Volume 2
Capítulo 137: CONVIDADOS DE HONRA
Kaedor avançou sobre Kai, ignorando seu estado.
E Kai… não respirava. Arfava. O corpo cedia em pequenos colapsos, músculos falhando, visão fragmentada, sangue tornando cada movimento mais lento do que deveria ser, e ainda assim ele avançava.
Kaedor não recuava nem atacava com urgência; ele conduzia. Cada palavra dita em tom baixo fazia a arma vibrar, e o espaço ao redor de Kai respondia com atraso, peso, distorção — passos que não encaixavam, golpes que chegavam um instante tarde demais.
Quando Kai tentou encurtar a distância, o chão pareceu resistir sob seus pés; quando girou para atacar, o ar ao redor densificava, como se o próprio movimento tivesse sido negado antes de existir.
Kaedor deslocou-se com precisão serena, um toque leve desviando a trajetória de Kai, um ajuste mínimo de posição transformando avanço em erro. Ele não precisava ferir — apenas permitir que Kai se perdesse no fluxo que ele mesmo havia reescrito.
E ainda assim, contra tudo que era lógico, Kai não caiu. Mesmo quebrado, mesmo atrasado, mesmo lutando contra um espaço que já não lhe obedecia, ele insistia — não por força, mas por recusa. E isso, pela primeira vez, fez Kaedor pausar por um breve e quase imperceptível instante.
— Você se recusa a ceder. Por quê?
Kai, que se mantinha de pé com os ombros caídos, suspirou.
— Porque… é… tudo… que me resta…
Kaedor balançou a cabeça.
— Tolo! Estúpido. Pensa que sua causa tem força? Está redondamente enganado. Abeeku resiste desde antes de meus pais e os pais deles terem nascido. Porque pensa que você seria um adversário à altura?
Kai suspirou. Não devia explicações à esse homem, ainda assim…
— Não me coloquei nesse papel, Legatário. Vocês simplesmente começaram a me caçar. Um belo lembrete de boas-vindas, não?
Kaedor ergueu a cabeça para o céu.
— Burro. Não cabe a mim decidir o que fazer com você. Então se renda, sim?
— Prefiro que me mate.
— Estúpido.
Kaedor ergueu seu cetro, mas Kai foi mais rápido.
Ele ergueu o braço esquerdo, reunindo uma grande quantidade de energia. Sabia que seria seu último ataque, algo muito errado dentro dele indicava isso.
O Legatário olhou, absorto, enquanto a energia se concentrava em pequenos pontos ao longo do braço.
Então um fluxo estranho, diferente de chi, se agitou dentro de Kai. Era inconstante, poderoso, avassalador e… faminto.
— Não se empolgue tanto, querido.
A voz da Voragem foi como um catalisador reverso. Kaedor pulou para trás quando o braço de Kai implodiu, vazando chi e energia estranha por poros novos.
O braço rapidamente necrosou, secando drasticamente. Havia cortes e rasgos ao longo de toda sua extensão, e a mente de Kai teve dificuldade de reagir bem a isso.
Ele encarou o braço, pálido.
“Isso… é nostálgico…”
Aqui estava ele, de novo. O mesmo braço. A mesma sensação. Ocasiões diferentes.
Kaedor se pôs diante dele e balançou a cabeça.
— Que estrago. Você ia me matar quando lhe mostrei clemência.
Kai sorriu, o olho ardendo de inchaço.
— Algo assim.
— Então vamos dar um jeito nisso.
Kaedor ergueu e desceu o cetro num segundo. Sua lâmina fez um corte limpo no braço esquerdo de Kai na altura do ombro.
Houve um baque surdo do membro caindo no chão, mas Kai estava muito perdido em dor para perceber tais detalhes.
Por fim, olhou estático para o ferimento. O braço estava logo ali. A ferida era tão limpa que sequer jorrou sangue.
Ele sequer reagiu ao corte.
Kaedor riu.
— Assim é melhor.
Então ergueu o cetro acima da cabeça, pronto para cortar a cabeça de Kai. O rapaz ergueu o rosto.
Deu uma olhada de soslaio. Promessa… não, Althea, recebia os cuidados na arena. A pele estava pálida. Ainda estava desacordada.
Kai fechou os olhos e sorriu.
“É… eu queria ter te visto uma última vez… Ardara.”
Kaedor se preparou para a execução, e Kai esperou o fim de sua vida…, mas isso não aconteceu…
…Porque uma série de explosões surgiram ao redor da cidade.
O Legatário se sobressaltou, olhando para os lados. À leste, uma seção inteira da arquibancada explodiu. Na ala oeste, outra seção foi reduzida à escombros e morte.
A multidão se alvoroçou, pulando na arena e fugindo pelas rotas de saída. Grupos de soldados surgiram para tentar conter a catástrofe desenfreada, e os médicos cuidando de Althea se apressaram em tirá-la do tumulto.
Alguns delinquentes surgiram para atacar Kaedor, mas foram rapidamente execrados por seus soldados, que chegaram rapidamente em algum momento.
Entrementes, um balão surgiu no alto da arena. Na verdade… era um dirigível, enorme e vermelho. Se parecia com um besouro ambulante.
Uma voz surgiu acima da multidão que se atropelava abaixo, fazendo-os parar.
— Que espetáculo, povo de Lyvas. Aqui falando é o infame Pai do Enxame. Fujam, se escondam, mas nunca virem muito suas costas… os Quitinosos estão à espreita.
Assim, centenas de pessoas armadas até os dentes surgiram pelas fendas criadas pela destruição. Os Kawa Kale vieram aos borbotões, tentando impedir que isso saísse de controle.
