Volume 1 – Arco 4
Vantagens de uma guerra.
A primeira coisa percebida, ao entrar no espaço aéreo de Eden, foram os padrões: um círculo que sempre cai em si mesmo.
Primeiro, Carlos viu a faixa verde após colinas negras e vulcânicas. Uma faixa de árvores altas, gimnospermas arranhando céus e nuvens, esparsadas a dedo — faixas saturadas de galhos se cruzando, e aves tais patos, tais águias, entre o terreno acidentado por vales e rios, além da cerração que sopra por entre as combinações de colinas íngremes e barrancos.
O segundo círculo, foram campos posteriores, donde os padrões quadrados eram cortados por estradas cinzentas — Carlos notou as plantações afogadas de arroz, os campos áureos de trigo, as plantações esmeraldas de batata e tomate — pastos inteiros e vilas, muita gente que vem e vai como se houvesse pressa naquelas partes, uma ansiedade envolta de névoa e uma antecipação sulcada, em vales daquele cinturão.
— O que você acha? — Natalie pergunta.
— O mesmo que tu...
Estavam em uma nave militar, sozinhos — uma nave logística, com carga e pilotado por I.A. Uma paz e um silêncio, apesar de saberem que, em cada passo, cada respirar, os dados sonoros eram enviados a Oliver-Pine, ao homem cuja ausência ensurdece e no qual Carlos não fazia ideia do que esperar.
Se transferiram em Coríntia, quando um tenente-coronel os recepcionara, informando quão grande é a honra que os contempla.
— Ouvi muito de você... de vocês — disse o militar envelhecido, negro. Um perfil cordial, com olhos gentis.
Seu nome é Neruda. Neruda Pédria, descendente de Shinji Pédria. Que coincidência engraçada. Esse homem diz que é uma honra, mas honra de quê? Quais informações ele tem? Orgulho do fim de Profana? Mas ainda há nove naves nos Distritos prontas para o pior. Orgulho do quê? Natalie teve em seus olhos uma raiva genuína. Todo mundo diz, sem dizer porra nenhuma.
— Nós apenas fizemos nosso trabalho — Carlos responde.
E a resposta, ecoa na cabeça de Natalie.
O terceiro círculo abaixo, fábricas cuja disposição estranha, com um desenho extenso, de pátios para caminhões, galpões e refinarias de hélio-3, seguido de dormitórios próximos de cadeia de montagens, usinas de fusão nuclear e mais linhas de montagem — siderúrgicas próximas de minas — uma geografia apocalíptica de colinas descampadas, escavadas, ravinas erodidas e água parada, além de máquinas de 20 metros de aço, metal fundido, com baterias vistosas de anchoxlítio e pás do tamanho de casas inteiras, desmanchando a rubra terra molhada como se fossem dunas farináceas de sangue coagulado. Os trabalhadores, de longe, ainda parecem magros. Alguns carros, caminhões, gente enfurnada em ternos e, principalmente, Ecleses.
E o que é uma Eclese? O templo de um filho da puta?
Em Ibérica, elas se assemelhavam a uma estrutura grega, com colunas e arcos, a identidade esqueuomórfica da alvenaria, de madeiras petrificadas e os ângulos triangulares do seu topo, tal uma seta caiada apontando ao celeste indiferente. Em Eden, entretanto, a primeira Eclese que viu fora assustador: criaturas dóricas erguidas, encarando arquibancadas de concreto — um palco preenchido de estátuas de gesso ajoelhadas e uma parede massiva de colunas estriadas sem base — uma contradição essa vontade ocidental neoclássica de eternidade, romana — o fronte com Davi e sua estrela adornando — frisos com São Jorge matando o Dragão, São Dimas crucificado e São Sebastião com o corpo cravado de flechas — vitrais de ícones mitológicos, tais Zeus, Netuno e Marte.
O olho biônico de Carlos capta cada símbolo, cada detalhe. Eternidade, talvez? Tudo parece criado para que, até seu fim, fossem apreciadas as ruínas — para que os andarilhos de dois mil anos depois de Marte, de toda essa luta, vissem a face de Oliver-Pine entre vinhas verdes e o mármore, dizendo: eis aqui, o último dos grandes e eterno seja sua imagem.
“Nota de infiltração: Não há jardins em Eden.”
