A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 58: Chamado das Estrelas

“Droga, o que é isto? Estou... sozinha?...”

Ao se perder na floresta, separada do parceiro com quem tinha ido buscar a raptada Bianca, Layla varreu os arredores sombrios por meio das vistas estremecidas.

Incapaz de definir um prosseguimento condizente com as imagens captadas graças a seu Áster, buscou o controle da sensação temerosa que passava a se formar dentro do peito.

Andou alguns metros até que, de repente, a influência florestal foi modificada.

— Impossível... — murmurou de sobrancelhas arregaladas.

Sentindo um gosto amargo na boca, engoliu em seco perante o sorriso malicioso estampado no rosto pálido da jovem.

Seu cabelo loiro dançava com a nova presença da brisa de outono, graças à alteração descomunal na realidade.

O espaço aberto, uma espécie de planície, permitia à lua e às estrelas brilharem no céu noturno sobre a dupla solitária.

Depois de alguns segundos sem dizer uma palavra, a alva cerrou os punhos com veemência.

Escondendo o estado de pânico que a dominava, deu procedência através de um semblante soturno.

Foi quando a companhia inesperada enunciou:

— Você conseguiu chegar até aqui, não é... Princesa? — Diante da ausência de respostas, ela prosseguiu. — Então escolheu Layla, certo? Escura como a noite, hihi...

— O que... faz aqui? — indagou um tanto receosa.

— Somente me certificando de que o destino não caminhe da maneira que deseja, entende? Só que estou bem intrigada quanto a um detalhe... — Semicerrou as vistas, tão escuras quanto as da jovem nívea. — Parece que aquele Pastor realmente te pegou de jeito, né?

Ao escutar tais palavras, ainda mais da maneira nas quais foram ditas, a Marcada de Vega deixou de piscar ao passo que as vistas esgazeavam involuntárias.

Uma súbita sensação de ódio cristalino a preencheu, por dentro e por fora do corpo estático.

Ela desejava rebater, mas a agonia foi tamanha que a responsável por seguir com o raciocínio foi a própria precursora:

— É realmente intrigante, pense comigo. Parece estar indo totalmente contra seu desejo, sabe? Como se... quisesse repetir o mesmo erro, de novo e de novo.

— Cale a boca... — Sua voz quase não saiu.

— Eu nem deveria estar dizendo isso, mas é triste te ver assim, entende? Apesar de que aquele menino, de fato, possui algo...

— Cale a boca...

— De todo modo, não acho que seja tão ruim cair nessa tentação. Afinal, para quem passou por tantos ciclos viciosos semelhantes, se acostumar seria...

— CALE A BOCA!

O grito enfurecido de Layla criou ecos contínuos pelo vazio, cessando o diálogo provocativo da loira.

Um tanto atordoada defronte à retruca efusiva, ela fechou um dos olhos.

— Acho que falei demais, certo?...

Receber a aura congelante da alva não se mostrava a melhor das experiências, portanto decidiu findar o assunto por ali.

Não sabia se teria a capacidade de escapar do estado soturno que a envolvia naquele instante, mas jamais desfez o semblante sorridente da face.

— Parece que ainda existe certa obstinação dentro de ti... e isso pode ser problemático. Não concorda... Princesa?

Ao estreitar as vistas enquanto fitava a feição negra da Marcada de Vega, Stella estalou os dedos a fim de trazer a floresta de volta.

Logo o silêncio foi tomado por explosões consecutivas, tal como impactos violentos não muito distantes daquela região.

A loira desapareceu junto da planície criada pelo Áster misterioso. Mais uma vez solitária, a alva pressionou os lábios róseos a fim de recobrar sua própria realidade.

“É verdade... o que estou fazendo?”, encarou a palma destra. Por diferentes piscadas, encontrava sangue sobre ela.

Nesse instante, sentiu a marca da Lira brilhar no peito, coberta pelo vestido preto que alcançava o pescoço.

Mediante os pesados olhos escuros, retomou a caminhada quieta pela zona florestal. Para alcançar seu desejo, faria o que fosse possível.

Até mesmo descartar suas emoções...

Sem as marcas das balas nas pernas, ainda com resquícios de sangue seco, Layla sustentou o empalamento no pescoço de Edward durante alguns segundos.

A absoluta taciturnidade envolveu o vale naquele momento.

Tendo a expressão esmaecida dela em destaque da sua posição, Stella pôde remeter à primeira e única grande conversa que tiveram no evento da Floresta de Ilusões.

“Parece que acabou... não é?”, fechou os olhos sem o habitual semblante sorridente, em aceitação à completa derrota para a Marcada de Vega.

Já tinha ciência de que não haveria nada mais a fazer a partir dali. Restava a ela observar os rumos consequentes àquele desfecho...

E eles começaram quando a alva removeu a lâmina do marcado acinzentado, já enfraquecido pelo golpe fatal.

Com maior perda de sangue através da área perfurada, caiu com os joelhos sobre o solo.

Manteve-se nessa posição, empenhado a não sucumbir por inteiro.

Ainda sem compreender a cura instantânea da companheira, Norman engoliu em seco.

Todas as perguntas que desejava direcionar a ela foram sobrepostas pela proliferação luminosa em volta do rapaz derrubado.

Ele tentava declamar, mas nenhuma voz saía.

A única ação possível foi encarar o Marcado de Altair e mover os lábios com lentidão, a fim de transmitir sua última mensagem.

Embora a sequência de ocorrências fosse rápida demais para o entendimento do garoto, foi capaz de captar as palavras formadas pelo adversário iluminado.

Esse foi o destino que escolheu.

Os olhos verdes esgazearam perante o peso invisível das palavras silenciosas.

— Está na hora... — O mussito de Layla trouxe de volta a atenção do aliado. — Esta é a chave... vamos alcançá-lo.

Sem ter o que dizer, ele verificou o estado do corpo de Edward que, a exemplo dos escolhidos anteriores, começou a se desfazer em flocos de luz branco-azulada.

O mesmo processo não parecia ocorrer com o Marcado de Rigil Kentaurus, já morto a alguns metros de distância do coração do evento.

No entanto Stella foi a responsável por se aproximar dele e, assim como sua parceira de longa data, realizou a jornada às estrelas.

O cacheado ficou espantado, mas não tão surpreso, ao observar Lucas Smith também se tornar partículas de fótons dourados que flutuavam na direção do firmamento.

— Eu te avisei, não foi? — murmurou com destino ao atordoado. — Agora vai entender o motivo de...

— Fique quieta. — Layla a cortou, sem pudor na voz. — Você vem conosco. Não há mais nada que possa fazer.

Tomada por um sorriso fraco, a loira fechou as vistas sem debater contra a supremacia da grande vencedora.

Depois de levar a alma do escolhido do Centauro às estrelas, a garota exalou um forte suspiro e somente aguardou pelo desenrolar da situação.

Enquanto a encarava sobre o leito criado pela cachoeira, Norman sentiu a palma ser tomada por uma sensação fria. Quando se deu conta, viu que a jovem nívea estava bem próxima, com sua mão sobre a dele. Seus olhos se conectaram, como muitas vezes desde o dia em que se conheceram.

Por meio de um aceno positivo da jovem, a luz emanada de Edward expandiu em alta velocidade por todo o vale.

E a experiência do pós-combate contra o Marcado de Regulus ressurgiu, onde o cenário inteiro foi engolido pela imagem do Cosmos.

Por um breve átimo, tudo ficou escuro diante das vistas do garoto.

Ao retornar, encontrou a companhia de sempre observando o céu.

Sobre uma superfície líquida, embora não os umedecesse, eram rodeados pelo breu iluminado por diversificadas esferas de plasma calorosas.

Residir naquele espaço por muito mais do que um instante anômalo trazia calafrios indescritíveis à espinha do rapaz.

O fascínio misturado ao temor lhe atrasou a perceber a mudança de figurino da Marcada de Vega.

Dessa vez com um mesmo vestido branco por inteiro, onde a marca no peito irradiava o brilho azulado à sua frente.

— Aqui estamos... — disse ao virar metade do corpo com serenidade. — Essa é a Singularidade.

Incapaz de proferir qualquer coisa, Norman venceu os incômodos espalhados por todo o corpo a fim de se levantar.

Mais uma vez varreu o local místico com as vistas arregaladas, como se para confirmar a veracidade da situação; ele, de fato, estava ali.

Então deu total atenção a Layla, de braços cruzados detrás do corpo, ao passo que os fios do cabelo branco ondulavam graciosamente sobre o vazio.

Já de pé, caminhou a passos curtos até mais próximo dela.

Por algum motivo, o coração lhe estremecia o peito a cada avanço, como se desejasse abraçá-la e beijá-la.

Um sinal misterioso que o fazia sentir muito medo. E a responsável por despertar esse turbilhão de sensações nele...

Era aquela expressão melancólica, adulterada pelo tênue sorriso formado pelos lábios bem delineados.

Quando começou a estender o braço canhoto em busca de tocá-la...

Você realmente conseguiu vir até aqui... — A voz retumbante o fez paralisar, ao passo que estremecia todo o espaço. — Pela Supernova que acabei de receber... não diria que foi um feito e tanto, mas é uma conquista a ser considerada.

Ao reconhecer o timbre poderoso que vinha de qualquer lugar, o Marcado de Altair levantou o olhar.

Sua primeira e instantânea reação foi arregalar ainda mais as sobrancelhas, numa expressão boquiaberta que sequer pôde perceber.

O ser de proporções mitológicas residia no trono de direito, os braços descansados sobre os apoios laterais enquanto os fitava de cima.

Embora não pudesse ter o rosto enxergado, a forma humanoide confirmava sua existência.

Sem precisar de maiores detalhes, o rapaz incrédulo foi ligeiro ao decifrar a essência de tal entidade.

“Não tem dúvidas. É o tal do Rei Celestial”, engoliu em seco de novo, inapto a mover um músculo diante de tamanha presença.

Por outro lado, a companheira em paralelo o encarava por meio das vistas entrefechadas.

Então... presumo que venha tomar meu lugar. — Estendeu a mão direita, um gesto suficiente para levar um ar congelante na direção da dupla. — Por acaso está preparada para lidar com este fardo, minha criança?

— Estou pronta há tempos... — Layla cerrou os punhos com força. — Então, saia daí de uma vez.

“Espera, o qu...?”, Norman mal pôde completar a indagação mental, pois um tremor incomparável se estabeleceu pela região.

Só então percebeu o sumiço de Stella, intimada a ir junto deles pela alva.

As divagações foram lavadas da mente no momento que o Rei se postou de pé em frente ao grande assento.

Ergueu a outra palma, dessa vez deliberando um ar quentíssimo contra os dois.

A mistura entre ambos causou um misto de sensações arrepiantes no escolhido da Águia, que notou o brilho alvo irradiar de seu símbolo na testa.

E o que fará com este jovem?

À indagação da entidade mística, Layla encarou seu companheiro de canto. Depois de perder alguns segundos o observando em completo silêncio, voltou a enfrentar a face coberta do ser.

— Isso... não é de sua conta — respondeu num tom de voz seco.

Sempre provocante... Em todo esse tempo você nunca mudou, não é mesmo? Minha fi...

— Calado.

Layla ergueu a mão destra em contraponto ao Rei que, de repente, esvaneceu em flocos luminosos.

Sem mais nem menos, deixando o diálogo desaparecer junto ao vazio, a entidade suprema do Cosmos deixou o trono livre.

Tomada por uma dose de alívio, a marcada suspirou profundamente.

Enquanto a quietude se estabelecia durante o fim do estranho tremor, voltou a fitar o aliado perplexo em sua posição.

Ela também não sabia o que dizer, afinal, as aparências indicavam a plena percepção do garoto boquiaberto.

Embora tivesse tomado todas as precauções para que aquele imbróglio final não existisse...

— Ei... O que ele ia dizer? — A entonação dele ao questionar soou rouca. — Por que você não fala nada? Hein, Layla?

— Me desculpe... — Ela abaixou a cabeça e, na sequência, abriu um sorriso tímido em direção a ele. — Chegou a hora. Esse é nosso ato final.

Sem o permitir rebater, a garota avançou a passos apressados até a escadaria espectral que se formou no espaço.

Em questão de segundos, alcançou o assento desocupado e girou o corpo na direção dos enormes astros que envolviam o Marcado de Altair, solitário sobre a água imutável.

Ao levar uma das mãos até o centro do peito, a marca da Constelação da Lira passou a cintilar com muito mais potência. Inspirou bastante oxigênio a fim de, num instante, entoar:

A todos os Marcados das Estrelas!! — Sua voz ecoou pela região cosmológica, até alcançar todos numa só sintonia. — A seleção estelar chegou ao seu fim! O atual Rei Celestial foi deposto. Dessa forma, tornar-me-ei a nova Rainha Celestial!

Fez-se um instante de quietude.

— E agora...

Abaixou a entonação antes de se sentar em definitivo, trazendo uma gama de colorações que misturava azul, branco, vermelho e dourado, ao redor do local.

