A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 3 – Parte 3

Capítulo 85: Céu e Terra

O renegado acuou-se perante a chegada inesperada do Marcado de Sirius e sua acompanhante.

Não que desejasse pregar qualquer cautela contra os novos adversários, ciente da própria superioridade acerca deles.

Porém, achou interessante acompanhar um “encontro específico”.

Os olhos noturnos dirigiram-se à união das pequenas estrelas. Ainda ferida, Pálida deixou esvanecer a faceta preocupada de momentos atrás, amparada pela sorridente Sothis.

À frente de ambas, o garoto se recuperou do choque contra a lâmina de matéria escura do adversário.

Conferiu o estado da katana luminosa. Não obteve avarias após a colisão, portanto ainda podia utilizá-la em sua melhor performance.

E mesmo que não pudesse, seria fácil criar outra arma. O arsenal de possibilidades encontrava-se à disposição.

Se lhe traria capacidade para derrotar aquela ameaça, aí a conversa já ia a outro patamar.

No primeiro encontro entre eles, há mais de uma semana, não teve chance alguma contra as habilidades místicas do enegrecido.

Acabou salvo pela anã branca em seu encalço e necessitou de uma chance para repensar todas as conjunturas atuais.

— Não importa quantos venham... ou o quanto se debatam — enunciou o soturno, as vistas semicerradas. — Não irão me impedir, seja como for. O caminho para o fim já está definido.  

— Não te perguntei nada, desgraçado — rezingou Gabriel, enraivecido perante a convicção exacerbada do místico.

— É isso aí! — esbravejou Sothis, o dedo indicador em riste na direção dele. — Ninguém te perguntou nada!

Em retruca, ele estalou a língua.

— Mais uma que desceu... — Enfim foi possível enxergar algum desconforto no semblante e na voz dele. — Vocês estão tão desesperadas assim, por algum acaso?

— Nós é que perguntamos isso... — Pálida também se pronunciou, ainda com dificuldades para se mover por conta do empalamento. — Está claro que sua feição detém a maior quantidade de desesperança, se comparada com os seres que aqui estão. 

Ele retraiu-se em taciturnidade durante um curto período, até disparar uma risada entre os dentes cerrados.

Seus ombros, cobertos pela manta escura, subiram e desceram à medida que o som grunhido se espalhou na orientação da brisa do entardecer.

Ainda risonho, levantou o rosto a fim de observar cada ser vivo naquela área.

As marcadas permaneceram incrédulas na retaguarda das entidades cósmicas, que eram protegidas pelo mortal com maior poder de todos.

— Isto não é desesperança, é... consciência! — Abriu os braços, na iminência de avantajar a feição promissora. — Consciência de que nada pode me impedir! De que meu desejo está a poucos passos de ser concretizado! Não posso evitar que a ansiedade transpareça em minha postura... é emocionante!!

“Finalmente mostrando quem realmente é...”, pensou a alva, as vistas azul-ciano entrefechadas diante da nova compostura adotada pelo hostil.

Para o Marcado de Sirius, nada disso importava.

Em busca de manter a pegada necessária a favor de alcançar o objetivo, se empenharia ao máximo para combater o arqui-inimigo.

Longe disso, a Marcada de Acrux observava as costas do rapaz — cobertas pelo casaco com pelos sintéticos — com os globos esgazeados.

No que concernia as lembranças recentes, quando a pequena estrela foi ferida, encontrá-lo novamente lhe trouxe o sofrimento vivenciado no combate da igreja.

A torrente emotiva fez seus punhos estremecerem.

Uma súbita vontade de atacá-lo surgiu.

Ainda que o cérbero carregasse a plena ciência sobre aquele não ser um instante propício, a ânsia do coração ganhou volúpia a cada batida poderosa dentro do peito.  

— Judith... — Beatrice murmurou, inquieta com relação ao estado emocional da filha visivelmente atordoada.

A despeito disso, a própria garota comediu-se. Fechou os olhos, respirou fundo e tratou de deixar aquele assunto para depois — caso ainda tivesse esse tempo para resolvê-lo.

