Volume 2
Capítulo 136: IMPERTINENTE
A pele de Kai arrepiou, um suor frio desceu por suas costas e seu estômago congelou.
“Ele… sabe… meu nome! Mas como…?”
O sujeito andou de lado e riu tranquilamente. Sua capa cinza-azulada esvoaçava ao vento, enquanto sua marcha era aplaudida pela multidão eufórica, mas que soube ser educada quando seu senhor esbanjou cordialidade.
Ele ergueu a cabeça, seu rosto escondido por trás daquela máscara marfim, lisa e silenciosa, com fendas estreitas onde, decerto, os olhos observavam sem pressa nem ódio.
— Deve estar se perguntando como sei, não é? — perguntou, soltando os prendedores da capa de seus ombros.
Kai inclinou a cabeça.
— Mas eu simplesmente sei, Stone.
Sua voz foi carregada até Kai apesar da loucura do mundo. E quando ela caiu, Kaedor avançou sem pressa.
Kai notou que ali não havia a deformidade grotesca dos Kawa Kale. A armadura que ele vestia era leve e precisa, moldada ao corpo como se tivesse sido pensada para atravessar séculos, não batalhas isoladas.
O peitoral claro carregava, no centro, o símbolo de sua Casa — um círculo aberto por uma lâmina vertical — gravado em baixo-relevo, discreto e irrevogável.
Kaedor levou a mão às costas e puxou um bastão de meio centímetro. Então pressionou uma válvula no centro. O bastão aumentou de tamanho a partir das pontas, com cliques baixos e elegantes.
No fim, uma linda lâmina surgiu. Formara-se em um belo cetro-lâmina.
Sua estrutura era composta por uma haste única, esguia e contínua de coloração branco-opaca, com acabamento semelhante à porcelana antiga fundida em metal arcano.
Kai era um grande apreciador de armas, talvez por isso ficou um tanto fascinado ao encarar a arma se desenvolver. Era uma tecnologia esplêndida.
Na extremidade superior, projetava-se a lâmina delgada e alongada, de fio quase imperceptível, cuja superfície não refletia a luz, mas apresentava distorções sutis no ar ao redor.
“Está vibrando…”
A base da lâmina fora circundada por três anéis ressonantes flutuantes, independentes da gravidade, que oscilavam com frequência estável.
Kaedor parou sua caminhada, o cetro-lâmina abaixo de seu braço esquerdo.
Havia um ar de calma muito proposital, que fazia Kai ficar mais nervoso.
— Gostei de seu estilo, Stone. É bem… único. Não achei que encontraria alguém tão capaz assim novamente; o último me deu bastante trabalho.
Ele riu. Os ombros tremeram.
— Mas não podia esperar menos do meu mestre.
Kai suspirou. Havia uma demonstração proposital aqui.
— Me perguntava quando seu teatrinho iria acabar, Legatário. Admito que durou muito tempo.
— Ah, mas não era um teatro, Stone. De fato, adorei vê-lo lutar — sem sequer reclamar — ele virou de lado, olhando para Promessa Silenciosa. — Imaginei que minha querida irmã teria mais sucesso, mas esbarrou em dois casca-grossas aqui.
Kai seguiu seu olhar. Então era irmã… isso dava a ele mais do que pensar. Ainda estava duvidoso sobre os motivos de Promessa, mas algo nisso dizia que ela não agia sob ordens. Parecia… sincera demais.
“Ou talvez você esteja encantado demais com a beleza sublime dela, panaca.”
— Temo que sua irmã, como uma espiã, não tenha muita coisa a relatar além do que você já tenha visto — Kai tornou a encará-lo. — Parece que pelo menos essa parte do plano não funcionou.
Kaedor se virou para ele. Deu de ombros.
— Mas cumpriu bem seu propósito. Althea não me diria nada, contudo. Ela é muito… temperamental para fazer algo por mim. Vai ver, é por isso que a amo. No mais, acabaria causando um grande problema para nós.
Kai suspirou. Então era como ele pensava. Observou ela pelo canto do olho.
“Então seu nome é Althea.”
Algo sobre ela dizia que, de fato, era geniosa demais para seguir qualquer ordem. Entretanto, Kai simplesmente se recusava a acreditar que ela entrara ali simplesmente por… altivez.
Quem arriscaria sua própria vida por puro capricho?
Até onde ele sabia, ela era apenas uma nobre irritada com a família. E ele não tinha tempo para crises familiares.
— Você simplesmente deixou sua irmã disputar um torneio entre assassinos e bandidos?
Kaedor deu de ombros.
— Deixei…?
— Quão louco você é?
