Aelum Brasileira

Autor(a): P. C. Marin


Volume 1

Capítulo 21: Ondas que Nos Afogam

CINTIA

 

É uma visão tão bela. Creio que tive certa sorte por encontrar pessoas tão formidáveis na minha vida. Algumas me trazem certo medo, já outras; um pouco de raiva, mas todas elas são inegavelmente formosas.

Não de aparência, eu digo, mas sim pelas suas peculiaridades, seus trejeitos, suas manias, suas virtudes e até mesmo seus defeitos.

Veja só o Gris, deve ter passado por tanto sofrimento e, mesmo assim, é um menino que se entrega à alegria em momentos tão simplórios. É como se uma coisa tão corriqueira para a maioria das pessoas fosse, para ele, um motivo de festa extrema.

Não me surpreenderia em saber que este momento é o mais feliz de sua vida até agora e, ainda assim, caso um estranho passasse, jamais pensaria isto, pois não há nada demais no que ele está fazendo agora.

E quanto à Alienor, quase na mesma situação, pois eu não diria que ela passou uma vida de sofrimento, mas, nos últimos tempos, sua vida virou de cabeça para baixo.

Ela já havia perdido seu pai, quando era muito nova, durante a expansão imperial e, agora, perdeu também sua mãe, que morreu por uma doença misteriosa ou, ao menos, é o que ela me contou. Sua raposinha danada.

Olhe só para ela, faz uma algazarra e não se entrega à tristeza, que garota forte.

Hum... doença misteriosa, ela disse. Dados os últimos acontecimentos, eu creio que não seja tão simples, pois o exército vermelho não viria tão longe tão somente pela disputa de poder. O fato de Alienor ter abandonado sua terra natal, isso já seria suficiente para colocá-la fora do páreo.

Ainda que tivesse a intenção de fugir e se casar com alguém poderoso, para voltar e retomar o poder, receio que não haveria tal nação, pois Galantur é um país respeitável, tendo em vista que possui muitos guerreiros habilidosos, bons tanto em batalha corporal, quanto em magia a longa distância. Eles são os senhores da guerra.

Os filhos do dragão vermelho são sempre problemáticos.

Receio que a única nação que teria alguma chance de entrar em conflito com as terras vermelhas, eles seriam os anões de Fubuldjin, da Capital do Aço, mas os anões não se metem nos problemas dos demais, pois eles são tão envolvidos em seu próprio progresso, suas invenções e sua cultura, que não dão atenção e não valorizam quase nada que vem de fora.

Thar, a Capital Imperial, certamente possui poder para interferir na disputa pelo trono, pois bastaria uma determinação da Imperatriz da Guerra, e Galantur precisaria aceitar que Alienor seria a nova condessa, mas a ruiva não possui nenhuma moeda de troca com a Imperatriz, e, para o império, pouco importa quem está no poder em Galantur, desde que não se rebele e empreste seus exércitos em eventual conflito.

Além disso, um casamento estaria fora de questão, tendo em vista que o império é uma monarquia matriarcal. Desta maneira, somente alguma das duas filhas da Imperatriz poderá se tornar a próxima governante.

Do mesmo modo, não há e nem haverá filho homem para que possa se casar com Alienor e, mesmo se houvesse, não mudaria nada.

Das demais nações, estão muito distantes ou estão todas fora da bandeira de Thar. Por isso, se interferissem, seria como declarar guerra ao império, pois Galantur é seu estado vassalo.

Na realidade, eu fico feliz que não haja maneira de Alienor entrar nesta disputa. Eu morreria por saber que algo ruim aconteceu com ela.

Mas isso me retorna à questão, se Alienor não tem qualquer chance de disputar o Condado de Galantur, por que então eles iriam tão longe para capturá-la ou matá-la?

Será que a misteriosa morte da Condessa Heloísa tem alguma relação com isso? Em todo caso, eu creio que agor...

