A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 3 – Parte 3

Capítulo 86: Véspera do Amanhecer

Após o desfecho da primeira batalha, o grupo decidiu passar uma parte do anoitecer nas imediações do trajeto derradeiro.

Pálida ainda precisava se recuperar da grave ferida sofrida pelo renegado, portanto encontrava-se deitada num colchão criado pelo Áster da Marcada de Acrux.

Essa que, em específico, ainda sentia certas dificuldades para lidar com o novo reencontro.

Primeiramente, tinha os problemas com o Marcado de Sirius, responsável por matar uma de suas “irmãs” na batalha que perdurou há três anos.

Em seguida, não bastasse isso, pôde rever o Marcado de Altair, aquele que a salvou das profundezas do desespero.

À parte disso, as crianças cósmicas encaravam Lúcifer, o encarregado de trazer o outro trio de escolhidos àquele lugar.

Ele observava a todos com os braços cruzados e o semblante fechado, encostado em uma das pilastras remanescentes do passado.

O clima era pesado. Havia diversos questionamentos e palavras a serem ditas, de cada um para cada um. No entanto, o silêncio prevalecia.

Ninguém encontrava coragem necessária e respeitava o momento importante, onde o fim de todas as histórias situava-se próximo do alcance.

— Que climão... — murmurou Alice, a única deslocada daquelas duas reuniões.

Não à toa, foi ignorada pelos presentes.

Em virtude disso, acuou o corpo sobre um dos pilares e desviou o foco na direção do crepúsculo — embora curiosa quanto a situação a seu redor.

Também incomodado com a taciturnidade geral, Norman exalou um profundo suspiro. Porém...

— É esse daí, Sothis. — A voz de Gabriel quebrou o gelo. — Essa é a pessoa que pode entrar na tal Singularidade, por meio do cristal.

A anã branca arregalou os olhos cianos, tão surpresa quanto os próprios recém-chegados.

Sem hesitação, levantou-se do pequeno assento de pedra onde repousava e caminhou na direção do rapaz, também sentado — só que no chão.

Ele não reagiu, no aguardo das ações que seriam tomadas pela menina de curto cabelo branco.

Ao postar-se à frente dele, o encarou durante um curto período.

De súbito, conduziu os dedos indicador e médio até a testa dele, levantando a franja de cachos e encontrando o símbolo da Constelação da Águia.

Tateou-o com leveza, o suficiente para transmiti-lo um calafrio arrepiante por todo o corpo.

Era como o toque dela, lembrou-se ao mesmo instante. Foi o suficiente para definir o nível de misticidade que aquela menina possuía, o envolvendo em um fluxo de aura extremamente gélida.  

No sentido contrário, a anã branca pôde experimentar um afago caloroso lhe invadir o corpo.

Ficou tão surpresa em comparação à reação anterior, ao levantar ainda mais as pequenas sobrancelhas.

De certo, aquele rapaz conduzia uma conexão singular com a atual Rainha Celestial.

— É verdade... Talvez ele realmente possa superar a barreira. — A menina recuou o braço, ainda tomada pela sensação abrasante. — Foi isso que você pensou ao buscá-los, eu suponho.

Sothis encarou o esguio, que num primeiro momento sustentou o silêncio e resumiu-se a assentir positivamente com a cabeça.

— Ele é o único que pode achar qualquer brecha deixada pela Rainha — entoou na sequência, algo que o grupo guiado pelo próprio já sabia.

— Então, de qualquer forma, a gente não ia conseguir sem ele? — Judith indagou, os olhos direcionados à pequena que as guiou.

— Em minha defesa, eu não sabia disso, hihi! — Pálida, um pouco recuperada do ferimento, coçou a cabeça ao responder através de um sorriso desconcertado.

— Eu também não sabia — confirmou a anã branca. — Depois que tentei adentrar e não consegui, realmente perdi as esperanças. Quem poderia imaginar...

— Por isso eu falei pra esperar. — Gabriel deixou sua zona de conforto e criou uma aproximação com o marcado rival. — Eu confiava que ele viria. Afinal, ele não parece ser uma pessoa que desiste dos outros..., aliados ou inimigos. Sempre tenta achar a melhor saída pra todos, não é?

Encarado pelos sublimes olhos ametistas, Norman não foi capaz de segurar as lembranças dos confrontos travados no Sul, há três anos.

Em específico, a derrocada no vale, após sua vitória suada sobre o Marcado de Aldebarã.