— Eu? — Kaedor tocou o dedo no peito. — Ela é que é louca. Na verdade, há um pouco de loucura em cada um de nós, não é? Veja você… o que está fazendo?
Kai havia tirado a capa e deixou que ela flutuasse até cair no chão com um leve farfalhar. Ele levou a mão à máscara e a removeu. Puxou uma âncora no seu subconsciente e, meio segundo depois, a máscara foi tragada de sua mão, e desapareceu sem deixar rastros, apenas o som de areia se movendo.
Ele fez o mesmo com sua ampulheta e uma bolsa que carregava ao lado.
— Me preparando, é claro.
O vento bateu em seu rosto, enxugando o pouco de suor que ainda caía. Agora que estava quase esgotado, sua ferida na costela latejava.
Então Kai não esperou que Kaedor se movesse — quanto antes acabasse com isso, melhor.
Ele deslizou pela arena com passos fluidos e contidos. Vento Noturno sibilou, ansiosa por mais contato.
Mas diante dele surgiram percalços. Dois brutamontes em estatura e peso de repente apareceram, bloqueando sua visão de Kaedor. Ambos tinham o símbolo da casa Vaelrys no peito.
— Não achou que iria atacar o rei logo de cara, achou?
“Isso é bem sua cara…”
Kai estava muito perto para conseguir desviar, então manteve o fluxo. Só tinha que antecipar seu duelo.
O primeiro homem levantou uma maça pesada, mas que parecia papel sob seu toque. A arma rapidamente ganhou velocidade, e Kai só conseguiu deslizar por baixo dela.
Logo atrás, o segundo brutamontes já o esperava com um golpe certeiro no abdome. Ele conseguiu reunir chi o suficiente para o impacto, mas ainda foi arremessado para trás.
O primeiro brutamontes girou no próprio eixo e socou as costas de Kai. Ele quicou no chão duas vezes antes de parar e cuspir sangue.
Apesar de usar chi, a força do impacto foi grande o bastante.
“... O bastante para algumas costelas terem sido fraturadas.”
— Muito bem! — Kaedor aplaudiu, seguindo a lógica das arquibancadas. — E que dupla vocês são, Munir e Klidiz. São os irmãos porradaria, já ouviu falar?
Kai lutou para se levantar. Ele tossiu sangue e sua cabeça girou. O ar teve dificuldade de voltar aos pulmões.
Tudo parecia… errado.
Já tinha sido difícil antes, e lidar com homens grandes e fortes era sempre muito fácil para ele — principalmente por ser esguio e rápido, totalmente oposto a eles.
Era seu inimigo natural.
Mas quem diria que os malditos seriam tão rápidos?
Houve um tempo em que Kai sequer se preocupou em usar chi. Hoje, contudo, sua preocupação era fundamentada.
Mas haveria uma chance de sair dessa vivo sem usar chi?
As chances eram mínimas. Ele já havia extrapolado o uso hoje — qualquer uso de chi agora só daria vantagem para a Voragem.
Mas Kai não estava ansioso em morrer, principalmente nesta terra. Se fosse pra ser, que pelo menos acontecesse em Bulogg.
Mas a vida era como era. Não havia meias verdades. Kai não gostava de dar desculpas para sua própria incapacidade. E se ele tivesse meios e motivos para sair desta, faria. Nem que colapsasse depois.
Enquanto Kaedor tagarelava e a multidão aplaudia, estarrecida, Kai se levantou, nauseado.
Os gigantes o flanquearam. Usavam elmos para esconder sua feiúra, decerto. Seus músculos eram como ligas metálicas sob o toque da roupa.
Munir apoiou a maça no ombro, enquanto Klidiz chocou os punhos um no outro.
“Yegar gostaria desse aqui.”
Ainda caído, Kai ergueu um dedo trêmulo e apontou para Klidiz. Eles inclinaram a cabeça.
Uma fina agulha translúcida saiu da ponta do dedo de Kai e atravessou o peito do brutamontes, que ficou olhando para baixo e para trás, buscando a agulha de energia.
Ele olhou para seu irmão, meio confuso, então seus músculos secaram drasticamente, até não restar nada, apenas uma armadura sobre ossos. O corpo despencou com um baque surdo e seco. A multidão pronunciou um sonoro Oh! quando o elmo rolou para longe e revelou uma caveira de três olhos.
Munir deu um passo para o lado, aturdido, e virou a cabeça para Kaedor, que parecia estarrecido.
— O que está esperando? — Gritou o legatário.
O brutamontes se virou para Kai, decidido, e correu até ele, fazendo o chão tremer.