Hahahahaha! — Uma garotinha loira passa correndo e pula na água.

Tiblum!

Ah, socor..! São mui... blub, ondas! Me sal...! Vou me afogar! Ah! — diz uma certa raposa, enquanto se afoga, pois me desobedeceu e foi muito fundo na água.

— Calma, Alienor, eu vou te ajudar! — responde um garoto de cabelos acinzentados, enquanto também me desobedece e se dirige para o fundo da água, para se unir à raposa e morrerem afogados juntos.

— Eu vou lá ajudá-los, só um minuto — diz Vitor.

— Não, senta aí, não precisa se preocupar. A Alienor só está fazendo cena, eu a conheço. Se você for lá, ela vai passar todo o caminho de volta sarreando de você.

— Não me importo que tirem sarro, isto é irrelevante, pois quem tem algo a perder é ela por agir assim. Em algum momento ela precisará de ajuda, e ninguém acreditará.

— Bom, o que posso dizer, você está certo. Vá até lá e seja seu herói, salve a donzela em perigo — eu respondo.

Valefar me olha com um rosto coberto por raiva e frustração, nada condizente com a nossa conversa e ambiente descontraído.

Sinto medo. Já faz muito tempo que não sinto medo dele. Eu já havia esquecido que ele pode ser assim.

— Perdão, acho que o ofendi de alguma forma — eu digo ao V.

— Não, você nunca me... — Com uma expressão mais tranquila, V. responde, mas é interrompido pelos novos gritos de Alienor.

Hahahaha! Seu idiota, você acreditou mesmo? Eu sou uma raposa aquática, uma raposa de fogo aquática! Hahahahaha — exclama Alienor, enquanto nada mais para o fundo do Rio Reluzente.

— Srta. Raposa! Volte, é perigoso, você vai se afogar, raposas não podem respirar embaixo da água que eu sei, e, se você continuar assim, o Gris também vai se afogar... — diz Laura, sem qualquer pausa para respirar.

— Parece que você tinha razão, Cintia, era um mero teatro — diz V.

— Sim, ela é uma raposinha imprudente, mas sente-se novamente. Vamos apenas curtir um pouco, porque o dia está tão bonito, a grama verdinha, o céu claro com este sol. Aqui está tão agradável. É um dia perfeito, perfeito para aproveitar.

— É, me agrada saber que o Gris pode respirar um pouco depois de tudo.

De fato, até mesmo ele tem noção de que a vida que o garoto tem vivido não é saudável, mas então por que ele ainda arrasta esse garoto para seus problemas?

— V.? Deixe ele comigo, por favor, pois eu posso cuidar dele. Digo, leve ele até Ticandar para ser curado, porém traga-o de volta, e o deixe comigo depois.

— Você percebeu também, não é? Ele é um menino muito bom, mas precisa da nossa ajuda — diz V.

— Sim, ele é, por isto que ele precisa se separar de você, V., ou ele acabará arrastado para sei lá o que você faz.

Valefar me espreita, então volta seus olhos para os meninos, que brincam na água. Ele respira fundo e, depois, diz:

— Você já possui muitos fardos para carregar, portanto confie este a mim, pois não posso deixá-lo com contigo. Se eu o fizer, infelizmente, condenaria a ambos. Eu sinto muito.

— Seu Tolo! — digo a ele, ao passo que involuntariamente me levanto — Idiota! Quem pensa que é! Acha que é o homem mais forte do mundo? Até você tem seus limites! Acredita que não precisa da ajuda de ninguém!?

— Que fofos! Uma briguinha de casal em um dia ensolarado. Hahahaha — diz uma determinada raposa que se aproxima, sem eu perceber, para ouvir a conversa.

— Volte para a água e termine de se afogar sua raposa desvairada!

Que raiva!

— Corre, Gris! Corre, Laura! Ela está possuída pelo capiroto novamente! Hahahaha. — diz Alienor, a qual corre e pula na água.