— Suas palavras ainda queimam em minhas memórias — prosseguiu, as vistas entrefechadas. — Elas, de alguma forma, me fizeram mudar. E cá estamos, novamente..., agora pra trabalharmos juntos e salvar o universo. Chega a ser irônico.

O cacheado permaneceu silente.

— Mas acima de tudo, você quer salvar aquela garota, certo? — À nova pergunta, o rapaz abaixo enfim franziu o cenho. — Ela é tão importante pra você ir até os confins do universo?...

— É... isso mesmo. — Norman se ergueu, equiparando-se à estatura do Marcado de Sirius. — Eu vou salvar a Layla. E também vou acabar com essa maldição de uma vez por todas.

Ao escutar aquilo, Gabriel Russell confirmou o grande desejo pessoal, desde que conheceu o novo cenário no qual aquele mundo se encontrava.

Ele não havia mudado. E isso, de certo modo, lhe despertou um alento indescritível, capaz de fazer seus lábios movimentarem-se na formação de um tênue sorriso.

Na companhia dele, Sothis levou as mãos à boca e soltou um fraco gemido que chamou a atenção dos presentes a sua faceta enrubescida.

Por algum motivo, ela parecia ter entendido tudo, à medida que experimentava batimentos poderosos chacoalharem seu peito.

— Ei, m-mano Sirius... isso... isso seria...? — Tentou colocar-se na melhor frase possível, a voz encabulada. — Isso seria... o que vocês chamam de amor?

Ninguém ousou respondê-la, apesar de alguns considerarem aquilo como a verdadeira intenção que movia o jovem de Altair à Rainha Celestial.

A despeito das reações comedidas, Alice e Pálida dispararam risadas idênticas, trazendo uma inédita leveza ao clima local.

Envergonhada, a anã branca bufou em protesto à atitude da dupla e iniciou uma discussão contra elas, que logo se espalhou aos demais presentes.

Menos tensa que o habitual perante o último desafeto, a Marcada de Acrux encarou os próprios sentimentos antes de escolher qual caminho tomar.

Por isso, não obstante o fraco sorriso estabelecido na face cheia de sardas, abaixou o rosto na vertente das pernas a fim de ponderar consigo.

Beatrice a encarou, bem ao lado, mas resolveu deixá-la a sós. Poucos segundos foram necessários para que a jovem freira tomasse sua decisão, através de um profundo lamento.

Levantou-se da beirada de uma das poucas pilastras menores daquele templo remoto e caminhou até os dois garotos.

Ao ser encarada por ambos, assim como Bianca na retaguarda, findou o avanço e cerrou os punhos. Os beiços estremeceram, os ombros se retraíram.

Caçou as melhores palavras a fim de proclamar, mas não conseguia suportar a vontade de despejar lamúrias sinceras contra o rapaz de curto cabelo castanho-claro.

— Eu acho que... nunca vou conseguir te perdoar — mussitou com extremo receio. — Mas irei esquecer o passado, por ora. Porque temos coisas mais importantes em jogo aqui.

Gabriel nunca poderia esquecer, de igual modo, as atrocidades que cometeu ainda na época da Seleção Estelar.

E uma delas continuaria a persegui-lo não só nas faculdades mentais. A presença de Judith naquele lugar, ao alcance dos olhos, materializava com perfeição todos os pecados que deveria carregar até o fim de sua vida.

Dito isso, ele resguardou-se em quietude, delegando sua resposta assertiva somente a um movimento vertical com o rosto.

Depois disso, o foco da garota voltou-se ao cacheado.

Ele também não tinha mudado tanto com o passar do tempo; mantinha o semblante carregado, o cabelo mais volumoso, mas desgrenhado igual.

Ela tentou me matar... — Começou a dizer, igualmente receosa. O jovem alçou os supercílios. — Se não fosse pela interferência da Sarah, eu certamente teria sido esfaqueada. Mas agora que paro pra pensar... talvez fosse melhor assim. Se isso poupasse Karen e Sarah, de alguma maneira, eu não pensaria duas vezes em dar minha vida em troca.

À parte da conversa, a Marcada de Capella suspirou taciturna. No fim, ela não tinha qualquer controle sobre os pensamentos e desejos da filha.

— Mas o passado não pode ser mudado — prosseguiu. — Se estou aqui, é por eu ainda ter algum propósito. E sinto que esse propósito está próximo de ser alcançado. Por mim e por vocês.

Encarou-as, rente aos olhos brilhantes de emoção.

Também distante daquele diálogo, Pálida fitava as costas da companheira com certo pesar na admiração.