Os fios brancos esvoaçaram enquanto a marca em seu peito desaparecia, trazendo a definição irrefutável da tão almejada coroação.

A nova Rainha, sem coroa, exalou um novo suspiro.

Norman, logo abaixo, já não sabia mais se comemorava por ter conseguido cumprir o desejo da companheira — tal como a promessa pessoal — ou então aderia a crescente insegurança em seu peito.

— Não desejo me estender nisso... É difícil. — Ela mussitou para si própria. — O importante é que todos já sabem, então... posso falar com você a sós, Norman.

Ele apertou os dentes uns contra os outros ao ter seu nome chamado pela voz suave da Rainha.

Foi tudo tão rápido que ele mal podia acreditar.

A entrada na Singularidade, a conversa e desaparecimento do Rei anterior e sua nomeação; a sensação de pressa beirava a insanidade.

Não era nada como outrora imaginou ser.

Dessa maneira, completamente a sós, os dois trocaram olhares pesados. Mesmo sentada naquele trono, Layla não abandonava a melancolia estampada nos globos noturnos.

Mesmo após alcançar o céu e as estrelas, como sempre buscava por meio das noites terrestres...

Ainda sentia dor.

Ainda não era suficiente.

— Como prometido, irei lhe dizer... meu desejo ao me tornar Rainha. — Ela apertou os braços do assento, mas logo se livrou das emoções deturpadas. — Eu preciso... fazer que este universo retorne à estaca zero.

— Hã?... — Foi a única reação possível para o rapaz.

— Assim como o que vocês chamam de “Big Bang” foi o grande alvorecer, onde toda a vida começou a caminhar pelo espaço-tempo, eu devo criar o caminho contrário a isso. — A cada palavra proferida por ela, a tensão aumentava interna e externamente sobre o marcado. — Eu irei expandir tudo, infinitamente... até que o calor da vida se apague.

— Do que... você ‘tá...?

— Para tornar o universo em um lugar frio e sem existência de qualquer forma de vida possível... darei início a um grande congelamento.

Abordar uma das formas hipotéticas de como o universo iria terminar fez a espinha do garoto, literalmente, gelar.

Big Freeze”, ele logo pensou. De tudo que já tinha lido, aquela era a hipótese mais provável, mas ainda assim...

Soava tão estranho. E assustador.

Havia tantas coisas que ele desejava falar, mas nenhuma em específico passava pelo nó em sua garganta. Uma dor tão lancinante quanto qualquer ferimento o afligiu.

A fim de vencer o estado de pânico causado pela revelação da jovem nívea, permitiu às emoções explodirem em esbravejo:

— Mas que merda ‘cê ‘tá falando!? Que droga é essa de congelamento!? Então tudo pelo que passamos, tudo que superamos, todas as pessoas que morreram... foi pra que você sentasse aí e decidisse acabar com tudo!? — Apontou com o indicador em riste na direção dela. — Você não ‘tá pensando direito, o poder já subiu sua cabeça? Droga, que ideia é essa, afinal?...

— Porque essa é a única maneira... com a qual poderei ser libertada.

Embora expressasse uma feição severa ao responder, parecia segurar uma súbita vontade de chorar.

Tentava esconder as mãos trêmulas sobre os apoios laterais, forçava os lábios em prol de prender a sensação quente que subia seu rosto.

— Libertada? Libertada de quê?

Ela fechou os olhos e balançou a cabeça negativamente antes de prosseguir:

— Você já soube demais. Não precisa conhecer meus pecados e tampouco receber meu fardo. Tudo o que fez por mim até agora já é suficiente...

Defronte a tanto mártir acumulado, mesmo com todas as repentinas descobertas – muitas as quais a ficha ainda custava a cair –, Norman renegava a possibilidade de desistir dela.

No entanto...

— Antes de finalizarmos, quero te contar uma coisa. — Com os olhos sobrepostos pela franja de seu cabelo, a garota murmurou com desânimo. — Ao menos isso eu devo esclarecer... antes de nos despedirmos.

— O quê...?

— Irei te contar sobre o dia em que se tornou um Marcado... o dia em que você passou por sua Provação.

O Marcado de Altair não soube como reagir perante o desejo da menina, então resumiu-se a contrair o cenho.

Mais uma vez ele voltaria ao dia em que perdeu tudo...

Ao dia em que foi escolhido pelas estrelas.

Opa, tudo bem? Muito obrigado por dar uma chance À Voz das Estrelas, espero que curta a leitura e a história!

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