A Voz das Estrelas Brasileira

Autor(a): Altair Vesta


Volume 2 – Parte 2

Capítulo 43: Proximidade

Mesmo cercada por uma violenta nevasca, tendo o campo de visão completamente ofuscado, Layla seguiu em frente.

Vestida apenas com seu vestido branco fino, ela não estremecia de frio em hipótese alguma. Mesmo descalça a pisar na neve aglomerada abaixo, continuava a caminhada sem interrupções.

Os olhos azul-escuros se forçavam em prol de permanecerem abertos. Às vezes o corpo era empurrado pelo vendaval, mas sustentava-se numa resistência sobre-humana.

O rumo solitário continuou a ser construído por tanto tempo que ela nem mais sabia diferenciar.

“Eu não tive escolha...”, as divagações ecoavam contra os ruídos que seus ouvidos absorviam. “Não posso ficar junta dele assim...”

Prensava os lábios roxos um contra o outro.

Mesmo distante, diferente do que imaginava, a sensação de arrepio permanecia cravada em seu corpo.

Isso a fez parar a caminhada de repente no meio da intempérie.

Conforme os fios brancos dançavam ao vento, subiu o rosto de modo a encarar o que podia do céu tomado por nuvens carregadas.

“Só que... isso não deveria chegar a esse ponto.”

Levou uma das mãos a apertar o local onde mais doía; o peito.

Agarrou o tecido úmido do vestido e o apertou com ímpeto suficiente para estalar todos os ossos dos dedos.

Eu não aguento mais...”, os dentes se mostraram, logo cobrindo parte do lábio inferior, como se fosse os morder.

Por um átimo, pensou ter sentido uma lágrima cair da vista esquerda. No entanto, essa sensação logo desapareceu.

Daquele lugar, seria impossível enxergar as estrelas.

Quando o anoitecer chegou, o desalento veio na companhia. A nevasca foi embora, mas o céu nublado permaneceu.

Não importava o quanto Layla mirasse o topo inalcançável, jamais poderia contemplar as estrelas a anos-luz de distância daquele planeta.

Restava a ela suportar as lamentações para descansar depois de um dia complicado.

Por sorte conseguiu encontrar uma pequena gruta ao caminhar por quilômetros sem parar.

Imaginava como a dupla que abandonou deveria estar lidando com seu desaparecimento, mas lutava para rejeitar os pensamentos.

Mais controlada quanto às emoções lancinantes nascidas da proximidade com Norman, queria apenas um bom período para se recuperar.

Sentada com as costas na parede, respirou fundo conforme repousava as mãos com dedos entrelaçados no peito.

Sentia o compasso natural dos batimentos cardíacos, o rosto enrubescido tanto por conta do frio quanto pelos vestígios daquilo que desejava vencer.

Foi quando, sem qualquer precedente, concentrou sua mente até que a marca em seu peito emitiu o brilho celeste.

Todo e qualquer ruído vindo do exterior desapareceu.

Nas profundezas da mente, informações jamais vistas, semelhantes a um filme em sequência, surgiram.

Imagens e sons não muito detalhados tomaram forma. Primeiro, enxergou duas presenças-chaves numa cena; ela conhecia uma, apenas.

Depois, o cenário mudou para figuras reunidas em algo que parecia ser o salão de uma igreja. E lá estavam as pessoas que mais queria que não estivessem: Norman e Bianca.

Por conta disso, voltou ao normal abrindo os olhos arregalados, enquanto a energia usada para sua Clarividência se esvaía.

Voltou à respiração arfante, mas rapidamente controlou por meio de suspiros profundos.

“Ele sempre está lá...”, dobrou as pernas, cruzou os braços e os deitou sobre os joelhos. Assim fez com o queixo logo depois. “Ele não vai me deixar ir...”

Exalou um forte lamento, abafado por estar com a boca encostada nos antebraços.

No fim, terminou de descer o rosto, até deitar a testa neles, onde apenas podia lamentar consigo mesma.

“O que eu devo fazer?...”, declarou para si própria, conforme segurava uma sensação calorosa que subia a face enrubescida.

Da posição que se encontrava, deixou a consciência se esvair de repente.

Quando as vistas voltaram a abrir, os feixes luminosos que transcendiam as nuvens carregadas lhe saudaram.

Percebeu ter sucumbido ao cansaço, deitada sobre o solo congelante.

A garoto ergueu o torso, uma das alças finas do vestido caía pelo braço canhoto e deixava seu ombro exposto.

Ajeitou a vestimenta de maneira a subi-la de volta, então levantou-se por completo e caminhou a passos curtos até o exterior.

