Volume 2
Capítulo 84: A FORÇA DO DIÁLOGO
“Que rápido!"
Num piscar de olhos, o sujeito cruzou o caminho entre si e Kai, criando enorme destruição por onde passava.
Ele ergueu a longa espada sobre a cabeça, e Kai notou os guardas correndo para se afastar.
O sujeito rapidamente se colocou sobre Kai. Cerca de dezenas de éons se passaram durante o que pareceu um único segundo para Kai. E de fato só foi isso mesmo.
O atoniano era alto, largo... e assustador. Sua espada parecia ter aumentado de tamanho, e ele mesmo, também.
Ele baixou sua pesada espada sobre a cabeça de Kai, que ergueu tarde demais Vento Noturno.
Meio segundo mais tarde a dor irradiou por seus braços e banhou todo seu corpo. O chão sobre ele cedeu, criando fragmentos de rocha envelhecida.
O ar ondulou e as sombras se afastaram, atormentadas pelas labaredas das fracas chamas que dançaram diante da enorme pressão.
O mundo se curvou perante a força do atoniano, que era surreal por si só.
Kai ergueu o olhar para o inimigo, suando frio. O atoniano estava levemente surpreso, mas a carranca não poderia nunca ser substituída. Isso era simples e pura indiferença.
O atoniano ergueu as sobrancelhas, claramente surpreendido por Kai ter conseguido segurar seu golpe. Nem mesmo o rapaz conseguia explicar como isso se deu. Mas ele conseguiu.
Com o ranger de dentes, Kai apertou bem o cabo de sua arma e a empurrou para frente. Chi vazou pela lâmina, lambendo levemente o atoniano no rosto. Ele franziu a testa e recolheu sua odachi, saltando para trás.
Kai mudou a posição da espada e se preparou para um ataque sincronizado. Banhou a lâmina com sua energia, um chi denso e supressor vazando.
O rapaz cortou horizontalmente o ar à sua frente, e observou enquanto um rasgo negro caminhou lenta, mas devastadoramente até o atoniano.
A lâmina de chi destruiu tudo em seu caminho, criando longos rasgos no chão, reduzindo as pedras a pó.
Pousando sobre seus pés numa agilidade cuja qual Kai também se surpreendeu, o rapaz ergueu a odachi com uma mão só, e lutou para desviar a lâmina de chi negro.
O guerreiro de Atom franziu a testa e pressionou a sobrancelha. Crateras se formaram sob seus pés enquanto ele lutava para segurar a lâmina de chi, que o empurrou por um longo caminho para trás.
Ele apertou bem o cabo de sua odachi e a posicionou para cima, mudando o curso da lâmina de chi.
Surpreso – tanto por ter criado tal golpe, quanto pela força do atoniano por suportá-la – Kai observou enquanto a lâmina ganhava velocidade e se tornava mais densa e poderosa.
Ela atingiu o teto, criando uma enorme cratera, poeira e barulho. Estalactites caíram, formando mais crateras e pondo a vida dos outros em risco.
Sem esperar para ver o que aconteceria, o guerreiro de Atom avançou, atacando com um golpe rápido e preciso.
Kai que era mais ágil, se esquivou com facilidade e contra-atacou com uma série de golpes rápidos e precisos, utilizando o chi para aumentar sua força e agilidade.
Esse era seu modo de igualar as coisas, já que o atoniano era uma força fora do comum.
Kai estocava e defendia assim como o atoniano, e quem visse de fora afirmaria que essa era uma batalha muito equilibrada. Mas Kai sabia que não.
O som das espadas se chocando ecoava pelo pátio, e os espectadores gritavam de excitação. O guerreiro alto utilizava sua força sobre-humana para tentar esmagar seu oponente, mas Kai era rápido demais, esquivando-se e contra-atacando com perigo idêntico.
Os dois guerreiros se moviam em um ritmo frenético, suas espadas dançando no ar com uma velocidade e precisão impressionantes. O atoniano tentou utilizar sua força para empurrar seu oponente para trás, mas Kai se agarrou firmemente ao chão, utilizando o chi para aumentar sua resistência.
