Volume 2

Capítulo 85: COORTE TROARIA

– Acho que é o bastante!  

 Um sujeito velho surgiu caminhando calmamente com as mãos postas para trás, indo em direção dos dois combatentes.  

 Tudo no sujeito indicava algo de errado. Talvez fosse sua vestimenta, que consistia em um conjunto de tecido sobre tecido, dobrados em todos os ângulos possíveis.  

 Mas Kai pensava que talvez fosse sua lividez, tão indiferente e calmo quanto deveria. O sujeito era careca e... normal. Por normal, quer dizer que ele era mais parecido com o povo de Kai do que com o povo de Atom.  

 E por povo de Kai, não significa que seja o povo que o adotou. Mas o real povo de Kai.  

 Há muito ele se perguntava porque não tinha pele clara e cabelos claros, até mesmo olhos claros como boa parte do povo de Neve Sempiterna.  

 Não era nem mesmo parecido com o povo de Bimos Lei, que vinha do leste distante. Bronzeados e tonificados.  

 Kai era pálido, olhos estreitos e pequenos, tão escuros quanto seus negros cachos longos.  

 E o sujeito era como ele: pálido, mas de pele macia (notava-se mesmo de longe), careca. Seus olhos eram mais inchados e estreitos que os de Kai, quase se fechando.  

 O sujeito sorriu quando o silêncio se instaurou. Todos no recinto se ajoelharam e baixaram suas cabeças, num claro sinal de respeito.  

 Logo à frente de Kai, o atoniano tremeu.  

 – Grande Sacerdote! – Balbuciou o guerreiro, se ajoelhando com muita dificuldade. Foi a primeira vez que Kai notou submissão neste sujeito.  

 Estarrecido, Kai fitou o guerreiro e depois o Grande Sacerdote. Ele parecia ser alguém muito respeitado. Era incomum que alguém que não fosse forte detivesse tamanha valia. Mas há muito tempo Kai aprendeu a se desconectar de seus valores e dogmas de antes. Força não era tudo; não precisava ser tudo.  

 A própria evolução da sociedade em Algüros vinha mudando, mesmo que de pouco em pouco.  

 O Grande Sacerdote ergueu a mão espalmada e sorriu. Em instantes, uma energia quente e renovadora atingiu o peito de Kai. Ele sentiu todas as suas forças se renovando, e também...  

 Olhando estarrecido para o lado, notou as feridas em seu ombro se fecharem. Nem mesmo o chi foi capaz de estancar o sangramento, mas algo que esse sujeito fizera... 

 Não somente isso, como também algo dentro dele havia mudado. Era como se as ‘vozes’ se calassem. Antes, um turbilhão de sentimentos ruins e ameaçadores surgiam, indo e vindo dentro de Kai. Mas agora..., era como se tivesse sido aprisionado.  

Kai olhou para frente, encarando o grande guerreiro. Ele se precipitou e, tão estarrecido quanto, ergueu a cabeça. Sua palidez ia embora aos poucos.  

– Grande Sacerdote! Não deveria perder tempo com alguém como eu.  

Estive apenas fazendo meu trabalho.  

O Grande Sacerdote inclinou a cabeça.  

– Não apenas. Não se subestime, menino.  

 Enquanto falava, um novo comício se aproximou, comandados pelo atoniano que foi alvo da ira de Kai, e uma dúzia de guardas a reboque.

Mas algo era diferente nestes. Além de não usarem as mesmas vestimentas dos outros, não se ajoelharam diante do Grande Sacerdote.

Pouco a pouco, Kai observou como dois lados se formaram. Os guardas que se ajoelharam, posicionaram-se atrás do Grande Sacerdote. Já os novos guardas, que vestiam trajes vermelhos de tecido ao invés de armaduras laqueadas, e longas capas que pendiam do lado direito de seus ombros, prostraram atrás do outro atoniano.

Havia algo errado, certamente. Uma facção? Poderia ser que sim. Kai gostaria de deixar esses detalhes de lado, mas sua mente já vagava pelas possíveis possibilidades.

Ele encarou os dois sujeitos que pareciam deter grande respeito: o Grande Sacerdote e o outro, que ele não conseguia sequer pensar num adjetivo para tal.

Ele já imaginava o que acontecia aqui, pelo olhar de espanto do outro atoniano em direção do Grande Sacerdote, e do claro descontentamento e desconcerto.

Parando para analisar o sujeito, notou que não havia nada demais neste também. Exceto que tinha um longo cabelo escorrido esbranquiçado, ao invés de perolado ou rosado. Sua pele era tão lisa e cinzenta quanto a dos outros, e seus olhos eram tão mortalmente astutos quanto os de qualquer vagabundo. Ele se lembrou do olhar de Carmim. Era o mesmo olhar de desejo e luxúria. Era o olhar de homens gananciosos.

