A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 55: Brilhante

Recheado de graves ferimentos por todo o corpo, o Marcado de Sirius, Gabriel Russell, voltou a ficar de pé.

Se Norman reagia abismado perante o retorno incompreensível do rapaz, Magnus tratava de manter a estabilidade emocional no semblante inerte.

Apesar disso, era incapaz de controlar o turbilhão de inquietação que vinha do interior.

Ele ainda detinha a posição de mais forte naquele cenário.

Encontrava-se em plena forma, possuía um Áster destrutivo sem igual e não acumulava quaisquer machucados pelo físico atlético.

Enquanto isso, seus dois adversários apresentavam debilidade acima do normal.

Não seria nada absurdo dizer que ainda possuía o controle total da situação.

Mesmo assim...

“Que energia é essa... que flui dele?”

O Marcado de Aldebarã tremulava as sobrancelhas ao passo que experimentava na pele a influência dominante do rival ensanguentado.

Por outro lado, o escolhido da Águia reconhecia muito bem o poder místico irradiado pelo jovem.

Como se fosse um efeito dominó, toda a pouca força que lhe restava para fugir desapareceu.

As chances de sobrevivência contra o homem-fogo já se mostravam nulas, mas agora... talvez beirassem um contingente negativo.

“Eu não tenho chance contra esses caras... São dois monstros”, estalou a língua ao dar o braço a torcer.

De qualquer modo, não desistiria de cumprir sua promessa com Layla.

Para isso, não importava como, precisava sair daquele lugar vivo.

Aproveitando o baque causado pelo regresso do marcado luminoso, tentou sair de fininho, mas foi pego de surpresa por uma explosão vinda da área fechada.

Quando encarou por cima do ombro, segundos preciosos o permitiram encarar a colisão entre a katana branca e os punhos escarlates.

Tudo ocorreu num ínfimo piscar, até que a onda de choque violenta o lançou para trás.

O garoto capotou no solo, sentia cada vez mais as dores do braço deslocado.

Só parou no momento que se chocou com uma rocha circular ao lado da parede. Novamente a intensa agonia fez os ossos de suas costas gritarem.

Ele por pouco não esbravejou junto, contudo a cena adiante tomou qualquer palavra que pretendesse vociferar.

Diferente das ocasiões passadas, o robusto perdeu a primeira nova disputa de poderes.

A defesa calorosa foi vencida pela arma de luz, que o empalou no abdômen, um pouco abaixo do peitoral direito.

Se há segundos brigava a fim de não exprimir o nervosismo, agora contorcia toda a face, abismado por conta do golpe sofrido.

Graças a inferioridade quanto à altura, Gabriel o observou de baixo, sem demonstrar remorso no olhar circunspecto.

Notou o singelo deslocamento do braço canhoto dele, retirou rapidamente a katana de seu torso e executou um salto em recuo.

O soco flamejante atingiu somente o solo, criando rachaduras por sua extensão enquanto arrancava pequenos fragmentos, que carbonizavam em seu caminho ascendente.

O homem pôde enxergar o próprio sangue pingar, liberando ralos fios de fumaça ao simples contato com a superfície aquecida.

“Sinto o poder como nunca antes, mas...”, o escolhido do Cão Maior abriu a outra mão, criando uma segunda espada branca. “Sinto que não tenho tanto tempo.”

— Realmente estou impressionado... — Magnus passou o punho resfriado sobre o rastro de sangue que escorria no canto da boca. — Aqueles meus ataques foram quase com toda a força... o suficiente para te matar na hora. Confesso que não esperava sua sorte.

“Não, não foi sorte”, sua mente parecia conflitar com as palavras que saíam de sua boca. “Eu já sabia... ele é o primeiro de todos, então deve ser especial.”

Não resistiu a esboçar um sorriso feroz em detrimento ao grandioso desafio no alcance das mãos.

— Ele usou aquele Fragmento do Cosmos... — Norman franziu o cenho e cerrou o punho bom. — Talvez possa vencer, mas...

Não conseguiu completar a própria linha de raciocínio, já que a dose de aflição sobrepunha qualquer tentativa de pensamento lógico por parte da mente.

O tempo limite já corria com tudo rumo à linha de chegada, onde os efeitos colaterais lancinantes o impediriam de prosseguir.

Com a quantidade e gravidade de ferimentos por todos os membros, com destaque às enormes queimaduras na barriga, era possível que o rapaz sequer sobrevivesse ao baque causado pela utilização do fragmento.

