A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 51: Escadaria para o Trono

O primeiro dia desde o anúncio da batalha final havia passado.

Abrigados na igreja sob a tutela da Alfa do Cocheiro, os marcados ainda se recuperavam dos eventos desgastantes.

Tirando Helen, envolvida por conta de questões externas, o grupo já traçava os próximos planos.

— Eu também quero ajudar...! Maninho, maninha!!

A quase súplica de Bianca se espalhava pela sala de estar fechada.

Na face contorcida, a preocupação era direcionada à dupla a qual clamava para que pudesse ajudar.

Enquanto Layla sustinha uma expressão soturna, sempre buscando desviar o foco do pedido insistente da criança, Norman exalou uma profunda lamentação e levou a mão à cabeça dela.

O gesto de carinho era o bastante a fim de afagá-la em diversas circunstâncias, mas daquela vez não foi capaz de retrair a feição obstinada.

— Foi mal, Bianca. Mas dessa vez não podemos te levar. Quero que fique com a Helen e a Beatrice, ‘tá bom?

A tentativa de controlar o combinado com a menina por meio do tom sereno não funcionou, pois, pela primeira vez, ela desviou do carinho que recebia.

Vê-la recuar o fez erguer as sobrancelhas com espanto. E não somente ele, como a própria Marcada de Vega pegou-se surpreendida pela relutância inédita da menina.

Do outro lado, a universitária à parte da situação que envolvia toda a seleção misteriosa, observava quieta.

O semblante cabisbaixo corroborava sua igual inquietação quanto ao contexto explicado pela dupla adiante.

Com os dedos das mãos cruzados acima das pernas flexionadas, não conseguia parar de evocar os traumas que continuavam a lhe assolar.

— Eu também... sou contra — declamou no lugar da menina. — Não quero que corra perigo de novo, Norman. Nem você, Layla... Se há algo em que possamos ajudar, então podem nos falar. Faremos o possível, e...

— Não há nada que vocês possam fazer. — A marcada interrompeu e, após alguns segundos de silêncio, completou sem tirar os olhos da janela ao lado. — Me desculpem. A partir daqui, somente fiquem seguras com a Marcada de Capella.

A resposta seca da soturna arrancou quaisquer possibilidades de retruca por parte da oposição.

Nem mesmo o marcado foi apto a dizer algo a respeito. Restringiu-se a ficar calado, ciente de que a companheira agia de forma estranha desde a noite anterior.

Não havia outro caminho possível que não o levasse à lembrança do beijo.

Em companhia direta a este momento, surgia as palavras proferidas pela garota de cabelo loiro no conflito do templo.

O rapaz desacreditava em algum sentimento amoroso de Layla para consigo, mas após o ocorrido da noite anterior, a concepção começava a ser alterada...

De repente o fim daquele longo pesadelo parecia estar próximo; suas vidas estariam em jogo mais uma vez.

E só isso já era suficiente.

— Eu e Layla vamos terminar isso. Bianca, Helen... vocês voltam com a Beatrice e a filha dela pra um lugar mais seguro. — Sua determinação foi acompanhada pelo ato de se levantar do sofá acolchoado. A atenção mirou a aliada em paralelo. — Amanhã vocês devem partir...  

Sem permitir algum revide das meninas, ele caminhou em direção à saída e acomodou-se no templo destruído pela batalha passada.

Entristecida pela falha em convencê-los, Bianca voltou a repousar no assento particular. A cabeça baixa fazia a franja do cabelo branco cobrir seus olhos.

Helen também nutria desânimo pela decisão do colega de classe, porém tinha ciência de que nem para ele estava sendo fácil.

Pelo semblante da escolhida à frente, o sentimento provava-se mútuo entre ambos. Visto isso, não encontrava muitos motivos a fim de reclamar.

Percebendo que não seria necessário explicar com detalhes a dificuldade do parceiro em abandoná-las, Layla também se levantou.

No meio do silêncio absoluto, dirigiu-se à mesma porta aberta pelo Marcado de Altair e as deixou solitárias no local, como se para refletirem um pouco sem interferências de outrem.

