Volume 2 – Parte 2
Capítulo 42: Alfa do Cocheiro
Quando o símbolo no centro da testa de Beatrice cintilou num tom de amarelo, Norman reconheceu o asterismo.
Tinha um padrão característico de pontos que se ligavam à formação de um pentágono.
O mais brilhante localizava-se no topo.
“É a Constelação do Cocheiro...”, o rapaz encontrava-se inapto a colocar as palavras para fora da boca. “Então era...”
Lembrou-se do momento em que sua marca e a de Bianca ressoaram o alerta no dia anterior, durante o enfrentamento da poderosa nevasca.
— Você é... uma... Marcada?
A menina foi quem questionou, acuada enquanto agarrava o braço do garoto.
Prontamente ele tomou uma postura de cautela, tanto a favor de si próprio quando da criança estremecida em ansiedade.
Beatrice levou um tempo para responder; tempo esse necessário para que o brilho pálido de sua marca regredisse, tal como a das garotas recém-chegadas, que ressonavam a ela.
Por meio da feição circunspecta, de olhar ligeiramente melancólico — ao menos era o que Norman percebia dele —, ela apenas arriou as sobrancelhas.
Por outro lado, Judith sentia uma fúria latente ser alimentada dentro de si, capaz de fazê-la cerrar os punhos e ranger os dentes à mostra.
Nem mesmo Sarah, ao seu lado, podia compreender o motivo daquela postura. Sentia a aura agressiva fluir ao redor da irmã, a ponto de acuar os ombros.
Ainda mais, por alguma razão, a grande freira parecia aceitar aquele ódio destilado pela encarada silenciosa da pequena.
“Que merda isso aqui se tornou”, Norman estalou a língua frente a um novo problema.
Passados os acontecimentos de meses atrás, não fazia ideia se deveria considerá-las como inimigas.
Também já tinha notado a ausência da Marcada de Gacrux, confirmando qual teria sido o destino cruel dela.
Apesar da clara posição desconfortável, o garoto desistiu de qualquer pensamento que envolvesse uma luta.
Não queria disputar nada contra nenhuma delas.
Jamais iria imaginar que você também seria uma de nós... seu demônio.
A frase forte proferida por Judith há pouco ganhou novas repetições de destaque em sua mente.
Assim que passou a divagar sobre elas...
— Como chegaram nesse lugar? — mussitou a adulta. — O que estão fazendo aqui?
Pela primeira vez, ela expressou a aflição que carregava na feição. Mesmo que, ao mesmo tempo, irradiasse certa tranquilidade.
Rodeados pelo conflito silencioso, Norman e Bianca já nem mais faziam ideia de como poderiam se desvencilhar em prol de retornar à cabana.
Embora desejassem sair dali o quanto antes, sentiam-se presos por uma pressão peculiar.
— Aliás... — Beatrice engoliu em seco antes de completar. — Onde está a Karenzinha?
O questionamento proferido entre os dentes despertou um choque nas duas marcadas, ao que a de Acrux respondeu de forma acintosa.
Abriu a mão dominante, de onde uma esfera de luz surgiu e, na sequência, começou a tomar forma.
— Fique atrás de mim, Bianca. — Norman empurrou o braço da protegida e entrou em sua frente.
Não existia qualquer objeto que pudesse desfrutar do potencial de sua Telecinesia nas proximidades, então deveria focar na defensiva.
Passou pela cabeça a hipótese de destruir as portas da igreja e as utilizar, mas seria prejudicial caso fosse necessário se abrigar ali mais uma vez.
Com a cabeça à milhão, prendeu o foco na menina em seu processo de criação, porém o aglomerado luminoso desapareceu num piscar.
Pensou ter sido obra da própria marcada, mas a expressão desentendida e perplexa dela entregaram a possível anomalia.
Isso o fez relaxar o deslocamento, lhe oferecendo mais tempo a fim de encontrar qualquer possibilidade em que poderia usar a habilidade.
De relance, fitou uma pedra à esquerda da escadaria; não se situava tão distante, mas era provável que levasse algum tempo até conduzi-la.
No entanto...
“Ué?”, mesmo ao forçar a mente no intuito de ativar o Áster, nada ocorreu.
Tentou mais algumas vezes, contudo o resultado negativo se repetiu.
“Não consigo usar!?”
Ao sentir a influência singular irradiada da retaguarda, girou o rosto em busca de encontrar a face da freira inerte.
Novamente seu cabelo cacheado parecia levitar, capaz de mostrar a marca da constelação do Cocheiro emanar o fulgor dourado.