Logo adiante, entre fábricas de sabão e químicos industriais, surgem as construções, lugares onde se desenvolve, onde se constrói — silos e trens cortando terrenos baldios e fazendas — bosques esparsados e condomínios — construções semelhantes a Auschiwitz, com cercas de arame farpado, torres iluminando e extensos brejos, donde trabalhadores em uniformes cinzentos e militares bem vestidos fazem sua luta diária — Carlos testemunha buracos em chamas e enxadas — viu morte que cria (como aqueles militares, e sua arma, conflagrados, retornados ao pó); a Morte cria e assombra mais que anônimos e conhecidos. Porém Carlos não se preocupa. Ele está mais preocupado em acompanhar os movimentos de Oliver-Pine em seus sonhos — e o balançar de sua espada, presenteada por Mitra, dançando através das valas, covas queimando em fósforo branco e flores de carne partidas de artilharia iônica. Natalie quis gritar ao observar aquele Carlos apático e silencioso — quis gritar por não entender o que ele via, por não entender do porquê também desejar o testemunho daquela desgraça, de ver, até onde os homens podem ir, pelos sonhos doutrem.
— As montanhas são lindas — foi a última palavra dita um ao outro naquela viagem.
O entardecer retumbante. Olhos que caem e o toque quente que apenas podemos entregar. Carlos sente algo dentro de si estremecer e rir. Ele sentia uma criatura querer jogar conversa fora, contar a piada que até então nunca revelou a ninguém.
— Dois Romanos qualquer, com feitos até então inimagináveis — O tenente coronel Neruda Pédria comenta. Seus olhos gentis e o cachimbo nos lábios moles e rachados — o que vocês mais podem conquistar? Vivi uma vida por inteiro e o máximo que consegui, foi ajeitar caixotes e mandar em peões. Sempre fui esse militar de carreira, esse militar acomodado, aquele qual fica o dia todo ratificando e retificando — mandando os recrutas fazer o devido, pedindo aos superiores para me confiar em projetos logísticos e administrativos tão esdrúxulos... Nunca fiz mais que ninguém, e, sendo bem sincero, nem mesmo disparei contra a vida alheia. Nem sem querer nem de propósito. As vezes penso que tudo bem. Quer dizer, minha vida continua, não? Meu trabalho é importante, ele ameniza o sofrimento de quem está a frente; ele torna justo, torna civilizado o banho de sangue. Comer um macarrão desidratado em uma trincheira é o mínimo civilizatório — é o que impede a criação de monstros e traidores, que impede que a guerra perca seu propósito.
O charuto com brasas mornas e uma fumaça tímida. O rosto do velho Pédria, seus olhos gentis por trás de um uniforme engomado.
— Recebi medalhas pelo bom trabalho, e me considero um herói — ele continua — Mesmo assim, sinto inveja. Pois vocês vem até mim como crianças desentendidas, com um olhar de cansaço e sorriso. Eu os vejo, como ninguém nunca me verá.
Carlos acorda: os domos são fábricas de gases — florestas impressas e transgênicas, envoltas em armações de alótropos de carbono translúcido e luzes em clarão, quase divinizando aqueles bosques (Natalie contou mais de vinte, cada um com pelo menos 10 quilômetros antes de se dividir em estradas e estruturas acadêmicas, que estuda suas entranhas e replica e replica e em réplicas dissuadidas, pequenos roedores, aves, criaturas sem Deus ou herança, criadas e instruídas em laboratório, ante a um ecossistema tão análogo sua condição).
A I.A informa: [Chegando em Eden em 13 minutos. Pode-se sentir um incômodo auricular, causado pela diferença de pressão. Em causa de enjoo, há medicamentos no estojo médico de emergência.]
E aí se foi feito a escuridão — a estradas que não levam a lugar algum.
O clarão é posterior, luzes advindas de um buraco no chão —um buraco de pelo menos 20 quilômetros de extensão — o centro de uma cratera no meio de Syrtis Major Planitia, suas ruas planejadas, os arranha-céus infinitos — uma cidade cheia de subterrâneos — um buraco que chamam de Eden.
A Nave languidamente desce ao heliporto — espiralando para dentro daquele buraco.
Viram as bombas hidráulicas à beira da cratera, estas responsáveis por erguer a cidade em tempos de paz — as paredes quase laminadas de tão lisas — o topo dos edifícios indistintos e a magnânima estrutura circundante, como os encaixes das comportas, as engrenagens que auxilia na elevação hidráulica — ou o centro da cidade tal a avenida de Champs Élysées com seu próprio arco do triunfo — os edifícios, os pontos turísticos — uma cidade que parecia grande demais para apenas vinte quilômetros quadrados. Havia reparado, na escuridão anterior, os subúrbios que se estendem com favelas decadentes e condomínios emergentes, áreas urbanas mal planejadas se convergindo e convergindo — mas naquele buraco, buraco este chamado Eden, viu prédios de quase quinhentos metros e pessoas, e carros, nunca viu tanta gente em um espaço tão curto — elevadores conectando o mundo da capital ao mundo de fora, conectando veículos, máquinas — túneis e pontes, naves descendo em espirais, um círculo que cai em si mesmo.
Oliver-Pine.
A face ladrilhada na parede Norte da cratera domesticada é Oliver-Pine —
Um buraco, Carlos pensa —
Estou na porra de um buraco.
Para Natalie, entretanto, um abismo que cavaste com seus pés, é o que é. Seus olhos surgindo por trás do neon desvelado tal toda noite de todas as cidades. As luzes dos prédios, pois só há prédios — os trens que atravessam Metropolis, as pontes que conectam praças que são o topo de edifícios — ruas escuras, iluminadas por veículos torpes. O subterrâneo de Marte é impressionante, Natalie pensa; um abismo cavado por milhões de pés.
“E Quando Oliver-Pine conseguiu concluir esta cidade?”, pois a mente de Natalie não para, “E quando foi que Elijah Oliver-Pine fez alguma coisa? Será que não foi quando os úteros artificiais expeliram os primeiros homens e as torres terraformadoras gritaram do espaço seus lasers concentrados de luz solar contra este solo sangrento? No qual o ar saturado de vapores de dióxido de carbono e o puro oxigênio do magma expelido de Hellas chegou aos pulmões prematuros das primeiras aberrações genéticas?
O que fez Elijah Oliver-Pine em mil anos de Marte?”
Carlos espirala e seus olhos não creem no que vê: a cidade e o seu maior edifício — o edifício, se pode o chamar desta forma, pois se assemelhava mais com um zigurate, isto é, uma plataforma que se eleva em camadas. Em certa altura, nesta quimérica estrutura, colunas atravessadas e firmemente fincadas, sustentam, ao final do seu topo, a base da torre que se eleva acima do zigurate, e rodopia — uma torre de mais 30 andares. Duas estruturas nada a ver com nada, uma em cima da outra.
— Incrível! — Carlos não se conteve ao ver aquele atentado arquitetônico — maravilhoso!
A nave finalmente encontra o solo, qual finalmente se libera da pressão do destino — o suspiro da inteligência artificial que ecoa e as portas se abrindo — pernas das quais não parecem querer se mover. Eden é mais escura que todas as outras cidades de Marte.
Com um frio na espinha, Carlos dá o seu primeiro passo naquele heliporto, observando a sombra amalgamada de Babel sustentada em Ur e os soldados que se apresentam — soldados vestidos com belas sobrecasacas negras, pois faz frio — soldados de quepes negros ornamentado com ouro, com suas botas lustradas e os fuzis iônicos — soldados e soldadas, loiros e ruivas, todos, com profundos olhos verdes, cinzentos, olhos azuis como o mar da Terra — seus lábios rosas, os dentes de predador, a pele alba e macia como o algodão recém colhido de seu arbusto.
— Cumprimentos da sargento Orleans! — Diz uma daquelas militares — Somos do primeiro batalhão de Eden, a polícia da Eclese! Recebemos ordens diretas para recepcionar o senhor e escoltá-lo ao palácio de Nazaré.
— Saudações do Tenente Andrade! — Carlos responde — e é uma honra conhecê-los!
Os olhos da Sargento se encontram aos de Carlo, a mão, em respeito, que o saúda. O que há? Amanda ao lado de Carlos, observa aquele corredor de militares os recepcionando, imaginando do porquê aquele grupo empunhar tais armas. Armas de guerra, ela conclui.
— É uma honra nossa, recepcionar herói de tamanha estima! — A sargento continua — A espada que destronou profana! Aquele cujo o destino de ação é a grandeza e o primeiro gentio a pisar nesta terra!
Natalie percebe o sorriso no rosto daqueles agentes, daquela polícia da eclese (seja lá o que significa). A admiração profunda resultante de propaganda, as palpitações e ansiedade condizentes a um discurso pré-definido. Natalie sente um arrepio estranho, ao entrelaçar os seus dedos com os de Carlos e sentir o frio úmido de uma cidade que é um buraco.
— Apenas cumprimos com o nosso dever — Natalie diz — nada mais...
A sargento não lhe dá atenção, se aproximado com um sorriso. Carlos, cansado, estreitou seu olhar, não pela desconfiança inerente de sua condição, mas por não entender o que ela realmente era.
— Pode-se admirar os feitos de todos os homens! — A sargento diz — É o destino de ação, até então inconsciente, que nos engrandece.