Kai se ergueu, cambaleante, e respirou fundo. O guerreiro ergueu a maça num golpe horizontal, mas Kai facilmente deu um passo para o lado e fez um giro baixo e ascendente no próprio eixo. Chi se acumulou na lâmina de Vento Noturno, que ondulou.
Ao fim do giro, Kai desferiu um corte vertical na altura do pescoço de Munir. O gigante não virou a tempo. Ele era muito forte e ágil. Tentou com todas as forças escapar da espada de Kai. Mas tudo aconteceu em questão de segundos.
O golpe criou uma pressão que puxou Munir para a lâmina. Ele ter tentado escapar só piorou a situação. O ar foi rasgado, e o pescoço também.
Uma linha surgiu, fina. Então a cabeça deslizou e caiu com outro baque surdo.
A multidão gritou, furiosa.
Kai caiu sobre um joelho, fraco demais para continuar.
Ambos os golpes foram fatais para ele. Havia reunido muito chi no primeiro, e o segundo era uma técnica que ele mesmo desenvolveu, com auxílio de um estudo minucioso em sua lâmina.
Kai tinha um arsenal denso de técnicas e estilos que poderia implementar, mas todas custavam chi demais. Ele precisava meditar para aumentar seu estoque, e, no momento, não tinha tido tempo.
Havia também a situação da Voragem, que se alimentava de seus deslizes. Precisava cuidar disso primeiro.
E precisava sair vivo para sequer pensar em usar qualquer outro golpe.
Kaedor aplaudiu, gargalhando feito uma criança. As mudanças de humor do homem eram um pé no saco.
— Você ainda tinha um outro truque, hein? Como chama essas técnicas?
Kai franziu o cenho. Estava pálido, e sangue escorria de seu nariz.
— Como?
— Os golpes. Antes, você os nomeou, mas agora não. Como são chamados?
Kai suspirou pesado.
— Você tem merda na cabeça?
— Quero apenas saber o nome dos golpes. Fica estiloso quando os diz. Porque não disse agora?
— Porque… esses golpes são fortes demais para serem pronunciados. Fazer isso apenas me desgastaria mais.
Kaedor inclinou a cabeça, ansioso.
— Golpes que ficam mais fortes se pronunciados? Uau, que genioso. Eu sei uma coisa ou outra sobre isso, sabe.
— Ah, bem.
— É. Agora… Como se chamam?
Kai balançou a cabeça, cansado.
— Não… vou… dizer… Vamos apenas acabar com isso, sim?
— Certo.
Então Kaedor não avançou. Ele cedeu espaço, como se a própria arena se curvasse à sua presença, e quando Kai ergueu Vento Noturno e se preparou para um corte direto, encontrou não resistência, mas desvio absoluto.
O Cetro-lâmina se moveu com economia brutal, um giro mínimo de punho que redirecionou a lâmina de Kai para o vazio, enquanto o corpo de Kaedor se inclinava com uma fluidez quase desinteressada. Parecia alguém corrigindo um detalhe menor.
Kai tropeçou, e Kaedor suspirou fundo. Ele girou sua arma e enfiou sua lâmina no chão.
Kai encurtou a distância, como se aquilo fosse o desfecho natural, e Kaedor recebeu o avanço com o próprio corpo — não bloqueou, mas desviou no último milímetro, o punho de Kai passou rente ao seu rosto enquanto sua mão aberta capturou o pulso com firmeza precisa.
Um giro curto, quase preguiçoso, e o eixo de Kai foi quebrado, seu corpo sendo puxado para frente apenas para encontrar o joelho de Kaedor subindo com exatidão cirúrgica, não para esmagar, mas para desestabilizar.
Kai reagiu no reflexo, o cotovelo vindo em arco, mas Kaedor já não estava mais ali — havia deslizado para o lado, o ombro encostou no dele e empurrou-o com o próprio peso, transformando o impulso de ataque em queda.
Cada movimento seu foi mínimo, econômico, como se estivesse sempre um passo além da necessidade, absorvendo força, redirecionando impacto, conduzindo Kai como uma peça em um jogo de tabuleiro.
Não havia brutalidade descontrolada, apenas domínio absoluto do ritmo, onde cada tentativa de Kai era aceita… e imediatamente negada.
Ele se aproximou, desferiu três socos nas costelas de Kai, e o segurou por seu colarinho, lhe dando uma cabeçada.
A mente de Kai zuniu, mas ele ergueu Vento Noturno, girando sua lâmina para baixo. Acertou o pomo no queixo do legatário, e se preparou para se livrar.
