passo que eu cuido para que não se machuque.

— Pai, você bateu na mamãe de novo!?

— Quieta! Eu disse para você voltar ao seu quarto, Júlia!

Olho para Solomon, e ele segura com firmeza seu cajado. Ele está tenso, e sua expressão é de confusão e medo.

— Não precisa agir assim, Solomon, pois você é meu convidado aqui. Até mesmo em Nila Velum há honra, e não se machuca um convidado nestas terras, não enquanto eu for rei. Motivo pelo qual, recuso sua oferta. Eu me manterei aqui, pois já não recebo mais ordens do império. Por outro lado, manterei os exércitos demoníacos longe de Thar, como já é feito.

— Sim, amigo, eu vi que sob suas ordens as criaturas das trevas se mantiveram longe de conflito, e eu lhe agradeço por isto, mas, como eu lhe disse, este é um fardo muito grande para você, por isto eu vim aqui para te ajudar.

— Vocês dizem que eu falhei na minha missão, entretanto eu não o vejo assim, pois nunca houve uma paz tão duradoura nos últimos séculos, e eu garantirei que continue assim. Já não é um fardo ficar aqui, porque hoje tenho família e sou rei. O povo de Nila Velum é rebelde, mas eles se manterão sob meu controle, pois não pretendo fraquejar tão cedo.

— Nero...

— Sim, Solomon.

— Está bem. Eu desisto. Voltarei e direi à imperatriz que você não regressará, mas que se compromete a manter a paz — diz Solomon, o qual faz um sinal para eu o abraçar.

— Obrigado por compreender, Solomon. Você é sempre bem-vindo nestas terras, e garantir-lhe-ei livre passagem até mim, sempre — digo isto, ao passo que me aproximo para abraçá-lo, e ele aceita.

Entretanto, quando estou à sua frente, Solomon toca seu cajado em meu peito e diz:

— Sanari Mas. — Sinto calor, à medida que uma luz branca extremamente forte toma conta do meu corpo, o que me obriga a cobrir meus olhos com os braços. — Perdoe-me, amigo, mas é para seu bem.

Não sinto qualquer ferimento, e vejo que o cajado de Solomon se despedaça.

— O que você fez, Solomon!?

Olho aos arredores e não vejo mais minha esposa caída no chão, e tampouco minha filha que estava ali chorando até agora.

— O que você fez com elas? Me responda!

— Só estamos nós dois aqui, Nero. Sempre fomos só nós dois aqui, desde que eu entrei pela porta da frente.

— Você mente! Minha esposa e filha estavam aqui... Onde elas estão?!

— Nero, você estava possuído, e ainda não consegui te curar completamente. Deixe-me terminar. Sana... Guah!

Solomon tenta lançar novamente a magia, mas eu seguro seu pescoço com as duas mãos. Ele se debate, mas é inútil, pois eu sou muito mais forte fisicamente, e ele não pode recitar as palavras.

Solomon tenta se desvencilhar, e vejo lágrimas em seus olhos. Ele pega algo de seu bolso, e é uma pedra mágica! Portanto eu digo:

— Vera Mors.

Sinto o fluxo deixar o corpo de Solomon. Ele está morto. Então olho para meu velho amigo caído e digo: — Eu te matei mesmo, Solomon? Por que eu te matei?

Eu matei Solomon. Mas por quê?

— Solomon, por que eu te matei?

O Império quer que eu volte, verdade, Solomon?

— Você queria que eu voltasse para Kordara, Solomon? — digo ao meu amigo caído, depois olho para a porta principal e grito: — Randal!

Meu secretário entra pelo salão, chega a minha presença, observa assustado Solomon morto, então ele se ajoelha perante mim. Randal não ousaria me questionar de forma alguma, portanto eu digo a ele:

— Sei que você quer falar algo sobre o que vê aqui, portanto diga-me agora, pois não será punido.

— Majestade... eu não esperava que matasse um convidado — diz o secretário, ainda abalado e com medo de represálias.

— Sim, mas ele fez algo com minha esposa e filha. Sendo assim, eu o executei aqui mesmo. Por falar nisto, preciso de rastreadores e caçadores de recompensa, pois tenho que encontrar minha esposa e filha, e rápido: Elas não devem estar longe.

— Majestade... Ahm...

— Diga logo, Randal.

— Vossa Majestade possui diversas concubinas e alguns filhos bastardos, entretanto nunca se casou. Não possui uma esposa.

— Do que você está falando, Randal?

— É que... Vossa Majestade fala diretamente com a deusa Nila.

O que está acontecendo, e onde estão minha esposa e filha? O que eu fiz com Solomon?

Já sei. Isto tudo é culpa deles. É culpa de Thar. Eles me fizeram matar Solomon. Eles mataram minha...

— Creio que o tempo de paz tenha terminado, meu amor — diz minha esposa —,  pois sob o seu comando Nila Velum se fortaleceu internamente. Em mais alguns anos de preparo nós poderemos expandir nosso território sobre o Continente de Kordara.

— Cibele, você voltou?

— Pai, eu também quero brincar em Thar! Quero usar todas as magias neles!

— Sim, filha. Lá você poderá testar qualquer magia, qualquer uma.

Obá!

Cumprirei o seu desejo, Solomon. Devo voltar e reportar diretamente à imperatriz, não é?

— Randal, prepare um enterro digno para Solomon. Por três dias, eu decreto luto em Fibram Tal. Depois disto, convoque todos os lordes. Diga a eles que eu darei a guerra que eles tanto almejam. Deixe claro que os demônios caminharão novamente sobre Kordara.

— Sim, Vossa Majestade.

Com felicidade aparente em seu rosto, Raldal corre para cumprir as minhas ordens.

Você quer tanto saber qual a força de Nila Velum, imperatriz? Pois eu levarei eles até aí para que possa contar com seus próprios olhos. Veremos se faz jus ao seu título, Imperatriz da Guerra.

— Está um dia lindo lá fora. Que tal vermos o entardecer, meu amor — exclama Cibele.

Olho por uma janela do castelo e percebo que o entardecer está com uma cor que eu nunca havia visto, pois é vermelho como o sangue. Mas o que mais me chama a atenção são três estrelas cadentes que cruzam o céu lentamente.

— Creio que os anciões de Thar estejam bem agitados agora ao ver isso — respondo a ela. — Qual significado aqueles idiotas darão a esse fenômeno, amor?

 

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