Parecia sentir toda a dor carregada por ela, a ponto de levar uma das mãos a apertar-se contra o peito.

— Sei que ela também fez coisas ruins com outras pessoas. Naquele dia, as emoções dela me alcançaram. — Assentiu com determinação. — Não vou te julgar por estar em busca de salvá-la. Foi graças a ti que eu pude recomeçar, antes de me afogar na escuridão pra sempre. Mas sinto que também não posso perdoá-la por tudo que fez... comigo e com outras pessoas.

Norman não estava a par da situação comentada pela garota, mas interligou os momentos cruciais ao remeter à batalha contra o Marcado de Regulus.

Incapaz de fugir da responsabilidade, fechou os palmos a exemplo dela.

De cabeça baixa, a deixar a longa franja cacheada cobrir metade de seus olhos, reprimiu as emoções rústicas que lhe despertavam a vontade de defender a Marcada de Vega a todo custo.

Tinha plena ciência de que ela tinha errado. Não poderia mudar essa verdade, não importasse a quantidade de tentativas.

Jamais seria capaz de livrá-la dos próprios pecados.

Por isso, só havia uma coisa a ser feita...

— Sei muito bem dos erros que ela cometeu. E por isso eu devo salvar ela. — Levantou a cabeça, sua feição recheada em convicção. — Quando eu fizer isso... vou carregar os pecados dela comigo. O único que pode suportá-los... sou eu.

Judith arregalou as vistas perante a declaração contundente. Bianca reagiu da mesma forma e por pouco não utilizou a Telepatia no impulso.

Ao brecar esse avanço da energia mística, ponderou sobre o estranho sentimento identificado na voz do garoto.

Também pensou em perguntar diretamente, contudo, achou que soaria estranha caso prosseguisse daquele modo.

Dito isso, tornou a desviar a atenção, sem sequer ser percebida pelos outros marcados nos arredores.

— Aliás... — Alice quebrou o silêncio. — Não é um risco deixar aquele cara, sabe...? Ir até onde a gente quer ir, desse jeito?

À pertinente pergunta, todos adquiriram uma visão semelhante quanto a brecha disposta pela parada a favor do descanso.

Tanto os humanos escolhidos quanto as entidades cósmicas voltaram suas concentrações a Lúcifer, que não se abalou apesar de receber tantas encaradas.

Inalterável no semblante taciturno, pouco se importou com a nova inquietação descoberta pelos jovens.

Na sequência, balançou a cabeça para os lados, dando ênfase à resposta verbal:

— Não precisam se preocupar. Ele está abalado emocionalmente, não deve achar ser capaz de entrar na Singularidade. — Aproximou os cílios um do outro. — Além disso, ele quer nos eliminar primeiro, pois sabe que temos uma forma de acesso em mãos... Chegaremos no local ao mesmo tempo, então é melhor que recuperem as energias. Essa batalha ainda está longe de terminar.

Aquilo serviu para acalmar os ânimos, mas não ofereceu a tranquilidade necessária para que pudessem deixar de pensar na outra possibilidade.

De todo modo, o grupo precisava pregar toda a cautela possível, antes de decidirem como executariam os próximos passos.

— Se você falou... — A Marcada de Spica absteve-se de discutir, conformada com aquele ponto de vista.

Inaptos a competirem, os jovens regressaram a suas posições anteriores, em prol de seguirem o cronograma estabelecido pelo misterioso.

Mesmo a céu aberto, sentiam-se confortáveis com os colchões improvisados pelo Áster da Criação.

Judith deitou-se ao lado de sua mãe e de Pálida, sem dizer mais uma palavra. Após despejar — quase — tudo, experimentou certo alívio dominar o machucado coração.

Foi o suficiente no intuito de, pelo menos, cochilar durante as horas possíveis na presença daqueles indivíduos.

Gabriel e Sothis também regressaram às respectivas disposições, mas abriram mão do conforto.

O rapaz preferiu descansar com as costas repousadas num dos sustentáculos de pedra, os braços cruzados e as pernas esticadas sobre o solo rochoso.

A anã branca, com muito cuidado, assentou-se ao lado dele e apoiou o rostinho em seu braço canhoto. Como o marcado não pareceu se incomodar, assim permaneceram, cercados de mansidão.

Alice preservou a acomodação no topo de uma estrutura elevada. Bianca, ao lado do Marcado de Altair, bocejou seus primeiros sinais de sonolência após mais um dia de jornada.

Não demorou muito até sucumbir na cama confortável, ausente durante a última semana.

