A voz da Névoa Brasileira

Autor(a): Saber Hero

Revisão: Tiago Costa


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 10: A criança silenciosa.

Sozinho, andando por ruas silenciosas e escuras, Dois Meia chorou. Havia segurado até onde podia, assim como o vômito que deixou ao lado de uma lata de lixo, se derramando por inteiro naquelas ruas.

Mathieu era a última pessoa que o conhecia, de verdade. A morte dele, para Dois Meia, pareceu como sua própria morte. Já era um cadáver, com aquelas olheiras, aquele cabelo desgrenhado, e andando por Redneon, buscando vingança, foi quase um fantasma. As luzes que o enganava, a escuridão o chamando, enquanto portas se fechavam e janelas imóveis perdiam seu brilho nos edifícios da cidade.

Lembrou dos pulsos sangrentos de Hide. Também lembrou do seu computador de pulso que Heichi roubou e quebrou. Havia custado 1300 Rps. Coisa mais cara que já havia comprado pra si mesmo. O computador de mão entregue por aquele idoso apitando não custava nem metade. Processador eletrônico, de semicondutores. Custa nem 50 Rps. Servia só para banalidades, como tirar a vida de uma pessoa.

O som apitando, as ruas que virou sem ter consciência. Se viu de frente ao orfanato, depois de longas voltas pelo bairro. Não esperava, assim como não esperava aquela chamada.

— Triangulamos o sinal — ele escutou uma voz de mulher no computador de mão. — Ele está no orfanato, quarto 38.

Dois Meia segurou a arma com força. Aquele era o quarto onde havia dormido noite passada. Não entendeu, nem se importou. A arma apontada, o grave do baixo de um rádio distante, além de vozes que não fez questão de reconhecer e orações que não quis escutar.

— Você acredita em Deus. — Não, Dois Meia lembrou. Sua mãe queria se tornar freira. — Acho que um inferno espera todos nós...

Ela morreu. Mas diferente de Hide, ela não se matou. O crânio aberto de Mathieu — o rosto deformado dela. Pessoas que ele amava morriam. Dois Meia testemunhou cada cadáver, carregando o peso de ser o último deles, de ter todas as memórias que os faziam ser eles.

— Era só um bêbado. — Mathieu vingou sua mãe. — Não foi difícil encontrá-lo. — Seu corpo foi carbonizado no cemitério dos limites da cidade. Era um bêbado, sem nome. Deveu a vida pra Mathieu depois disso. Nunca a respeitou, entretanto, devendo o dobro agora — não como se o importasse: ia matar o filho da puta.

O corredor girando no seu escopo, a tinta gasta da parede se derramando. A imagem de Jesus não olhou suas costas e as orações das freiras se distorceram num canto que se estendia no U que pouco significava.

Dois Meia parou em frente a porta do quarto 38. Sua pistola, uma East Taurus Clover, 9mm, pareceu reluzir contra a luz da lua, que entrava pela janela do fim do corredor. Computador de mão apitando.

Ele entrou, com toda calma do mundo. Seu peito, todavia, batia muito rápido. Cada canto do pequeno quarto sem ninguém. Olhou para um, apenas camas bagunçadas e roupas jogadas. Olhou para outro e uma janela semiaberta denunciou a fuga de uma sombra, que caiu e rolou na lama, correndo pelo beco lateral até a rua da praça.

Dois Meia subiu no parapeito da janela. O computador de mão recebeu outra chamada.

— O alvo tem apoio! — Escutou. — O alvo tem apoio.

Pulou daquela janela mesmo assim. Eram 3 metros até o chão. A lama, entretanto, amaciou a queda, escorregando e cambaleando, felizmente se apoiando numa lixeira próxima — continuando a correr, como se nada mais importasse.

As luzes incandescentes batendo em seu rosto, os cortiços de 3 andares, com lances de escada onde jovens fumantes e bêbados olhavam para a maratona daquelas duas figuras, sem se perguntar qual loucura os levava àquilo.

O computador chamou novamente: — O alvo está indo para rua Z3B, conhecida como Compasso vermelho.

Dois Meia não sabia que rua era aquela, até que se lembrou que era lá que morou nos poucos dias felizes de sua vida, num apartamento popular, cinza, com limo descendo pelas janelas.

Também havia um atalho. Ele entrava pela colina da luz, passando por um túnel de esgoto. Saía na transportadora que seu pai havia trabalhado. Se o alvo quisesse escapar, seria por lá.