— Não permitirei que quaisquer conflitos aconteçam por aqui. — A voz dela ressoava imponente. As sobrancelhas se enrustiam em uma inédita severidade. — Eu também estou surpresa por você possuir o poder das estrelas... Para termos nos encontrado aqui e agora, só me resta crer que foi obra do destino que nos entrelaça ainda mais.
— Para de falar essas palavras bonitas... — Judith apertou as mãos, impotente.
Cercado pela tensão, Norman indagou:
— Então você já sabia que a gente era...?
— Sim, eu sabia — respondeu a indagação incompleta do garoto. — Por quê? Está surpreso que eu não tenha feito nada, ao invés de cuidar de vocês?
— É o natural, não acha?
— Natural? Bem, não que eu deseje saber. — Ela conectou os cílios, ao que o brilho na marca desapareceu. — Nenhum de vocês pode fazer algo enquanto eu estiver por perto. É inútil. Esse é meu Áster da Assolação.
— Sua...!
— Espera, irmã Judith! — Sarah enfim se movimentou, entrando à frente da irmã enraivecida. — Por que está agindo assim!? O que aconteceu!?
— Não me impeça, Sarah! E eles também são inimigos! — Mirou a dupla que ficava à parte da guerra fria, mas, no caminho ao mesmo tempo. — Devemos derrotar nossos inimigos pra termos alguma chance de encontrarmos nossas irmãs de novo!!
Dos gritos da Marcada de Acrux, Norman e Bianca podiam identificar um tom de sofrimento arrepiante.
Crescia aquele pensamento instintivo que surgiu logo quando encontrou a chegada de Judith, o levando a encarar, de relance, Beatrice em sequência.
Era claro que tinha algo muito maior do que só aquele encontro. Mas não estava em posição favorável de falar ou fazer qualquer coisa.
Não somente isso, como, ao virar o rosto na espera de alguma resposta da grande freira... a viu com as sobrancelhas ligeiramente alçadas, criando rugas na testa.
Tal era a força das lamúrias despejadas pela pequena freira. Contra os três à sua frente.
E, até mesmo, contra o destino.
— Teremos alguma chance de... encontrarmos... de novo... — Como se perdesse as forças que a moviam, Judith caiu de joelhos na neve. — Você não entenderia...
— Como assim eu não entenderia!? Se não me contar, eu não vou entender mesmo! — A Marcada de Mimosa insistiu, suas mãos chacoalhavam a mais velha pelos ombros. — Me diz, irmã Judith... Era isso que deveríamos encontrar!? Era isso que aquela loira chamou de bem inestimável!? Por quê!?
“Loira?...”, Norman estreitou as vistas ao reparar na indicação específica feita pela morena.
Uma rápida hipótese passou pela cabeça, mas logo na sequência...
— A Karenzinha... morreu... — A voz embargada da caída alcançou a mais velha. — E isso tudo... é culpa sua!...
Ergueu os olhos marejados em direção a Beatrice, aparentemente incrédula defronte a resposta atrasada oferecida pela marcada.
As duas se encararam por um longo período, suficiente para levantar suspeitas nos outros três escolhidos à parte.
O Marcado de Altair chegou a sua conclusão forçada no silêncio, chegando ao ponto de engolir em seco.
No mesmo instante que virou metade do torso, a expressão fechada apontada até a freira, Sarah piscou diversas vezes conforme fitava a irmã fuzilar a mulher com o olhar.
Juntos, porém, em ritmos diferenciados, os dois proferiram as exatas palavras:
— Vocês se conhecem?
Embora Norman tivesse colocado um “por acaso” no fim da construção da frase, a encerrou ao mesmo tempo que a Marcada de Mimosa, visto que murmurou um pouco mais rápido — ela quase gaguejou graças à corrente de emoções inquietantes que percorria seu corpo.
Judith ficou em silêncio, pois já fazia ideia sobre qual seria o prosseguimento daquele cenário.
Como se ignorasse a mesma sensação, Beatrice exalou um fraco suspiro antes de responder tanto o garoto quanto à menina agasalhada adiante:
— Talvez você não lembre muito bem, pois ainda era muito pequena na época, Sahrinha. — O chamado carinhoso da freira despertou um gelo na espinha da noviça. — Quando eram menores, fui a responsável por cuidar de vocês. Você, Karenzinha... e Judith.
De novo, o jovem isolado percebeu certa estranheza na curta pausa executada pela mulher, antes de completar com o nome da Marcada de Acrux.
Aquilo não era tudo. Estava longe de ser a resposta definitiva.
Por outro lado, Sarah encontrava-se perplexa.