– Vejo que retornou cedo de sua campanha… muito, muito cedo. – Anunciou o atoniano.

O Grande Sacerdote olhou para Kai por alguns segundos, e sorriu.

– E numa boa hora, Mestre Shimon. Ao que parece, você estava com a corda no pescoço.

Desta vez, o Grande Sacerdote não disfarçou e lançou um longo olhar para Kai. Havia algo estranho.

Quando Kai conheceu Abwn Eblomdrude, havia essa sensação de que o velho vitanti conseguia ver mais do que pessoas comuns. No fundo, Kai sabia que isso era verdade, embora nunca confirmado pelo velho sujeito.

O Grande Sacerdote parecia ser esse tipo de gente, que não enxergava só o físico, mas o âmago. Que tipo de habilidade era essa que podia examinar até mesmo a alma de um sujeito? Examinar era a palavra correta?

Mestre Shimon ficou um pouco vermelho, mas de modo algum perdeu a compostura. Em contraste, inclinou a cabeça e olhou para Kai de modo arrogante.

– Decerto! Mas tu, melhor do que ninguém, sabe das leis de Troas e do que estamos a presenciar aqui hoje. Agradeço a Grande Lhily por ter te colocado aqui na hora justa.

O Grande Sacerdote sorriu, abaixando a cabeça. Observando os rostos de cada um ali presentes, ele de repente franziu a testa.

– Obviamente, tendo em vista que eu quem os escrevi, com supervisão dos antigos líderes de Atom. Mas exatamente pelo que eu deveria vigorar os artigos, Mestre Shimon?

Mestre Shimon bufou, claramente tirando sarro do Grande Sacerdote. Os guardas ao lado deste último se remexeram, incomodados. Até mesmo o grande guerreiro franziu o cenho. Este buscou se manter imparcial a todo instante.

Percebendo sua própria reação incomum, Mestre Shimon tossiu, fingindo estar engasgado.

– Peço desculpas. Como acabas de retornar, acredito que seja muito para assimilar, Senhor. Sugiro darmos tempo ao senhor para descansar da longa caminhada, eu mesmo sei como pode ser exaustivo, e mandar o Grinok para cela novamente.

Kai franziu a testa. Que é que esse desgraçado queria dizer com novamente? Ele agiria mesmo como se não tivesse feito o que fez? Pela primeira vez Kai teve a certeza de que ele era o alvo correto. Seu santo não bateu desde o princípio.

Os guardas atrás de Mestre Shimon se posicionaram, prontos para novo embate.

Kai deu um passo à frente.

– Não vamos começar de novo… – Avisou o guerreiro, se interpondo no caminho e tocando no peito de Kai.

O jovem ergueu o olhar para ele. Não tinha nenhuma vontade de duelar com ele novamente, sabia do que o rapaz era capaz e o quanto ele tinha se segurado. Sem contar que estava, lentamente, simpatizando com este sujeito.

Mas foi quase instantâneo, pois sua energia vazou e ondas de choque percorreram o pátio. Os guardas do Grande Sacerdote tiveram dificuldades de receber isso, mas alguns de Shimon mantiveram-se inalterados. Contudo isso não durou mais do que um segundo. Logo suas vestes ondularam também em resposta à pressão de Kai. Ele notou que sua intenção estava muito mais forte agora.

– Quero deixar claro que não quebrarei somente alguns ossos… desta vez, cabeças rolarão. Então pense muito bem antes de ordenar que qualquer um de seus cães toque em mim.

Mestre Shimon arregalou os olhos, e seus guardas o cercaram rapidamente. A intenção de Kai aumentou, e as ondas de choque se tornaram em meia dúzia de gavinhas finas e bruxuleantes. Antes essa pressão não causava efeito a não ser deixar seus inimigos desestabilizados e enfraquecidos mentalmente, cedendo ao mais poderoso ataque num campo de batalha: o medo.

Agora, sua pressão somada à intenção assassina não era somente um lembrete, era uma certeza. As gavinhas não acertaram ninguém em específico, mas atingiram o chão, criando grandes buracos.

– HAHAHA! – Uma risada despontou diante de tanta pressão. – Acho que é o bastante, Sr. Stone.

Aquilo fez a espinha de Kai arrepiar. Por duas razões em específico: somente a risada do Grande Sacerdote foi capaz de apaziguar as emoções, anulando completamente a pressão de Kai. Não era como um ataque, mas mais como uma defesa. Era quente e gentil, igual à magia de antes.

E segundo: essa era a primeira vez que alguém dizia seu nome ali. Um deja vu acometeu Kai. As coisas estavam acontecendo exatamente como em Bulogg…Ele mais uma vez estava sendo esperado.

De repente, sua imagem cortando a enorme fera, sua queda dos céus evidenciada naquelas paredes, uma profecia contando a vinda de um sujeito dos céus, os cantos misteriosos sobre um salvador milenar… tudo isso fez sentido para ele. E a sensação de estar preso a grilhões e finos fios novamente o atingiu.