Dois Meia olhou os veículos maciços, os caminhões do tamanho de uma casa inteira e as luzes azuis e verdes que piscavam de seus corpos, além dos faróis que cegava a escuridão.

— Você parou de perseguir o alvo? — Escutou do computador de mão.

— Ele virá para cá...

— Como pode saber?

Dois Meia pensou numa resposta. Ele não havia pensando no porquê.

— Aqui é onde meu pai morreu.

A voz do computador de mão se calou. Naves distantes passava por sua cabeça, sendo quase estrelas naquele céu limpo.

— Você não devia ficar sonhando acordado — Dois Meia estava sentado numa pedra, dentro do gigante estacionamento daquela transportadora, quando a escutou, ao seu lado, no pé do ouvido. — Vamos matar alguém, não vamos?

A transportadora tinha 4 hectares de tamanho, com armazéns ao fundo e pilhas de areia e pedras espalhadas pelo terreno de terra batida. Dois Meia não olhou para a dona da voz. Ele se tremeu, depois simplesmente não sentiu nada, perguntando a ela como era tirar a vida de um semelhante.

— Eu não sei. — Ela respondeu. — Me esqueci. Você perde o tato com o tempo. Se torna uma coisa normal.

Dois Meia observou os próprios sapatos. Fazia tempo que não prestava atenção nesse detalhe — seus esfarrapados e sujos sapatos. Mathieu que havia dado.

— Qual é o seu nome. — Ela perguntou.

— Eu não tenho. — Se levantou.

— Sou Sofia. Fico feliz em conhecê-lo. — A noite estava linda pra caralho. — Você vai matá-los?

Dois Meia caminhou pelo terreno empoeirado. Vento batia no seu rosto. A arma na mão mais leve do que antes e os caminhões massivos solitários naquela noite escura.

Ele olhou para o lado. Sofia havia desaparecido. Não o importou, continuando até o mais distante veículo. O computador de mão apitando cada vez mais alto.

— Matar é como dizer adeus para si mesmo. — Mathieu te disse uma vez. — Eu não senti nada.

O corpo de seu pai foi encontrado debaixo de duas toneladas de cascalho. Tão deformado e fedido, que Dois Meia só pensou se não era aquilo que éramos de verdade — uma massa fedorenta e vazia. Não faria diferença se fossemos todos enterrados em cascalho. Nada valia a pena.

Apontou a pistola para o veículo, disparou. O ruído ensurdecedor da cápsula magnética — todos aqueles mecanismos se separando, deformando a pistola em 4 partes, conectadas tenuamente num microssegundo, antes de voltar para a posição inicial de disparo. Um olho humano não acompanhava, mas Dois Meia foi capaz de enxergar, assim como enxergou o disparo se tornar feixes de faísca na carroceria do caminhão ao longe.

Luzes se acenderam, o veículo dava partida. Rostos irreconhecíveis olharam Dois Meia, que em ímpeto, disparava cegamente até não haver mais balas.

— Como você sabia que eles estariam aqui. — Sofia te perguntaria depois, não agora.

Uma bomba desceu, Dois Meia só escutou seu som romper com ar e a explosão posterior. Seus tímpanos foram pro espaço — feixes se ascenderam aos céus e corpos carbonizados fugiam dos destroços, se jogando ao solo.

As chamas aqueciam ternamente seu corpo; visões que dançavam dentro da gasolina queimando e aço incandescente. O ruído no seu ouvido fez o minuto parecer insuportável, se ajoelhando em frente as brasas, aos corpos — a vida desaparecendo de repente

— Uma voz na minha cabeça me disse. — As pessoas são frágeis demais. — Eu apenas a segui.

— Isso é coisa de doido. — Ela não pareceu se importar. As pessoas morrem e ela é uma das causas. — Tem nome pelo menos?

Toda a Plastic Tree se aglomerou no local. Computadores de mão tocavam, as chamas viraram cinzas e veículos negros estavam estacionados. Júpiter Apple, líder da facção, disse que Dois Meia fez um ótimo trabalho interceptando a fuga. Outros capitães apenas deram tapinhas em seu ombro. Sofia te deu café e um cobertor.

— Franker. — Ele disse. As estrelas estavam bonitas. — Ele não cala a porra da boca, aliás. Acho que estou mesmo doido. — Uma quietude dominou o local.

Dois Meia viu um rosto de mulher queimando, se desfigurando até se tornar pó.

— Eu jamais imaginei que estaria aqui. — Sozinho, vendo aqueles homens, Dois Meia disse para si mesmo. — Eu ia embora. Devia ter ido.

— Ele ia morrer de qualquer jeito. — Júpiter Apple o respondeu, de repente. — Pelo menos agora tá vingado.

Estavam sentados numa pedra. Júpiter, um homem idoso cheio de dispositivos nas suas têmporas e pescoço, o ofereceu um cigarro. Dois Meia recusou.

— Com o tempo tudo fica melhor. — Não acreditava.

Ele te deu um tapinha no ombro e se foi. O computador de mão no seu bolso apitava. Olhou para as cinzas. A cabeça de Mathieu aberta, da sua mãe deformada — os pulsos sangrentos de Hide. Apontou a Clover pro próprio rosto. Ninguém o viu. Estava sozinho outra vez, numa rua qualquer.

— Franker? — Ela sorriu para ele. — Um nome engraçado.

— Eu nem sei de onde tirei isso. — Ela o viu, solitário. A arma apontada para seu rosto. Apenas disse olá. — Eu acho que simplesmente não aguento mais.

Sofia, seu rosto era uma das coisas mais lindas que viu nessa vida. Uma obra de arte esculpida com aqueles profundos e castanhos olhos. Sua pele, branca como morte, parecia ser tanto a lua quanto daquela menina negra que o surrou naquele beco. E era engraçado, pois ela o viu sozinho, com uma arma apontada para o próprio rosto, sem dizer nada além de olá. Dois Meia foi pior, foi um covarde como Hide, não a respondendo. Ele olhou para o cano da arma. Escutou o clique. Não havia mais balas. Também disse olá.

— O pior... — Ele disse pra ela. — O pior é que conheci o dono dessa voz. Ele morreu num beco e eu o vi morrer. A última coisa que me disse é que eu viveria bastante dessa amargura. Parece que ele estava certo.

Deixou a arma numa lixeira, junto com o celular de mão.

— Qual era o nome dele?

— Isso importa?

Eles estavam num bar da Plastic Tree, bebendo cerveja barata e comendo batatinhas. Ela o perguntando sobre tudo que ele fez, até aquele momento, e ele respondendo quase nada.

— Eu sabia que estava sem. — Disse. — Se tivesse, eu não teria ido tão longe.

— Então por que fez tanta questão?

Ele não tinha resposta.

— Culpa da voz da sua cabeça. — Ela parecia ter toda certeza sobre todas as coisas naquela luz laranja, entretanto. — Franker, não é.

— Médzsci. Franker Médzsci. — Riu. — Nem sei como se escreve isso. Ou não tenho certeza. Ele não sai da minha cabeça, entretanto.

Sofia o olhou.

— Você é uma pessoa estranha.

Corpos carbonizados apareciam em seu sorriso. Dois Meia percebeu que não havia matado ninguém. Ele não vingou ninguém. Apenas interceptou. Não era o suficiente.

— Você sabia que Franker Médzsci é o nome de um importante ministro da Megatorre 5? — Ela continuou. — Um filósofo também, desenvolvedor de certos segmentos na área tecno científica.

— Deve ter sido daí que tirei o nome. — Dois Meia lembrou do peito aberto do velho, com o sangue girando através desta.

— Ele morreu três dias atrás. Não se sabe onde. O backup de consciência dele não constava em nenhum banco de dados e as informações do chip biológico foram apagadas a mais de cem anos atrás. — Ele olhou para ela. — Ele te diz sobre muita coisa, não é. A realidade parece um pouco estranha as vezes. Coisas que seu cérebro processa, não são descritas como elas são. — Ela olhou pra ele. — Ele é um filho da puta. Me perdoa por isso.

Dois Meia viu a arma dela apontada pras suas tripas. Depois, o clique. O sangue que saía do seu estômago — o cérebro esparramado de Mathieu.

A desculparia, claro. Ela era linda.

E a olhando, também lembrou do que Hide te disse uma vez.

— Você nunca fala nada. Você apanha, mas não fala. E é engraçado, sou Hide, mas você não é a criança silenciosa. É só um covarde.

Retornou aos cabelos loiros dele, seu olho inchado, verde — a pele pálida e as olheiras. Hide foi o único que se matou. Dois Meia foi o único que terminou seu arco. “Jovem morto em beco de Redneon!” seria o anúncio nas redes sociais. Nenhum clique. Quem leria um assunto cotidiano desses.

Ele olhou para Sofia, acreditando nela, até onde dava.

— Você não vai morrer.

As luzes se apagaram.



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