Após fechar a passagem, a alva se deparou com a grande freira sentada diante do altar destruído.

A encarou durante alguns segundos, soltou a maçaneta e enfim se aproximou da mulher, responsável por arrumar o que podia dos detalhes daquela plataforma iluminada.

— Todos precisamos tomar decisões difíceis na vida, não é verdade? — indagou sem trocar olhares com a jovem. — Sei que você tem seus próprios motivos, mas já parou para pensar nos sentimentos dele?

A marcada parou de caminhar e, bem ao lado dela, respondeu:

— Não há um segundo em que eu deixe de pensar... — Estreitou as vistas, como se retivesse sensações árduas que subiam o peito. — Eu também quero que ele fique bem, mas... não posso continuar sozinha. Não mais.

— Mesmo que isso traga a infelicidade de outrem?

— O que você sabe, afinal?... — Tentou esconder os punhos cerrados.

— Eu sei bastante, minha querida... Sei muito bem sobre a infelicidade que pode nascer, dependendo dos caminhos que escolhemos. E sempre pensamos que não há outra forma, mas no fim, quando nos damos conta, já é tarde demais.

Enfim encarou a face pálida da garota, os olhos detrás do cabelo alvo que caía até metade do rosto por conta da cabeça inclinada na direção do solo.

— Isso vai finalizar tudo... de uma vez — murmurou e voltou a caminhar pela passagem central. — Apenas me prometa que vai cuidar daquelas crianças quando voltar.

— Sim... Eu prometo.

Sem ter nada a mais para dizer à freira, a Marcada de Vega seguiu adiante.

Passou pela entrada destruída a passos curtos e foi recebida pela brisa gelada do entardecer.

Diferente dos dias anteriores, o céu mostrava-se pouco obstruído pelas nuvens carregadas.  

A coloração levemente alaranjada ganhava destaque à medida que tomava o ciano aos poucos.

Ao lado, nas proximidades do túmulo improvisado diante da estrutura frontal, encontrou a presença do garoto de cabelo cacheado.

Junto dele, a garota que escondia a marca no pescoço com sua gargantilha escura fitava a cruz de madeira fincada no solo.

Desejava se juntar a ele, mas preferiu observá-los sem chamar a atenção num primeiro momento.

Ao aguçar a audição, onde apenas os fracos uivos do vento a alcançavam, pôde escutar a conversa entre os dois.

— Ainda é difícil... — A menina estreitou as sobrancelhas. — Já tinha chegado ao ponto onde Karenzinha e Sarah se tornaram parte do meu mundo. Eu só fazia as coisas por elas e para elas. Perdê-las do jeito que foi... machuca demais...

— Imagino... — Norman exalou um fraco suspiro ao dizer, trazendo a atenção da companhia.

— Você... se chama Norman, certo?

— Sim.

— Então, Norman... pode responder uma pergunta? — Diante do silêncio provindo do rapaz, ela entendeu que estava apta a prosseguir. — Naquele dia, quando Karenzinha usou... seu poder... Você também foi atingido, não foi?

Ao fitá-la, encabulada, de canto,  Norman remeteu ao instante em pauta: afetado pelo Áster da então Marcada de Gacrux, junto com o inimigo da vez, foi conduzido ao próprio subconsciente, onde mantinha as memórias dolorosas trancafiadas.

— Poderia me dizer... o que aconteceu nessa hora?

Com o complemento da Marcada de Acrux, Norman fechou as vistas em recordação sobre esse pedaço de tempo no qual foi desconectado da realidade.

O sorriso benévolo da menina de olhos bicolores ainda residia gravado em sua cabeça.

Assim como as palavras dela...

Apreensiva entre interior e exterior do templo, Layla abaixou a cabeça no intuito de escutar sua resposta.

Desde aquele dia, não pôde saber o que havia se passado no estado mental do aliado, que a salvou do desabamento da mansão após despertar.

Ela sempre quis o questionar, mas não se sentia no direito de fazê-lo.