Mas para ter retornado com vida após dois ataques certeiros como aqueles...

As chances de escapar do fim trágico eram mínimas.

Ele aparentava estar ciente dos riscos. Não era como se fosse tão corajoso a ponto de ignorar todas as prováveis consequências de peito aberto.

As lembranças daquela tragédia retornavam com tudo em sua cabeça, o fazendo ter a sensação de que havia ocorrido no dia anterior.

A exemplo do momento no qual confrontou os delinquentes, defronte a sua irmãzinha sob cativeiro de um deles... sentia medo.

Caso perecesse, jamais poderia cumprir seu maior desejo. Só podia vê-la caminhar, cada vez mais distante do alcance de suas mãos.

Deveria reduzir a distância, pondo um fim naquele conflito. A hora, o momento, o instante... o tudo ou nada residia ali, à sua frente.

Isso o levou a, do fundo da alma, entoar um grito.

As cordas vocais quase romperam, o pulmão chegou a doer pela falta de oxigênio durante o período em que a voz estremecia o vale.

Em porte das duas katanas luminosas, entrefechou as vistas, de onde um efêmero brilho irradiava da íris ametista.

Posicionado a favor do prosseguimento no combate, tratou de retomar o controle da respiração ao passo que a aura alabastrina o envolvia dos pés à cabeça.

Ainda atordoado, o escolhido do Touro tornou a preencher os punhos com o fogo escarlate, fazendo o brilho de mesma tonalidade emanar do símbolo no peitoral.

A pressão absurda não permitia a Norman executar um deslocamento sequer.

Desprovido de fôlego perante as duas monstruosidades, não tinha outra escolha senão contemplar o combate destrutivo do início ao fim.

Possuído pelo tempo do Fragmento do Cosmos, o Marcado de Sirius disparou contra o oponente, já realizando dois ataques simultâneos que se assemelharam a um só.

Magnus moveu em alta velocidade os punhos de fogo a fim de defender os golpes, mas acabou sendo lacerado na altura dos antebraços.

A investida criou uma corrente de ar capaz de fazer o cabelo de ambos balançarem.

O homem-fogo buscou contragolpes velozes por meio de socos que causavam pequenas explosões no espaço, espalhando ondas abrasadoras por todos os lados.

Gabriel desviava consecutivamente, desferindo novas rebatidas contra os membros expostos do homem.

Quando se deu por conta dos vários cortes a preencherem seus braços, Magnus rugiu furioso e não pestanejou em espalhar as camadas flamejantes pelo restante deles.

Revigorado pela cauterização, transmitiu o foco do Áster absoluto sobre a mão canhota.

Ao perceber a pretensão do robusto, o Marcado de Sirius desistiu da esquiva e concentrou a defesa luminosa ao redor do corpo, junto às duas espadas posicionadas no formato de xis em sua vanguarda.

Com toda a força disponível até o momento, o homem-fogo desferiu o mais poderoso golpe através da habilidade destrutiva.

O primeiro impacto por si só já se provou assustador, liberando uma violentíssima onda de choque pelo perímetro inteiro, o suficiente a fim de criar rachaduras sobre todas as superfícies rochosas da região.

O efeito consequente trouxe a temida detonação no ponto da colisão entre os poderes místicos, levantando um cogumelo de fumaça semelhante ao de uma bomba atômica.

Dessa vez, a devastação foi absoluta.

Plataformas se ergueram do chão, partes das paredes ruíram, criando avalanches velozes de escombros que vinham de todos os lugares.

Mesmo fora do combate, o Marcado de Altair teve de ser esforçar a fim de continuar vivo.

Por meio da Telecinesia utilizada em estado de calamidade, com somente um dos braços móveis e outros ferimentos alheios ao cansaço, evitou o esmagamento por meio dos enormes fragmentos a caírem das vertentes laterais.

“Esses caras são malucos...!”, prendeu para não soltar um palavrão, ainda que sem proferir a reclamação verbalmente.

Além disso, questionava-se sobre os acontecimentos no outro lado, onde sua companheira deveria ter permanecido contra a adversária semelhante.

Era inevitável que toda a balbúrdia daquela área as alcançasse, portanto estava curioso quanto ao prosseguimento delas com relação a isso.

Sua atenção retornou aos combatentes assim que a repercussão do choque cessou.

Envolvido por uma grossa camada de fumaça, controlou todos os pedregulhos paralisados pela Telecinesia até se livrar das ameaças.

Tendo todo cuidado do mundo, os deixou caírem sobre a terra devastada, podendo se sentar a fim de recuperar o vigor.

Através de arquejos intensos, levantou o rosto suado a procura da dupla responsável por tamanha assolação.

Conforme a cortina acinzentada passava a se desfazer graças a leve brisa invernal, um ruído estranho dominou a área.

Era o som de alguém regurgitando bastante sangue sobre a terra.

Quando as luzes de cada símbolo tomaram conta do ambiente escurecido, o rapaz pôde verificar de quem vinha aquela reação.

Enquanto uma das espadas empalava o tórax do robusto, seu punho apagado tocava o peito esquerdo do luminoso.

Assim como bastante líquido escarlate escorria da perfuração ao solo, uma nova queimadura dominava a carne do afligido.

Os dois recuaram cambaleantes.

Sofrendo pelo terceiro ferimento grave por todo o tronco, Gabriel cuspiu o fluido corporal em profusão, esforçando-se em prol de manter a compostura.

Ao ter a lâmina especial retirada do ferimento aberto, Magnus vomitava ainda mais.

Diferente do oponente, sucumbiu um dos joelhos no chão.

A batalha, pela primeira vez, alcançava um impasse.

— Esse desgraçado... nem ‘tá usando o fragmento. — As palavras de Norman soavam deturpadas, como se pensasse em voz alta. — E ter tamanho poder assim... onde essa batalha pretende parar?...

Enquanto isso, na ala dos lutadores...

“Não tenho mais tempo...”, Gabriel arfava, já sentindo os primeiros efeitos colaterais do Fragmento de Urano junto às lesões teciduais pelo torso. “Talvez eu morra, de verdade, mas... não deixarei isso ser... em vão...”

Ergueu o olhar concentrado no inimigo, que seguia atordoado por ter sofrido tantos golpes em sequência.

Diante do silêncio, a respiração pausada do rapaz se proliferou solitária até alcançar os tímpanos dos dois marcados à sua frente.

O som foi se repetindo, cada vez mais alto a cada pequena pausa.

Em pouco tempo, adotou uma regularidade capaz de transmitir certa placidez aos envolvidos.

No controle das próprias emoções, transmitiu toda a energia restante do próprio Áster pelo corpo equilibrado.

A luz que irradiava do símbolo da constelação do Cão Maior nas costas ganhou força.

Os cinco sentidos apresentavam-se ativos, todos voltados ao alvo ajoelhado a poucos metros.

As dores despertadas pelos ferimentos foram cobertas pela compenetração sem igual reunida sobre todos os membros relaxados.

Comandava a si próprio sem permitir que nada interferisse.

Os batimentos cardíacos não mais encontravam-se acelerados, a perda de líquidos corporais cessou num piscar.

Toda a aflição foi varrida para fora.

Restaram as duas lâminas brancas, uma em cada mão, empunhadas com leveza tendo o Marcado de Aldebarã em foco.

“Esse será o último... e então...”, já pensava em como lidar com o rapaz recuado, embora não tirasse os olhos do homem robusto na linha de visão.

Ao perceber a preparação do rival, Magnus esgazeou as sobrancelhas em busca de toda força interior para se levantar.

Embora não tão ferido quanto ele, as perfurações sofridas no abdômen atingiram pontos vitais.

Caso sofresse novos golpes, de certo não resistiria...

Mas o cenário era idêntico, para não dizer piorado, com relação ao rapaz luminoso.

Mesmo se vencesse a batalha, a quantidade de queimaduras e fraturas alheias aos efeitos pós-uso do fragmento se provariam irreversivelmente fatais.

A situação criada lhe oferecia a vitória a alguns palmos de distância.

No entanto...

Na velocidade do pensamento, Gabriel desapareceu de onde estava.

O Marcado de Aldebarã o procurou por meio das vistas arregaladas, porém resumiu-se a experimentar uma ardência violenta lhe tomar a vanguarda.

Sofreu um pequeno empurrão, insuficiente para derrubá-lo. Isso não era o mais importante...

Descendo a cabeça, encontrou o luminoso coberto por sua sombra. As duas espadas de luz o perfuraram, no lado esquerdo do peito e no quadril.

Não bastasse os golpes letais, o escolhido do Cão Maior depositou todo o poder de seu Áster a fim de devolver o favor.

Por meio das pernas flexionadas, jogou todo o peso do corpo à frente, transmitindo a energia calorosa até as espadas especiais.

Magnus ainda se empenhou em prol de impedi-lo com um soco, mas já era tarde.

Dos pontos atingidos, dois jatos luminosos atravessaram o robusto e saíram por suas costas.

O tremendo poder criou um impacto capaz de levantar o escolhido do Touro, tirando seus pés do solo.

— Voe...

Ao repetir a palavra proferida por ele quando lhe atingiu com os murros flamejantes, o Marcado de Sirius delegou a explosão de luz concentrada na medida certa.

Não foi tão eficaz quanto os golpes diretos, mas o bastante no intuito de fazê-lo ser lançado a alguns metros de altura.

Já inconsciente, o homem-fogo rasgou a escuridão até cair no solo devastado.

Sobrou apenas a esclera branca dos olhos levantados, indicando sua completa derrota na pior das batalhas.

Incrédulo em sua posição, Norman observou a queda do inimigo sem proferir uma palavra.

Afinal, ainda existia outro problema para lidar.

— Agora... — Cambaleante, Gabriel o mirou. — Vamos terminar... o que... começamos...

Ele próprio estava ciente da incapacidade em prosseguir, porém ainda foi apto a caminhar alguns passos na direção do jovem.

Afligido pelos efeitos colaterais em união dos ferimentos graves, Gabriel não resistiu à sucessão de baques e caiu com os joelhos no chão.

As katanas desapareceram, assim como sua consciência em questão de segundos.

Ele não gritou, sequer esperneou sobre a agonia lancinante que passeava por seu corpo, interna e externamente.

Só olhou para o céu, recheado de nuvens brancas.

Com a sensação de segurança garantida, o Marcado de Altair resolveu se aproximar dele a passos cautelosos.

Após diminuir a distância em alguns metros...

— Eu não pude... protegê-las... — O murmúrio do derrubado lhe fez paralisar. — Minha mãe... Sophia... Eles as tiraram... de mim...

Encarou as trêmulas palmas ensanguentadas, não possuía forças para se erguer mais uma vez.

Ainda assim, sabia que estava sendo observado de cima pelo primeiro adversário, em silêncio.

Através de um forte suspiro, que lhe trouxe uma dor extra eletrizante por todo o peito, ele completou:

— No fim... não pude... alcançá-las... — Voltou a abaixar os membros agitados. — Me mate... eu não posso mais... seguir em frente...

Mantendo-se taciturno, Norman franziu o cenho perante o pedido mussitado pelo rapaz.

Terminou a aproximação dele, se agachou e, com cuidado, o fez se deitar na superfície rochosa.

Sem entender muito bem o intuito do inimigo, o escolhido do Cão Maior somente teve capacidade de encarar o firmamento.

— Não vou te matar. — O jovem de cabelo cacheado tornou a se erguer. — Da mesma forma que foi pra mim... ainda não é tarde pra você.

Espantado com a decisão do rival, o marcado luminoso relaxou a face.

— Eu não me importei... em matar pessoas. Tudo que eu mais queria... era trazer a eles toda a dor... toda o sofrimento que propagam sem se importar... — Apertou os punhos doloridos contra o chão. — Não há mais motivo... para que uma pessoa como eu fique...

— Cala a boca. — Norman o interrompeu, girando o corpo a ficar de costas em sua direção. — Não importa o que você fale, eu não vou te matar.

— Por quê...?

— Porque se eu fizesse isso... jamais seria capaz de me perdoar. — Ele seguiu em frente, solitário. — Por mais que a vida seja injusta, na maioria das vezes... a gente tem que continuar. Pelas pessoas que amamos e perdemos. Porque, com certeza, elas desejariam isso pra nós. Eu não sou igual a você...

Sem olhar para trás, o Marcado de Altair aproveitou a oportunidade única a fim de partir do campo de batalha.

Ele ainda tinha uma promessa a cumprir. Faria de tudo para que pudesse chegar a tempo no outro lado.

Gabriel permaneceu ali, inerte.

Com a gama de debilidade por todo o físico, fechou os olhos e permitiu à consciência ser tomada pela escuridão.

Em breve morreria. Em breve se encontraria com elas.

Ainda não...

A voz infantil permeou sua cabeça, que se recusava a deixar aquele plano de existência.

Como se fosse tragado por um intenso devaneio, encarou o sorriso benévolo da menina o empurrar de volta.

Ainda não é sua hora...

Embora tentasse a alcançar, foi trazido de volta à luz da vida.

Ele não desejava mais fazer parte daquele mundo, entretanto terminou não conseguindo se juntar a elas.

No instante que a chama em seu peito voltou a acender, o estado de síncope foi o que restou.

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