A batalha continuou por minutos, com os dois guerreiros trocando golpes e esquivando-se com habilidade. Nenhum dos dois conseguia se sobressair sobre o outro, e o resultado da batalha parecia incerto.
Suas espadas se chocaram e o clangor delas foi a única coisa a ser ouvida por um longo tempo.
Era difícil determinar quem poderia ser mais forte, visto que ambos tinham técnica e visão sobre a espada.
Podia-se dizer até que eles estavam apenas sincronizando uma linda e bela dança. Quem via de fora, de fato se parecia com isso.
Kai tinha destreza e delicadeza em seus passos, mas seus golpes eram carregados de força e imponência. O atoniano era forte, gracioso e astuto. Seu tamanho em nada dificultava a beleza de seus movimentos, e ele era mais rápido do que alguém de seu tamanho e portando uma arma desse tamanho deveria e poderia ser.
De fora, era como se ambos estivessem ensaiando para um concerto, um completando o golpe do outro. Por alguns momentos, os guardas podiam jurar que nunca tinham visto tamanha sincronia, e não tinham mesmo. Nesses segundos, quase esqueceram que se tratava de uma batalha real. Quase.
Porque num erro mal calculado se Kai, a parte chata da espada do atoniano roçou acima de sua sobrancelha, e em questão de segundos o lado esquerdo do rapaz estava banhado de sangue.
O que mais surpreendeu Kai foi que a ferida se recusava a estancar. Nem com todo chi do mundo. Isso foi estranho, já que nunca tinha acontecido.
Uma cicatriz certamente ficaria, como todas as outras, mas o sangue deveria pelo menos ter parado.
Com metade do rosto lavado de sangue, a feição de Kai mudou. Ele parecia mais assustador, de olhos bem arregalados e os negros cabelos dançando.
Bastante concentrado, ele nem percebeu que estava rindo, os dentes vermelhos também.
O atoniano permaneceu inalterado.
Kai deu uma pirueta para trás e limpou o rosto, mas logo o sangue voltou a cair. Como poderia uma ferida tão pequena e incapaz de causar dor, pudesse gerar tanto sangue? Ele sentiu seu olho inchado.
Logo retomaram o embate, suas espadas se chocando e o urro dos guardas de fundo.
Kai desviou de um golpe, ergueu o bisento e girou, criando um forte vendaval vertical. O atoniano se afastou e ergueu a odachi diante de si, segurando-a em vertical com ambas as mãos.
– Desista e deixe que cuidemos deste sangramento, Kmuk.
Kai o observou, a testa franzida. Estava surpreso. Mesmo após esse embate não realmente sangrento, o atoniano manteve a postura.
– Batalhas não devem durar tanto... reconheço que é forte, também sei reconhecer quando um sujeito está se segurando, pois eu também estou. – Ele inclinou a cabeça, não desviando o olhar de Kai. – Kmuk! O impacto de nossos golpes causará danos o suficiente para destruir essa cidade. Vamos parar antes que tenhamos de fazer algo que nos arrependamos.
Kai sabia. Ele viu que o atoniano não lutava a sério também. E que essa luta tinha se estendido demais também. Uma luta não durava mais do que alguns segundos, no máximo um minuto. Qualquer coisa além disso era insanidade.
E eles eram insanos. Kai também sabia que nunca encontrara um oponente tão desequilibrante e tão parecido com ele mesmo. Eram iguais, mesmo que totalmente diferentes.
Kai apertou o cabo da lança. Não era necessário dizer nada. Não havia mesmo nada a ser dito, afinal.
Seu chi ondulou, gerando ondas de aura roxa. Lentamente essa aura retornou para Kai, visivelmente alterada.
O atoniano observou, ciente de que algo estranho acontecia.
O que era inconsciente para Kai era que quase ninguém podia ver sua aura de chi e as ondas dela. Na verdade, ninguém além dele mesmo podia ver. Era quase como o éter dos vitanti, ele não via a energia, mas sabia que estava ali, incolor.
Mas algo mudou, pois as pessoas ao redor a viram, e viram quando esta aura rodeou a lâmina do bisento e se formou numa camada de energia densa e volátil.
