Volume 1
Capítulo 1: A Cidade de Eydilian
Em algum momento você já pensou como seria ver o mundo do céu? Sentir os raios do sol aquecendo sua pele. Ouvir as ondas do mar enquanto o atravessa em busca de novas terras?
Sentir o vento, aquele frescor único que vem do mar; onde só pode ser apreciado ao estar no topo de uma falésia. E ao descer, trocando o azul extenuante pelo verde. O vento se torna mais quente, o frescor é lentamente substituído pelo cheiro da grama, dando preludio a uma planície.
O som do vento se torna mais fraco, mas ao mesmo tempo uma canção se esconde de fundo. Uma cantada pela grama, as flores, pedras e árvores. O que acaba sendo dominado pelas folhas balançando ao vento, percebendo assim que encontrou uma grande floresta — no final das planícies.
No meio, dando um contraste com o verde interminável — um tom acinzentado — ao qual se aproximar descobriria que se tratava de uma imensa montanha; demarcando o cenário com sua imponência, alcançando assim as nuvens.
E todas essas paisagens pitorescas pertenciam a um único e pequeno condado. Um território de belas terras. Mas que precisava ter um núcleo. Uma joia, que atrairia de todos o olhar, os atraindo para seu centro — entre tantos ambientes.
E apesar dessa joia ser pequena, quase não sendo vislumbrada do céu. Ao voltar, para as planícies esverdeantes. Acabaria por avistar uma antiga cidade, onde sua arquitetura era antiga, robusta e duradoura.
Assim, começando por um castelo, logo acima da encosta, ao lado do mar.
Avistaria suas torres; que eram velhas e imponentes. Mas que não deixavam as pessoas se esquecerem da sua importância, nem história. Ao descer, deixando o castelo, encontraria o distrito aristocrático; com suas mansões e casarões. E então o distrito dos plebeus.
Um lugar onde a pobreza era encontrada. Um lugar que tinha mais tristeza do que alegria. E infelizmente não precisava de esforço para encontrar o sofrimento.
Porém, naquele momento, todos compartilhavam de uma única expressão. Que era o medo. E apesar de não entender, perceberia que essas pessoas, apesar das diferenças, olhavam em sua direção — ou mais precisamente — por onde tudo começou, o céu.
Afinal, o sol, que iluminava até então o dia, dando origem a um novo amanhecer, desapareceu. Em seu lugar; um mar de nuvens negras, detendo uma abertura, uma que formava um terrível ciclone — querendo assim se abater sobre as terras.
E quando toda a esperança parecia ter desaparecido. Um pequeno e quase imperceptível feixe de luz surgiu dentre essa terrível escuridão. E apesar de sua fragilidade, sendo quase indistinguível diante de tanta escuridão — foi facilmente notado pelas pessoas descendo do céu.
E sob o clamor, o choro sincero, e os gritos de alegria. Aquele pequeno feixe de luz se tornou o presságio da esperança, impedindo a terrível calamidade, que se dispersou abruptamente, sem deixar nenhum vestígio de sua existência.
Assim, conforme as pessoas clamavam em alegria e alívio. Em um lugar do imponente castelo pertencente à Família Fayfher — ou sendo mais preciso, em um dos seus mais prestigiados aposentos — um jovem, não superando seus quatorze anos; estava deitado sobre uma cama com diversos hematomas, enquanto respirava com dificuldades durante o seu descanso.
Esse jovem era Hyan Fayfher, o herdeiro da principal linhagem da Família Fayfher. E durante o inesperado momento em que seus servos se ausentaram, perplexos pelo inexplicável fenômeno no céu. Um pequeno feixe de luz atravessou a janela fechada de seu aposento, indo inesperadamente em sua direção, quando pousava entre suas sobrancelhas, desaparecendo.
Grito!! Dor!!!
Se debatendo, gritando diante a dor incompreensível. O jovem que se mantinha até então dormindo, começou a se debater com todas as suas forças, quando manteve sua inconsciência.
Porta se abrindo!!
Assustada, uma mulher de meia-idade adentrou o quarto. E trajando uma roupa de empregada, se adiantou para tentar acalmar e acordar o jovem, que se debatia com muita violência.
E sob seus gritos desesperados, clamando por ajuda, outras empregadas adentraram às pressas, acompanhadas assim de uma velha curandeira, que trazia diversos utensílios; na qual todos esperavam solucionar esse inesperado incidente.
Assim, conforme a velha curandeira exercia seu trabalho, tentando com dificuldades diagnosticá-lo. Uma senhora verdadeiramente bela, contendo uma elegância distinta; estando no final da sua juventude adentrou com ansiedade o aposento.
E olhando com nervosismo para o jovem acamado, a senhora lançou um olhar indagador a velha curandeira, enquanto a perguntava com temor; dizendo:
— Como está o meu filho? Porque ele teve essa reação? Não me diga que é devido a seus ferimentos? — indagou Lady Adália de forma nervosa, amassando as bordas de seu vestido.
— Lady Adália. Por favor, tenho certeza que não se trata de tal situação, apesar dos seus ferimentos, o Jovem Mestre estava até então estável. Posso afirmar que sua condição dificilmente estava propensa a piorar, pode parecer perigoso… mais tenho certeza que sua vida não está em risco… — argumentou a velha curandeira, escondendo suas dúvidas e inquietação.
— Não está em risco?! Então tudo o que me resta é ficar assistindo meu filho sofrer?! Olhe a sua reação! Não está escutando seus gritos?! Ele está obviamente em dor! Quero uma resposta cabível, o que está acontecendo?! — Ordenou Lady Adália, não conseguindo assim reprimir sua agitação.
— Lady Adália. Eu… — Assim como a velha curandeira estava com dificuldades para esclarecer o repentino incidente.
O jovem que se debatia, sendo segurado pelas empregadas, de alguma forma se acalmou, chocando a todos. Tornando-se assim estranhamente impassível, quando mesmo o seu peito não demonstrava o menor dos movimentos.
— Não! Não!! — Gritou Adália, não vendo seu filho respirar, quando enlouqueceu. Enquanto caia sobre sua amada criança, o abraçando desesperadamente em seus braços.
A velha curandeira, não conseguindo acompanhar os acontecimentos, tentou impedir tarde suas ações, pedindo assim ajuda das empregadas, enquanto tentava trazer a nobre mulher de volta a sua racionalidade.
Porém, observando de forma inquieta o jovem acamado, um medo terrível e profundo começou a se enraizar em seu coração, não suportando assim se suas suposições estivessem corretas.
Assim, diante da situação caótica; não importando as palavras da velha curandeira ou das empregadas. Para Lady Adália, tudo parecia ter perdido o sentido.
Adália era a segunda filha da Família Nostiam. E desde cedo, sabia que seu destino estava selado, sendo obrigada a seguir a vontade inquestionável de sua família.
Resignada, aceitando todos os arranjos de sua família; Adália se tornou a Senhora Fayfher. Esposa do Conde Lytian Fayfher, o governante e Senhor Feudal da Cidade de Eydilian, e as terras em seu entorno.
E apesar de sua posição; seu marido era alguém que escondia seus sentimentos. Uma pessoa fria e distante, sendo difícil de conviver, ainda mais quando descobriu sua incapacidade, não podendo ter mais filhos, deteriorando assim o que restava de seu relacionamento.
Portanto, recebendo seu tratamento frio; seu filho, Hyan Fayfher, era seu mundo. Mesmo que outros diziam que seu amor estava estragando-o. Lady Adália não se importava nenhum pouco com suas opiniões, pois, seu filho era seu único apoio, a única luz que iluminava sua vida, principalmente diante sua existência monótona e vazia.
— Não! Não! Você não pode… — Assim como as lágrimas reprimidas escapavam de seus olhos, quando não tinha mais forças para lutar contra as empregadas que a seguravam e imploravam em seus ouvidos.
Diante o choque em seu coração, o desespero desolador que envolvia sua alma. O seu filho, que não demonstrava o menor dos movimentos, de repente despertou estarrecidamente, enquanto procurava por ar, abrindo assim seus olhos, sentindo uma dor agonizante.
“Argh! Que maldita dor! Que diabos, porque dói tanto! Hmm…! Eu… eu não deveria ter morrido?!”. Me perguntei, esforçando-me a abrir os olhos, quando de forma confusa tentei me restabelecer, olhando com dificuldade os meus arredores.
Confuso, me locomovendo com muito cuidado, ainda um pouco desnorteado com o ocorrido, tentei sentar, mantendo-me em uma posição mais confortável.
Contudo, a dor que envolvia meu corpo era sem dúvidas algo doloroso, distorcendo assim o meu rosto. Ainda mais quando meus muitos anos de experiência geraram uma certa tolerância a dor.
E conforme tentava me apoiar, percebi que meu corpo tinha uma certa dificuldade em cumprir os meus comandos.
Olhando com mais cuidado, surpreendendo-me, percebi que meus braços eram mais esguios e delgados aos quais me lembrava — Não! — sendo mais preciso, todo o meu corpo era mais esguio e delicado, tornando-me a literalmente acreditar que estava sonhando.
“Que diabos?! Porque meu corpo está desta forma. Não! Isso não é tudo! Eu não consigo sentir a minha Energia Interna!!! Meu Deus, o que diabos está acontecendo!”.
Percebendo que as coisas estavam cada vez mais estranhas, meu coração, ao qual sempre mantive o máximo possível impassível, começou a se descontrolar. E diante esse sentimento, gerando uma intensa vontade de gritar, acabei quase dando evasão a todo o meu espanto, confusão e descontentamento.
Baque! Abraço!
Afinal, assim como estava começando a perder o meu juízo. Uma mulher perto dos seus quarenta anos se jogou em meus braços, e tirando o fato de querer amaldiçoá-la, sendo o principal motivo às dores em meu corpo. Percebi que essa mulher elegante e bem vestida, que perdeu por completo a sua compostura, me era de alguma forma familiar.
— Quem é você? — perguntei, olhando-a com confusão e dúvida.
Contudo, assim que essas palavras saíram da minha boca, percebi meu erro. Afinal, a mulher, que expressava uma nítida emoção de felicidade, empalideceu-se, quando moveu sua mão trêmula até meu rosto.
— Hyan… você não se lembra da sua própria mãe? — indagou Adália em um tom choroso, tentando ao máximo reprimir suas lágrimas, enquanto olhava com confusão para a velha curandeira, que balançou a cabeça em impotência.
— Minha… mãe? Adália Nostiam? — declarei um pouco confuso, escondendo a tristeza em meu tom. E apesar de não entender o que estava acontecendo; minha mãe tinha morrido a muitas décadas no passado.
Entretanto, quando a mulher ouviu minha resposta, logo suas lágrimas escaparam, quando colocou suas duas mãos em cada lado do meu rosto, quando me trouxe em direção ao seu peito, abraçando-me, enquanto chorava, dizendo-me abertamente seus temores.
Porém, por mais que a mulher em minha frente expressasse seus sentimentos. Honestamente, desconfiei, pensando que era uma armadilha planejada pelos meus inimigos.
Por um tempo, observei meus arredores com desconfiança e cautela. Olhando em dúvida as expressões emocionadas das empregadas, assim como a confusão nítida nos olhos da velha curandeira, enquanto tentava afastar-me do abraço dessa mulher que se dizia ser minha mãe.
Assim, me afastando com sucesso de seu abraço. Planejei utilizar do meu “Sentido Espiritual”, uma capacidade inata que estendia meus sentidos em uma determinada área, onde desejava encontrar o possível responsável por essa armadilha.
No entanto, descobri que meu “Sentido Espiritual” tinha se tornado um tanto quanto fraco, abrangendo somente uma extensão do aposento que residia — assustando-me — desde que no passado era algo que poderia de forma fácil envolver uma grande área.
Confuso, não consegui entender o que estava acontecendo, e nesse breve instante, que de forma perdida tentava compreender essa situação caótica. Tentando me reconfortar com pensamentos implausíveis. Encontrei inesperadamente um espelho presente no canto do quarto, olhando-o.
Ba-dum! Ba-dum!
Sentindo o meu coração batendo, o que presenciei naquele exato instante era um jovem por volta de seus quatorze anos. E detendo uma aparência bastante reservada, um corte de cabelo curto e tradicional. Tendo os seus olhos em uma tonalidade acastanhada.
Devo dizer, fiquei chocado, ainda mais ao ver seu corpo, fraco e delicado. Quebrando assim um pouco da sua aparência sofisticada, lhe dando assim uma sensação maior de fragilidade. O que correspondia com sua figura, que demonstrava claramente sua falta de atividade física e exposição ao sol.
Tremor!!
Contudo, ainda em choque, em um estado estupefato por um longo tempo. Um único vislumbre do que se refletia na superfície do espelho bastou para me surpreender. Eu não conseguia acreditar — ou melhor — julgava que era impossível acreditar no que estava testemunhando.
Afinal, em seu reflexo, era de fato “eu”. Entretanto, não era o “eu” que costumava vislumbrar em uma superfície reflexiva, como em lagoas ou objetos metálicos. Desaparecendo meu corpo treinado a partir de muitas décadas de esforço e diligência, explodindo com uma força extraordinária.
O que restou foi um jovem com meramente quatorze anos, possuindo uma constituição esguia, delicada e insignificante.
— Hyan? Você… está bem? — indagou Adália, sentindo o tremor nítido do seu filho, que não conseguia conter suas intensas emoções.
Voltando à realidade, ouvindo as palavras preocupadas da mulher ao meu lado, ao qual me soltou depois de um longo período. Pela primeira vez, de verdade, olhei com atenção para sua feição.
E o rosto da mulher que desejei presenciar por muitos anos, que há muito tempo começou a se dispersar da minha mente, restando somente uma imagem vaga e embaçada, começou lentamente a se sobrepor ao seu rosto.
Incrédulo, com a mão trêmula, esquecendo a confusão, ou a dor que envolvia totalmente o meu corpo, levei minha mão até uma de suas bochechas, enquanto a acariciava ternamente com as costas de minha mão.
E sem conseguir conter as minhas emoções, as lágrimas começaram a descer. Tudo isso realmente era possível? Eu não queria pensar mais a respeito, eu não queria mais manter aquela desconfiança de tudo e de todos.
Por muito tempo me senti cansado, inseguro, desesperançoso, e principalmente, sozinho.
Mas naquele momento, diante daquela ínfima esperança, algo que desejei profundamente. Deixei minhas emoções virem à tona, enquanto não conseguia conter as lágrimas. E deixando-me ser abraçado por minha mãe, chorei em seus braços.
Afinal, se realmente existisse uma segunda chance nesse mundo. Agora, a partir de hoje, eu estaria disposto a lutar de unhas e dentes para proteger o que me era importante.
Não iria cometer os mesmos erros do passado, somente os valorizando após perdê-los. Não iria deixar o medo dominar a insegurança em meu coração. E mesmo que tivesse que colocar-me em perigo, iria proteger essa nova chance.
Assim, cansado, com muita dor, sentindo uma leve vertigem devido a todo esse incidente, de repente senti uma vontade incontrolável de sonolência.
E desfrutando do abraço a muito esquecido de minha mãe, fechei meus olhos, se agarrando nessa esperança; convencendo-me que tudo isso não era simplesmente um sonho maravilhoso.
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