Fato era que o jovem, responsável por acompanhá-la desde o princípio de sua ingressão na Seleção Estelar, mudou a partir daquele ponto.

Tão confiante quanto no desenrolar inicial das coisas, capaz de sorrir como jamais tinha feito desde muito tempo, até mesmo antes do acidente que vitimou sua família.

Como naquele exato instante, onde os lábios relaxados fizeram curvas laterais para o alto, enunciando a resposta à pequena freira:

— Ela... me fez aceitar meus erros. — As palavras dele soaram tão leves para a alva quanto para a ruiva. — O poder dela me ajudou a encontrar a resposta que eu tinha medo de alcançar. Pude me despedir deles... E seguir em frente.

De repente, lágrimas começaram a cair pelo rosto da garota.

A vermelhidão que lhe tomou acima do nariz evidenciava suas sardas bem apagadas, semelhantes às de sua mãe.

Quando se deu conta sobre estar em prantos, levou as mãos fechadas a tentarem secar as bordas das vistas úmidas.

No entanto foi incapaz de interromper aquela onda de emoções quentes que provocavam tal reação.

Em contraste a isso, projetou um sorriso estremecido sem deixar de esfregar o rosto.

— Então ela, até o fim... quis ajudar alguém...

A voz embargada ecoou pelo vazio como uma forma de agradecimento ao jovem que a salvou no dia anterior.

Não somente o próprio pôde compreender aquilo, como a Marcada de Vega ao sentir arrepios indescritíveis percorrem todo o seu corpo.

Era como se o destino sempre deixasse seus avisos pelo espaço, de uma maneira que a alcançassem cedo ou tarde.

E ela odiava tal sensação, pois a fazia temer os próprios desejos e objetivos.

Isso ficava ainda mais claro quando trazia as mãos a agarrarem os próprios braços, os apertando severamente no intuito de findar esse abalo.

Depois de gratificá-lo à sua maneira, Judith voltou para o interior da igreja sem encontrar Layla no caminho.

Também ultrapassou Beatrice em silêncio e adentrou o cômodo pessoal ao lado do altar.

Com o parceiro livre do lado de fora, a jovem nívea pensou em se unir a ele para conversar, mas preferiu continuar onde estava.

— Vocês realmente vão ficar bem?

Beatrice Grace, de trajes mais sociais ao invés da costumeira roupa religiosa, virou-se na direção da dupla que residia à frente da igreja.

— Espero que sim. — Norman assentiu com a cabeça.

— A probabilidade de que algum marcado apareça em seu caminho é quase nula, vista a batalha de amanhã. De qualquer maneira, andem sempre juntas e com cautela.

Às palavras proferidas por Layla, a grande freira também acenou em afirmação.

— Pode deixar. Cuidarei bem delas até chegarmos.

— Maninho... maninha... — Bianca segurou em uma das mãos de ambos, a testa franzida corroborava seu sentimento de inquietação. — Por favor, tomem cuidado...

— Em breve nos veremos de novo.

O Marcado de Altair fez o habitual carinho na cabeça da criança, que encarou a irmãzinha ao lado e não recebeu outra resposta por parte dela, a não ser um tênue sorriso silencioso.

— Estarei esperando... — Helen se pronunciou na sequência. — Para que possamos conversar bastante sobre tudo que passamos, como sempre fizemos.

Com a nova indicação confirmativa do rapaz, a universitária ajeitou as alças da mochila nas costas e acompanhou Judith, que decidiu não se despedir deles.

Encarada pelas demais, a menina parecia ansiosa.

Os punhos cerrados tentavam reter as emoções ocasionadas pela despedida.

Beatrice executou uma última mesura e conduziu as outras duas ao tocá-las nas costas.

Elas demoraram até deixarem de olhar para trás, na direção da dupla de marcados que ficaria para a batalha derradeira.

Enquanto isso, a única sobrevivente do Cruzeiro do Sul não deixava de evocar os momentos finais que teve com cada uma de suas irmãs.

Seu grande objetivo, desde o princípio, era a de trazer as irmãs mortas no incêndio de volta; uma grande utopia.