O atoniano estreitou os olhos, mas não disse nada.
Os guardas que viram a cena correram para longe. Sentiam a aura supressora... assassina. Algo mudara em Kai Stone.
Ele também sabia disso, não era bobo. A mudança de cor da aura, indo de um azul claro para um roxo doentio... que é que estivesse acontecendo, tinha a ver com a energia que se concentrava abaixo de seu Tanden.
Ambos os combatentes se entreolharam, sabendo que a contenda terminaria agora, com um gravemente ferido e o outro, provavelmente morto. Nenhum daria o braço a torcer, mesmo que o atoniano estivesse sugerindo isso a Kai.
Kai não desistiria até encontrar quem que tivesse vasculhado sua mente. E o outro não cederia, afinal aquele era seu lar.
Tinham o mesmo temperamento, no fim.
Sem mais nada a dizer, ambos diminuíram o espaço entre si.
Suas armas se chocaram e um grande estrondo varreu o longo pátio. As enormes pedras se desfizeram diante da energia gerada, poeira se afastou.
As chamas que iluminavam o lugar se apagaram...
Gavinhas de uma energia roxa se desprenderam de Kai e do bisento, destruindo todo o ambiente ao redor.
Guardas lutaram para se esconder, observando assustados o estrado sendo feito no chão e parede. Aqueles lentos demais foram atingidos por essas gavinhas.
Elas atravessavam seus corpos, carbonizando-os imediatamente. Não restara nem eco. Nem a luz de seus olhos se esvaindo era vista.
Nada.
No meio dessa generalizada destruição, Kai pousou a poucos passos depois do atoniano.
Ambos seguravam suas armas para frente, como se ainda estivessem a se enfrentar.
Mas não estavam. Kai deixou o braço direito pender enquanto segurava metade do cabo. Sangue escorria, pinga-pinga-pingando.
Ele cerrou os dentes e franziu o cenho. Seu rosto sangrava enlouquecida e freneticamente.
No ombro cujo sangue escorria, havia um rasgo de 2,5 cm de profundidade. Kai cambaleou e sua visão escureceu. Diante dele, os fragmentos do bisento pendiam.
A alguns metros atrás dele, o atoniano encarava o vazio, forçando os olhos. Ele não parecia nem um pouco bem, suava frio e respirava ofegante. Apontava a espada para o nada. Ela estava intacta... diferente dele.
No peitoral de sua armadura, um rasgo foi feito para dentro, e aço perfurava carne e sangue jorrava e dor irradiava. Era feio. Carne viva latejava numa fissura ao longo do peito que ia da clavícula até seu quadril.
O atoniano pendeu sobre um joelho no mesmo momento em que Kai.
Mas alguma força os impedia de ceder. Talvez fosse a ideia lá no fundo, adormecida, que os fazia querer tornar a se enfrentar. Eles sabiam que seriam grandes aliados, mas um deles pereceria. E enquanto nenhum o fizesse, a luta não acabaria.
Eles se viraram um para o outro, cambaleando e segurando as armas.
Kai mal tinha forças para erguer seu braço. O atoniano não conseguia nem respirar. Estava pálido feito neve... ou cinzas.
Os guardas começaram a sair de seus esconderijos quando souberam que era seguro. E se espantaram diante da visão.
–... Ele realmente conseguiu feri-lo.
– O que será de nós?
– Esse demônio! Maldito seja o Firenze por trazê-lo à nós.
– Não morra, cavaleiro!
– Resista.
E muitas vozes se alarmaram e se calaram quase no mesmo instante.
Porque para Kai e o atoniano isso era besteira. Nada disso importava. Nada. Era vida ou morte. E eles estavam prontos para isso. Quem morreria e quem viveria? Ninguém poderia dizer.
Eles deram um passo, e mais outro, sempre a dor os lembrando de permanecerem acordados. Vivos.
Mas antes que eles pudessem prosseguir, viraram rapidamente suas cabeças para o mesmo lugar.
Um sujeito surgiu, sorrindo.
Os guardas caíram sobre seus joelhos, as cabeças baixas.
– Vejo que finalmente conversaram. E então, já acabaram?
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