Mas o lorde Vaelrys simplesmente apertou os pulsos de Kai e o trouxe para perto, lhe dando uma outra cabeçada.
A cabeça de Kai pendeu para trás. Kaedor pôs uma perna atrás da perna de Kai, e o empurrou.
Então montou nele e começou a desferir socos em seu rosto.
Um olho ficou inchado imediatamente, e Kai não sabia como estava acordado.
— Você é forte, jovem. Admito que isso foi fácil demais para mim, mas meu adversário não estava realmente nos seus melhores dias.
Ele se levantou, limpando o sangue da luva.
— Mas, sabe, perdedores não precisam de eufemismo.
Kaedor se virou e andou até seu cetro. Quando se virou, Kai estava de pé, mal consciente, segurando Vento Noturno com uma vontade inabalável.
— Contudo, sua força me surpreende, Kai Stone. Não me admira que Kesel tenha perecido sob sua lâmina. Mas o Rei do Viperino ficou bastante descontente quando soube. Eu, por outro lado, amei. Sabe, o cargo precisava de novos ares, e Kesel não era bem um nobre. Fico feliz de assumir o cargo de Ministro da Peste e vingar meu predecessor. Ainda que ele tenha merecido.
Kai deu um passo para frente, tonto.
— Você mal se aguenta em pé, rapaz. Abeeku ficará feliz em saber que Kai Stone foi morto. Quem sabe não abre uma nova vaga para rei, também? Rei Kaedor… é um ótimo título.
— Pare de tagarelar, e venha me enfrentar, maldito.
Kedor suspirou.
— Se você exige…
Ele deu um passo à frente. Ele aproximou a arma até a boca.
— Afie-se. Torne-se mortal.
Suas palavras geraram uma vibração momentânea na arma, então se propagou pelo ambiente, afetando espaço, percepção de tempo e de resposta.
Kaedor se moveu com a mesma prática de antes, e Kai lutou para se manter de pé.
A lâmina de Kaedor parecia diferente, como se atendendo ao chamado dele.
Quando as espadas se chocaram, Kai sentiu que sua vida estava por um fio. Não sabia mais se viveria para ver um novo dia. Para ver seus amigos.
“Gostaria de vê-la pelo menos uma vez.”
As lâminas começaram a se chocar mais rápido, com Kaedor levando a vantagem levemente.
Kai soube que se ia morrer, pelo menos deveria dar tudo de si.
— Kamaitachi: Enbu.
Pronunciar ataques e golpes era muito mais do que algo estilístico. E Kai sabia disso. Porque neste momento de fraqueza, o ajudava a ter mais força. Tornava aquilo real.
E a Dança do Vento Cortante era uma das armas de Kai Stone que precisavam de uma confirmação.
Kai entrou num fluxo total. Seus passos ficaram quase invisíveis, como se estivesse deslizando.
Cada movimento criava cortes residuais no ar, como pós-imagens letais. Kaedor começou a recuar, sendo ferido mais do que quando estava no centro do fluxo.
O ritmo da percepção de Kaedor foram confundidas enquanto ele era ferido por todos os lados. Mas isso custava muito chi. E Kaedor notou isso, pois logo contra-atacou.
Mesmo tendo sido cortado de várias direções, escapou bem, se protegendo atentamente. Nunca sabia que outro truque Kai teria na manga.
Kai, por sua vez, não parou o ímpeto. Uma força oculta surgia por trás de seus olhos, e ele se tornou mais letal.
Sua intenção assassina era sufocante, e densa, e até mesmo visível.
— Kama’i: Mil Retalhos.
Kai deu um passo à frente e executou uma rajada de cortes microscópicos e muito mais brutais do que Desmembramento Secular — apesar de menos prejudicial.
Dezenas… não, centenas de cortes surgiram nos braços de Kaedor, rasgando sua roupa e reduzindo sua carne à um estado horrível.
Alguns desses cortes rasparam-se no peito e na máscara de Kaedor. Mas ele parecia… tranquilo. Aproximou a lâmina do rosto e sussurrou:
— Propriedade Terciária: Convergência de Intenção.
Então apontou o cetro-lâmina para Kai. Os anéis ressonantes se alinharam e estabilizaram. A vibração da lâmina tornou-se uniforme e silenciosa.
Ele desferiu um golpe preciso quando as rajadas de Kai cessaram.
Ao redor de Kai, houve uma compressão sensorial momentânea. Kai caiu de joelhos, devido à fadiga e ao ataque de Kaedor. Seus ouvidos sangraram profundamente.
Kaedor caminhou lentamente até ele.
— Já que se recusa a morrer, então morra lentamente, sim?
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