Tiblum!

— Não é questão de eu ser forte, mas sim ele... E eu não disse que não precisava da ajuda de ninguém, afinal estou aqui com você agora, não estou?

Humpf! Pois saiba que eu não vou desistir tão fácil assim. Ele será meu, e nem você vai conseguir impedir isto!

— Em algum momento ele será forte o suficiente para escolher o próprio caminho. Assim, se for da vontade dele, ele estará ao seu lado.

Sempre assim, nunca responde nada com nada, pois eu aceito seu desafio, valentão. Daqui por diante eu vou descobrir o que está ocorrendo dentro dessa sua cabeça. Vou descobrir o que acontece com o Gris e tirarei ele de você.

— Você precisa mesmo ir tão cedo, vai mesmo amanhã? — eu pergunto.

— Sim, Galantur quer a menina, não é? Vou levá-la para a floresta, pois ninguém ousará pôr os pés lá. Além disso, não quero entrar em conflito, mas se o conflito me procurar, que seja dentro da Floresta de Prata, pois assim nenhum deles sairá vivo.

— Entendi, mas cuide bem deles. Traga-os inteiros desta vez para mim, me promete?

O V. novamente respira fundo, pensa bastante, e responde com serenidade.

— Eu prometerei, porém com uma condição.

— Já quer tirar vantagem de mim, seu espertalhão!

— Eu quero que você nunca mais retire o amuleto.

— Fechado! — respondo na hora. Essa foi fácil!

— Então, eu também prometo.

— Srta. Cintia, já está na hora de cavalgarmos? — diz um garoto de cabelos cinzas, todo encabulado, após sair da água.

Ele está sem camisa agora e posso ver uma infinidade de cicatrizes por seu corpo, as quais ofuscam aquela de seu braço direito.

— Claro, meu querido, vem cá. — Eu me levanto, vou até um cavalo que pastava amarrado por uma corda. — Você vai andar no Garibaldi. Vem cá, Garibaldi, você lembra do Gris? Ele escovou seu pelo outro dia. Olha só, Gris, o Garibaldi já foi um cavalo selvagem, mas ele ficou amigo do meu pai e agora ele é nosso amigo.

— O Garibaldi é muito bonito, Srta. Cintia.

— Ele é sim. O pelo dele está assim, brilhoso, por sua causa. Ele é muito bonzinho, mas tome cuidado para não assustá-lo, pois ele pode te dar um coice ou uma mordida se o fizer, quem sabe até os dois. Sempre se aproxime dele ou de qualquer cavalo pela lateral, desta forma, e deixe que ele saiba que você está chegando perto. Levante sua mão assim, na direção do olho dele para que ele saiba que você se aproxima. É como dizer bom dia para o Garibaldi.

— Certo, Srta. Cintia. Ahm... a Srta. pode me ajudar a subir? Minha mão está dormente ainda — diz o garoto, ao passo que olha para a própria mão direita.

— Claro, Gris, vem aqui. Eu vou te levantar.

Então eu puxo o garoto e o ajudo a subir no cavalo.

— Laura, vem cá também. Você vai andar na Neve.

Oba! — diz Laura, que corre em direção à égua.

— Não esqueceu de ninguém — diz a infame raposa.

— Raposas não montam a cavalo. Além disso, eu lhe alertei que você teria uma punição por ter me desobedecido e saído do seu quarto à noite, a punição será esta: você não cavalgará.

Ah! Por que, professora? Seria igual aos velhos tempos e nem foi culpa minha. Eu fui tomar um ar e uns brutamontes me emboscaram... e o Gris também saiu e ele...

— Já conversamos sobre isso. Eu disse que não, apenas aceite e me obedeça na próxima vez.

Tá bom! Humpf! Nem queria mesmo...

V. esboça um rápido sorriso, é bem rápido, mas consigo notar. Parece que ele realmente melhorou nesses últimos anos.

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