A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 52: Os Dois Lados

O anoitecer do segundo dia trouxe de volta as estrelas no céu parcialmente límpido.

Após definições mais detalhadas sobre o dia seguinte, onde a batalha derradeira aconteceria, Norman voltou a observar a extensão livre das amarras do inverno.

Layla já descansava no quarto da freira que foi embora com as meninas durante o amanhecer.

De certa forma ele sentia saudade da companhia da garota, que sempre observava o céu noturno em toda e qualquer oportunidade.

Dessa vez, encontrava-se solitário ao apreciar o hobby que tanto adorava.

— Está ansioso? — A voz feminina soou sussurrada ao seu lado.

Quando olhou para a vertente em questão, por alguma razão não se surpreendeu.

A garota de cabelo loiro estava sentada nos degraus, assim como ele.

Mirava a abóbada escura recheada de pontos pulsantes, assim como ele...

Encontrava-se no lugar onde sua parceira deveria estar, mas ainda mantinha um sorriso leve na face pálida.

Como se não fosse nada, levou o indicador a passear sobre o lábio inferior.

Os olhos azul-escuros se voltaram na direção do rapaz, que estreitou as sobrancelhas na espera por suas novas palavras.

— Não se preocupe... ela não vai acordar. Acredite, tem um sono pesado, sabe? — Apesar do tom zombeteiro, ela tornou a encará-lo nas minúcias, exalando o conhecido ar gélido que mais parecia sua aura. — Então, realmente não vai mudar de ideia, certo? Você vai escolher esse caminho... Me pergunto se aguentará suas consequências no fim.

— Eu já fui claro na minha decisão, como você mesma sabe. — Norman fechou as vistas por uns segundos. — Eu fiz uma promessa pra ela. Não pretendo abandonar a pessoa que salvou minha vida nessa altura do campeonato.

— Hmpf. Humanos são tão peculiares... — Ela se levantou e caminhou alguns passos, com as mãos atrás das costas, até ficar frente a frente com o garoto. — Então, decreto que todas as minhas tentativas chegaram ao fim, entende? A partir de agora, somos oficialmente inimigos.

O Marcado de Altair não a respondeu, porém manteve a expressão carregada.

Ao compreender tal gesto como sendo uma asserção, Stella fechou os olhos por alguns segundos e voltou a observar o espaço celeste na sequência.

Dessa vez, sem os truques místicos de sempre, ela desapareceu do local através de passos curtos sobre a fina camada de neve que ainda cobria o campo.

Voltando a estar solitário, o rapaz relaxou os ombros ao apoiar as mãos contra o piso de madeira nas laterais das pernas.

Diversos pensamentos lhe correram a cabeça naquele momento.

Desde o encontro misterioso no incidente do shopping, aquela garota, que parecia ter alguma relação com Layla, insistia em fazê-lo desistir.

Até então, seus objetivos em se tornar Rainha ainda não foram esclarecidos; o garoto jamais deixaria isso de lado enquanto não obtivesse uma resposta.

No entanto, a ausência de maiores explicações era o que guiava aquela seleção desde o princípio.

Ele sequer fazia ideia sobre a função que o novo Rei ou Rainha Celestial teria.

E, pelo visto, somente saberia no momento derradeiro.

Passados os dias a partir do conflito na igreja, Gabriel encontrava-se isolado num pequeno chalé devastado pelo tempo.

Embora caísse aos pedaços na maioria de suas estruturas, o garoto parecia despreocupado enquanto descansava na estreita sacada.

Sem o parapeito de madeira, podia pendurar as pernas no ar, sentado próximo da passagem singular sem medo de que a casa campestre ruísse por inteiro.

A cabeça cheia sequer comportava espaço para lidar com tal desassossego.

As cenas do evento anterior, onde tirou a vida de uma criança através das próprias mãos, o preenchiam por inteiro.

Naquela posição, via-se incapaz de driblar imagens semelhantes, responsáveis por atormentá-lo há um bom tempo.

Sentia na pele a impotência diante de sorrisos desprezíveis, a insuficiência pessoal que o obrigava a observar tudo de joelhos no chão.