Naquele instante, era hora de focar em como sobreviver ao herdeiro renegado.

Consciente quanto a diminuição dos ânimos da jovem freira, o marcado estreitou os olhos ametistas.

— Sothis. — Ao chamado, a anã branca ergueu o foco. — Pegue-os e se afaste o quanto puder daqui.

— Mas você consegue dar conta!? — Demonstrou temor no tom de voz, como raras vezes o garoto contemplou.

— Talvez... provavelmente não. — A resposta sincera dele arrancou um resmungo quase inaudível da pequena. — Mas vocês não têm condições de enfrentá-lo, ainda mais com essa outra garota ferida.

Ela queria rebater, mas o rapaz estava certo. Caso desejasse lutar, não poderia focar em proteger Pálida ou as marcadas vulneráveis em sua retaguarda.

Dito isso, assentiu com a cabeça e tratou de delegar todos os esforços em prol de erguer a cerúlea.

— Vocês ouviram, né? Vamos nos afastar daqui rápido!

— M-mas...

— Não podemos contra ele agora! — Sothis interrompeu a Marcada de Acrux, passou o braço esquerdo da estrela sobre seu pescoço e começou a conduzi-la. — Vamos logo!

Sem outras opções, mãe e filha trocaram olhares e decidiram disparar no encalço das entidades cósmicas.

— Não pensem que irei deixar.

O enegrecido, determinado a frustrar o plano de emergência traçado pelos oponentes, ergueu a mão livre e, ao seu redor, um círculo negro surgiu.

Dali foram disparadas três estacas de matéria escura na vertente das garotas, obrigando Gabriel a entrar na frente no limite do contato.

Levou a katana diante do corpo e a brandiu para rebater os projéteis pontiagudos.

A força exacerbada carregada por eles fez seus braços paralisarem, impressos de extremo esforço no intuito de repelir a energia do enegrecido.

Ao experimentar a força contrária prestes a ser concretizada, arregalou as vistas e desceu o ponto de equilíbrio corporal.

Isso o permitiu construir uma alavanca com os membros, levantando a espada junto das camadas obscurecidas.

Os objetos não foram desfeitos, à medida que se aproximavam do céu que começava a ser dominado por contornos alaranjados.

Ainda restou a onda de choque, encarregada de quase derrubá-lo no chão de pedra.

Foi obrigado a girar o torso num mortal, para então fincar as solas no plano sem perder a firmeza. Nesse ínterim, foi pego de surpresa por uma nova afronta do soturno.

Puxou forças sabe-se lá de onde e trouxe a lâmina cintilante num contragolpe improvisado, que serviu mais como um mecanismo defensivo alucinado do que um revide propriamente dito.

Isso pois a arma do renegado desceu rente a sua face, bloqueada na hora exata.

Inapto a se virar naquela postura nada proporcional, o Marcado de Sirius não pôde evitar o poder repelente encarregado de prensá-lo contra o solo.

A dor se espalhou da região de contato — as costas — até o restante do torso, na velocidade do pensamento. Rangeu os dentes pela agonia, mas não teve espaço para lamentar.

Por meio de ataques rústicos, sempre em busca de empalá-lo ou lacerá-lo, o homem irradiou sua acentuada vontade de conquistar o objetivo expectado por toda sua vida longeva.

Gabriel conseguiu escapar ao girar o tronco e usar uma das pernas no intuito de atingir os calcanhares do adversário.

Conseguiu fazer isso, lhe arrancando pouco equilíbrio, mas o bastante para ganhar alguns segundos e abrir nova distância.

— Desgraçado... você está um pouco diferente daquela vez, não? — O homem, agachado após sofrer a rápida rasteira, se levantou com uma veia a saltar da testa.

O rapaz não o respondeu, mas também não conseguiria encontrar uma explicação concreta para aquela mudança.

Se fosse chutar, diria que estava tão compenetrado em comparação àquela ocasião, onde foi abalado pelo ataque inicial do enegrecido.

Porém, não deveria ser apenas isso. Fato era que sua capacidade de adaptação destoava dos demais marcados, até entre aqueles que se foram durante a Seleção Estelar.