A mais velha não teve palavras para rebater, então resumiu-se a abaixar a cabeça na direção do solo branco.
Os joelhos ardiam no contato com a neve, mesmo protegidos pela calça de moletom.
— Me perdoem por isso... Eu não queria assustar vocês. — A mulher dirigiu-se aos convidados do dia anterior. — Poderia dizer que não desejava esconder esse segredo, mas creio que tenha sido um ato recíproco, certo?
Norman pensou em responder no instinto, mas se segurou de maneira a separar os lábios sem entoar qualquer palavra por breves segundos.
— É... Por aí. — Com ainda certa insegurança, encarou-a com as vistas arriadas. — E o que pretende fazer agora?
— Não se preocupem, não sou sua inimiga. Embora tenha esse poder misterioso, não carrego nenhuma pretensão de participar diretamente desse evento surreal. No entanto a situação complicou um pouco com isso...
O olhar da freira mudou até as crianças agachadas a alguns metros de distância, então a dupla mais próxima repetiu o gesto.
As escolhidas do Cruzeiro do Sul voltaram a se levantar do chão apoiadas uma na outra. A cólera da mais velha não dissipou, porém havia perdido intensidade.
Ainda que agasalhada da cabeça aos pés, sentia a falta de costume com o frio lhe permear de fora para dentro.
— Venham para dentro — convidou Beatrice. — Prepararei chocolate quente e...
— Não queremos sua benevolência! — Judith rebateu rangendo os dentes.
“Isso vai ser complicado...”, o Marcado de Altair levou os dedos ao nariz, entre as vistas, e balançou a cabeça para os lados.
Àquela altura, por mais que desejasse ir embora o mais rápido possível, já tinha aceitado a necessidade de permanecer até uma resolução naquele caso.
Por mais que a anfitriã da igreja não fosse permitir a utilização do Áster de qualquer um deles, todo cuidado ainda era pouco.
— Quer ajuda com algo? — indagou, agora quase totalmente virado para as meninas.
— Sei que estão com pressa, não desejo atrapalhá-los. — Beatrice voltou a sorrir com placidez, fazendo o jovem virar o rosto por cima do ombro — Contudo desejo dizer algo antes de irem, então poderiam esperar um pouco?
Norman não respondeu, porém acatou o pedido da anfitriã.
Ela avançou dois passos, respirou o ar frio da manhã e proferiu em voz alta:
— Venham, vocês duas. Vamos nos aquecer.
— Eu já disse...!
— Irmã Judith, por favor. — Sarah a interrompeu antes mesmo de tentar. — De nada adiantará caso briguemos assim. Não faço ideia do porque odeia tanto essa moça, mas ela é uma de nós. Ela também carrega a cruz d’Ele no peito.
— Mas, isso é...
— Você prometeu que iriamos ficar bem, então cumpra a promessa!!
O grito da garota ecoou pelo silêncio local, fazendo a irmã arregalar os olhos, como se despertasse de um pesadelo nebuloso.
— Se quiser me contar algo, pode contar. Vou escutar tudinho e ficar do seu lado pro que der e vier. Mas já estamos nos arriscando demais! Precisamos descansar...
Perante a série de súplicas da mais nova, Judith acalmou os nervos, assim como a face contorcida.
Seguia contra a escolha de acompanhar a mulher, por próprios motivos nada esclarecidos.
No fim das contas, cedeu às palavras fortes da companheira e exalou um forte suspiro.
— Você ‘tá certa... Me perdoe, Sarah. — De testa franzida, tornou a fitar a freira. — Aceitamos a sua oferta. Por ora.
Beatrice não respondeu à nova provocação da menina, que conduziu sua parceira às escadarias da igreja.
— Aliás, senhorita — disse Sarah, parando entre o arco da passagem.
— Pode me chamar pelo nome. É Beatrice, Sahrinha.
De novo, ao ser chamada daquela forma, a Marcada de Mimosa experimentou um calafrio indescritível. Só mais uma motivação para seguir com o que pretendia dizer:
— Então, senhorita Beatrice. Eu gostaria de perguntar algumas coisas à senhorita também. — Virou o rosto, o olhar firme como nunca encontrou os olhos âmbares da freira. — Tudo bem por você?
Até mesmo Judith se espantou com o nível de maturidade demonstrado por sua pequena protegida. Encarou-a de canto, à medida que a troca de olhares seguiu silenciosa.
— Claro. Iremos conversar com o tempo.
Beatrice foi gentil mais uma vez, então Sarah assentiu com a cabeça e forçou um sorriso leve com os lábios unidos.
