A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 53: Nova Rodada

O azul-ciano tomou conta da abóbada celeste.

Durante a caminhada que precedia o confronto, Norman e Layla não trocaram mais uma palavra entre os arvoredos parcialmente tomados pela neve.

Após minutos de avanço, seus ouvidos puderam captar o ruído crescente da queda d’água.

Ao passo que se aproximavam, a ansiedade aumentava em detrimento do som natural.

Antes comedido, o rapaz começava a sentir um aperto tomar o peito, capaz de levá-lo a engolir em seco e fechar os punhos com força diversas vezes.

Seguindo o caminho contrário, a jovem nívea aparentava estar tão serena quanto demonstrava desde o despertar na igreja.

De qualquer maneira, o trajeto sem volta rumo ao grande final acabava de ser traçado pela dupla.

Conforme o barulho característico se alastrava por toda a área, a meta foi enxergada pela proliferação luminosa em abundância a alguns metros à frente.

Saíram das entranhas florestais, iluminados pela fria manhã de inverno.

Todas as possíveis opções paralelas desapareceram assim que os dois se depararam com o destino: a grande cachoeira.

Impressionado com a paisagem, o Marcado de Altair foi incapaz de controlar as sobrancelhas levantadas.

As proporções locais eram maiores do que imaginava, onde além do grande vale abaixo, residiam novas florestas ainda mais densas nos acessos adiante.

Contudo a atenção oferecida ao cenário deslumbrante durou pouco tempo.

A influência congelante, tão superior ao clima oriundo da estação mais fria de todas, puxou sua linha de visão até o fim da queda.

Não obstante, a companheira seguiu o mesmo movimento. A responsável por irradiá-la não podia ser outra.

De pé sobre a água que corria no leito, a jovem de cabelo loiro aguardava paciente.

Sem desfazer o costumeiro sorriso, respondeu ao foco da dupla na elevação rochosa da esquerda, de onde vieram.

Conectado àqueles olhos escuros, o rapaz remeteu às palavras firmes proferidas por ela na noite anterior.

O tom soturno na voz anunciava a realidade na qual se encontravam ali, frente a frente, sem sequer piscar uma vez.

O fim se encontrava tão logo, a alguns metros de distância.

No entanto antes que qualquer um pudesse executar alguma ação, um foco de luz branca surgiu pelo flanco direito, onde Layla estava de pé.

Numa reação de puro instinto, Norman a empurrou pelo ombro e recebeu o impacto inteiro provocado pelo inimigo.

— Norman!

Apesar do grito enervado da menina, de joelhos sobre o solo rochoso, o marcado foi arrastado conforme, com ambas as mãos, segurava a katana que tentava lhe perfurar o abdômen.

O poder da onda de choque foi o suficiente para destruir boa parte da superfície, fazendo os dois caírem pela vertente contrária, onde não havia área fluvial.

Dessa maneira, as garotas ficaram solitárias na zona principal.

A alva voltou a se erguer, preocupada com a situação do companheiro, mas a presença de Stella não a permitia dividir a concentração entre dois cenários.

— Oooh, que pena, não acha!? — A loira levou a mão sobre as sobrancelhas. — Eu jurava que ia ser o ataque derradeiro! O Pastor realmente ficou bem sagaz, concorda!?

Perante as palavras um tanto sarcásticas da marcada, Layla não pôde evitar de fechar as mãos com ímpeto.

Controlava uma onda de irritação que subia o peito de modo abrasador.

— Pare de chamá-lo assim — retrucou entre os dentes.

Sua única opção seria confiar em Norman.

Mesmo preocupada, deveria fazer o que tinha ao alcance das mãos... por isso voltou a encarar sua oponente.

Ainda aflita, não teve dúvidas ao saltar da grande cachoeira. Em questão de segundos alcançou o vale.

Sua aterrissagem sobre o leito do canal meramente criou leves ondulações na água.

Quando ajeitou a postura ereta, encontrou o semblante que mais detestava.

Após um breve período sem qualquer troca de palavras entre as duas, a loira exalou um fraco suspiro e balançou a cabeça negativamente.

— Pois bem... este barulho é bem incômodo, não acha? — Como não houve resposta por parte da companhia, prosseguiu. — Que tal se nós... ganharmos alguma paz?

Estalou os dedos da mão defronte ao rosto.

O som elevado ocasionado pela potente queda d’água cessou num milissegundo, tal como o cenário ao redor se alterou por completo.