Abraçada ao travesseiro improvisado por sua mochila, parecia estar no paraíso, em vista do leve sorriso que tomava seu semblante.

Assim sendo, Norman também resolveu usufruir daquela rara comodidade e deitou-se em sua cama especial.

De olho na faixa da Via Láctea acima do rosto, fechou as vistas gradualmente, até ser abraçado pelo estado de dormência absoluto.

...onge...

Uma voz sussurrante ecoou em sua cabeça, inerente ao mundo dos sonhos.

À medida que a sensação congelante se espalhou por todo o corpo, as memórias do acidente no dia de sua Provação regressaram em flashes dolorosos.

E em todas as imagens entrecortadas, a silhueta dela ganhava destaque; fosse em meio ao céu noturno, em meio às chamas do automóvel ou em meio à entrada do hospital... ela sempre estava lá.

Olhando no fundo de seus olhos, movia os lábios na formação de palavras inaudíveis.

Essas que, aos poucos, ganharam significado:

Fique longe...

O garoto despertou assustado, levantou o torso do colchão e logo tratou de comedir os arquejos que faziam o peito doer.

Ninguém ao seu redor encontrava-se acordado — somente desconfiava de Lúcifer, sempre de pé, embora com os olhos fechados.

Ao controlar os sentimentos embaralhados, pensou na razão encarregada de deliberar a experiência tão realista.

Era como se escutasse o cochicho dela ao pé do ouvido, no plano da realidade.

Levou uma das mãos à cabeça incomodada e estreitou o olhar na direção das pernas flexionadas.

Eles estavam muito próximos. Só pôde pensar nessa justificativa.

“Droga, Layla...”, lamentou consigo, inapto a encarar o firmamento estrelado mais uma vez naquela noite.

No meio da madrugada, Lúcifer acordou a todos e disse que já era hora de partir.

Era o momento da decisão, o caminho derradeiro, incumbido de levá-los ao objetivo primordial: a Singularidade do Cosmos, onde a Rainha Celestial marchava para o fim junto da entropia.

O grupo não se importou com as camas improvisadas, mas resolveram tirar os colchões daquela zona histórica e sagrada, resistente ao clima e ao tempo.

Silenciosamente se despediram do local e partiram à subida da cadeira de colinas, local já mapeado pelos interligados do Cão Maior.

Avançaram por bons minutos entre as passagens florestais até alcançar outras ruínas de um templo antigo, essa localizada no cerne da densa mata.

Em tempo, chegaram no limiar daquele morro, onde a pequena e abandonada vila residia metros abaixo.

Os desacostumados arregalaram os olhos e reagiram boquiabertos, perante as casas destruídas pelo tempo, os túmulos localizados à direita e o grande templo que destoava de todo o cenário, à frente.

O Marcado de Altair não hesitou em saltar e, com ajuda de sua Telecinesia, aterrissou no solo relvado e avançou solitário até a região das lápides.

Era o óbvio a ser feito, pensou a maioria.

Rodeado pela brisa que vinha do mar adiante, encontrou a falésia no fim do caminho, logo após a estela específica sob a grande árvore da antiguidade.

As vistas esverdeadas cintilaram.

Um choque frio lhe percorreu da cabeça aos pés, como se as últimas pontas pessoais fossem amarradas.

— É aqui... o lugar daquelas memórias — murmurou.

O resto dos envolvidos também tomou aquele trajeto, a despeito do escopo determinante no grande templo.

Somente Gabriel e Sothis ficaram um pouco para trás, pois já haviam visitado aquela região.

— Então... chegamos? — questionou a Lúcifer, um dos primeiros a se juntar a sua posição.

— Precisamente. Aqui é o local onde a Rainha passou grande parte de sua vida, antes do início da Seleção Estelar.

Às palavras discernidas pelo homem, o marcado o encarou de soslaio, curioso quanto ao restante da explicação. Já estava pronto para indagar seu prosseguimento, mas...

— Acho melhor terminamos com isso logo. — A voz de Gabriel puxou suas atenções, sucedida por grunhidos arranhados que todos ali conheciam.

Sem que pudessem prever, acabaram cercados por vários degenerados, nas imediações do vetusto cemitério.

Podiam contar um número que ultrapassava a casa das primeiras dezenas, desprovidos de dificuldades.

A fase final na busca pela Singularidade enfim teria seu início, observada de longe por olhos recheados em puro ódio, que ninguém além das estrelas no topo poderia ver...

Opa, tudo bem? Muito obrigado por ler mais um capítulo de A Voz das Estrelas, espero que ainda esteja curtindo a leitura e a história! 

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