Os perversos olhares faziam o coração pulsar, que nem um gatilho que o fazia desejar a própria morte.

No fim, uma voz sempre sobrepunha aquela série de ruídos excruciante.

Gritos desesperados realizando pedidos de socorro dominavam o espaço.

O alcançavam com tamanha força que poderiam o levantar num simples sopro.

Mas ele era fraco demais para ser puxado.

Por mais que as emoções indicassem a reunião de novas forças a fim de seguir em frente, o garoto jamais conseguiria vencer a própria fraqueza.

Não na direção daqueles gritos, misturados ao pranto copioso.

Conforme remetia às feridas internas, gravadas em carne, ossos e alma, apertava com força o medalhão prateado que sempre carregava no pescoço.

Dentro da moldura oval, residia a única imagem apta a acalmar o turbilhão de sentimentos dolorosos.

A menina, de cabelo tão curto que mal alcançava o pescoço, parecia trespassar a barreira do retrato ao encará-lo sorridente, com seus olhos de íris ametista.

Embora sem arrependimentos por ter se livrado de uma das inimigas em busca do prêmio maior, o rapaz encontrava dificuldades a fim de lidar com as lembranças despertas.

Tudo graças ao específico ocorrido.

Daqui a três dias, na grande cachoeira...

De repente evocou as palavras daquela garota, logo após a fuga do templo destruído pelo conflito entre marcados.

Fechou o objeto em mãos e voltou a observar o céu parcialmente nublado.

Iluminado pelo luar em meio ao vazio, exalou uma forte lamentação e estreitou as sobrancelhas.

As pontas arrepiadas do cabelo castanho-claro dançaram junto à brisa, que conduzia as nuvens a abrirem alas para que as estrelas pudessem brilhar abaixo da escuridão.

“Será se poderei te salvar, como não pude daquela vez... Sophia?”, aquelas palavras, retidas às paredes do pensamento, foram direcionadas à lua.

— Merda... merda!!

O rapaz, que carregava uma enorme queimadura sob a marca de sua constelação na face, resmungava irritada conforme se esgueirava pela floresta.

— Aquela vadia me passou a perna... E ainda por cima ficou falando várias merdas desentendidas! Que porra vai acontecer, afinal!?

Desentendido quanto ao caminho que deveria seguir pelo local sombrio, Lucas Smith sentia dores no braço destro.

Os passos pesados se arrastavam pelo resto de neve sobre o solo gramado, a respiração arfante liberava leves camadas de ar condensado pela boca.

“Mas aquilo...”, remeteu ao momento no qual foi derrubado por Stella, sem ter quaisquer chances de revidar.

A rápida movimentação dela, que sequer pôde ser enxergada, o golpe poderoso o suficiente para fazê-lo cair de cabeça no chão...

— Aquilo não foi nada normal, mesmo pra alguém com poderes — murmurou consigo mesmo, sem a efusividade de antes. — A não ser que seja algum tipo de habilidade que aumenta a força...? Ah, caralho, por que eu ‘tô pensando tanto nessas merdas!?

Levou as mãos à cabeça e, cansado de tanto caminhar e divagar, sentou-se encostado em um dos troncos onde havia pouca neve acumulada.

Com o avanço do tempo, reencontrou o equilíbrio na respiração, a ponto de finalizar o nervosismo através de um profundo suspiro.

Deveria pensar no que fazer a partir dali.

O destino deste universo estará em jogo, sabe? Não estou disposta a vivenciar um fim prematuro.

Por mais que se esforçasse em prol de traçar o novo objetivo, encontrava-se incapaz de abandonar as palavras enigmáticas proferidas pela loira.

Mordeu a unha do polegar esquerdo ao passo que formulava o cenário do dia seguinte, o terceiro desde o confronto na igreja.

Dessa vez não teria a carta surpresa da manipulação, assim como executou a fim de pegar o Marcado de Altair desprevenido.

Possuía um total de zero aliados; a única que pensou ser a sua, o enganou.

“Eu ‘tô sozinho... de novo...”, arrancou a ponta da unha e deixou os dentes rangerem com força.

Agora a palma estremecida dirigiu-se ao olho esquerdo, envolvido pela enorme marca avermelhada responsável por destacar o símbolo do Centauro.

Sempre que tocava a queimadura, despertava as lembranças angustiantes.

Seus gritos implorando por perdão, o sorriso grotesco de uma mulher morena ao lado de um homem gordo...

A dor da água quente de panela despejada sobre seu rosto o arrepiava até então.

Chegava ao ponto de fechar os olhos, tamanha a inquietação que lhe dominava.

O tormento só parecia piorar quando constatava o próprio sorriso em frente ao caixão daqueles dois, mortos num acidente rodoviário, no auge de sua adolescência.

Em busca de se livrar dessas memórias, estalou a língua e estapeou-se nas bochechas.

Recuperado do desgaste reunido durante as ocorrências recentes, bateu no traseiro a fim de se livrar dos resquícios da neve após se levantar.

Bufou solitário enquanto os olhos azuis-esverdeados varriam os arredores.

— Já que não tenho pra onde ir nessa merda... melhor esperar amanhecer. — No fim, fitou o céu obstruído pelas copas das árvores. — Vou acabar com aquela vadia e com quem vier nessa tal batalha...

Estalou os dedos de ambas as mãos ao franzir o cenho.

Prosseguiu pelo caminho que seguia antes do descanso, incapaz de pressentir os olhos azul-escuros responsáveis por observá-lo distante dali.

Com a boca coberta pela grossa gola do casaco, o rapaz de cabelo acinzentado repousava tranquilo num galho de um dos arvoredos.

— Então foi esse delinquente que aquela boba trouxe para a equação... — O murmúrio soava abafado, mas podia alcançar o rapaz robusto posicionado na árvore paralela. — É difícil dizer como isso vai acabar com tantas peças em jogo.

— Esse cara era realmente um delinquente?

À pergunta do homem de pé, o cabelo preto encaracolado que cobria até metade das costas, Edward demorou alguns segundos até raciocinar com clareza.

Quando enfim compreendeu, ergueu as sobrancelhas antes de respondê-lo:

— Na verdade, não. Foi só uma forma de falar, como vocês costumam dizer. Algo relacionado... — Voltou a encarar a direção para onde o marcado andava. — Esse garoto se tornou um marcado recentemente. Pelo que pude perceber, passou a infância e adolescência sofrendo maus-tratos dos pais, que morreram num acidente. Isso o fez cometer crimes menores graças ao psicológico distorcido. Perder pessoas importantes, seja para o bem ou para o mal, é o maior gatilho a favor da Seleção Estelar...

— Mas ele perdeu os pais recentemente?

— Não. Há, mais ou menos, três anos. — De repente, os punhos do rapaz cerraram dentro dos bolsos do casaco. — Ele provavelmente veio pela Indução daquela inconsequente. E se livrar daquele que escolheu depois é bem a cara dela, no fim...

O Marcado de Aldebaran pôde sentir uma leve dose de inquietação nas palavras sussurradas do companheiro.

Então tornou a observar o desaparecimento gradativo do jovem em questão.

— Eu sou grato a você, de verdade. Depois de perder meus avós naquele acidente fatídico, parecia que eu não teria mais um rumo para seguir. — Encarou a palma cheia de cicatrizes e leves queimaduras. — Poder ter sido escolhido em prol de evitar uma catástrofe maior me alegra de uma forma que não faz ideia, senhor Edward.

— Não é necessário falar tanto dessa maneira, Magnus. Considere que foi um capricho no intuito de alcançar o melhor final...

O jovem desceu da árvore ao executar um salto veloz, onde o pouso sequer proliferou sonidos.

Diferente dele, Magnus causou não só um forte ruído, como uma leve oscilação sobre a neve em volta do campo.

“Finalmente decidiremos tudo amanhã...”

Virou-se sem dizer mais uma palavra e, acompanhado pelo único aliado naquela seleção, tomou um rumo diferente do Marcado de Rigil Kentaurus até desaparecer sob a noite.

Quando o céu começou a ser preenchido pela coloração alaranjada do amanhecer, Norman e Layla já estavam acordados.

Enquanto o primeiro teve uma noite de sono que beirou o tranquilo, a garota possuía olheiras escuras abaixo dos olhos.

Só de encará-la sentada na cama, se assustava.

“Ela não deve ter dormido nada bem”, era o pensamento mais óbvio diante da face desgastada da companheira.

Embora tivesse recebido a informação de que seu sono era pesado.

Entretanto, podia compreender as prováveis razões que a levaram a tal estado.

E, apesar disso, ela aparentava estar pronta para o que viesse a acontecer a partir daquele instante.

Enquanto a esperava se aprontar, caminhou até o lado de fora do templo. Pôde encontrar as poucas estrelas restantes sendo ofuscadas aos poucos pelo nascer do Sol.

Dentro de algumas horas, a grande batalha que prometia decidir os rumos daquela seleção teria seu início.

Não passou muito tempo até um rangido chamar sua atenção de volta ao interior do recinto.

Norman encontrou a aliada trajada em seu vestido de alças brancas, sustentado por um cinto azul-escuro.

O som das sandálias ecoava pelo espaço silencioso, ao passo que o cabelo alvo solto até metade das costas saltitava conforme sua aproximação à saída.

O ar frio exalado por sua influência dominou o local na velocidade do pensamento, trazendo arrepios leves ao garoto a sua espera.

No momento que ficou frente a frente com ele, exalou um duradouro suspiro antes de comentar:

— Estou pronta.

Daquela posição, com o decote mediano na altura do peito — única diferença da comparação —, o rapaz pôde identificar parte da marca estampada no corpo de pele pálida da aliada.

— Então, vamos lá.

O Marcado de Altair ofereceu uma última olhadela ao abrigo religioso.

Talvez fosse a última oportunidade para se despedir, visto que o retorno até lá seria inviável.

Ao apagar das velas restantes, a dupla seguiu adiante sem olhar para trás.

Com o céu limpo, indicativo da mudança climática gradativa dos dias anteriores, todo o acúmulo branco passou a desaparecer, devolvendo a tonalidade verde-natural do solo relvado.

Em silêncio, avançaram o caminho aberto por alguns minutos.

Assim que a floresta se aproximou, a Marcada de Vega interrompeu os passos, fazendo o acompanhante tomar a mesma atitude.

Virou-se até contatar a expressão fechada do rapaz e, através das sobrancelhas contraídas, declamou:

— Após esta floresta, alcançaremos o local do conflito... a grande cachoeira. — Levou uma das mãos à frente do peito. — Ainda há tempo para retornar, caso deseje. Por favor, responda-me uma última vez. Pretende seguir esse caminho comigo?

Pensativo diante das palavras fortes da garota, Norman balançou a cabeça negativamente.

Aquele gesto trouxe uma apreensão incomum à escolhida, contudo ao voltar a ser encarada pelos olhos de íris verde, engoliu em seco à espera da resposta.

E ela veio...

— ‘Cê é idiota, por acaso? A gente ‘tá junto’ desde quando me conheço como um marcado. E, além disso, eu fiz uma promessa naquele dia, não foi? — Trouxe os braços a cruzarem sobre o torso. — Eu vou te tornar Rainha. Pode me contar seus objetivos ou o que for quando vencermos a próxima batalha...

Layla desviou o olhar do convicto companheiro, que após oferecer sua retruca positiva, voltou a proceder na direção do acúmulo de árvores.

Manteve-se de costas, o punho apertou contra o centro do peito, conforme prensava os lábios róseos em detrimento do turbilhão de emoções que lhe dominava.

— Me desculpe...

Não teve coragem a fim de enunciar em voz alta, portanto o garoto somente recebeu um fraquíssimo ruído que o fez girar metade do torso.

Como se desejasse questioná-la sobre aquilo, franziu o cenho e aguardou sua próxima ação: retomar o foco no trajeto responsável por conduzi-los até o local do embate.

A permitindo ser a guia, como foi desde a saída da igreja, fitou suas costas delicadas se moverem entre os troncos iluminados pelos primeiros raios solares entrecortados.

Com o tempo o fim chegaria. E o que aconteceria na sequência, o garoto não fazia ideia.

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