Pondo a mão no peito de Carlos, a sargento o observou com seus profundos olhos anis. Havia um quê de curiosidade, algo de promiscuidade, com uma pitada relevante de admiração. Natalie não sentiu ciúmes, num primeiro momento. Sentiu, na verdade, pena. Ela não sabia explicar de verdade o sentimento. Era como ver alguém fantasiar com uma estátua, isso é, ignorando aquele alguém que fora esculpido.
— O destino de ação só pode ser traçado após a morte — Carlos responde, com um sorriso — Não se deixe levar pelo caminho que trilhei até agora... não, nem sonhe com coisas que não realizei. Sou um homem, e errarei. Não se admire com a minha sorte até aqui.
Os dedos de Carlos eram brasa na neve das maçãs do rosto da Sargento. Seus lábios que tremem e olhar fixo. Natalie, que observa, finalmente se enciumando.
— Vamos deixar disso? — Ela diz — Está frio e a viagem foi longa. Gostaríamos de nos aquecer, o quanto antes.
A sargento sai de seu torpor, encarando Natalie como se desentendida. Um segundo, e sua fisionomia muda, com gritos para o seu esquadrão, ordenando que seguissem logo. O fuzil atravessado ao peito, um último olhar para Carlos. O carro na pista do heliporto enegrecido, esteticamente poderoso.
Pois assim, eles seguiram. A avenida com os seus infinitos cruzamentos. As luzes e nós assemelhados a viadutos e rotatórias. Não se haviam árvores, mas musgos. Não haviam sons que não fossem de algum culto. Uma cidade iluminada pelo neon de fachadas sacras, ruas com seus postes ornados de querubins. Patético, de algum modo, Carlos teve para si que mais parecia uma necrópole não anunciada. As notícias no telão dizendo sobre o andamento da batalha de Baco e a retomada do sul de Roma. O UHD, nessas notícias, por um fio.
Num sorriso, Carlos admirou os pedaços de coisas — a forma qual uma cidade se forma, de tal modo — seus engravatados e louros, rindo nas cafeterias (pois o álcool fora abolido); seus pastores e túnicas, no meio de uma turba de jovens floridos. Uma cidade abstêmia, ébria em teus símbolos. Natalie, por outro lado, não sabia se entendia. O que tem nisso aqui, o que faz os jovens não se matarem por belas mulheres e drogas? O que diferencia essas criaturas? Há energia tão positiva e bonita, uma coisa espiritual que os une diferente de como une os católicos na Nação Pontíficia ou nos estados em guerra de Coríntia e Nova Israel. Como se não parecesse haver morte, ou coisa parecida, tal um panfleto de lar de idosos ou uma casa de repouso para loucos.
— Você vai sentir falta dos seus cigarros — Natalie comenta.
— E você, dos seus uísques.
A sargento, que dividia carro com ambos, fez questão de se intrometer, comentando:
— Apesar de haver uma certa ração para os vícios mundanos, acredito que logo vão perceber que em Eden, nada disso é necessário.
Ambos queriam rir. Cidade patética do caralho, uma tentativa do quê? Carlos sentia-se cínico, sentia-se disposto a destruir o mundo. Mas pelo quê? Passou por uma praça e viu a estátua de Oliver-Pine, polida em cobre e detalhes dourados. Seu rosto, sem barba, os olhos de um homem íntegro, cheio de sonhos.
Na verdade, o que mais o incomodava nisso tudo, era a ausência de sonhos elétricos, a ausência de dados efêmeros nos equipamentos escanteados, no lixo eletrônico conectado a rede — uma cidade limpa até entre seus bancos de dados quantizados em orientações fotônicas ou os rastros acumulados na big data das redes sociais. Como um silêncio avassalador em uma mesa de guerra, sentia-se em um campo à noite. As telas, as pessoas conectadas, o console do carro com o mapa de trânsito e a música streamada — além do silêncio aterrador.
A sargento, que o pondera de cima a baixo, não sabe, ela não tem ideia do que se passa na mente do homem que tanto admira. Tem o sorriso dele delineado pelo olhar perdido em meio as luzes da calçada e das pessoas que passam. Ela tinha para si, que Eden o havia conquistado.
Natalie, por outro lado, ainda considerava um segredo. Talvez outro. De todos os modos, o silêncio lhe era incomodo. Este mesmo do olhar de Carlos, passeando pelos prédios administrativos e construções jurídicas. Não parece perdido, apesar de tudo. Há, ela pensou, um quê de admiração.
“Não essa que a Sargento imagina. Algo entre sua imaginação e experiência, que tornam este lugar fantástico.”
Ela mesmo tinha este ensaio na mente.
“Uma cidade em um buraco. Um buraco cheio de luz.”
As naves espiralando acima, os elevadores de luz levando as pessoas para dentro deste santo refúgio — Orleans e Bragança.
— Vocês são as primeiras pessoas de fora a vir tão longe — A sargento diz — Nossa cidade é invisível aos incautos.
Em um nanosegundo, Carlos a observa mecanicamente, seus olhos se estreitam. Um nanosegundo, e ele sorri, diz que é uma grande honra.
— Eu já fui para o mundo externo, lutei na guerra — a sargento continua — Não na mesma linha que os senhores, mas lutei... e sinto que o mundo de vocês, nada parece muito prático. Desorganizado, eu penso, cheio de desnecessários.
Natalie deixou sair uma risada, pergunta:
— Todo lugar há gente desnecessária, ou não?
— Não — A sargento responde, olhando tal Carlos para aquelas ruas — Aqui não há gente desnecessária.
Natalie não ousa responder. Ela acha graça, e também sente ser desnecessário. Ela olha para Carlos, pouco afetado pela declaração. Um Carlos dormente. Natalie se pergunta se a própria sargento Orleans não seria desnecessária e que, de algum modo, não há valor utilitário em vida alguma.
Aliás, ela também lembrou de uma notícia, uma notícia dos tempos do colégio de oficiais D’Itália, sobre um experimento social, realizado na terra. Foi durante o período de extração para o espaço, quando a biosfera se apresentava irrecuperável e o planeta Terra passava por intensas mudanças climáticas. A notícia dizia, neste tempo, que grandes empresas e alguns governos não negacionistas, organizaram enquetes para a população mais carente, população qual não teria condições de serem extraídas, para decidir se pelo menos uma minoria poderia ser contemplada. A votação, segundo informado pela pesquisa, detalhou que uma parcela de professores e alunos foram escolhidos, além de uma parcela de comerciantes locais e funcionários públicos. Isto em 7 países dos quais, tirando o fato de um governo não negacionista, não tinham mais nada em comum. A impressão dos cientistas nos anéis de satélites da Terra foi tão impressiva, que os mesmos decidiram avaliar o perfil dos votantes. O que aconteceu depois foi ainda mais incrível: quase todos que votaram em si mesmo, tiveram votos de familiares próximos e colegas, podendo se tratar de uma escolha da própria “tribo” de seu representante para a próxima era humana.
Incrível, foi o que pensaram. Entretanto, após entrevistar alguns desses felizardos extraídos da Terra, foi-se descoberto, na verdade, que a votação não teve tanto impacto entre as comunidades restantes, ocorrida pelo fato da população não acreditar que a Terra se tornaria inabitável nos próximos anos, tendo sido um pequeno grupo votante qual solicitou os votos para familiares negacionistas, visto que eles não tinham inclinação de voto algum. Além do mais, também foi constatado roubo de dados e manipulação para determinados grupos mais favorecido, o que fez com que o projeto se encerrasse.
Natalie achou toda a matéria curiosa e engraçada. Sempre é assim, não é? Uma crença de valor. E ela também se impressionou do quanto as pessoas negaram o fim. Talvez elas fossem tão associadas a Terra, que o fim da mesma fosse também o fim de si mesmo. Mas se bem que, pela forma na qual toda a notícia evidenciou, ainda houve gente fazendo de tudo para se salvar. Que povo doido. Um povo que ela sentia ser tão análoga as quais residem neste buraco. Na verdade, um povo análogo a Marte.
— Magnífico — A voz de Carlos cortando o pensamento, a Sargento, tão igual a ele, que observa as escadarias que levam ao portal do dito palácio, aquela tão estranha estrutura babilônica que traria inveja a Ninrode, de tanta cantaria em rocha e detalhes de uma tímida grandeza.
— Vamos... — As mãos de Orleans se entrelaçam com as de Carlos — Meu criador te anseia...
“Que forma estranha pra caralho de falar!”
Natalie vê os dois, aquela estranha sintonia. O quanto aquela sargento está a fim de foder com Carlos, o quanto ela quer ter ele dentro dela? E porquê? O que faz alguém querer se deitar com um desconhecido? Natalie não sabia. Ela os segue pela escadaria, como uma coadjuvante. Uma testemunha coadjuvante de uma história escrita por ela. Carlos sequer percebia que era outra que entrelaçava seus dedos nos dele, não percebia que a respiração próxima aos seus braços não era de Natalie. E porquê ele não percebia? Ele não está nesse mundo, não mais. Ele não diz, não vê. Está em outro lugar. Pois ele não seria louco. Ele não seria.
E dentro do dito palácio, morada do líder interino Oliver-Pine, uma multidão de jornalistas, pastores e personalidades importantes, como os descendentes de Oliver-Pine, quais ministro de defesa, da agricultura e de fazenda, sorriam nesta festa no salão de Nazaré.
— Vos apresento — uma figura no púlpito daquele grande salão diz, sua voz reverberando, íntegra, sábia, enérgica — O Gideão de Marte! Aquele responsável por nos trazer a vitória mais importante desde a fundação deste país. O homem que derrubou profana. Além da primeira pessoa das terras além desta, a pisar em Eden.
Oliver-Pine, os seus salões tinham um charme só seu, tais os lustres de cristais, ou os arcanjos e suas lanças desenhadas nas paredes brancas — os entalhes dourados e pinturas coloridas, tal Templo a deus pagão. Claro, sua imagem era mais impressionante, com o olhar sonhador de um empresário, mas o rosto limpo de um sonhador. Um sorriso carregado de mentiras, entretanto, foi o que mais me chamou a atenção.
Carlos apertou as mãos de cada homem presente. As pessoas, vestidas ou de túnicas ou de ternos, seus corpos puros, sem implantes biônicos — pálidos os olhos celestes e cabelos dourados, qual uma Alemanha de 29 — a tez morena, os cabelos cacheados e castanhos — alguns diriam que Carlos era uma mancha no cenário. Uma insípida mancha de café no rodapé de um livro a ser escrito. Outros se admiravam e diziam que ele era a primeira letra de um novo capítulo.
De todas as formas, a comida tinha gosto de transgênicos, a bebida faltava o veneno que nos entorpece. No salão, sensação era que os seus espaços, o seu lustre e suas artes, o primeiro andar de lugar algum, no meio de porra nenhuma, eram apenas um espaço liminal de merda, onde nada realmente faz sentido. O púlpito, o palco, os camarotes sem que houvesse uma só pessoa importante — uma grandeza pequena demais.
— Vejo que você está bem?
Primeiro, os olhos castanhos. Vítrea verdade falsa, tal alumínio. As pessoas com suas vestimentas chiques, e sem ideia, voltam e dançam ao mesmo ritmo. O pensamento nunca se esvai por completo e a leitura continua. O palpitar morno de uma recepção calorosa.
— Estou, e vejo que o senhor também está! — foi o que Carlos disse — Vejo que cheguei em boa hora.
Os olhos castanhos, primeiro. Oliver-Pine me analisa, seguro. Este é o seu domínio — pensamento póstumo de um corpo que cai. Mil anos em Marte não parece ter te feito tão bem. Está é sua festa? Me diga! Diga! Diga porquê sua nação não diz uma palavra aos meus ouvidos.
— Nunca se esqueça da hospitalidade! É o que eu digo: foi a praticando que, sem saber, alguns acolheram anjos! Você não sabe o quanto ansiei sua chegada.
Vejo teu olhar e em suspeita, acredito que posso morrer. Não há entre nós coisa mais semelhante do que olhos castanhos. Te desconjuraria em minha presença, se não te admirasse.
— Essas são... ótimas palavras.
Carlos apertou as mãos de Oliver-Pine, com uma firmeza que não deveria ocorrer entre estranhos. O sorriso de ambos, a cor amarelada de sua tez contra a neve de Elijah.
— Nós temos muito que conversar ainda — Oliver disse. — Mas primeiro, aproveite a festa.
Não era uma festa. De dez em dez minutos, alguém cita Deus. Alguém cita a bíblia. Tudo está errado, pensa Natalie. Carlos viu aquelas valas em chamas. Vaidade das vaidades, diz Oliver-Pine. Tudo é vaidade.
Tudo está em silêncio. Parece que não há palavra. Não há uma informação que chega, nem um byte de frase. Os códigos dormentes, a inexistência de uma web. Um mundo onde um computador parece apenas um monte de tralha.
— Isso é Eden, meu pequeno Dois Meia!
Carlos via entre aquela multidão, o pálido Franker Médzsci e seu sorriso. A pessoa de túnica branca e a barba loira, os olhos azuis.
— Que merda eim.
Eles dançam sem se tocar.
Eles cantam, sem ser pra si.
Percebeu entre linhas, no chá servido com a calma divina de seus serviçais, ingênuos olhos negros e uma roupa que cai tão bem, o smoking e as aias com as bandejas de prata, os lábios rosas, a face de blenda polimérica, a morte, Deus — Carlos se lembrou de alguém, aquela — Amantana.
— Qual é o seu objetivo. Aqui você está preso. — Franker lhe disse — Você está no domínio deste, e aqui, não há lorde que o desafie.
Carlos fez, tal Franker, encostou no pulso de uma daquelas criaturas — isto é: penetrou a alma de um inocente com seu espectro e atormentaria os sonhos elétricos destes androides de carne, sem lhe outorgar esperança sequer.
— Este é um ótimo truque — Franker continua — mas você sabe que será descoberto, não sabe?
Em toda alma de Marte, há um chip biológico implantado antes da primeira idade. Este chip, qual na verdade é uma macro célula baseada em uma proteína artificial chamada LHC, cuja capacidade de replicação mínima, a torne praticamente imortal e invisível ao sistema imunológico. Essa célula, cuja disposição de organelas e instrução no ácido desoxirribonucleico, o faz se assemelhar a um computador a nível celular, tendo instruções a nível de linguagem de máquina, em lógica booleana, quais são induzidas através de químicos e sinais elétricos ou digitais, interpretando filamentos de proteínas a células inteiras, e armazenando como memória em interações onde uma réplica dormente orbitando seu corpo, guarda em um núcleo as informações chamadas biológicas, das quais podem, posteriormente, ser interpretada por um computador quântico. E quais informações ditas biológicas seriam estas? Teoricamente, ao longo da vida, ele consegue guardar cada variação química do corpo de uma pessoa. Mudanças hormonais, mudanças na saturação de proteína do sangue, dados vitais, mudanças de comportamento do sistema imunológico, alertas e variações corporais, acumulando essas informações no núcleo desta célula orbital.
Esse chip biológico também contém outras duas protocélulas orbitando seu corpo, além da responsável pelo acúmulo de informação, sendo uma destas um nanorrobô que traduz frequências digitais em estímulos elétricos para a célula principal, e a outra que transforma estímulos elétricos em estímulos eletrônicos e digitais, armazenando ordenadamente em um banco interno, para posterior processamento e tratamento, conforme instrução da célula principal, podendo enviar sinais digitais em baixa frequência, com protocolos de transporte de pacotes de dados e de recebimento, caso haja reciprocidade e validade entre as chaves de contato. Esta célula orbital, responsável pela comunicação, processamento e armazenamento de dados não biológicos, é o grande trunfo da arquitetura bioeletrônica do chip biológico, pois torna possível dinâmicas enzimáticas para manipulação a nível proteico do corpo humano, podendo curar feridas complexas, desobstruir acidentes vasculares em uma previsão de aprendizado de máquina, além de enviar instruções simples ao cérebro humano, através de sinais elétricos replicados através do fluído espinhal do sistema nervoso central, em um processo de instrução através da linguagem conhecido por SNC-Assembly.
Estas são instruções simples, objetivadas para estimular as glândulas na parte diencefálica, onde serão regulados sono e hormônios para a manutenção do cérebro e da consciência.
Isto é, manipulação indireta da consciência e inconsciência.
Isto é, a voz da névoa.
— Foi assim que você destruiu a minha vida? — Dois Meia observa Franker no meio daquela multidão.
— Eu? Eu te dei um propósito. — Franker continua — você morreria antes de chegar a vida adulta.
— Morreria, mas permaneceria sendo a mesma pessoa.
— Você já não era a mesma pessoa. Os tempos mudam, as pessoas mudam.
A festa congela, neste tempo ínfimo. Carlos deixa de ser Carlos, e Dois Meia observa com olhos espectrais o topo de cada cabeça.
— Você mentiu para mim. — Dois Meia é implacável — pensei que houvesse nesse mundo, coisa dedicada unicamente a minha pessoa. Nunca houve nada.
A voz da névoa é implacável.
— Ele mente para todos.
No fundo da Sala, Carlos percebe Oliver-Pine e Oliver-Pine sabia de Dois Meia desde o começo. A ideia não é uma traição única, nem dupla, nem tripla. Mas uma vontade de dizer que há infinitos maiores do que outros.
— Lembra do que te falei, sobre força? — Franker observa Oliver-Pine com os mesmos olhos de Dois Meia — Força é o que te permite fazer a merda que você quiser. E ele pode. — A fumaça residual de um pensamento. A questão do tempo. Carlos tinha Natalie entrelaçada em seus braços. Tinha a maciez da pele dela na tua. O que faremos agora?
— Tenente Carlos — Diz Oliver-Pine, com um sorriso — Quero sua competência para proteger minha pessoa. — É o que ele diz — Sinto que os meus inimigos estão cada vez mais perto, sinto que eles estão desesperados. Quero sua competência para proteger meu Estado. Quero que você proteja meus sonhos. Quero você...
Carlos e Oliver estavam sozinhos naquela sala. A janela de cristal expondo todo horizonte de eventos do buraco negro que é Eden — onde Oliver reside, de costas para aquela luz, Carlos vê a parede norte, o rosto ladrilhado — Oliver-Pine sob a sombra de Oliver-Pine.
— Isso seria muita responsabilidade para um estrangeiro.
Oliver-Pine ri.
— Na verdade, sinto que não posso confiar em mais ninguém. Minha cidade, meu Estado... sinto que estamos estagnando. A guerra contra o UHD renovou nosso espírito, mas não foi suficiente. Não há mais nada fértil nessas terras.
Ele tira da mesa imponente, uma garrafa de conhaque. Dois copos acompanham. Não há gelo. Naves espiralando no silêncio de Eden.
— Isso parece demais. Me perdoe, mas desconfio de tudo. — Carlos toma um gole.
— Por isso que confio em você, Tenente Andrade. Estamos presos no vale de Baco há 3 meses. O norte de Roma continua em conflitos de milícia. Milhões de refugiados chegaram à Coríntia e não temos suprimentos para dignificá-los. A guerra está custando agora, mais do que qualquer um pode pagar. Um momento perfeito, não acha, para me destruir para sempre? E eu já vivi nessa situação algumas outras vezes. Vivi quase mil anos! Eu sei o que é estar desesperado. Mas sendo sincero, por algum motivo, sinto agora que minhas cartas estão todas marcadas. Cada jogada que faço, parece ter sido prevista. — Oliver tomou todo o conhaque em um gole, reenchendo seu copo em seguida — Escravizei minha consciência, em nome da humanidade, e em troca, sinto finalmente ter chegado ao meu limite. Não posso criar nada, esgotei todas as combinações possíveis. Preciso de você! Profana, você, com suas mãos, derrubou Profana. Você previu as combinações não orientadas da instrução da inteligência artificial, na velocidade de um pensamento. É a revelação divina de um espírito elevado.
Era a vez de Carlos reencher seu copo.
— Foi um tiro de sorte.
Oliver-Pine ri.
— Talvez tenha sido seu destino. — O álcool enrubesce seu rosto — Deus está em tudo o que nós fazemos, não? Nas mentiras que contamos, no sorriso, na vida que o negamos. Penso nisto desde quando vi o cosmos em seu espaço pela primeira vez, e o cinzento planeta Terra que abandonei. Lembro dos meus colegas. Alguns ateus, outros mulçumanos. Eles não acreditavam em nada, só em consequência e casualidade. Franker mesmo, me disse que se tudo é destinado, e se tudo está escrito, alguém sábio o suficiente descobriria o fim de tudo. Para ele, o homem é capaz de tudo, e que toda a vontade pode ser satisfeita.
Oliver-Pine observa da janela, sua cidade. Ele ergue a cabeça, vê a si mesmo em toda sua grandeza.
— Você será meu?
O que há?
Você se acovardou?
Carlos vê os olhos castanhos de Natalie, que o observa atentamente.
— O que você fará? Estamos com Eden agora? — Natalie o questiona. — Você vai se foder, cara! Eu li sua ficha, você não tem capacidade para isso! E eu não estou te desmerecendo! O que você sabe de Eden? Isso é um buraco, porra! Um buraco! E o que significa isso? Você vai se tornar coronel de um Estado estrangeiro! Coronel de uma instituição que não sabemos de nada!
— Sim — Carlos responde, tirando as meias do seu pé — E dormirei neste palácio a partir desta noite.
Natalie sentiu-se na presença de um lunático. Desde que entrou naquela nave, Carlos mudou. Como se tivessem realizado uma lobotomia no homem que chorou nos braços da própria mãe.
— E o que eu farei?
O quarto era maior do que qualquer quarto que Carlos ou Dois Meia já dormiu. A cama, tão macia e aconchegante, que poderia dormir cem anos ali. A carne bêbada, tenta se achegar em Natalie, mas ela não sente tesão, não sente desejo. Ela só sente medo, medo do futuro.
“Não se preocupe. Eu tenho um plano.”
Os olhos fechados, o corpo em febre.
“Você disparará o último tiro, da última guerra!”
Natalie não soube quando pegou no sono, o que é normal, mas soube que acordou desesperada, num campo de lavandas, sob um céu puramente azul.
Pensou estar morta, no paraíso como dizia sua mãe. Nunca soube se era mesmo verdade. E quando viu aquelas duas cadeiras de vime, encostadas debaixo de uma árvore, quase teve certeza do delírio, observando as sombras místicas que se tornam sombras graças as baixas e solitárias nuvens que uniformemente dançam acima da campina; imaginando realmente o paraíso.
— Não haverá mentiras entre nós — Ela vê Carlos admirando aquele céu — Aqui, lhe contarei a verdade... e tudo que nós faremos, até o fim desta mentira.
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