Um encontro contra aquele ser misterioso foi o suficiente para, desse modo, encaixar seu modo de batalhar contra o dele.

Ainda carecia de outras capacidades a parte, no intuito de equiparar muito mais o confronto ou até despontar em sua dominância, mas esse assunto não lhe concernia no momento.

Conferiu as costas, para ver até que ponto as garotas já tinham corrido.

Situavam-se a alguns metros de distância, mas não o bastante para que pudesse focar no adversário sem preocupações.

— Não conte tanto assim com a sorte... humano!

Ao dizê-lo, o herdeiro saltou sobre o Marcado de Sirius, sem permiti-lo reagir, e disparou na vertente das fugitivas.

Gabriel buscou alguma forma de se equiparar tanto na força quanto na velocidade de deslocamento, mas foi pego de surpresa pelo disparo de novas estacas escuras.

Repetiu o deslocamento defensivo da última investida, onde usou a katana luminosa para repelir os projéteis pontiagudos na direção da abóbada.

Numa reação instintiva, usou sua versão dos céleres tiros, com a energia luminosa.

Atento, o soturno confeccionou uma barreira de matéria escura em sua volta e, quando a luz entrou em contato, foi impelida contra o próprio garoto.

Ele precisou executar outra evasão através de um salto à direita, o que lhe arrancou outros segundos preciosos.

Na velocidade do pensamento, o renegado alcançou o quarteto.

Sothis já contava com essa possibilidade, portanto preparou-se de maneira antecipada no intuito de recebê-lo, embora ainda carregasse a ferida Pálida.

— Hora de cortar o mal pela raiz — mussitou, prontificado a matar as duas entidades cósmicas a princípio.

“Ele veio!?”, Judith reagiu com atraso, boquiaberta de espanto a exemplo de sua mãe.

Sem pestanejar, levantou a arma negra, a mira travada na cabeça da anã branca.

Quando a desceu em alta velocidade, decidido a acabar com tudo num golpe só, foi pego de surpresa mais uma vez.

Outra arma esticada impediu a confecção do ataque, mas agora, não sofreu com o poder repelente que o Marcado de Sirius era inapto a evitar.

Acima dos olhares aturdidos, os emaranhados num coque azul-escuro pareciam brilhar com vida própria.

O encontro repentino fez as sobrancelhas do agressor serem erguidas ao limite da testa.

O semblante circunspecto de Lúcifer o encarou, como se penetrasse seus olhos e tocasse seu cerne.

Aquele desafio prosseguiu por meio de uma onda de choque congelante que se alastrou pela região, mas permitiu o recuo das garotas sem muitos problemas.

Portanto, no fim da disputa, quem foi obrigado a recuar...

— Essa batalha acaba aqui, garoto...

Perante os dizeres daquela voz familiar, o enegrecido foi lançado a alguns metros pela força contrária.

Ainda assim, não perdeu o controle do corpo ao girá-lo num mortal complexo.

Passou por cima do Marcado de Sirius, que acompanhou a sequência através do semblante estupefato, e aterrissou de volta ao plano terroso.

Sem que pudesse expectar, sofreu uma queda vertiginosa contra o solo, como se uma força invisível de toneladas retumbasse sobre si, da cabeça aos pés.

Não suportou toda a pressão, levando o joelho a tocar a base horizontal. Semicerrou as vistas e, no puro empenho, alçou a cabeça.

— Então você que é o dito cujo!? — Alice Crowley soou arteira pelo espaço dominado por seu Áster da Gravidade; o símbolo disposto no abdômen irradiava o cintilar branco-azulado. — Acho que nem seres tão poderosos podem confrontar uma força gravitacional tão elevada, né!?

Ante o desafio imposto pelas palavras provocativas da Marcada de Spica, o esmagado rangeu os dentes e esboçou um sorriso forçado.

À medida que os membros inferiores começavam a recuperar sua postura, a despeito da queda compelida, a jovem de cabelo ondulado soltou um assobio.

— É tão obstinado, ainda assim...

Soou um tanto deleitosa ao proferir, mas o efeito contrário provocado pelo renegado foi cessado logo em seguida.

Raízes surgiram de baixo da terra, fazendo seus olhos arregalarem num primeiro momento.

Controlados por uma fina camada de energia, envolveram-se por todo o corpo dele, o prendendo de vez naquela posição desfavorável.

Amarrado nos braços, pernas e pescoço, viu-se incapaz de vencer a soma das ações originadas pelos novos obstáculos.

Quando todos conferiram a fonte da segunda proliferação, foram os marcados que reagiram espantados.

Caminhando a passos curtos, Norman trazia sua palma dominante erguida, orientada à disposição do enegrecido.

Ofuscado em partes pela franja de cachos, o brilho alvo denotava a natureza de sua marca. Os olhos verdes, semicerrados, encaravam o adversário sem pudor.

E a sua companhia, Bianca, trazia consigo uma face entristecida, como se compadecesse com a situação adversa daquele ser maligno.

— É ele...! — Judith mal conseguiu completar o pensamento proferido em voz alta, tão perplexa quanto Beatrice, ao seu lado.

Gabriel também reagiu alarmado ao revê-lo após tanto tempo, porém sustentou a delineação circunspecta da feição.

Bianca foi a primeira a contatá-los visualmente, já que o companheiro tinha foco em manter o enegrecido preso nas raízes.

E enquanto esse trazia o centro das atenções dos três conhecidos de longa data, não somente ele, como Pálida e Sothis encararam o esguio que havia arremetido na frente.

Diferente do obscuro, as crianças iluminadas demonstraram espanto através dos supercílios contraídos e os lábios distantes um do outro.

Experimentavam uma influência rica em familiaridade provinda do respectivo, capaz de despertar sensações nostálgicas em seus interiores.

O pior disso tudo era que elas não compreendiam a razão daquilo ocorrer.

— Você realmente veio... desgraçado! — grunhiu o detido, a testa franziu-se. — Até aqui quer me denegrir, então!?

Lúcifer não respondeu, porém o assunto trouxe a curiosidade daqueles que o acompanharam até então.

Enxergaram na face dele uma profunda desconsideração, como se estivesse ciente do significado das específicas palavras.

Antes que qualquer um pudesse questionar, Norman experimentou a força telecinética ser vencida aos poucos.

Tentou elevar a potência sobre as raízes, mas o homem entoou um grito desesperado, capaz de estremecer os tímpanos dos presentes.

No puro ódio, desfez-se dos membros lenhosos com certa facilidade e ergueu-se contra a imponência determinada pela força gravitacional.

Alice sorriu de escárnio ao vê-lo sobrepujar seu poder, a ponto de recuar dois passos inconscientes num mecanismo de defesa automático.

— Não vou deixar que isso aconteça... de novo não!!! — Apontou o indicador à direção do silente. — Eu vou alcançar meu desejo... o que é meu de direito, custe o que custar! Nada irá me impedir... nem mesmo você!

Sem oferecer novas elucidações, o desesperado executou um salto sobre-humano e deixou o raio gravitacional, para pleno espanto da Marcada de Spica.

Uma gota de suor frio chegou a escorrer por seu rosto, à medida que percebeu a verdadeira ineficácia de sua habilidade sobre o inimigo.

Esse que, sem deixar rastros, desapareceu daquela região, anunciando o fim da batalha. Todos os marcados deixaram os poderes esvanecerem.

Norman enfim delegou foco às duas freiras que conheceu há três anos, assim como o rapaz que tanto tentou lhe matar.

Contudo, as atenções logo correram à anã branca que, boquiaberta, avançou a passos curtos na direção do noturno.

— Você... — Trocaram olhares por um período arrastado, até que ela desistiu de indagar e executou uma mesura com o torso. — Obrigada por nos salvar.

— Não há de quê — respondeu, desviando o foco à pequena estrela. — Pelo visto, precisaremos fazer uma pausa.

A partir daquele instante, o reencontro entre os escolhidos pelas estrelas criava um rumo ao desfecho daquela história.

Opa, tudo bem? Muito obrigado por ler mais um capítulo de A Voz das Estrelas, espero que ainda esteja curtindo a leitura e a história! 

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