Mas os recém-chegados, que apesar de serem minoria, tinham uma tática cruel e rápida. Sabiam onde atacar e como atacar. Os Kawa Kale e soldados pessoais de Kaedor logo perderam a vantagem, e tudo tornou a cair no caos.
Kaedor soltou uma risada angustiante.
— Seu timing é mais do que perfeito, Kai Stone.
Kai não respondeu. Havia desmaiado diante de Kaedor, ajoelhado e aleijado.
O legatário se preparou para desferir o golpe fatal, mas pressentiu uma vontade descer sobre a arena.
Ergueu o rosto e algo pesado e grande vinha em grande velocidade em sua direção.
Era um sujeito grande e robusto; largo, e musculoso. Sua pele parecia com barro cozido, e seu rosto era queimado e deformado. Seus olhos — de um cinza fosco — o encaravam com uma raiva tremenda.
Uma vontade inabalável vinha dele, transformando o mundo num compilado de dor e desilusão.
Yegar abriu a boca e rosnou.
— Afunde!
Uma força invisível envolveu Kaedor, e o afundou no chão. Enquanto a voz de Yegar ecoava, Kaedor afundava no chão, destruindo pedra e cimento; solo e terra.
Enquanto isso, Yegar girou no ar e pousou com um baque surdo a poucos metros da cratera que continuava surgindo com Kaedor junto. Seus pés deixaram marcas profundas no chão, e ele se lançou para frente numa velocidade sobrehumana, irado.
Chegou junto a Kai e o envolveu em seus braços num aperto gentil. Então uma escada surgiu do céu. Yegar segurou no último degrau enquanto ela era puxada em direção ao dirigível.
Ele pousou na plataforma alguns minutos mais tarde com um semblante irritado e hostil, sua vontade irradiava ares absurdos de determinação ominosa.
Ao longo da extensa plataforma, uma série de Besouros segurava bestas e flechas, apontando para baixo.
Ashvai encarou Yegar com um semblante culpado. Parecia preocupado.
Ele olhou para Kai, nos braços do Mudo, e balançou a cabeça.
— Tolo… estava pronto para morrer.
Yegar fungou.
— Eu sei… eu sei — Ashvai se virou para uma escada que levava ao interior do dirigível. — Chegamos tarde, mas se assegure que não tarde o bastante para ele.
Yegar assentiu e se pôs a andar através da plataforma, mas uma intenção assassina surgiu, fazendo suas roupas tremerem.
Era forte o bastante para que causasse danos em objetos concretos.
Yegar pausou seu passo, e se virou para a arena. Lá embaixo, onde fora feita a cratera, Kaedor surgiu, cambaleante, e ergueu o rosto para o dirigível.
Sua máscara exibia dezenas de linhas verticais. Ele ergueu a mão repleta de cortes minúsculos, e apertou os dedos. Partes da máscara caíram ao chão, revelando um rosto jovial e sereno.
Os cabelos dourados de Kaedor ondulavam ao vento, e seus olhos verde-escuro encaravam acima. Nada maculava aquele lindo rosto… exceto as sobrancelhas franzidas.
Kaedor estava com raiva.
Na base da escada da plataforma, o Pai do Enxame surgiu, a respiração pesada.
— Entrem, vamos alçar voo em um Salto de Fuligem.
Os guardas se prepararam para sair, mas Ashvai virou-se para o líder dos Besouros Cerúleos.
— E os outros? Ainda faltam escravos a serem resgatados, sem contar seus homens…
— Eu lhes disse que era impossível tal missão, Jovem sem Fim — cortou o Pai do Enxame. — Mas você não me deu ouvidos.
— E ainda assim você aceitou o trabalho.
— Sob muito protesto! Trabalhos assim exigem baixas, Esquecido. Meus homens são treinados e sabem se virar sozinhos… vão conseguir escapar dessa melhor do que essas criaturas do Indigno.
— E quanto aos escravos?
— Não seja tolo. Quer ficar e arriscar sua vida por eles? Tudo bem. Mas não me peça para fazer o mesmo. Isso saiu de controle há muito tempo. Não vou aceitar mais baixas no meu pelotão por meia centena de pobres coitados.
— Que são cruciais para o plano!
— Seu plano! Não me inclua nessa. Meu dirigível, meus homens, meu comando. Entrem. Agora!
Os soldados não precisaram de uma nova ordem. Entraram um após o outro.
Yegar deu um olhar longo para Ashvai, que teve dificuldades em aceitar.
Por fim, ele pigarrou e correu escadas acima.
Abaixo, Kaedor observou, imponente, o dirigível voar lentamente para fora da arena.
De repente, o casco do dirigível gemeu, suas placas vibrando como se algo dentro delas quisesse sair. Chaminés rugiram e expeliram uma fuligem densa que não subiu — se curvou e se dobrou, formando um véu negro à frente da embarcação.
O ar rachou em silêncio por um instante impossível, como se o mundo tivesse sido puxado para o lado errado, e então o dirigível atravessou esse rasgo como uma lâmina cega, deixando para trás um rastro de cinza que demorou demais para cair.
O dirigível explodiu em velocidade, deixando apenas um rastro de cinzas, um céu opaco, como se queimado por dentro, e Kaedor na arena, irado.
Nota: Bom, eu gostaria de me desculpar pela demora em postar capítulo. Apesar de não parecer, eu tenho um grande comprometimento com isso, e quando não escrevo, ou sequer publico, sinto estar em falha. O motivo foi bem específico. Meu tio faleceu, minha tia precisou fazer uma cirurgia, eu adoeci e uma sucessão de coisas e problemas pessoais aconteceram que me deixaram bem pra baixo. Então um mês me pareceu justo para repor as coisas no lugar. Pois, peço desculpas mais uma vez. Coisas assim acontecem, é a vida.
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