– Uma ameaça dessas não pode passar despercebida, Grande Sacerdote. – Shimon anunciou, tentando evitar o medo em sua voz. – Juntamente com a anterior tentativa de assassinato a minha pessoa… Está claro que este sujeito não é uma boa pessoa e não tem totais controles de sua mente. Além de ter trazido um Ministro aos nossos portões e tentar assassinar o Guardião do Portão, Gh’varok, pode-se considerar uma série de situações que levariam um homem à morte. Ele e seu aliado, o Firenze, devem ser devidamente punidos… E nem citei que quase levou os jovens guardas para o outro plano. Quero dizer, as acusações são claras.

O Grande Sacerdote olhou para Kai e ergueu uma sobrancelha. Estava claro o que ele queria dizer.

– Não vamos deixar isto passar, vamos? Quero dizer, seria ruim para sua imagem.

– Acredito que esta seja a última coisa a passar pela cabeça do Grande Sacerdote, Mestre Shimon. – Anunciou o guerreiro atoniano. Ele parecia aborrecido com alguma coisa.

Não era pra mal, Mestre Shimon estava descaradamente tentando amedrontar o Grande Sacerdote. Dada a sua capacidade de ter guardas tão poderosos sob sua asa, Kai acreditava que ele queria o cargo do Grande Sacerdote, velando suas palavras em falsas preocupações. Ele estava claramente tentando levar o Grande Sacerdote a tomar uma decisão que não teria como voltar atrás. Ele queria colocar as mãos em Kai, e se a decisão do Grande Sacerdote não levasse ao caminho em que tivesse de prender Kai, a outra decisão iria causar uma péssima impressão à imagem do Grande Sacerdote, que muito provavelmente deveria estar passando por problemas internos de liderança.

No fim, se o Grande Sacerdote decidisse por ficar a favor ou contra Kai, Mestre Shimon seria favorecido, fosse por poder vasculhar a mente de Kai, fosse por enfraquecer o lado do Grande Sacerdote e fortalecer o seu. Estava nas entrelinhas, foi fácil para Kai perceber isso.

Kai estava cansado dessa politicagem, talvez por esse motivo o guerreiro também parecesse irritado.

– Oh! Decerto que sim, jovem Senhor. Não era minha intenção inculcar isto. Mas a decisão ainda cabe ao Grande Sacerdote. Não é algo fácil de lidar.

O guerreiro bufou.

Kai sabia que a decisão a ser tomada não seria fácil. Mas ele estava decidido que se a situação pendesse contra ele, não mediria esforços para destruir todos e sair dali com vida. Nem que pra isso fizesse reféns. Sabia que seria algo a favor contra o guerreiro.

Mas ele tinha a sensação de que o Grande Sacerdote não era alguém facilmente manipulável. Ele estava calmo demais, e não parecia ligar para as alfinetadas de Shimon.

Kai prendeu a respiração, a hora de decidir se aproximava. Já estava traçando caminhos que seguiria após lidar com todos presentes. Com o guerreiro tão perto, bastava incapacita-lo primeiro, depois mataria Mestre Shimon e pegaria o Grande Sacerdote de refém. Talvez fosse difícil, não sabia a força do sujeito.

Em seguida iria atrás de suas coisas, provavelmente o Firenze soubesse de algo. Depois fugiria e buscaria um caminho mais fácil de voltar ao plano natal.

Mas o Grande Sacerdote sorriu e espalmou a mão, apaziguadora.

– Sabe, Shi-shin, as histórias tem três lados.

Mestre Shimon franziu a testa, irritado.

– O que?

O Grande Sacerdote baixou dois dedos.

– Três lados. A minha, a sua e a verdade. Até agora só ouvimos a sua, não demos chance ao Sr. Stone para contar a sua e, por conseguinte, não obtermos a verdade.

– O senhor quer dizer que não consegue acreditar em minha palavra? Irá mesmo dar voz a esse Grinok?

O Grande Sacerdote sorriu.

– Eu sempre lhe disse que distorcer as falas dos outros não era algo bom, Mestre Shimon. E, por isso, estou compelido a ouvir a versão do Sr. Stone. Se tiver algo contra isso, fale agora ou espere que eu tome minha decisão.

Mestre Shimon engoliu em seco, vermelho feito um tomate. Ele não esperava ser tratado feito criança, e ainda ser chamado de mentiroso diante de várias pessoas. Isso pareceu ter sido demais para ele.

– Bom, isso é bom. Pelo menos o juízo ainda não lhe escapou, jovem. Bem, minha decisão é simples. Não saberemos a verdade sem descobrir a versão de todos os presentes. Portanto, declaro julgamento diante da Coorte Troaria.

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