A neve continuava acumulada pela superfície, mas já derretia de maneira gradativa graças aos raios solares divididos.

Numa graciosa arfada, soltou ar condensado pela boca.

Enquanto observava, um fenômeno ainda mais intrigante a acolheu.

Minúsculos flocos brancos passaram a cair de maneira graciosa, misturando-se aos pilares que iluminavam as aberturas dispersas na amplidão.

— Lindo...

Pôs em palavras o próprio devaneio por meio de um sussurro.

De qualquer maneira, não poderia perder muito mais tempo contemplando aquele cenário.

Repleta de remorso ainda no coração, voltou a caminhar pelas trilhas albinas daquela vasta colina.

Seguindo um rumo específico, passou um novo intervalo alongado até alcançar o destino em questão.

Quando o céu começou a clarear um pouco, a marcada encontrou uma floresta. As árvores cobertas por acúmulos de neve tornavam a paisagem ainda mais desbotada.

Sem delongas, adentrou a trilha nevada e se aprofundou cada vez mais na região fechada.

Por conta do clima frio, não escutava nenhum sinal de vida além dos próprios passos arrastados.

Permaneceu dessa maneira até se afastar da entrada, num nível onde poderia se perder com facilidade.

No entanto, possuía consciência de todos os caminhos disponíveis pelo emaranhado de arvoredos esbranquiçados.

Foi desse jeito que atravessou um trajeto específico até chegar no ponto desejado.

Parou de avançar quando constatou ser o local visto nas memórias ao utilizar sua Clarividência.

Em questão de segundos, puxou o revólver carregado pelo coldre na cintura e apontou à direita, sem nem encarar o possível alvo.

— Imaginei que viria... — A voz soou abafada por conta da gola do casaco sobre a boca. — Essa não é uma temperatura tão agradável, não acha?

— Você realmente adora florestas, não é? — A garota enfim virou o rosto.

— Não gosto de me expor muito, se é que me entende. Aliás, são locais muito bons para que eu possa me defender sem dificuldades.

Ele soltou um forte suspiro que fez as pontas levemente espetadas de seu cabelo acinzentado balançarem.

Apesar de ter uma arma apontada em sua direção, não parecia ter vontade de reagir.

Em mínima defesa, tinha uma das mãos colocada sobre o zíper do traje, pronto para liberar seu Áster da Fala Mística a qualquer instante; a outra encontrava-se enfiada no bolso.

— Não precisa ser tão agressiva. Da última vez nem pudemos nos falar direito. — Os olhos azul-escuros, tais como os dela, afiaram em sua direção.

— Por que estão aqui? — A pergunta da marcada soou embargada. — Por que querem tanto me atrapalhar!? Me responda...!

— Edward. — A interrupção dele foi precisa. — Me chame de Edward aqui. Aliás, você pegou um belo nome emprestado também, não foi?

Embora estivesse coberto pelo agasalho fechado, a jovem sentiu um leve sorriso se formar nos lábios do rapaz, que assim prosseguiu:

— Layla. Escura como a noite... — Fechou as vistas por breves segundos. — É cativante como sempre tentam dar significado à todas as coisas nesse lugar. Não ironicamente, isso me intriga. A você não... alteza?

A garota experimentou uma cólera absurda subir a garganta, mas controlou os sentimentos efusivos, resumindo-se a franzir a testa.

Caso puxasse o gatilho, meramente gastaria uma bala; já sabia que o poder do adversário também afligia objetos inanimados.

Até mudar o tambor e disparar outra, não sentia confiança em prosseguir.

Se uma batalha fosse iniciada naquela hora e naquele lugar, tinha ciência sobre seguir até a morte de um deles.

Seria como colocar a perder tudo que fora construído até então.

Pensar nisso tudo a fez tomar a melhor decisão: relaxar o braço estendido, abaixando o revólver sem efetuar o disparo.

— Afinal, por que veio sozinha? — Edward indagou. — Seu tempo está acabando, precisa resolver tudo o quanto antes. Se os trouxesse, teria mais chances...

Diante das palavras provocativas do marcado, Layla estreitou as vistas na direção do solo nevado.

Na sequência, levantou a cabeça até o céu parcialmente nublado, as copas das árvores brancas tomavam metade do cenário elevado.

Respirou fundo diversas vezes, como se orquestrasse uma contagem regressiva dentro da própria cabeça.

— Se eu permanecer mais tempo com aqueles dois... — murmurou, pensando principalmente em Norman. — Talvez não seja capaz de seguir em frente rumo a meu objetivo.