Agora eram envolvidas por um horizonte sem fim, onde nuvens brancas passeavam pelo céu azul e eram refletidas na água cristalina.

Por mais profunda que aparentasse, as duas não afundavam na superfície líquida.

Layla encarou o próprio reflexo ao inclinar a cabeça na direção dos pés.

— Esse é um Áster bem problemático... — murmurou em retomada à linha de visão frontal.

— Eu adoro!! Mas já lhe peço desculpas pelo contratempo...

Quando a loira fechou as vistas ao encerrar a frase num tom cansado, a Marcada de Vega percebeu uma terceira presença no espaço paralelo.

Desentendida quanto a figura do rapaz cheio de piercings nas orelhas, franziu a testa na tentativa de compreender sua posição ali.

O estalo de língua foi abafado pelos lábios prensados. Nem mesmo em suas memórias de utilização da Clarividência foi capaz de antecipar aquele ocorrido.

Incapaz de reconhecer a identidade daquele que possuía um topete arrepiado, além da queimadura chamativa no lado esquerdo da face, encontrou o foco de interesse que a fez estremecer perante o desconhecido.

De olhos na grande marca luminosa, estampada na cicatriz avermelhada, a alva questionou:

— Quem é esse?

E, ainda cabisbaixa, Stella rapidamente replicou:

— O contratempo.

Do outro lado da cachoeira, Norman era arrastado para a queda fatal sem conseguir revidar.

Não demorou muito até identificar o responsável pelo ataque-surpresa, mas de nada adiantaria caso perdesse a vida antes de ter a oportunidade para prestar contas.

Por meio de um grunhido, esticou um dos braços à direção da vertente rochosa e empenhou-se a fim de ativar a Telecinesia.

Conseguiu puxar alguns fragmentos rochosos em alta velocidade contra a cabeça do adversário.

Assustado com as chegadas repentinas, ele criou um círculo luminoso ao redor de ambos, no intuito de purificar os materiais.

A célere concentração nesse instante permitiu ao Marcado de Altair o chutar na altura da barriga, livrando-se do peso que o fazia viajar de encontro à morte.

Girou o corpo no desespero e moveu as mãos na direção do solo a fim de tentar reduzir o impacto, mas já estava próximo demais do choque.

A redução de velocidade foi insuficiente, porém evitou uma colisão fatal.

Ele bateu com um dos braços na superfície sólida e ainda capotou por mais alguns metros até parar.

Levantando fumaça e detritos menores da área aberta, experimentou uma agonia eletrizante percorrer o corpo inteiro.

Gemeu solitário ao passo que respirava arfante, de bruços e imóvel.

A dor mais lancinante vinha do ombro destro.

O rosto ardia com os cortes de onde fios de sangue escorriam. Só não obteve mais ferimentos graças à calça e casaco responsáveis por cobrir seus membros.

Restavam as palmas ensanguentadas, em que as lacerações se mostravam as mais graves.

Apesar de bastante debilitado, o senso de perigo lhe despertou forças para que pudesse se levantar.

Como imaginou, o braço direito parecia deslocado na altura do ombro; não poderia movê-lo.

A situação já se apresentava catastrófica e não havia passado nem cinco minutos desde a chegada no local prometido.

E adiante, também como imaginou, pôde enxergar o adversário caminhar a passos curtos em sua direção.

Ainda portava a katana de luz, pronta para ceifar a vida de seu alvo.

Diferente dele, não apresentava machucados chamativos, até porque também trajava um grosso casaco com capuz de pele sintética e uma calça semelhante.

— Você realmente... não se cansa...

Norman mal conseguia proferir, graças ao desequilíbrio respiratório ocasionado pelos ferimentos.

— Eu disse que iria te matar.

Gabriel resmungou em resposta, as sobrancelhas contorcidas denotavam sua vontade excessiva em cumprir com a própria palavra.

— E eu disse que... não quero lutar contigo, mas... — Os olhos verdes arregalaram. — Eu vou tornar... a Layla... a Rainha...!

O marcado luminoso estalou a língua ao interromper a caminhada.

— Seu objetivo nem mesmo é seu. Não há motivos para que eu lhe deixe vivo.

Quando identificou a vontade ofensiva do rapaz, o escolhido da Águia reagiu desesperado ao apontar a palma canhota na direção do solo.

O arrepio lhe dominou a partir do símbolo na testa, que tinha o brilho ofuscado pela metade — por conta da faixa escura sob a franja cacheada.

Pressionando os dentes a ponto de fazer veias saltarem nas têmporas, transmitiu toda a energia mental possível à superfície rochosa que, segundos antes do espadachim o alcançar, liberou rachaduras gigantescas em formato circular.

Ao sentir o leve empuxo causado pela estabilidade do controle sobre a matéria, girou a palma para cima e trouxe o braço com toda velocidade num movimento ascendente.

Em resposta a essa ação, o enorme fragmento rochoso se desprendeu da terra.

Juntamente à força disposta pelo Marcado de Altair, a plataforma levantou voo junto a Gabriel, que se encontrava naquele exato ponto ao buscar a investida.

Irritado pela frustração do planejamento, deixou o corpo girar no espaço a fim de evitar uma queda brusca.

A rocha tombou com tanta potência que se despedaçou em várias partículas medianas.

O rapaz de olhos ametista voltou a pousar, flexionando as pernas a fim de reduzir o impacto pelo corpo.

Cortou o restante das pequenas pedras com a lâmina branca, voltando a liberar o espaço adiante.

— Não vai funcionar. — Preparou a arma mística a fim de reduzir a nova distância aberta pelo fugitivo.

“Droga, com o braço assim não vai dar!”, resmungou enquanto tentava correr, levou a mão boa até a faixa rasgada na testa e a arrancou.

Mirou os arredores em busca de novas possibilidades em prol de usar seu Áster.

As chances de vitória beiravam o nulo, porém se pudesse o atrasar e fugir...

Gabriel não se importou com tais empecilhos e avançou na busca pela cabeça do adversário.

No instante que se encontrava próximo de concluir o golpe, assim como o escolhido da Águia prontificava uma defensiva... o clima foi repentinamente tomado pelo calor.

A luz escarlate os iluminou por inteiro, trazendo seus olhos arregalados na direção dos punhos de fogo.

O soco violento causou uma corrente flamejante sobre o ar, antes de encostar na superfície rochosa e provocar outra explosão.

A dupla não foi atingida, porém a onda de choque os lançou pelo espaço.

O Marcado de Altair capotou de novo, sentindo tanta dor quanto na primeira ocasião. Após bater as costas numa das elevações vertentes, voltou a abrir as vistas apertadas.

Encarou os resquícios de chamas que não se apagavam pela terra, conforme o homem de físico robusto recuperou a postura ereta.

Do outro lado, o luminoso também parecia ter sido minimamente afetado pelo golpe surpreendente.

Tocando um dos joelhos no piso, secou um pouco de suor gerado por conta da onda calorenta e estreitou as sobrancelhas.

Como se estivesse cercado pelos oponentes, o homem-fogo manteve uma posição lateral a favor de cada um.

— Um marcado com poder de fogo? — O de cabelo cacheado, bastante ferido, procurou sair da inércia. — Mas que merda...?

Descrente diante da colossal capacidade destrutiva que aquele Áster apresentava, o rapaz segurou o braço deslocado a fim de manter-se são.

A vista turva era coberta pela metade, graças à quantidade efusiva de sangue a escorrer de um corte mediano na testa.

Pelo contrário, Gabriel sentia-se irritado por ter sido obstruído em sua caça particular.

“Isso sempre acontece...!”, mordeu o lábio inferior a ponto de criar um pequeno machucado.

Não era a primeira vez onde se encontrava em um cenário como aquele.

Contudo dessa vez seria diferente.

Ele havia prometido para si mesmo que seria... os dois a sua frente deveriam morrer por suas mãos.

— Parece que ainda existe um interesse sobre você. — O robusto encarou o mais extenuado, à esquerda. — Por isso, te deixarei vivo por enquanto. Agora, você...

Quando voltou toda a atenção, tanto visual quanto corporal, à vertente do marcado luminoso, proferiu:

— Irei carbonizar até não restar ossos!

— Saia do meu caminho!

Sem pestanejar, Gabriel disparou contra Magnus, envolto por uma proteção de luz encíclica.

Ajeitou a postura a fim de brandir a katana, porém o soco flamejante do inimigo o bloqueou.

Quando os elementos entraram em colisão, criaram outra detonação violenta, capaz de prensar Norman contra a parede.

A pressão sinistra criada pelos dois combatentes era demais para o garoto, que não encontrava quaisquer brechas para interferir no confronto ou até mesmo fugir.

A sequência de ataques entre eles beirou o absurdo, sempre terminando no choque entre lâmina e punhos.

Talvez fosse a batalha mais absurda já ocorrida entre portadores das marcas estelares.

E não parecia que algum sairia vitorioso dali tão cedo, visto o equilíbrio das ofensivas que desprezavam qualquer modo de defesa.

No entanto...

— Se tratando de vigor... você é um amador ainda!

A confiança de Magnus se elevou tão intensamente quanto as chamas escarlates que dominavam suas mãos.

O brilho de mesma coloração provindo do peito esquerdo literalmente queimou o tecido da camisa que vestia, ficando à mostra para quem desejasse observar seu tremendo poder.

Como dito pelo próprio, a balança do conflito passou a pender a seu favor.

Por alguma razão, Gabriel começou a vacilar em alguns ataques, oferecendo pequenas aberturas para que o homem-fogo pudesse majorar sua superioridade.

Afinal, apesar do físico naturalmente pesado...

“Ele é rápido!!”, sentia as dificuldades crescendo ao passo que recuava alguns passos de maneira inconsciente.

Pela primeira vez empurrado por algum oponente a ponto de experimentar uma ameaça real, soltou um grito nada típico de sua pessoa.

Como se aquilo fosse adiantar, deixou a guarda, sempre alerta, exposta.

O Marcado de Aldebaran de repente preferiu desviar do ataque compulsivo do rapaz, tendo sucesso em pegá-lo fora de posição.

Ainda possuía o envoltório defensivo de luz, mas...

— Seu poder é intenso, mas... você é fraco!

O punho flamejante do robusto atravessou a proteção, atingindo em cheio o abdômen do, até então, marcado mais forte.

Por um breve instante, pôde escutá-lo murmurar “voe”, mas foi tudo tão rápido que sequer fazia ideia sobre ter sido um devaneio ou a realidade.

Fato é que ele realmente voou.

Com o casaco e a barriga queimados, cuspiu muito sangue ao passo que sobrevoava até quase a altura superior da cachoeira.

Quando perdeu ímpeto e foi puxado pela força da gravidade, cogitou cair já preparado para se recuperar na batalha.

Porém, próximo do solo, enxergou a figura do oponente a alguns passos de distância.

Ainda sentido pelo primeiro golpe, mal pôde acompanhar o segundo, um direto na altura do peito que fez seus ossos fraturarem na hora, o lançando com violência a metros.

As costas bateram na parede do declive que fechava aquele vale à parte, causando uma destruição colossal pela região.

Diversos pedregulhos soltos do impacto caíram acima do rapaz, o soterrando pela metade junto à densa cortina de fumaça que se formou.

Então, o silêncio dominou tudo.

Encostado na parede como se fosse preso por algemas invisíveis, Norman não conseguia deixar de esgazear as vistas perante a sequência de acontecimentos.

Se toda a seleção, os poderes e desejos eram surreais... aquele homem, com certeza, superava todos.

“Contra aquele cara eu não tinha chance...”, mirou a direção onde Gabriel deveria estar caído... provavelmente já morto. “Contra esse então... eu vou morrer...”

Nenhuma outra possibilidade além dessa passou pela cabeça, no momento que Magnus virou os olhos castanhos em sua direção.

Os instintos mais profundos do corpo o ordenavam a resistir o quanto pudesse contra o oponente colossal.

Mesmo tendo poucas esperanças e expectativas, ainda desejava manter sua promessa com Layla.

Para isso, deveria sobreviver, custasse o que custasse.

Enquanto isso, derrubado sob os escombros acumulados, o marcado luminoso ainda respirava.

O simples ato de fazê-lo lhe arrepiava com as dores excruciantes dos golpes sofridos no torso.

Não conseguia se mover. Pouca luz adentrava aquela escuridão.

Irmão...

Uma voz familiar preencheu sua mente pesada, prestes a entrar num estado sem volta de vigília.

Irmão... acorde...

Pelas vistas fechadas que estremeciam... ele sofria.

Em silêncio absoluto, sem escutar mais nada que vinha de fora, foi devolvido a lembranças da própria vida conforme se aproximava da morte.

O medalhão que sempre carregou, com a foto daquela criança sorridente no interior, residia logo à frente do local da queda.

Ainda que inconsciente, pôde esticar a mão ferida a fim de alcançá-lo. Enquanto não fosse levado ao outro mundo, deveria protegê-lo como se fosse uma parte de sua alma.

— Sophia...

O murmúrio soou deturpado.

Memórias de algo que jamais poderia alcançar retornaram em um turbilhão, trazendo-lhe a angústia responsável por torná-lo um Marcado...

Opa, tudo bem? Muito obrigado por dar uma chance À Voz das Estrelas, espero que curta a leitura e a história!

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