Todo esse pensamento somente trouxe a perda das mais novas, as quais jurou proteger com sua vida.

Seja dentro da seleção ou fora dela... sempre vai chegar um momento em que vamos perder pessoas importantes. E na maioria dessas vezes, não conseguimos fazer nada pra evitar isso...

As palavras ditas por ele retornavam em sequência.

Mas não é por isso... que a gente tem que desistir. Tenho certeza que suas irmãs ficariam felizes em te ver bem... inclusive ela.

Assim que relembrou a voz dele, a confortando e compartilhando toda a dor que também precisou suportar por tanto tempo, encontrou dificuldades para segurar o turbilhão abrasivo que subia o peito.

Já está na hora de consertar o que está a nosso alcance.

Em detrimento da maior utopia de todas — a seleção —, ela deixou tudo ser varrido para fora do corpo.

Naquele momento, Judith Grace precisaria buscar a própria continuidade.

Essa foi sua decisão. Enquanto estivesse viva, Karen, Sarah e as demais freiras incendiadas jamais morreriam.

Todas continuariam vivas.

Em seu coração.

Quando Norman e Layla encontravam-se prontos para retornarem ao interior da igreja, a menina, que até então não tinha os olhado a fim de se despedir, corrupiou todo o corpo.

— GANHEEEEEEEEM!!!!!

Seu grito ecoou por toda a área, ao que em seguida ergueu o braço direito com o punho fechado.

Sem dizer mais nada, deixou os ecos causados pelo brado falarem por si.

Os dois indicados fizeram o mesmo.

Depois de entregar sua despedida, a Marcada de Acrux voltou a se virar e avançou pelo caminho nevado à frente das outras escolhidas e da universitária.

Passado algum tempo, o quarteto enfim desapareceu da linha de visão da dupla.

Restava apenas o vazio preenchido pela neve, que derretia gradativamente com o esvanecimento das nuvens acinzentadas.

— Estamos sozinhos de novo... como começamos. — O rapaz virou o rosto a observar a parceira de canto.

— Sim...

À retruca cabisbaixa da garota, ele exalou uma breve lamentação e voltou a encarar a direção pela qual as meninas partiram.

— Amanhã tudo será definido. — Lembrou-se da promessa dela sobre contar tudo ao término do conflito, portanto decidiu tomar outro rumo importante na conversa. — Como faremos isso? Aquela garota disse que não precisamos matar nossos adversários pra...

— Sei o que ela disse. — Ela o interrompeu, a voz soava fria como o clima de inverno. — E, de fato, não precisaremos fazer isto.

Deu meia volta e avançou a passos curtos pelo templo parcialmente iluminado, tanto pela luz natural vinda de fora quanto pelas velas acesas no altar destruído.

Norman a acompanhou com os olhos durante um tempo.

O caminhar dela parecia uma dança lenta, seu rosto pálido focava nos assentos espalhados pelas laterais do recinto.

Ao alisar o topo do respaldo de um desses bancos com os dedos, a jovem voltou a declamar:

— Descobri que podemos alcançarmos o trono do Rei Celestial, acessando o espaço especial compartilhado entre o próprio com todos os Marcados. — Voltou a fixar os olhos escuros no aliado.

Nem foi preciso explicar com maiores detalhes, pois Norman teve sucesso em remeter ao específico ocorrido pós-batalha contra o Marcado de Regulus.

A sensação de ser engolido pelo próprio Cosmos residia gravada em suas memórias desde então.

A voz retumbante que se espalhava por todos os cantos, como se o contatasse telepaticamente, jamais poderia ser esquecida.

— É lá onde vamos encontrar nosso triunfo definitivo. O local onde tudo coexiste... onde todas as estrelas se unem. — A garota abriu a mão e a direcionou a ele. — Essa é a Singularidade.

Perante a definição da jovem nívea, o marcado só pôde engolir em seco.

No entanto, as sobrancelhas retraíram junto ao cenho franzido, denotando sua determinação em alcançar o melhor final junto de sua primeira e única aliada.

Do início ao fim daquela jornada...

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