Quando voltou a ser fitado, o jovem repetiu seu gesto ao estreitar as sobrancelhas.

“Ela está mais vulnerável. Aconteceu alguma coisa...”, o par de olhos escuros rapidamente se depararam com a razão daquela mudança.

— Ah... — Quase chegou a esboçar um sorriso. — Então isso explica o motivo daquela arteira inconsequente ter se interessado tanto naquele garoto.

Às palavras presunçosas do rapaz, a Marcada de Vega mais uma vez acuou as emoções calorosas.

Cerrou os punhos com força e buscou esconder os lábios estremecidos, assim como os olhos por trás das franjas alvas.

Esse acabava de se tornar o momento propício para despejar tudo que guardava, onde todos os desgostos deveriam explodir de uma só vez.

Ainda assim, quando pensava em repeli-los, a imagem “daquele garoto” voltava a preencher sua mente.

Era estranho.

Ao mesmo tempo que enxergá-lo lhe trazia o medo de ceder àqueles sentimentos e desistir, despertava a coragem a fim de não se entregar às fraquezas escondidas e desistir.

— Estou cansada desse sofrimento... Não posso deixar que ele continue me prendendo aqui! Eu devo acabar com isso tudo de uma vez por todas!

Tendo a resposta claramente contida no tom de voz da alva, Edward encarou por alguns segundos sem proferir uma palavra.

A nova brisa passou pela floresta, fazendo um pouco da neve acumulada nas árvores cair no chão. Ao passo que seus fios de cabelo meneavam pelo espaço.

Os olhos de íris semelhantes mantinham-se conectados. Frente a frente, a tensão cresceu a ponto do rapaz ajeitar a postura.

— Você sabe. Eu não sou tão obstinado quanto aquela idiota, mas compartilho do pensamento dela. Certamente não gostaria de vê-la se tornar a nova Rainha Celestial. — O semblante soturno do rapaz irradiou um ar tão frio quanto o clima local. — Sei que vocês se encontraram naquele dia. Devem ter conversado bastante...

— Então realmente estavam juntos?... — cuspiu em retorno.

— Não exatamente. Eu caminho no meu próprio ritmo. Por isso, não deixarei que prossiga como deseja. — Ele estalou os dedos da mão que estava no casaco. — No fim, ainda é uma disputa para ver quem tomará o lugar do Rei Celestial. E eu estaria mentindo se dissesse que não me interesso.

Pela visão periférica, Layla pôde captar uma luz escarlate surgir, acompanhada de um fluxo de calor intenso que desceu em sua direção na velocidade do pensamento.

No puro movimento instintivo, ela saltou para trás assustada à medida que uma explosão de chamas atingiu o solo, levantando e derretendo parte da neve abaixo.

Ela voltou ao solo, os pés arrastaram nos flocos de gelo reunidos até parar o impulso do corpo.

Quando levantou o rosto, fitou um homem musculoso que carregava fogo em volta dos punhos.

Por incrível que parecesse, ele estava sem camisa em meio a tamanho frio, mas o motivo encontrava-se claro.

“Um marcado!? Eu não previ isso!”, nervosa, a garota rangeu os dentes.

— Então, você cometeu um erro grosseiro. — Edward destilou um olhar congelante à garota. — Sozinha, você só facilita meu trabalho.

Após as palavras de Edward, o robusto disparou contra a adversária e tentou acertá-la com potentes socos de fogo.

Ela desviou como pôde para todos os lados.

A velocidade dele era enorme, mesmo que aparentasse ser tão pesado por conta da estatura física.

No momento que um golpe voltou a atingir a superfície, liberando uma cortina nevada pelo ar, Layla o perdeu de vista por alguns segundos e foi atingida no flanco esquerdo.

Por pouco posicionou os braços à frente do tronco em prol de se defender, mas acabou lançada com violência contra uma das árvores próximas.

Sentindo a dor se alastrar por todo o corpo, ela gemeu com os olhos fechados e buscou retomar a compostura.

— Humanos são frágeis... — Edward voltou a proclamar. — Gostaria de saber a Provação dessa pessoa?

— O que pensa... que está fazendo..., seu maldito!!??

Mesmo defronte a raridade que era contemplar a jovem gritar enraivecida, prosseguiu independente da resposta dela.

— Por mais irônica que seja, seus avós morreram num incêndio. Ele não conhecia os pais, que os abandonaram, portanto morava com os avós maternos desde a infância. E então, ao perdê-los, acabou escolhido pela estrela mais brilhante da Constelação do Touro.

Enquanto o marcado declamava, o homem saltou contra Layla e tentou acertá-la com novos golpes poderosos.

Porém ela já previa seus movimentos com maior precisão e desviava de variadas formas.

Entretanto o inimigo não parecia se cansar com a sucessão de investidas bruscas, responsáveis por causar destruição pela área cerrada.

— Ele carrega o fardo de Aldebaran — Edward completou.

“Não posso lutar... esse Áster não pode ser enfrentado dessa maneira!”, a alva buscava se livrar a fim de achar uma brecha que a permitisse fugir daquela floresta.

— Então você o tornou uma marionete, é!?

— Dizer isso é um pouco pesado. Ainda mais vindo de você, não acha? — O acinzentado fechou as vistas por alguns segundos. — Ele não é só um indivíduo se movendo e atacando sem qualquer tipo de pensamento pessoal. Não estou o controlando, apenas mantendo-o do meu lado, eu diria... não concorda, Magnus?

— Sim...

A resposta do Marcado de Aldebaran surpreendeu a inimiga, antecipando o novo ataque.

O punho destro ganhou uma camada mais intensa de chamas escarlates, capaz de derreter quase toda a neve nos arredores, antes de atingir o chão.

O impacto devastador criou ondas brancas e arrancaram alguns arvoredos pelas raízes, além de carbonizar diversos troncos que conseguiram se manter grudados à terra.

O efeito durou por um bom tempo, até que o vapor criado pela colisão entre fogo e neve se instaurou pelas entranhas da zona de combate.

Na expectativa de ter atingido a oponente, o moreno chamado Magnus encarou os arredores até constatar seu desaparecimento.

— Ela usou o impacto do ataque para fugir... é muito esperta. — Edward retirou a mão pronta sobre o zíper do casaco. — Eu também cometi um erro. Não vai ser fácil, mesmo que ela esteja sozinha.

— Errei o tempo do ataque...

— Não tenha remorso por isso. Se conseguisse atingi-la com tão pouco tempo de domínio da Pirocinese, até eu estaria assustado. — Ele deu a volta. — Então aquele garoto era a “possibilidade” de impedi-la que aquela idiota falava, hein...

Seu murmúrio só pode ser escutado por si mesmo.

Colocou ambas as mãos nos bolsos do agasalho e começou a andar no sentido contrário, ao passo que as chamas intensas dos punhos de Magnus desapareceram.

— Ele deseja levá-la a todo custo. Não daria certo apesar de tudo... — Olhou com o canto dos olhos escuros por cima do ombro... — No fim, restará a nós decidirmos o futuro desse universo. Na próxima vez que nos encontrarmos...

E completou antes de seu novo companheiro o acompanhar pelo restante do caminho.

Por outro lado, a Marcada de Vega já tinha conseguido despistá-los e, em questão de segundos, deixou a área florestal pelo mesmo trajeto tomado quando a adentrou.

Correu o quanto pôde, até que suas pernas gritassem de dor.

Após deixar a visão dos grandes arvoredos para trás no horizonte, enfim cessou a maratona desesperada.

Respirando arfante, puxar todo o oxigênio congelante do inverno fazia seus pulmões arderem.

Manteve a postura durante um bom período, mas logo sucumbiu com os joelhos na neve.

Depois, o torso inclinou levando as mãos na mesma direção.

Com o rosto de frente para o solo alabastrino, a garota deixou toda a tremulação passar em prol de cerrar um dos punhos e...

— Droga!! — Socá-lo com força. — Droga! Droga!! Drogaaaa!!!

Socou, socou e socou mais uma vez, até o dorso dos dedos fechados queimarem.

Aparentava não se importar com as lesões causadas pela temperatura abaixo de zero daquela superfície desbotada, dando prioridade à agonia resguardada no próprio coração.

Manteve-se naquela posição por tanto tempo que sequer pôde perceber.  

— Eu não aguento mais... — disparou com a voz embargada. — Por favor... alguém... Me faça... desaparecer de uma vez...!!

Nada além do vazio recebeu a súplica dolorosa da Marcada de Vega.

Opa, tudo bem? Muito obrigado por dar uma chance À Voz das Estrelas, espero que curta a leitura e a história!

★ Antes de mais nada, considere favoritar a novel, pois isso ajuda imensamente a angariar mais leitores a ela. Também entre no servidor de discord para estar sempre por dentro das novidades.
★ Caso queira ajudar essa história a crescer ainda mais, considere também apoiar o autor pelo link ou pela chave PIX: a916a50e-e171-4112-96a6-c627703cb045

Apoia.seInstagramDiscordTwitter

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora