Volume 2
Capítulo 86: KZET FUHDIR
Kai estava sobre um púlpito no centro de um enorme salão oval, com dezenas e dezenas de cadeiras construídas na rocha da parede.
Haviam pessoas aqui e acolá observando Kai. Alguns permanecem longe.
Nos intervalos onde não haviam cadeiras, tapeçarias se estendiam até o teto.
Elevando sobre ele, um tribunal composto por sete cadeiras. Havia uma bem no meio, de espaldar reto, que dividia as outras com três de cada lado. Estavam todas ocupadas.
O Grande Sacerdote Shaul sentava na cadeira do meio, imperioso, com um brilho quase angelical pairando sobre ele. E era quase isso, visto que acima desta cadeira, um ser de luz pairava, forjado em mármore branca.
Era uma mulher, com o rosto tampado por um véu. Lembrava uma sacerdotisa. Na mão direita, ela erguia um flagelo ao alto, na mão direita, junto ao corpo, havia um enorme livro grosso.
A imagem era tão real que Kai ficou deslumbrado, observando os detalhes minuciosos. Cada curva, cada dobra de tecido, era delicadamente bem feito. Até mesmo a feição da sacerdotisa por baixo do véu, declarava tensão e harmonia.
Kai observou bem aquela imagem, imaginando o que ela deveria estar fazendo. Alguma prece? Um canto? Uma alegoria?
No térreo, longe daquelas figuras que se sobrepunham a todos os outros, e certamente longe da área onde Kai fora colocado - novamente algemado até os pés, - dispunham-se sentados Gh’varok, o guerreiro e o Firenze.
Ele finalmente podia ver o rosto do Guardião e de Eliyahu. O primeiro era parrudo, de rosto limpo e um olho de cada cor - um era amarelo vivo e o outro azul feito o céu. Agora sem o capacete cobrindo todo o rosto, Kai podia olhar melhor o sujeito. Não era grande coisa. Era durão, mas não se comparava ao outro, o guerreiro.
Eliyahu era comum, também. Os olhos eram cinzentos e o cabelo branco escorrido. O nariz era longo e torto, e não havia pelo algum no rosto. Apenas a linha dura e cinzenta da boca. Kai não conseguia associar aquele Firenze insuportável a esse. Mas cá estava ele. E não parava de encarar Kai.
Acima, Mestre Shimon se levantou sobre os outros, mantendo a arrogância de antes. Até mesmo para olhar entre os seus, o homem não retirava o manto de prepotência.
Enquanto ele comunicava sobre os ‘crimes’ de Kai, o rapaz levou tempo para observar os outros sujeitos nas cadeiras. A verdade é que não pareciam grandes coisas. Todos usavam a mesma vestimenta de Shimon, e não eram tão diferentes assim uns dos outros. Um era velho demais, até mais do que Shaul. Outro deveria ter a idade de Shimon. Um deles era tão jovem que Kai suspeitava da sua idade.
Mas nenhum deles estava tão interessado na história contada por Shimon, que pulou muita coisa. Ele contou que Kai fez um acordo com o Firenze, e ambos queriam destruir Troas.
Disse que Kai perambulou pelas cidades caídas, perturbando os alquebrados e as Criaturas Ciscas. Finalmente se direcionou ao momento em que Kai duelou com Kesel, reduzindo e muito a história e transformando em algo… banal.
– … Não obstante – prosseguiu Mestre Shimon. – este Grinok ainda trouxe aos nossos quintais um temeroso e bastardo Ministro. Depois de retirar Gh’varok com um golpe traiçoeiro, lutou contra Kesel até a morte deste. Não preciso dizer que tal crime nos prejudicará muito futuramente.
“Esqueceu de dizer que eu quase morri e virei carne defumada para aquele desgraçado lunático…” Pensou Kai.
Kai respirou fundo. Contando dessa maneira, parecia que ele era o vilão ali. E ele não podia negar que o sujeito tinha uma boa lábia. Ao seu ver, ele tinha sido o heroi ali, não entendia como isso poderia dificultar as coisas para Troas.
– Creio que devemos ouvir o lado do rapaz, Shimon. Os acusados sempre devem ter o direito de réplica.
Kai observou o dono da voz. Era velho de barba perolada e figura taciturna. Seus olhos eram brancos feito neve, e sua cabeça era careca.
– Decerto que sim, Mestre Yohmai. Mas não podemos nos esquecer que este se trata de um sujeito ardiloso, que pode tentar nos dissuadir de nossas verdadeiras crenças. A verdade está escancarada, afinal.
– Levarei sua preocupação em consideração, Mestre Shimon, – Mestre Yohmai virou o rosto para o outro, quase como se pudesse enxergá-lo. – Afinal, estamos muito bem preparados contra mentiras e maquinações disfarçadas de boa vontade.
O canto da boca de Kai tremeu. Ele reprimiu a vontade de dar uma boa gargalhada.
Entrementes, os Mestres voltaram para Kai, Shimon finalmente se sentando.
Kai nunca foi alguém que temia os outros, ou era de ser facilmente intimidado. Mas havia algo de muito errado nesse lugar.
Os sujeitos não pareciam nem um pouco amistosos, e a aura deles era pesada, fazendo Kai sentir como se realmente estivesse sendo julgado.
Nem mesmo quando fora pego pelos Gorilas em Bulogg, ele não se sentiu tão sem alternativas. Estava apequenado. Era como se o lugar o fizesse temer pela vida.
– Não é hora para ficar calado, Sr. Stone, eu e Mestre Shimon já tivemos uma demonstração de como sua língua é afiada.
Declarou o Grande Sacerdote Shaul.
Kai ergueu uma sobrancelha e engoliu em seco, perguntando-se se havia imaginado coisas.
Ele olhou para o Firenze, que pela primeira vez desde que chegaram ali, piscou.
A história não dizia respeito a Kai, e ele mesmo não tinha todas as informações sobre o que aconteceu para o Firenze ir buscá-lo naquele lugar.
– E então, Sr. Stone, que tem a dizer? – Mestre Yohmai falou, a voz envelhecida. – Você nega ou confirma as palavras de Mestre Shimon?
– Mestre Shimon não mentiu… pouco. Ele na verdade mentiu e muito…
– Tome cuidado com o que vai dizer agora, garoto. – Alertou o Mestre Shimon. – Não pense que ficarei calado diante de atrevimentos, principalmente tendo feito vista grossa uma primeira vez.
O Grande Sacerdote suspirou.
– Devo alertá-lo da mesma coisa, Sr. Stone. Peço que não confunda as coisas…
– Peço perdão, minha intenção não foi ofender ninguém. Mas como espera que eu fique calado quando esta pessoa insiste em inventar mentiras e falsas situações quando ele sequer esteve lá? E sinceramente, não sei o que os senhores gostariam de saber. Estou aqui sob que acusação?
Os Mestres se entreolharam, erguendo as sobrancelhas. Talvez esperassem um ratinho enjaulado, que não sabia se defender. Mas Kai Stone nunca deixou de ficar calado. Sempre soube se portar, como falar, quando falar e o que falar.
E ele tinha razão numa coisa. Como a história de como ele chegou até ali seria pertinente?
– Tentativa de assassinato a um Mestre. Tumulto nos túneis erguidos, destruição de patrimônio e resistência a um Cavaleiro. – Resumiu o Mestre mais novo ali. – E então, que tem a dizer?
– É, eu tentei matá-lo.
Cochichos e conversas soaram das cadeiras laterais, mas logo se foram.
– E por que razão?
– Ele ainda precisa de uma? O rapaz é um lunático, tão ensandecido quanto seu cúmplice. Precisam de mais respostas?
Gritou Mestre Shimon.
– Gritos e descontrole denotam uma mente perturbada e sem autocontrole – Disse Mestre Yohmai. – Por favor, Shimon, mantenha-se em ordem.
Sentando e fechando a cara, Shimon calou-se. Yohmai se virou para Kai, respirou fundo e lambeu os lábios.
– Jovem, é difícil esperar que fiquemos do seu lado. Já é difícil o bastante acreditar que lutaste contra um Ministro e tenha saído vivo… acreditamos simplesmente porque havia duas testemunhas no local e por causa do cadáver. Mas espera chegar aqui, ameaçar um de nossos líderes e fingir que nada aconteceu?
Kai ergueu a sobrancelha.
– Eu não tenho tempo para joguinhos, Mestre Yohmai. Sou uma pessoa que dificilmente guarda rancor de alguém, por que acredito que devemos seguir em frente, esquecendo o passado e focando no presente…, mas o cinismo de vocês têm me causado irritação. Vocês sabem o que ele fez comigo, e preferem manter este teatro de pé.
Os Mestre olharam entre si. Kai observou suas feições, certo de que seria repreendido de novo. Eles preferiam manter o jogo, e isso estava sendo bem irritante.
Mas eles pareciam genuinamente… confusos.
Kai encarou o guerreiro, que mantinha a testa franzida.
Anteriormente, ele disse que tentou evitar que aquilo acontecesse com Kai, mas não tinha voz o suficiente dentro da Coorte.
Kai pensou que se ele sabia disso, os Mestres também.
– Do que está falando, Sr. Stone? – Indagou Shaul.
– Mestre Shimon me manteve encarcerado, vasculhando minhas memórias e brincando com meu inconsciente.
Um silêncio se fez no lugar. Ninguém deu sequer um pio. Com aquilo revelado, Kai teve certeza de que os Mestres não sabiam disso.
Mas se eles não sabiam… as coisas estavam bem piores do que Kai imaginou.
Ele tinha certa noção de que havia uma briga interna. Mas como os supostos líderes poderiam deixar que tais coisas acontecessem debaixo de seus narizes, sem ter noção nenhuma?
Era realmente algo ruim, muito ruim.
Troas enfrentava uma série de problemas. Desde crianças precisando guardar um prisioneiro perigoso, até brigas políticas com risco de golpe.
Estranhamente, Shaul parecia muito, muito calmo. Kai até pensou ter visto o sujeito sorrindo.
– É uma acusação séria – falou Mestre Yohmai. – Você nega, Shimon?
Shimon sorriu, erguendo o rosto levemente.
– Não! Fiz o que deveria ser feito para proteger Troas. Ele é um perigo para nós.
– Não tinha o direito de decidir isso sozinho, Shimon. – Falou o mais novo.
– Tinha, jovem Yaaqobh. E tenho. Com quatro dos sete líderes fora, alguém tinha de assumir os riscos. O sujeito é um perigo.
– E com base em quê diz isso? – Indagou uma voz velha e fria. Era um dos Mestres com rosto jovem e nariz aquilino. Seu cabelo era escorrido e esbranquiçado. Lembrava muito… o Firenze.
– Tudo sobre este sujeito é um mistério, Mestre Ta'om. Ou vão acreditar em tudo o que o Firenze diz?
– Se nem sabemos sua versão da história, Mestre Shimon. Tomar decisões precipitadas sempre foi um perigo. E me
parece que tomaste uma hoje.
Os Mestres se calaram, observando Kai Stone. Toda essa conversa não iria chegar a lugar nenhum.
Mestre Ta'om passou a mão no rosto. Ele deve ter entendido assim também.
– Então só nos resta ouvir a história do início.
– Mas eu já…
– A verdade, Shimon. Sinto muito, mas não confio nem um pouco em você.
Uma veia saltou na testa de Shimon.
Ta'om se mostrou alguém sem papas na língua. Se ele disse algo tão abertamente, então é certo de que já tinha dito outras vezes.
– Fale, Firenze. Como conheceu o tal Sr. Stone?
Eliyahu piscou, e só depois de um tempo percebeu que era com ele.
Assustado, Eliyahu Batista se levantou.
Ele olhou para o Grande Sacerdote Shaul, que assentiu para ele.
– Há muitos dias, o Grande Sacerdote veio a mim com um pedido. Ele disse que tinha tido uma visão, e que eu deveria ir até a Terra Morta, pois encontraria um sujeito muito peculiar. Tentei conversar, pois nas Terras Mortas não há nada além de Kawa Kale, morte e deuses antigos. Mas ele se manteve e pediu que eu fosse.
Até ali ninguém ousou dizer uma palavra sequer, mas Kai observou que alguns tinham feições céticas, dificilmente acreditando na parte da profecia.
– Mas aí… a primeira coisa surpreendente aconteceu. Não havia vento, nem luz… e de repente, um rasgo surgiu no alto do céu, queimando em faíscas e fogo luminescente. Um rastro fora deixado, queimando o espaço… o próprio espaço. E aí houve uma explosão. Não uma pequena…, mas uma grande. De longe vi quando os Kawa Kale surgiram… devastando tudo… sempre, sempre.
“Então algo saiu de dentro da cratera formada pela bola de fogo. E houve ar. A primeira resposta de ar respirável em vinte anos…”
– Supondo que isso seja verdade, como sabia que tinha ar? – perguntou Shimon.
– O sujeito que saiu da bola de fogo… ele era igual ao Grande Sacerdote… E lutava contra si mesmo, buscando ar. Foi facilmente pego pelos Kawa Kale…, mas não sem lutar. Ele lutou, foi feroz, mas também foi pego. Admirei isso nele. Por que no fim, eu o ajudei a se soltar. Me perguntei diversas vezes como aquele poderia ser o sujeito da visão do Grande Shaul…, e foi aí que aconteceu.
Mestre Ta’om bocejou.
– O que aconteceu, Firenze?
– Um Ednarg Sued Ad Arret, oras! E foi o maior que já vi em anos…
– HAHAHA! – Gargalhou Shimon. – Francamente, Firenze, já cansei de suas piadas por hoje. Isso claramente…
– E foi quando este sujeito se livrou das algemas dos Kawa Kale… – atalhou Eliyahu. – E eu vi… Ah, que graça.
– O que você viu, Batista? – perguntou Mestre Yohmai.
– Com um manejar de sua espada ele… ele… Ele partiu o Ednarg Sued Ad Arret em dois!
Era como se um longo suspiro tivesse se soltado. Isso causou comoção tanto entre as pessoas nas cadeiras quanto entre os Mestres.
– Ele o que? – Gritou o guerreiro, estarrecido.
– Não pode ser.
– É mentira!
– Não brinque conosco desta forma, Eliyahu!
Ignorante sobre a razão de tanta comoção, Kai observou enquanto virava alvo de muitos tipos de olhares. Muitos deles principalmente assustados.
– E não só isso! Ele enfrentou o Sauveg Mauror Nimu e sobreviveu!
As vozes aumentaram. Tinha tanta gente falando uma por cima da outra que era impossível distinguir quem falava o que.
– Sacrilégio!
– Ele inventa mentiras com base nas Inscrições!
– Morte ao Firenze!
– Não brinque com as Sagradas Inscrições.
– Respeite as tapeçarias.
E muito mais. Mas novamente era como Kai pensou. Não havia uma razão aparente para a balbúrdia.
Kai tinha uma forte opinião sobre as religiões, e seu medo era esse, que as pessoas deixassem que suas crenças tomassem conta de suas vidas. Elas perdiam a noção, a consciência, conduzidas pelo efeito manada. Isso era ruim.
Ele ergueu o rosto para Shaul, que encarava Firenze com orgulho.
Quando as vozes se acalmaram, Shimon tomou a vez.
– Veem como ele mente? E depois quem leva essa fama sou eu. Seria muito mais fácil dizer que este sujeito é um espião do Indigno. Mas o Firenze preferiu inventar uma mentira. Francamente…
– Não estou mentindo, e aqui está a prova.
Eliyahu mexeu sua mão e sobre ela surgiu um enorme pedaço da criatura que Kai matou.
Todos os Mestres, exceto Shaul, se levantaram, sentindo a forte energia que exalava do pedaço de ‘minhoca’. Mesmo com sua ótima memória, Kai não recordava da criatura exalar tanto poder.
– E se não estiverem satisfeitos.
Na outra mão, um orbe branco do tamanho de uma cabeça adulta apareceu.
Quase imediatamente, todos os presentes nas cadeiras se ajoelharam, entoando cânticos e preces.
Kai olhou enquanto as preces eram direcionadas a ele, e uma luz surgiu sobre ele, vindo da imagem da Sacerdotisa entalhada em mármore.
Ele reconheceu o tom do cântico, era o mesmo de quando entrou no plano.
– Louvem o Heroi Milenar… Louvem o Profeta do Amanhã… Louvem o Kzet Fuhdir!
Entrementes, com uma carranca feia, Kai só conseguia pensar:
“Mas que por-”
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