Depois dessa troca, ambas entraram no salão principal da igreja, deixando a grande freira e os jovens visitantes solitários mais uma vez no lado defora.
Por meio de um lamento, a mulher arriou o olhar e, depois de breves segundos, tornou a se entreolhar com os dois.
Norman tinha recebido uma onda de recordações desagradáveis ao encontrar os olhos afiados de Judith.
Era como se enxergasse a si próprio há três meses, entre os eventos da tragédia que o tornou um marcado até o despertar na batalha contra o Marcado de Regulus.
Naquele momento, o clima pesado do local arrefeceu.
— De todos os cenários possíveis... esse realmente me surpreendeu. — Beatrice abaixou o tom de voz, com certo pesar. — Nunca imaginei que elas seriam como nós...
E a frase final em questão foi ainda mais baixa.
— O que precisava falar com a gente? — Norman queria resolver logo a fim de partir à cabana.
— Queria apenas esclarecer tudo antes de nos despedirmos. Eu sou a Marcada de Capella e meu Áster, a Assolação, me permite roubar a capacidade de outros como nós utilizarem seus poderes. Por isso, naquela hora, você e a Judith tentaram, mas não conseguiram.
— É um poder bem chato de se lidar, realmente — bufou o garoto. — Mas aquela menina parece ter bastante raiva de você. Diferente de quando me encontrei com elas no verão.
— É uma longa e antiga história, mas... saber que a Karenzinha faleceu nesse evento realmente me deixa um pouco abalada. — A freira levou a mão até a cruz no colar do peito e fechou os olhos por alguns segundos, como se executasse uma prece. — Não sei se nos encontraremos novamente, então desejo boa sorte em sua procura. Não se esqueçam das palavras que os ofereci mais cedo...
— Eu acho que vai ser difícil a gente não se ver de novo sendo marcados, mas agradecemos por isso. — O marcado se virou, trazendo a menina junto consigo. — Boa sorte com essas garotas. Sei que vai ser difícil... Experiência própria.
— Tenho certeza que sim.
— Então, ‘tamo indo. — Ele deu as costas com a protegida e seguiu em frente sem delongas.
Quieta na mesma posição, a Marcada de Capella realizou uma breve mesura em novo agradecimento a ambos, até que eles desaparecessem de sua linha de visão pelo caminho recheado de neve.
— Por favor... — murmurou consigo mesma, antes de dar a volta e retornar à igreja. — Me dê forças...
Passado o breve instante de adrenalina, Norman e Bianca puderam retornar pelo caminho traçado no dia anterior como planejado.
Nenhum deles trocou palavras sobre o ocorrido recente. Somente mantiveram as energias focadas em completar o trajeto até a cabana abandonada, não muito distante dali.
Embora um dia tivesse se passado, ainda restava algumas expectativas quanto ao retorno de Layla para o abrigo.
Levaram poucos minutos até chegarem no destino.
Pararam em frente à porta, uma aflição intensa tomou conta de suas emoções.
“Por favor...”, o jovem levou a mão à maçaneta e, depois de alguns segundos em indefinição, moveu a entrada destrancada.
— Layla!? — gritou cabana adentro.
O tempo permaneceu em avanço, porém nenhuma resposta veio.
Acometido pela dura realidade, seguiu em frente.
Os passos que faziam o solo de madeira ranger ecoavam solitários pelo vazio.
Visitou todos os cômodos, inclusive o quarto onde havia deixado a mensagem.
Tudo permanecia intocado desde a partida da manhã anterior.
No fim das contas, haviam perdido todas as parcas chances de terem sucesso na busca pela companheira.
A nevasca forte, o dia perdido na igreja e o regresso fracassado; a soma de todos os fatores lhes arrancou quaisquer pistas quanto ao paradeiro da garota.
Estalou a língua ao cerrar os punhos, enquanto era observado pela entristecida Marcada de Deneb.
— Onde você se meteu... sua idiota!?
O resmungo por pouco não saiu, a voz embargada continha um misto de preocupação e raiva.
Como a história procederia a partir daquele ponto... somente o tempo diria.
Opa, tudo bem? Muito obrigado por dar uma chance À Voz das Estrelas, espero que curta a leitura e a história!
★ Antes de mais nada, considere favoritar a novel, pois isso ajuda imensamente a angariar mais leitores a ela. Também entre no servidor de discord para estar sempre por dentro das novidades.
★ Caso queira ajudar essa história a crescer ainda mais, considere também apoiar o autor pelo link ou pela chave PIX: a916a50e-e171-4112-96a6-c627703cb045
Apoia.se│Instagram│Discord│Twitter
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios